José Eli da Veiga: “O que essa pandemia está mostrando é o futuro. Nós estamos enxergando as consequências só agora porque fomos obrigados”

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José Eli da Veiga: “O que essa pandemia está mostrando é o futuro. Nós estamos enxergando as consequências só agora porque fomos obrigados”

Morris Kachani

30 de março de 2020 | 11h06

Reproduçã0 TV/ Estadão

Por Isabella Marzolla

Em seu artigo mais recente, “Quando o impossível é uma certeza”, o economista, agrônomo e professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP José Eli da Veiga, um dos maiores especialistas em sustentabilidade no Brasil, afirma que “se ampliam exponencialmente as chances de novas e mais sofisticadas armas de destruição em massa’”.

Dois trechos do artigo:

“Caso cuidem razoavelmente da biosfera, humanos – e possíveis sucessores – ainda poderão usufruir de longuíssimo prazo de validade neste planeta: até uns 8 milhões de anos, conforme as melhores estimativas. A dúvida é se, muito antes deste limite, haverá auto-aniquilamento, por efeito adverso das mais admiráveis proezas tecnológicas”.

“Agora, da biologia à microeletrônica, ampliam-se exponencialmente as chances de novas e mais sofisticadas “armas de destruição em massa”. Tornou-se perfeitamente possível fabricar vírus muitíssimo mais poderosos que os já conhecidos, sem incentivos para que as empresas capacitadas realizem efetiva triagem das encomendas”.

Em seu artigo você menciona um estudo dizendo que a chance da civilização sobreviver a este século é de 50%. Como se pensar sobre a pandemia do coronavírus dentro desta perspectiva?

 Isso fica implícito. Muito se fala de uma catástrofe iminente. Neste artigo, me refiro a um grupo de pesquisadores do “risco existencial”. Eles chamam isso de privilegiar o pior cenário, mas com embasamento mais sólido e universal do que mera psicologia do incerto.

É possível fabricar um vírus hoje em dia?

Sim, hoje é possível fabricar um vírus. Esta foi uma questão levantada no último Fórum de Davos. Existe tecnologia para fabricar um vírus, e essas empresas, capazes de produzir um vírus, precisam passar por um sistema de checagem e uma série de protocolos antes de serem liberadas para produzir o vírus.

No relatório mostrado no Fórum de Davos, o que chama a atenção é que está ficando cada vez mais caro para seguir esses procedimentos de checagem e sistemas de controle de empresas que querem produzir vírus e cada vez mais barato os meios e as tecnologias para produzir esses vírus — uma preocupação muito séria.

Mas voltando ao coronavírus, seria um absurdo dizer que o SARS teria sido desenvolvido artificialmente. O mais provável é que seu surgimento tenha sido tão natural quanto o HIV, que passou dos primatas à espécie humana. O que a gente tem assistido nos últimos anos são fenômenos como esses, de vírus que nunca tinham frequentado a espécie humana, e que agora estão chegando em nós.

Seria o covid-19 um produto de nossos tempos, de alguma forma?

Em termos genéricos, o fato da gente ter desmatado tanto e da gente ter tido bastante contato com os animais silvestres pode sim ter influenciado o aparecimento do covid-19 em nós. Esse vírus que gerou a pandemia de agora não é o primeiro e nem será o último a causar outras pandemias. O que era menos frequente no passado. O que eu vejo é que fenômenos desse tipo podem ter acelerado.

E é possível estabelecer uma relação disso com a maneira que nós viemos lidando com a natureza.

Você acha que em alguma medida a quarentena pode ajudar a conscientizar as pessoas sobre o desenvolvimento sustentável?

Esse confinamento não vai ser só benéfico pela questão sanitária e de saúde, ele vai ser benéfico também pela questão pedagógica.

Infelizmente os governos são sempre os últimos a perceberem as coisas, mas eu como cidadão, quando vejo as imagens tiradas pela NASA do que seria o céu da China, é incrível como está “azul”, ver a diferença entre o antes da quarentena e o depois. Em apenas algumas semanas é brutal a discrepância. Como as águas em Veneza agora tem peixes, como os passarinhos voltaram às ruas de Paris. O silêncio nas ruas, a despoluição sonora. Em apenas algumas semanas de lockdown esses lugares tiveram inesperadamente, melhoras significativas em relação à poluição e ao meio ambiente.

Este é um momento propício para se refletir. As energias fósseis por exemplo, deveriam parar, já as energias renováveis deveriam crescer.

Esse é o lado pedagógico da crise.

Você acha que essa crise pode modificar o papel do Estado na perspectiva das políticas sociais e econômicas?

Não. O Bolsonaro deveria seguir o exemplo do Getúlio Vargas. Mas ele não tem coragem.

A minha impressão é de que ele vai sair, que não vai durar os quatro anos, mas não por impeachment, porque isso seria muito custoso, o Brasil já teve um recentemente que foi bem dramático.

Eu acho realmente possível uma articulação política da Câmara, que o Ministério Público solicite uma junta médica e examine o presidente, para uma avaliação mental. É a proposta do Miguel Reale, por exemplo. Mas seria muito mais simples se ele seguisse o exemplo do Getúlio Vargas, mas ele não tem coragem e não tem condições de escrever uma carta-testamento. Não dá para saber, o futuro é uma grande incógnita.

Como está o Brasil em termos de economia sustentável?

Nós somos o país mais privilegiado em termos de recursos naturais primários, mas por uma série de razões históricas fizemos tudo ao contrário. O exemplo mais chocante é de que nenhum país no mundo teria mais vantagens relacionadas à energia solar do que o Brasil. Mas não as desenvolvemos.

O nosso sistema de tecnologia e inovação parece o de um país “infantil”. Para caminharmos na direção de um desenvolvimento sustentável precisamos ter um sistema de tecnologia e inovação que seja prioridade nacional e isso envolve a educação também.

O problema não é só do governo, a sociedade brasileira não tem essa noção. Assim como a gente fez com a educação, acho que fez pior com a ciência e a tecnologia.

Eu não tenho nada de positivo para falar em relação ao desenvolvimento sustentável no Brasil. E isso independe do governo ser do Bolsonaro ou não.

Os outros países já tomaram uma dianteira tão grande que fica difícil correr atrás. E acabamos ficando dependentes de ficar importando da China.

Nós temos muitas vantagens comparativas, mas não desenvolvemos as vantagens competitivas.

 

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