Jorge Caldeira: Futuro do Brasil é grandioso e verde
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Jorge Caldeira: Futuro do Brasil é grandioso e verde

Morris Kachani

11 de novembro de 2020 | 13h56

“O Brasil é o país que tem mais vida no planeta. Aqui é o centro mundial futuro de uma produção de economia limpa. O dinheiro está batendo na porta do Brasil e a gente está negando”

Assista à entrevista: https://youtu.be/B8KoTxbDfrw

A pandemia acelerou um processo de transformação que já vinha se esboçando e é irreversível. O mito fundador de nossa nação, associado a uma ideia de paraíso perdido, nunca esteve tão próximo de se tornar realidade.

“Brasil: Paraíso Restaurável”, obra recentemente lançada pela editora Sextante, sobre o potencial brasileiro inserido no cenário da economia limpa do século 21, se tornou leitura obrigatória para empresários e investidores comprometidos com o protocolo ESG [Environmental, Social, Good Governance –Ambiental, Social e Boa Governança, em português] e público geral dotado de uma visão progressista, alinhada com a pauta de um desenvolvimento sustentável baseado em metas ambientais.

E a conclusão do livro é alvissareira. O Brasil desponta com enorme potencial. É uma oportunidade histórica: temos tudo para nos tornar uma das principais economias do futuro. Nossa matriz de energia renovável é de causar inveja a China e União Europeia. Em um mapa múndi baseado em produção de vida, somos simplesmente os campeões.

Só os nossos governantes é que parecem não ter compreendido. Enquanto isso, ardem nossas florestas…

Jorge Caldeira, doutor em ciência política e mestre em sociologia, é autor da aclamada biografia “Mauá, empresário do império” e de inúmeras obras de história. Juntamente com Julia Marisa Sekula, economista e cientista política, e Luana Schabib, publicitária e jornalista, escreveu “Brasil: Paraíso Restaurável”. Os três concederam uma entrevista a Inconsciente Coletivo.

“Se você é negacionista, acha que não está acontecendo nada com a economia ou se você pensa a economia de uma maneira tradicional, acha que a economia é só PIB, crescimento de PIB e não um planejamento ambiental, você simplesmente não vê nada disso acontecer. Qual o problema disso? Qual o valor da natureza? Qual o conceito que você precisa ter para entender que a natureza é prioridade? Você só consegue entender esses novos objetivos da vida econômica para a humanidade se você muda de conceito”

“A ideia de que aqui é o paraíso é milenar na cultura dos tupis-guaranis e secular entre os europeus, desde o dia que chegaram aqui. O Cabral achava que tinha encontrado o paraíso. É essa ideia que faz parte da nossa cultura e que espelha a condição natural do Brasil, que a gente precisa recuperar para poder entender o que vem pela frente”

“O mundo está mudando em uma direção e a gente não sabe. O problema nosso é que a gente está olhando o potencial do Brasil com as ferramentas de PIB, da estética dos anos 70, dos mapas antigos”

“Está passando o período em que o desenvolvimento econômico significava o oposto da natureza, ou seja, quando se fazia desenvolvimento destruindo o meio ambiente, transformando em alguma coisa humana e jogando lixo de volta para a natureza reciclar. Isso não existe mais no século XXI”

“Ao invés de planejar a economia para produzir mais, a economia passou a ser planejada para manter o equilíbrio da natureza. Isso aconteceu primeiro na Alemanha, em 2005, e depois na União Europeia em 2007. (…) A China, que já vinha com um projeto de civilização ecológica, fez a mesma coisa em 2016.

O objetivo econômico da União Europeia é chegar em 2050 com uma economia de carbono neutro. China, em 2060”

“Nos últimos vinte anos, energia solar e energia eólica crescerem, em velocidade exponencial, 150 vezes. Esse ano, por causa da Covid-19, vai ser a primeira vez que as fontes renováveis de energia vão ser a principal fonte de energia do planeta. O carvão, que era a principal fonte de energia desde o século XIX, pela primeira vez não vai ser a  principal. O carvão começou a cair e a previsão deste ano é que caia entre 8 e 10%; petróleo, entre 6 e 7%”

“A Tesla, que fabrica carros elétricos abastecidos de energia solar, triplicou de valor entre a eclosão do Covid e hoje. Vale mais em termos de mercado do que a Ford, a General Motors e a Toyota juntas”

“Por que empresário está lendo o livro muito depressa? Porque se você vai pedir dinheiro para fazer um projeto de qualquer empresa grande dentro e fora do Brasil, os caras vão querer saber qual o seu plano de carbono neutro”

“Os fundos [ESG] estão captando o capital do mundo. Ano passado, eram 30 trilhões de dólares, agora talvez tenha chegado a 40, e isso é vinte vezes o PIB do Brasil. E dentro desse dinheiro, tem dinheiro para a preservação da natureza. Só no ano de 2019, 280 bilhões de dólares”

“O dinheiro está batendo na porta do Brasil e a gente está negando. Quando a tecnologia existe e o dinheiro está lá, o que será que falta? Essa narrativa de nação, de direito de orgulho da natureza, direito de assumir um lugar no mundo, vem com uma responsabilidade, a responsabilidade do desenvolvimento sustentável. (…) E a gente não fala disso, o brasileiro não sabe que a nossa matriz energética é limpa, ele não sabe que queimar a floresta é queimar dinheiro, os nossos políticos também não. Então enquanto isso não vira identidade para o brasileiro, a gente sempre vai ficar para trás”

“O Brasil conheceu três grandes recessões, uma de 2008, 2015 e agora 2020. No meio dessas três grandes recessões o Brasil instalou uma Itaipu de energia eólica. 10% de toda energia do país vem hoje de energia eólica. O Nordeste hoje é auto suficiente de energia, só com eólica. Foi um investimento gigante de 32 bilhões de reais”

“A máquina governamental brasileira foi basicamente montada em um modelo de desenvolvimento da década de 1950, ou seja, concentrar capital para financiar grandes projetos. Independente do partido político, o Brasil não pratica planejamento econômico baseado em metas ambientais, nem nos governos federais, estaduais e municipais.

O problema disso é que esse Estado de 1950 está administrando 2020. O norte do Estado brasileiro não é economia limpa, o norte do planeta é a economia limpa”

“A pandemia é o primeiro acidente ambiental que derrubou a economia planetária em seis séculos, desde a peste negra”

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