Jones Manoel: um recado a Mário Frias
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Jones Manoel: um recado a Mário Frias

Morris Kachani

20 de agosto de 2021 | 17h51

“Eu diria a ele: aproveite muito enquanto vive em um capitalismo dominado por uma classe dominante odienta e inútil, enquanto a gente não tem o poder, porque se um dia a gente chegar no poder, se um dia a gente descer do morro e não for carnaval, gente como ele eu recomendo que fuja do Brasil”.

“Se um dia tiver uma revolução brasileira e uma pessoa como eu estiver no poder, vai passar o cerol em todo mundo que é fascistóide. Para garantir a ampla democracia, esse tipo de pensamento reacionário, fascistóide e eugênico não vai ter vez no Brasil. Eu trabalho com a perspectiva do Malcolm X – qualquer meio necessário de resistência, todo amor ao povo oprimido, mas todo ódio a aqueles que nos matam” .

“Sou um homem negro. Preferiria muito mais viver no auge do regime stalinista nos anos 30, do que viver no sul dos EUA, porque seria enquanto ser humano muito melhor tratado”

Assista à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=ZBvhqscS6U0

Jones Manoel, que ganhou notoriedade em 2020 após uma entrevista concedida por Caetano Veloso a Pedro Bial, na qual o músico dizia ter largado “alguns pensamentos liberalóides” a partir da leitura de um livro seu, é um fenômeno na internet, dono de um canal no YouTube com quase 170 mil inscritos e do podcast comunista mais escutado do Brasil, o Revolushow.

No mês passado, quando o presidente Bolsonaro foi internado em São Paulo, Jones postou no Twitter: “Bolsonaro foi internado. Já comprei fogos. Tão deixando a gente sonhar… PS. deixando claro que a parte dos fogos é brincadeira. Sou contra fogos. Assusta os animais”.

Em troca de mensagens também pelo Twitter, com o assessor da Presidência da República Tércio Arnaud Thomaz, que lhe perguntava se conhecia Jones, o Secretário Especial da Cultura, Mário Frias, postou o seguinte: “Realmente eu não sei. Mas se eu soubesse diria que ele precisa de um bom banho”.

O caso ganhou repercussão nacional.

Criado por mãe solteira e doméstica, Jones começou a trabalhar vendendo jornal no semáforo da praia de Boa Viagem na capital pernambucana, tendo sido depois office boy e segurança. Aos 18 anos, através de um amigo, foi introduzido aos conceitos marxistas.

Atualmente com 31 anos, foi um dos primeiros de sua comunidade, Borborema, a entrar em uma universidade pública e o primeiro a ter diploma de ensino superior na sua família, em História pela Universidade Federal de Pernambuco. Jones também é mestre em Serviço Social, educador popular e militante pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Junto com um amigo da comunidade construiu um cursinho de pré-vestibular popular – o “Novo Caminho” – para os jovens da periferia.

Nesta entrevista Jones Manoel afirma que revoluções não são pacíficas e explica por que – em sua visão – o comunismo poderia salvar o Brasil, e não Bolsonaro ou Lula, embora considere uma irresponsabilidade histórica quem queira igualá-los.

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LUGAR DE FALA

“Embora não seja ateu, não sou uma pessoa religiosa, mas digo que se Deus existe ele deve gostar muito de mim. Eu sou um exemplo típico de uma família monoparental, criado pela minha mãe que era empregada doméstica negra, que começou a trabalhar com oito anos de idade no corte de cana, no interior da zona da mata de Pernambuco e veio para a capital com 15 anos de idade para trabalhar como empregada doméstica naquele regime quase análogo à escravidão, morando na casa da patroa e trabalhando de domingo a domingo.

Sou filho dessa mulher junto com um pai que foi assassinado e morreu quando eu tinha 11 anos de idade, então fomos criados basicamente eu, minha irmã e minha mãe. Comecei a trabalhar muito cedo para ajudar em casa. Do ponto de vista financeiro a minha mãe vivia com um salário mínimo basicamente, e o salário mínimo desde sempre não é suficiente para uma vida digna no Brasil.

Comecei a trabalhar com 13 anos de idade vendendo jornal no sinal em Boa Viagem – Boa Viagem, fazendo uma correspondência, é como se fosse a “praia de Copacabana de Recife” -, e passei minha adolescência trabalhando. Eu tinha várias dificuldades na escola, eu tenho dislexia”

“Quando fiz 18 anos comecei a ficar mais próximo de um amigo meu de infância, Júlio Cesar, e o Júlio que vinha de uma família um pouco mais estruturada, uma família que já tinha gente com o ensino superior – a minha não tem, eu fui o primeiro da família. Júlio começou a me instigar, a me explicar o que era vestibular, o que era universidade.

Foi nesse período que comecei a ler, que tive contato com meu primeiro livro, que foi “O Alienista” de Machado de Assis, de que gostei bastante.

Teve um segundo fator que foi a influência de um ex patrão que eu tinha, o seu Marcelinho. Eu era office boy em um escritório de contabilidade e quando contei para o Marcelinho que queria entrar na faculdade ele me deu todo o apoio do mundo, porque ele teve uma infância pobre e conseguiu melhorar de vida, ele tinha uma história de vida bem parecida com a minha. Ele me deu uma série de livros para estimular meu gosto por leitura, foi aí que ganhei o primeiro livro de Ernest Hemingway, “O Velho e o Mar”, e assim consolidou-se meu gosto por cultura”

“A primeira vez que escutei sobre Mais Valia foi meu amigo Júlio que me explicou, ele estava tendo uma aula no ensino médio e a professora explicou para ele. Eu tinha 18 anos e trabalhava em um colégio privado em Recife, eu era zelador, porteiro, segurança, fazia tudo e vivia reclamando porque me pagavam muito mal, atrasavam o salário e a patroa era uma nazista sádica, tinha prazer em humilhar os funcionários.

Ele falou me indicou que era usado na disciplina de sociologia para o ensino médio na época, “Sociologia para Jovens no século XXI”.. Um livro que debatia racismo, guerra às drogas, concentração midiática, LGBTfobia, comunismo, capitalismo, socialismo, geopolítica. Um livro crítico e ao mesmo tempo acessível de amplíssima compreensão.

Quando eu acabei esse livro já me considerava comunista, e esse livro fez um link, porque passei a vida ouvindo rap e escutava vários nomes – Che Guevera, Fidel Castro, Thomas Sankara, Martin Luther King, Malcolm X – que faziam um sentido para mim, mas que eu não conseguia conectar para ter uma compreensão global do que eles significavam”

“A minha primeira iniciativa mesmo de militância foi justamente na minha comunidade, na Borborema, em que criei junto com esse amigo Júlio um cursinho de pré-vestibular, o “Novo Caminho”, que foi basicamente para a gente apresentar a oportunidade que nós tivemos, de saber o que era o vestibular. Um dos problemas é que a maioria dos jovens da Borborema não sabem o que é um vestibular”

MARXISMO BRASILEIRO

“O que eu acho que mais chamou a atenção dele [Caetano Veloso] é que eu venho fazendo um debate que é reconfigurar, do ponto de vista simbólico, do ponto de vista teórico, do ponto de vista político, o marxismo. Venho defendo que um dos problemas do marxismo brasileiro é que ele é muito europeu. Historicamente o marxismo brasileiro é pouco nacional, pouco latino-americano.

Então o marxismo brasileiro é muito capaz por exemplo de fazer o debate alemão sobre a teoria do Estado ou o debate regulacionista francês sobre fordismo e pós-fordismo, mas tem muita dificuldade em falar da situação dos pequenos produtores rurais no norte do Brasil ou então sobre a história da cabanagem e da balaiada ou ainda a história de luta dos povos originários no Peru durante o governo do Juan Velasco Alvarado…”

“Eu venho tentando virar a chave desse marxismo, venho tentando fazer com que esse marxismo seja cada vez mais periférico, beba cada vez mais do debate das produções marxistas africanas e latino-americanas. Um marxismo que esteja conectado com a nossa história e com a nossa identidade brasileira não-branca, de resistência, que passa muito pela história dos quilombos e das gloriosas revoltas como a dos Malês”

“Eu recuso uma coisa que ficou hegemônica nas últimas três décadas que é olhar para tudo que aconteceu no século XX e dizer: “é, foi tudo horrível, tudo totalitarismo, antidemocrático, que aquilo ali é uma deturpação da obra de [Karl] Marx, aquilo ali é o falso socialismo. A minha resposta para os dilemas, para o que foi o século XX, é diferente”

2022

“O Brasil vive seu momento de militarização da política brasileira na História. Nem na época da ditadura militar nós tivemos tantos militares no governo, no primeiro plano da política e ao ponto de os generais do exército já estarem fazendo sabatinas presidenciáveis”

“Do ponto de vista mais imediato, em curtíssimo prazo, precisamos parar o genocídio, parar o desmonte do Estado nacional das políticas públicas e dos ataques aos direitos dos trabalhadores, conseguidos com muita luta, muito sangue, muito suor, e combater a tutela militar sobre República brasileira”

“Acho que as manifestações estão cumprindo um papel fundamental no Brasil, porque elas reconfiguraram um pouco o jogo político. O jogo político estava muito centrado em esperar 2022, era um jogo de que 2021 “não existia”; hoje as manifestações fizeram 2021 existir. (…) Se as manifestações não conseguirem derrubar Bolsonaro, elas no mínimo já fizeram 2021 existir”

“Se a política fosse “andar de acordo com o que o Jones acha que deve ser”, estaríamos no mês de agosto fazendo uma manifestação a cada dez dias, no final do mês uma greve geral, em seguida uma semana de trancaços em todas as BRs, estradas, rodovias do Brasil e em setembro uma marcha para Brasília, para colocar 1 milhão de pessoas e de preferência puxar o Arthur Lira pelo pé. Mas não sou eu que tenho capacidade de decidir”

“A gente precisa jogar limpo, as maiores forças dentro da oposição, que são Lula e o PT, eles querem Bolsonaro em 2022. E não é que Lula dependa de Bolsonaro para ganhar, Lula é forte e é competitivo eleitoralmente em qualquer situação. Se for um processo eleitoral normal em 2022, sem aquelas atipias de 2018, Lula ganha”

“Para mim, uma possível eleição de Lula seria isso, ao invés de uma “arma apontada” seriam “duas facas longas”. E é mais fácil se defender de faca do que de arma. Seria uma situação que a gente teria um governo, que não seria genocida porque pode se falar tudo de Lula mas ele não é um psicopata genocida fascista – inclusive acho uma irresponsabilidade histórica quem quer igualar Lula a Bolsonaro.

Mas não seria um governo de avanço popular, não seria um governo que enfrentaria esse legado de contrarreformas, não seria um governo que tentaria derrubar a contrarreforma trabalhista, a contrarreforma da previdência.

Enfim, não prepararia nada em termos de mudanças. Agora, que seria um governo de respiro, de no lugar da arma uma faca, seria”

“Identitarismo, pautas identitárias, são um debate recente que há 15, 20 anos atrás ninguém ouvia falar no Brasil – graças a Deus, era um tempo mais feliz – e que foi impostada recentemente, mas que não tem coerência com a nossa realidade. Aqui os mecanismos de exploração e dominação não existem sem o racismo estrutural. Eu costumo brincar que nos últimos tempos todo mundo fala de racismo estrutural, mas a maioria não quer saber de debater que estrutura é essa. É como se o capitalismo brasileiro fosse um prédio e o racismo estrutural fossem as vigas”

URSS

“O fim do Apartheid é inseparável da história de luta do movimento comunista. (…) Os Estados Unidos são celebrados como a democracia mais antiga do mudo, mas essa celebração é uma celebração cínica e racista, porque ela desconsidera a escravidão que foi mantida com a independência dos EUA, ela desconsidera que ao fim da escravidão foi montado um regime de segregação racial.

Pois bem, a população negra nos EUA só veio ter direito formal de voto em 1965. E para chocar os ouvintes e leitores, a União Soviética teve direito de voto universal primeiro que os EUA. Então a história da conquista do sufrágio universal nos EUA é inseparável da história do movimento comunista”

“O índice de mortalidade de um sistema prisional brasileiro é maior do que em um Gulag soviético. (…) Do ponto de vista do extermínio no espaço-tempo, ou seja, o número de pessoas exterminadas por tempo, as bombas atômicas são [a forma] de maior extermínio na História da humanidade. Isso nunca foi superado e o Truman não é reconhecido como um psicopata genocida, e os Estados Unidos não são chamados de [um regime de] totalitarismo por terem feito aquilo. Então tem uma regra moral seletiva.

Todos os grandes líderes que são louvados, como o Churchill, o Roosevelt, o Bismarck, o Truman, a Thatcher e aí vai, há uma regra moral seletiva arbitrária e ideologicamente endereçada. Temos que recalibrar essa régua”.

“Inclusive na época em que o Caetano deu entrevista no Bial, começaram várias mentiras circulando sobre mim: “ele nega os crimes do Stalin”. Eu nunca neguei os crimes do Stalin. (…) Eu sou um homem negro e eu preferiria muito mais viver no auge do regime stalinista nos anos 30 do que viver no sul dos Estados Unidos, porque eu seria enquanto ser humano muito melhor tratado, teria uma vida melhor no auge do stalinismo porque, dentre outras coisas, a União Soviética foi o primeiro País do mundo a criminalizar o racismo, na Constituição de 1936”

“Eu não aceito reduzir a União Soviética a um grande Gulag porque nenhum País do mundo é reduzido a só seus elementos negativos, por que a União Soviética vai ser?

Com o perdão do palavrão, que porra é essa? Qual é a base? Então o que eu defendo basicamente é que tenhamos uma análise séria do ponto de vista histórico”.

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