Lava Jato para crianças
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Lava Jato para crianças

Morris Kachani

25 de junho de 2019 | 08h14

A geração que está vindo é impressionante. É uma geração curiosa, que pela primeira vez coloca a opinião dela sem ter medo.

Se munida de informação de qualidade, adequada a seu repertório, a criança é capaz não só de emitir opiniões relevantes sobre sua realidade como pode transformar a sociedade. As soluções que elas propõem são incríveis. A maturidade e a visão, tão boas ou até melhores que os adultos.

Ao longo deste primeiro semestre nada fácil de digerir, à medida em que duras notícias de todos os tipos iam se alternando pelas telas em horário nobre, Suzano, Brumadinho, 14 milhões de desempregados… a lista é longa, e a verdade é que basta sair na rua para deparar com a descomunal desigualdade… ou com a polarização galopante… Inconsciente Coletivo se sentiu encorajado de perguntar como as crianças andam processando o mundo de hoje e o que está no porvir.

Foi Octavio Paz quem escreveu: “Em lábios de crianças, loucos, sábios apaixonados ou solitários, brotam imagens, jogos de palavras, expressões surgidas do nada… Feitas de matéria inflamáveis, as palavras se incendeiam assim que as roçam a imaginação ou a fantasia”.

E para ilustrar o pensamento dos pequenos, procuramos a incansável Stéphanie Habrich, fundadora e diretora executiva do jornal Joca. Talvez você não o conheça, mas 30 mil assinantes, entre famílias e escolas públicas e privadas, recebem quinzenalmente este digno periódico que relata os principais acontecimentos pelo Brasil e pelo mundo no período.

E as surpresas deste trabalho pioneiro por aqui, mas super comum em países como França e Estados Unidos, são imensas e bem-vindas. É o bom e velho jornalismo mostrando seu papel fundamental na organização da sociedade, desde cedo. Apesar da insistência dos adultos, que parecem não querer colaborar com a ideia de produzir boas notícias, rs

Antes de mais nada, conte-nos sobre sua experiência no World Trade Center em 2001, sobre como foi vivê-la, e como veio parar aqui, e agora.

Eu trabalhava com fusões e aquisições em um banco de investimentos no quarto andar do WTC 4. Era um prédio baixo, de 4 andares, ali ao lado das Torres Gêmeas. Tinha chegado cedo para trabalhar naquela manhã de 11 de setembro. Havia poucas pessoas no banco. Por volta das 8:30 horas, ouvimos um estrondo e vimos pela janela uma enorme bola de fogo explodindo no prédio ao lado.

Saí correndo. Deixei tudo para trás: bolsa, telefone, casaco, laptop. Junto a outras centenas de pessoas, esperei na calçada o momento em que poderíamos voltar ao prédio e continuar o dia de trabalho. Àquela altura, pensávamos que um avião de acrobacia tinha errado sua manobra e se acidentado na torre.

Pouco tempo depois, ouvi da calçada o barulho de um outro avião. Parecia muito perto de nós. Em seguida, várias explosões. A impressão era de que estávamos sob bombardeio. Hoje sei que o barulho foi resultado da detonação do tanque de querosene no momento em que a aeronave se chocou com o segundo prédio. Mas na hora a sensação era de desespero. Jamais me esquecerei do sentimento de pânico e de vulnerabilidade que tomou conta daquele dia.

Fugimos pelas ruas. Busquei abrigo em outros prédios na vizinhança, mas todos fecharam as portas. Tentei ligar de um orelhão para meus pais no Brasil e avisar que eu estava bem, mas as linhas telefônicas ficaram congestionadas. Vi pessoas se jogando dos prédios. Era insuportável testemunhar tudo isso. Já com os saltos quebrados, entrei no metrô e me dirigi até meu apartamento longe ali. Sem chave ou dinheiro (minha bolsa havia ficado no escritório), consegui ligar para meus pais da casa da minha vizinha.

O ataque às torres gêmeas aconteceu em uma terça-feira. Na sexta-feira da mesma semana já estávamos trabalhando em outro local, na cidade de New Jersey. A resiliência dos nova yorkinos é impressionante. Três dias após o pior atentado terrorista da história dos Estados Unidos eu já estava em um grande galpão do banco onde eu trabalhava, na frente de um computador com todos os meus arquivos, com transporte, comida, psicólogos e toda a atenção necessária para continuar a vida.

Alguns meses depois do atentado, a área em que eu trabalhava no banco foi fechada. Aproveitei o período para fazer um mestrado de Relações Internacionais na Universidade Columbia. Mas algo havia mudado desde o 11 de setembro. Aquela rotina de números, balanços financeiros, ações e fundos de investimento a que eu tanto me dedicara desde que me formei na faculdade já não fazia mais sentido.

Eu me perguntava como as crianças estavam encarando todos aqueles acontecimentos e como esses fatos marcariam a vida das gerações que estavam a caminho. Esse sentimento ficou ainda mais forte com o nascimento do meu primeiro filho em 2003. Decidi empreender. Fiz cursos de criação de revistas e desenvolvimento infantil. Voltei ao Brasil em 2006 com meu marido e dois dos meus três filhos (o terceiro nasceu no Brasil). Nunca mais voltei ao mercado financeiro. Apesar de traumático, aquele 11 de setembro acabou trazendo um propósito ainda maior para a minha vida e a minha carreira.

Por que um jornal para crianças? 

Sou franco-alemã, nascida na Alemanha. Minha mãe é francesa, meu pai é alemão. Cresci lendo periódicos europeus para o público infanto-juvenil, que os meus pais assinavam quando nos mudamos para o Brasil – eu tinha oito anos na época e as publicações chegavam pelo correio.

Essa paixão por periódicos infantis me acompanhou mesmo durante os anos em que trabalhei no mercado financeiro. Logo que me formei em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas fui trabalhar em um banco de investimento francês, o Paribas. Não demorou para que eu fosse transferida para Nova York, onde morei durante dez anos, trabalhando no mercado de fusões e aquisições e privatizações de empresas na América Latina. Lá eu tive contato com publicações americanas de alto nível voltadas para crianças, como a Time for Kids, Highlights e a Scholastics News, por exemplo.

Quando voltei ao Brasil, não quis voltar ao mercado financeiro e decidi empreender.

O Joca veio como um passo natural em 2011. Foi – e ainda é! – o primeiro jornal focado em notícias para crianças no Brasil. Queríamos oferecer às crianças e jovens um material mais “quente”, para que eles entendessem a realidade à medida em que as coisas fossem acontecendo.

Fazemos edições quinzenais com os principais fatos de Política, Economia, Ciência e Comportamento. Seguimos os mesmos princípios de isenção e compromisso com o leitor que os grandes veículos seguem, mas usamos uma linguagem e uma forma de contar específica para o nosso público. As crianças adoram!

Comente sobre a experiência deste tipo de publicação na França e em outros países.

Praticamente no mundo todo existem publicações para crianças. Só na França são mais de 300 produtos diferentes

Praticamente no mundo todo existem publicações para crianças. Só na França são mais de 300 produtos diferentes (entre eles 10 jornais diários), divididos entre jovens e crianças de 0 a 18 anos. Nos Estados Unidos há mais de 30 publicações infantis. A Ásia, que foi pioneira nesse tipo de publicação, conta com diversas iniciativas.

Nunca me conformei com a falta de revistas e jornais destinados ao público infantojuvenil no Brasil. A maior parte dos veículos destinados a crianças trazia um conteúdo infantilizado, focado em passatempos, com pouca diversidade. O público infantojuvenil estava carente de conhecimento. Com o Joca, ficou claro que as crianças e jovens querem entender o que acontece na sociedade, mas precisam de um conteúdo que faça sentido para eles.

Com o Joca, ficou claro que as crianças e jovens querem entender o que acontece na sociedade

Qual a tiragem, por onde circula?

Hoje estamos presentes em mais de 800 escolas, públicas e privadas, em 23 estados, além de chegarmos às casas de assinantes em todo o país. No total, são 30 mil assinaturas. A maior parte delas vem das escolas particulares, mas aos poucos estamos expandindo nossa presença nas redes públicas. Este ano fechamos uma parceria com a rede municipal de São Paulo. O Joca será usado pelos alunos do 1o ao 5o ano do ensino fundamental.

Uma das coisas que mais me dão orgulho é oferecer o mesmo jornal, com a mesma qualidade, a alunos da rede pública e da rede privada, contribuindo para a equidade da educação e para a formação de cidadãos críticos, conscientes, em todas as classes sociais e regiões do país. Há casos incríveis de escolas públicas e privadas que desenvolveram projetos conjuntos a partir da leitura do Joca. Essa interação contribui para a criação de uma geração mais tolerante e sensível à realidade dos outros.

Além disso, temos uma equipe educacional muito qualificada, que oferece apoio pedagógico para que os professores usem o Joca na sala de aula dentro das diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Dessa forma, conseguimos oferecer aos educadores uma rica troca de experiências para trabalhar o noticiário com os alunos.

Tenho certeza de que o Joca pode transformar uma geração. É incrível ver crianças de todas as origens, trajetórias e regiões falarem com propriedade sobre assuntos que antes só estavam entre adultos. A partir da leitura de notícias sobre temas atuais, jovens e crianças debatem e formam suas opiniões em vez de repetir, muitas vezes sem entender, a opinião dos outros.

Em sua maioria, os docentes elogiam o Joca no que tange à cobertura que o jornal dá às necessidades do jovem leitor e do trabalho em sala de aula, fazendo um excelente balanço entre o seu conteúdo. Uma pesquisa mostrou que 93% dos professores concordam que o Joca é uma ótima ferramenta de discussão em sala de aula.

Quais os desafios atuais?

Convencer o brasileiro da importância de um produto e de um segmento que ainda não faz parte da cultura do país. As crianças que têm contato com o Joca já estão convencidas da relevância do jornalismo infantojuvenil – e amam ter contato com as notícias. Elas são curiosas por natureza. Mais difícil é convencer os adultos, que pouco lêem e não cresceram com este tipo de experiência.

Mais difícil é convencer os adultos, que pouco lêem e não cresceram com este tipo de experiência

Por outro lado, essa dificuldade de criar uma cultura de informação para crianças e jovens é o que me motiva a expandir o Joca. É incrível poder trazer novos modos de pensar e constatar seu impacto positivo e transformador não somente nas crianças, mas também em seus pais. Temos relatos incríveis de pais que passaram a conversar com os filhos sobre temas do momento, inclusive política.

Por que se chama Joca?

Jornal da Criança – resultado de um brainstorming que fiz com vários nomes que me vinham à cabeça. Depois, nas escolas, os estudantes começaram a me dizer que o “A” era para os adolescentes. Não tinha me atentado! O cosmo estava a meu favor!

Qual é a faixa etária dos leitores?

Temos leitores de 7 anos até adultos. Mas a grande maioria está concentrada nos 4os e 5os anos do Ensino Fundamental 1. Provavelmente por um resquício do que vem sendo ensinado nas escolas – o currículo escolar enfatiza o uso do jornal no 5º ano. O que, na minha opinião, não faz sentido, pois não se deve concentrar o contato com a mídia, o aprendizado sobre jornalismo, em um só ano. O aprendizado da leitura do jornal é muito mais amplo e deveria se fazer presente em todas as idades escolares, com enfoques diferentes. Além disso, o jornal é a ponte entre a escola e o mundo real – fica muito mais interessante aprender geografia enquanto você entende os fatos que acontecem em outros países, por exemplo.

Na época da votação do impeachment da então presidente Dilma Rousseff, por exemplo, ouvi de professores e diretores nas escolas relatos de pais de alunos que haviam se informado sobre o que estava acontecendo pelo Joca ― não somente pela leitura do jornal, mas graças a conversas que estavam tendo com os filhos.

Além disso, o ato de manusear o periódico, folhear e dividi-lo em partes para facilitar a leitura, informar-se e discutir com colegas na escola ou em casa são procedimentos que formam um leitor curioso e com repertório, que reflete sobre os fatos e se prepara para atuar como cidadão engajado e protagonista.

Como o jornal está estruturado? Equipe, editorias, correspondentes, etc.

O Joca possui formato tabloide e tem 16 páginas no total: 12 páginas de conteúdo noticioso e de atualidades, 3 páginas com algumas das notícias traduzidas para o inglês (elas recebem níveis de leitura e são acompanhadas por perguntas, que ajudam o leitor a checar se compreendeu o que está escrito) e 1 página com conteúdo de entretenimento licenciado da Turma da Mônica.

Além disso, o Joca conta com uma equipe educacional, que dá suporte à equipe editorial e às escolas que usam o jornal. A área educacional elabora exercícios que são disponibilizados para as escolas assinantes a cada edição como sugestão para abordar as reportagens do Joca na sala de aula.

E temos participações de crianças ao longo do Joca:

• Correspondente internacional: entrevistamos crianças e jovens que vivem em outros países para que eles comentem alguma notícia do local. É uma forma de aproximar as realidades e traduzir, com mais propriedade, os fatos internacionais para as crianças brasileiras.

• O que eu penso sobre…: uma criança ou jovem do Brasil dá sua opinião sobre alguma notícia e/ou é o personagem de uma reportagem, por estar vivendo, de alguma forma, aquela notícia.

• Editor-mirim: leitores do Joca visitam a redação para entender o passo a passo de se fazer jornal e nos ajudar com a elaboração das matérias. Por exemplo: eles lêem o que estamos produzindo naquele momento para nos ajudar a chegar a um bom título de reportagem ou nos dizer se sentem falta de alguma informação no texto.

Como falar de notícias trágicas como Brumadinho, Suzano ou 14 milhões de desempregados, com nossos filhos?

Acreditamos que é importante que crianças tenham contato com as notícias de forma geral. Quando o assunto é trágico ou traumático de alguma forma, discutimos internamente de que forma poderemos abordar a questão – em um trabalho em que a equipe editorial e a equipe educacional se apoiam.

Brumadinho: falar sobre o que aconteceu abre espaço para as crianças e jovens refletirem sobre uma série de aspectos – desde a empatia pelo sofrimento do outro até o que fazer, no futuro, para que algo como o ocorrido em Brumadinho (e Mariana) não se repita. Além disso, na abordagem do tema, para que o assunto ficasse claro para os nossos leitores, usamos a contextualização, que é essencial no jornalismo infanto-juvenil. Nós explicamos o que é mineração, o que é minério de ferro, o que são os rejeitos de uma barragem. Dessa forma, o entendimento se amplia.

Além disso, diante de um dos valores do Joca, que é promover o protagonismo de crianças e jovens, fomos além da informação no caso de Brumadinho e propusemos uma ação de troca de cartas entre leitores do jornal e estudantes de Brumadinho. Recebemos mais de 2.200 cartas e todas foram enviadas para escolas de Brumadinho!

Suzano: neste caso, decidimos não abordar o tema como notícia no Joca. Acreditamos que a dimensão da violência vista na Escola Estadual Professor Raul Brasil poderia causar temor entre nossos leitores se noticiada no Joca. Não faz parte de nossa linha editorial a divulgação constante e sistemática de temas que envolvam extrema violência, como tiroteios. No entanto, temos ciência da nossa responsabilidade, como único jornal para crianças e jovens do Brasil, perante os assinantes e o compromisso de os manter informados em momentos de crise. Por isso, decidimos reunir dicas para os pais e responsáveis lidarem com a questão em casa e na escola, diante do questionamento espontâneo que pudesse surgir a partir das crianças e jovens:

Se a criança não soube o que aconteceu e não teve contato com as notícias, melhor não levar o assunto para ela. Mas se indagar a respeito, para não oferecer um conteúdo de difícil elaboração, importante o adulto procurar entender como ela viu essa notícia e recebeu a tragédia;

Não deixar a televisão ou o rádio ligados em noticiários, especialmente os que relatam muitos casos de crime e de violência;

Deixar claro para as crianças que casos como os de Suzano não acontecem com frequência. O que pode ser dito é que, diante de uma situação não esperada, a criança deve procurar a orientação de um adulto;

Se nós, como adultos, sofremos para entender e processar uma tragédia como essa, o momento é ainda mais difícil para as crianças.

Andando pelas ruas, trombamos com uma massa de miseráveis cotidianamente e inúmeros signos de desigualdade social, como as grades nos prédios ou os elevadores de serviço. Como lidar com essa realidade do ponto de vista da construção de mundo das crianças?

Materiais como o Joca têm justamente a função de oferecer informação, colaborando para a formação do cidadão com consciência e senso crítico. Acreditamos que, a partir da leitura de mundo que o contato com notícias desde a infância oferece, teremos uma geração melhor preparada para combater as desigualdades.

Então se a criança não pergunta sobre uma notícia, é melhor não falar a respeito com ela?

Depende da notícia e da abordagem. O Joca não acredita que o público infantojuvenil precisa ser ainda mais exposto a notícias de criminalidade, por exemplo. Mas instigar o interesse pelo mundo e o que acontece Brasil, sim. Ter contato com jornalismo e notícias de qualidade desde a infância leva à elaboração do senso crítico, ajudando a formar o cidadão. De acordo com o escritor norte-americano John Naisbitt: “A nova fonte de poder não é o dinheiro nas mãos de poucos, mas informação nas mãos de muitos”.

Qual a importância de compartilhar as notícias com as crianças? Informação acalma?

Quando algo muito ruim ou trágico acontece, a primeira coisa que as crianças pensam é: “isso pode acontecer comigo?”. Elas se sentem vulneráveis.

Acalma, sem dúvida. Não há como se sentir menos ansioso ou mais seguro frente a um acontecimento se você sequer consegue compreender o que aconteceu. Quando algo muito ruim ou trágico acontece, a primeira coisa que as crianças pensam é: “isso pode acontecer comigo?”. Elas se sentem vulneráveis. Os jornais franceses para crianças têm essa preocupação muito arraigada. Diante dos últimos ataques terroristas, por exemplo, eles explicaram as motivações dos ataques, quem são os terroristas. Alguns desses periódicos chegaram a ser distribuídos gratuitamente no dia seguinte a um ataque, justamente para explicar para as crianças o que houve, diminuir sua ansiedade e acalmá-las.

Alguns periódicos chegaram a ser distribuídos gratuitamente no dia seguinte ao ataque terrorista na França, justamente para explicar para as crianças o que houve, diminuir sua ansiedade e acalmá-las.

Um jornal direcionado especificamente ao público infanto-juvenil torna os fatos mais acessíveis e mais relevantes, ou seja, conversa com a realidade de crianças e jovens. Além de fazer mais sentido para eles, contribui para que se sintam valorizados ao ter acesso às mesmas informações que os adultos. Eles se sentem parte da conversa.

Qual o papel dos pais nessa construção? A importância de se fazer a leitura do Joca ao lado das crianças?

Importantíssimo e essencial. Os pais são exemplo para nossas crianças. É fundamental sentar junto com seu filho para ler notícias e se informar. É assim que se cria o hábito e interesse pela informação – não adianta apenas deixar o Joca em cima de uma mesa, esperando que a criança faça tudo por conta própria.

Ler jornal é uma das maneiras mais eficientes de se manter atualizado sobre os fatos do cotidiano e compreender o estado dos acontecimentos no mundo em que vivemos. E pode se tornar um momento de interação e prazer entre pais e filhos. Afinal, são as crianças que vão moldar o futuro. Por isso, o contato com jornalismo de qualidade é uma prática fundamental em qualquer idade e traz, ainda, informações úteis para estudo, trabalho e lazer.

E no que os pais falham ou podem falhar? Alguns pais têm restrição no sentido de compartilhar notícias mais trágicas, não? Em alguns círculos percebo, certas notícias podem ser “censuradas” em benefício de uma “superproteção”. Apesar de que, de um jeito ou de outro, a informação acaba chegando às crianças…

Vivemos o tempo do excesso de informação. Informação de qualidade e sem qualidade, que chega por todos os lados. Essa avalanche de dados não poupa as crianças, prontas para absorver o que estiver por perto. Tentar preservá-las de questões como Brumadinho é criar uma falsa bolha de proteção. Mas é preciso ter cuidado e discernimento. Há casos que trazem consigo oportunidades para reflexão. Foi o que aconteceu com Brumadinho, por exemplo, onde havia a chance de discutir o que levou ao rompimento da barragem e o que pode ser feito para que casos como este – e de Mariana – não se repitam. Isso sem falar da oportunidade de promover a empatia entre as crianças e jovens, como na ação de troca de cartas organizada pelo Joca.

Apenas dizer às crianças que houve um tiroteio dentro de uma escola, que foi o que aconteceu em Suzano, só gera ansiedade. É preciso dosar “o que” contar e, principalmente, “como” contar

Outros precisam ser trabalhados com mais cuidado, dentro de um contexto mais amplo. Apenas dizer às crianças que houve um tiroteio dentro de uma escola, que foi o que aconteceu em Suzano, só gera ansiedade. É preciso dosar “o que” contar e, principalmente, “como” contar. É isso que faz a diferença entre acalmar e gerar ainda mais apreensão.

A linguagem das notícias no Joca é mais infantil? Pergunto isso porque vejo muitos pais e mães falando com as crianças em um tom mais infantilizado, como se eles próprios fossem crianças.

Parece contraditório, mas crianças não gostam de receber um tratamento infantilizado. Por isso, a linguagem usada no Joca não traz a infantilização. Nós fazemos uso da explicação e da contextualização. Se for preciso usar uma palavra que não faz parte do repertório do nosso leitor, nós vamos explicar essa palavra. E sempre vamos dar o contexto da situação, sem subestimar a capacidade do nosso leitor de aprendizagem e entendimento.

Parece contraditório, mas crianças não gostam de receber um tratamento infantilizado

Muitos pais falam de um jeito infantil com elas, mas você sente que as crianças não querem isso, elas ficam com raiva. E a blindagem só cria mais ansiedade, porque daí as crianças vão pensar, “se estão me escondendo algo, então tem alguma coisa grave, que não é pra mim, que eu devo ficar com medo”. O jornal desconstrói isso.

Crianças são vítimas de fake news? Em que medida?

A propagação de notícias falsas já mostrou seu poder de influenciar eleições e dividir sociedades, potencializando preconceitos e ódios. Se faz isso com adultos, imagine os efeitos que pode ter sobre jovens e crianças não habituados a consumir informação de qualidade e credibilidade.

Sem entender o que se passa ao redor, as crianças não se sentem parte da sociedade. Elas ouvem, principalmente pela televisão, e lêem na internet o que está circulando no momento. Percebem quando há algo grave acontecendo, até porque podem estar vivendo em casa o problema estampado nas manchetes dos jornais, como desemprego dos pais, por exemplo. Já ouviram falar ou sabem o que são fake news. Mas não sabem em quem confiar nem como identificar a credibilidade de uma informação.

As marcas de grandes veículos de comunicação não significam muito quando as crianças são questionadas a distinguir notícias falsas de reais. Diferenciar informação de opinião é difícil para elas. Por isso, muitas vezes, elas acabam à margem do debate. É aí que está o problema: se as crianças não tiverem formação para ler notícias e não exercitarem o senso crítico para se protegerem de informações mentirosas, iremos perder uma geração inteira que poderia (e deveria) promover as mudanças que tanto queremos para o país.

Se as crianças não tiverem formação para ler notícias e não exercitarem o senso crítico para se protegerem de informações mentirosas, iremos perder uma geração inteira

Há mais de uma década edito periódicos destinados ao público infantojuvenil. A experiência me mostra que, quando têm acesso a notícias adequadas aos seus repertórios e contextualizadas, as crianças e jovens se sentem parte da sociedade e se tornam mais autônomas.

O problema das fake news é mais grave do que se imagina porque, se não for resolvido desde a base, teremos crianças e jovens deixando de ler ou descrentes até de veículos com credibilidade. Isso os deixará paralisados, sem saber como agir e vulneráveis a manipulações.

Não temos como controlar o que nossos filhos estão lendo ou assistindo na internet o tempo todo, mas temos como incluí-los no debate, compartilhando e discutindo notícias, ensinando-os a buscar fontes confiáveis e a exercitarem o senso crítico. Se perdermos essa geração para as fake news, que líderes teremos e o que eles farão para o Brasil daqui a vinte anos?

Programas jornalísticos como o de Datena na televisão aberta, que são transmitidos durante a tarde, contribuem com a formação das crianças?

Toda informação a que a criança está exposta contribui para sua formação, para o bem e para o mal. Daí a importância de selecionarmos o que elas consomem. Um jornalismo que não é pensado para elas, que não se preocupa em explicar e contextualizar o que acontece deixa as crianças cheias de dúvida e medo. Por outro lado, se ela entende o que se passa se sente mais capaz de agir para transformar aquela realidade.

Daí a importância de criarmos no Brasil uma cultura que encara a criança como o cidadão que ela é, com direito à informação de qualidade e adequada, por meio do jornalismo infanto-juvenil.

Que achou da foto de Jair Bolsonaro durante a campanha com uma criança no colo, e fazendo o gesto de estar atirando?

O Joca não emite opinião política.

Como as crianças estão elaborando a crise política e de valores brasileira, e a questão da intolerância?

Crianças naturalmente demonstram mais tolerância, mas muitas vezes repetem comportamentos que vêem nas ruas, em casa ou na TV. Por meio do Joca, os leitores deixam de repetir cegamente a opinião dos pais ou do seu entorno. Eles passam a ter repertório para formar a própria opinião, formulando o pensamento a partir dos diferentes pontos de vista que lêem no jornal.

Por meio do Joca, os leitores deixam de repetir cegamente a opinião dos pais ou do seu entorno. Eles passam a ter repertório para formar a própria opinião

Em 2018, elaboramos um material especial e gratuito, chamado Manual das Eleições, onde explicamos o que são eleições, por que são importantes, o que fazem presidente, senador, deputado, governador, prefeito, vereador. Acompanhamos o trabalho com esse manual em diversas escolas e presenciamos casos de crianças praticando democracia em eleições dentro da escola ou da sala de aula. Foi um exemplo do quanto a tolerância e o respeito às diferenças deve ser praticado desde a infância. Ferramentas como o Joca colaboram nesse processo.

O que as crianças estão dizendo?

Uma das notícias mais comentadas pelos leitores do Joca foi o estranhamento e troca de farpas entre o presidente americano Donald Trump e o presidente da Coreia do Norte Kim Jong-un. Muitos estudantes comentaram que os dois é que pareciam crianças. E que eles (nossos leitores) não gostariam de se comportar dessa forma. Ou seja, o comportamento visto entre duas pessoas importantes no cenário mundial, por meio da leitura de notícias sobre o tema, levou os leitores a pensarem sobre valores. A pensar em como querem ou não se comportar – e por que escolher um determinado comportamento e não outro.

Quem são nossos exemplos? São os líderes. Você está falando de Trump, e a criança questiona o muro, por que dividir. É importante esse tipo de reflexão.

Quem são nossos exemplos? São os líderes. Você está falando de Trump, e a criança questiona o muro, por que dividir. É importante esse tipo de reflexão.

Houve o caso de um grupo de crianças que, depois da leitura de uma notícia no Joca sobre a publicação do diário de uma garota síria que vivia em Aleppo durante a guerra, se mobilizou pedindo a publicação da história em português (o livro havia sido publicado apenas em árabe e em francês). Elas enviaram mais de 200 cartas para o Joca pedindo o livro em português. Fomos atrás de uma editora e a edição brasileira foi publicada em 2018. É o Diário de Myriam que, na versão em português, traz algumas das cartas que as crianças escreveram pedindo a tradução da história.

Que soluções elas estão propondo para os problemas do Brasil?

Com o Manual das Eleições, no ano passado, ouvimos muitas crianças propondo que é importante ouvir mais a opinião do outro e respeitar essa opinião, mesmo que ela seja diferente da sua. Um sinal claro de que ter mais empatia pode ajudar e muito nosso país.

O que dizer sobre esta geração que está vindo? Todos querem ser youtubers? Rs

É verdade que essa é uma geração mais ligada em tecnologia mas nem todas querem ser youtubers. As crianças querem voz e querem ser ouvidas. O fato de elas gostarem de assistir vídeos no YouTube ou jogar games em seus tablets não exclui o desejo pela informação. Tanto é verdade que o Joca impresso, de papel (o bom e velho papel de jornal) é tão querido por nossos leitores que muitos guardam suas edições preferidas como se fossem um tesouro, exatamente como eu fazia décadas atrás, quando tinha a idade deles. O fato de um jornal impresso ser palpável cria uma relação de pertencimento da criança com a notícia, com aquele produto jornalístico que foi feito especialmente para ela. Assim, não é real a generalização de que criança não gosta de ler ou só quer assistir a vídeos.

Nem todas querem ser youtubers. As crianças querem voz e querem ser ouvidas

Octavio Paz escreveu: “Em lábios de crianças, loucos, sábios apaixonados ou solitários, brotam imagens, jogos de palavras, expressões surgidas do nada… Feitas de matéria inflamáveis, as palavras se incendeiam assim que as roçam a imaginação ou a fantasia”.

Será que o olhar das crianças sobre as notícias é mais privilegiado que dos adultos? Livre de preconceitos, certamente o é. Em outras palavras, será que as colocações das crianças deveriam ser mais levadas a sério pelos adultos?

As soluções que elas propõem são incríveis. A maturidade e a visão, tão boas ou até melhores que os adultos. Elas trazem as questões para o mundo real delas. No caso da Síria por exemplo, elas perguntam como as crianças de lá tomam banho, se vão para a escola, como se divertem.

Ou do Trump com o ditador coreano, elas comentam: “nossa, quando eu brigo com meu irmão, a gente senta depois e se fala. Ou então, conversa de novo. Eu não jogaria bombas no meu irmão”.

A geração que está vindo é impressionante. É uma geração curiosa, que pela primeira vez coloca a opinião dela sem ter medo. Eu lembro quando era jovem, não ousava falar nada. Mais importante que tudo, elas querem ajudar a transformar.

Se munida de informação de qualidade, adequada a seu repertório, a criança é capaz não só de emitir opiniões relevantes sobre sua realidade como pode transformar a sociedade.

Uma reportagem publicada em 2016 no Joca, sobre doação de cabelos para ajudar crianças com câncer, mobilizou uma escola inteira. E isso foi uma iniciativa delas, das crianças. Imagine o que essa geração é capaz de fazer pelo Brasil quando se tornar adulta.

Outro exemplo, fizemos uma reportagem sobre os refugiados, e as crianças decidiram criar brechós de roupas para eles.

Por isso, nunca me conformei com o fato de não haver no Brasil uma publicação com notícias da atualidade voltada para as crianças. Elas têm direito à informação. Os adultos de amanhã começam a se formar hoje. Se eles não se sentem parte da sociedade hoje, não se sentirão parte da sociedade no futuro. É a partir do contato com notícias da atualidade, por publicações como o Joca, que a criança passa a formar a própria opinião – deixando de apenas repetir o discurso do adulto. O que precisamos mudar é justamente essa percepção de que criança não precisa consumir jornalismo.

Muito pelo contrário. Criança tem direito à informação e deve acessá-la.

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