Luis Crispino: memória e imaginário de um fotógrafo artista na UTI de covid-19
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Luis Crispino: memória e imaginário de um fotógrafo artista na UTI de covid-19

Morris Kachani

30 de julho de 2020 | 12h41

“Uma cena que remete muito ao que sonhei desacordado é aquele quadro do Goya, com aquele Deus, o Saturno devorando o filho. E o Francis Bacon, aqueles retratos que ele faz. Eu via aquelas imagens nítidas”

Luis Crispino é um fotógrafo reconhecido, com uma trajetória muito bem-sucedida na publicidade, na moda e nas artes plásticas.

Assista à entrevista: https://youtu.be/sRU4BbTQQso

Em março deste ano, percebeu-se portador do vírus. O que era uma “gripezinha” se tornou febre alta, com dificuldade de respirar e muita tosse.
Foram 20 dias entubado na UTI do hospital Albert Einstein, em coma induzido. Depois mais 40, entre a semi-intensiva e o processo de convalescença e recuperação, que se estende até hoje.
O comovente relato do fotógrafo é intermeado pela iconografia de artistas como Francis Bacon e Goya, e registros góticos do final do século 19, nos primórdios da arte fotográfica, que tomaram sua mente de assalto durante o longo tempo de sedação.
Nesta entrevista, ele relata como se deu todo este processo entre a vida e a morte, e como esta experiência ressignificou seu olhar.

“Uma cena que remete muito ao que sonhei desacordado é aquele quadro do Goya, com aquele Deus, o Saturno devorando o filho. E o Francis Bacon, aqueles retratos que ele faz. Eu via aquelas imagens nítidas”.

“Primeiros sintomas foram febre altíssima e falta de ar. Não desconfiava [de covid-19], no início para mim era uma gripe forte. Em 3 dias eu tive que ser entubado. A evolução desta doença é muito rápida”

“Não vi a morte, mas constatei que morrer é muito fácil, é muito simples. É só morrer, porque eu estava desacordado, não vi luz, não vi chamado, não ouvi os anjos, nada. Do jeito que eu estava [entubado] eu iria embora e não ia perceber.”

“A última lembrança que tenho falando com a minha mulher é de ter mandado “houston we got a problem” quando me falaram que eu iria para a UTI”.

“O fato de eu estar entubado com aquele tubo dentro de mim, me remetia, não sei porque, a aqueles frangos de frigorífico que estão enganchados”.

“Eu percebo depois um certo renascimento, meus sentimentos ficaram mais profundos. Antes do episódio eu já tinha uma relação forte com a minha mulher. Depois fiquei mais apaixonado”

 

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