Luciana Temer: “A violência sexual no Brasil é uma epidemia e a gente não fala disso”

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Luciana Temer: “A violência sexual no Brasil é uma epidemia e a gente não fala disso”

Morris Kachani

24 de junho de 2020 | 09h45

Por Isabella Marzolla

Assista à entrevista: https://youtu.be/x-wfgCy4GMk

Nesses últimos dias a internet ficou chocada e dividida entre condenar, cancelar ou sentir “pena”.

O motivo foram alguns casos de pessoas conhecidas, especialmente no mundo pop e da internet, suspeitas de abusar de menores e que foram expostas no Twitter.

O youtuber PC Siqueira, com presença maciça na internet há mais de 10 anos, está sendo acusado de compartilhar a foto de uma criança de 6 anos nua com um amigo. O então baterista da banda CPM 22, o Japinha, na época com 38 anos, também foi acusado de, em uma conversa pela internet com uma menina de 16 anos, perguntar se ela era virgem, para depois encontrá-la após um show, o que acabou não acontecendo.

Na esfera internacional, teve a estreia na Netflix do documentário “Jeffrey Epstein: Poder e Perversão”, sobre o empresário bilionário Jeffrey Epstein – já falecido – que foi condenado de abusar sexualmente de centenas de adolescentes durante anos, com esquemas envolvendo até a aristocracia inglesa, nesse caso a figura mais conhecida, o Príncipe Andrew.

A pedofilia é considerada uma doença, um desvio da sexualidade, e se torna crime a partir do momento em que esse indivíduo doente exerce uma ação sobre seu desejo, no caso o abuso sexual de crianças. Também é considerado crime a produção, o compartilhamento ou o armazenamento de pornografia infantil, com pena de 4 a 8 anos de prisão.

Segundo a Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, em 2018 no Brasil, a cada 24 horas 320 crianças eram abusadas. Do total de estupros no território brasileiro, 70% são contra crianças. O Brasil também é o quarto país do mundo em maior número de casamentos infantis e tem uma alta taxa de natalidade entre meninas de 10 a 14 anos.

Para falar a respeito, entrevistamos Luciana Temer, professora de Direito Constitucional da PUC-SP e da Uninove, presidente do Instituto Liberta, de combate à exploração sexual de crianças e adolescentes, e ex secretária de assistência social da Prefeitura de Haddad.

“Por que se comenta tanto desses casos que apareceram agora? Porque parece para a sociedade que isso é uma exceção e porque existe a figura de um monstro terrível e uma vítima. (…) A população brasileira fica com a impressão de que isso é excepcional”.

“A violência sexual acontece no Brasil inteiro e em todas as classes. A sociedade ainda não entendeu a dimensão desta violência. Nós não estamos falando de “monstros” excepcionais, mas de uma cultura permissiva com a violência sexual na criança. Tem uma frase horrível que escutamos em alguns lugares do Brasil, que é, ‘O primeiro fruto da bananeira colhe quem plantou'”.

“O país é o segundo com maior índice de exploração sexual no mundo e ninguém fala disso. Aqui a exploração é tão naturalizada que a sociedade não enxerga”.

“Existe no imaginário da sociedade uma busca pelas meninas mais novas. Tanto é que o termo mais procurado nos sites pornográficos no mundo é teen porn”

“Nesse período de quarentena está havendo mais casos de abuso de crianças. A produção de material e distribuição de pornografia também aumentou no mundo. Só na Espanha, foi 25%”.

“Quando você entra nos sites pornográficos abertos, lícitos, você encontra vários vídeos de “filho se divertindo com o pai”, “tio pegando a sobrinha, “professor pegando a aluna”. Não são cenas reais, são personagens. Mas são gatilhos de violência. Esses gatilhos na quarentena podem ser ainda mais perversos”.

“O professor e a professora são os únicos adultos, fora do ciclo familiar – e como vimos a maioria dos casos são intrafamiliares –, a quem a criança tem acesso todo dia e que podem perceber algo errado com ela. Por isso é tão importante falar sobre sexualidade nas escolas em todas as idades. Por isso que nós batemos que qualquer proibição de falar sobre sexualidade e gênero nas escolas é um grande retrocesso no combate à violência sexual”.

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