Luiz Schwarcz: o convívio com a depressão
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Luiz Schwarcz: o convívio com a depressão

Morris Kachani

14 de maio de 2021 | 12h08

Um dos melhores lançamentos literários do ano é sem dúvida o livro “O ar que me falta”, do editor e fundador da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz. Com uma rara coragem, ele expõe as vísceras de uma depressão que o consome praticamente desde a infância.

Como lhe disse Drauzio Varella, que acompanhou o processo de escrita da obra, este livro vai ajudar muita gente; vão perceber que por trás de uma vida bem-sucedida também pode haver muito sofrimento.

Esta conversa partiu da leitura do livro e percorre um roteiro conhecido, entre entrevistador e entrevistado. Passando pela infância em Higienópolis, a iniciação sexual com uma prostituta após o bar-mitzvá, a emancipação através dos movimentos juvenis sionistas, a compulsão pela música, a prática esportiva, e a idealização e parcial desilusão com o ofício das letras.

Assista à entrevista: https://youtu.be/SRkjNtCRIZA

“A concepção desse livro, na verdade, passou pela idealização de vários outros livros ficcionais que não deram certo. (…) Passei muitos anos pensando em um livro sobre meu pai, que foi prisioneiro em um campo de concentração na Segunda Guerra; um livro centrado na dificuldade da criança em entender o passado do pai, o passado não dito.

De alguma forma, sem pensar em falar da minha depressão, eu estava tratando dela a partir do livro sobre meu pai. Porque esse silêncio, essa questão de eu não saber quem era meu pai de verdade ou qual era o seu passado, marcou muito a minha vida e pode ter sido uma das coisas que frutificaram uma depressão, entre muitas outras. Eu sou uma vítima da Segunda Guerra, uma vítima não fatal. As gerações seguintes dos judeus também são vítimas da guerra, de uma forma diferente”

“Um dia, em uma situação de sonho, esquiando com as minhas netas pela primeira vez, eu senti que a depressão me mandou um recado dizendo, “olha, você está aí no topo da montanha, – eu sou uma amante das montanhas. Não importa onde você está, eu estarei sempre com você”. E assim eu entendi que meu livro para contar a história do meu pai tinha que passar pela minha depressão ou que a minha depressão seria o meu melhor fio condutor. Então fui conversar com o Drauzio Varella, que foi entusiasta da ideia e falou, “puxa, você vai ajudar muita gente, vão perceber que por trás de uma vida bem-sucedida pode haver muito sofrimento”. E eu me convenci disso, durante muito tempo escrevi imbuído desse fim. Mas claro que não era isso, eu estava escrevendo o livro para mim mesmo. De alguma forma o livro não poupa sentimentos, ele expõe. Ele expõe coisas que as pessoas geralmente não expõem. É um livro de memórias que talvez seja mais um livro de confissões. Ele é um livro no qual eu não me elogio, eu não conto nada quase da Companhia das Letras”

“Com o lançamento, eu comecei a ter uma reação de profunda e múltipla empatia vinda de todos os cantos. Do Nordeste, um rapaz pobre me escreveu dizendo que ele queria que a mãe dele lesse o meu livro para ela entender sua depressão. Até amigos ou pessoas que convivem comigo disseram, “meu Deus, nunca imaginei [que você tivesse depressão]”. Até minha mãe desconhecia algumas partes, não sabia do bullying que sofri na colônia de férias”

“Dois editores acreditaram que eu estava me expondo demais e que estava sendo cruel demais comigo mesmo, principalmente no capítulo sobre violência. Embora minha bipolaridade seja leve, controlada, no momento que ela está fora de controle é impossível – pelo que eu saiba – um bipolar que não tenha rompantes, estouros, atos em que seu corpo e cabeça funcionem em um grau de violência acima do normal, se é que alguma violência é normal. Eles não queriam que eu colocasse esse capítulo, minha ex psicanalista que agora adora o livro também falou, “de jeito nenhum, você não pode fazer isso com você, as pessoas não vão entender”

“É muito importante para mim narrar após minha infância minha iniciação sexual, porque é um contraponto com o meu pai que ia para a farra. Ele me arrumou a primeira prostituta para me desvirginar depois do Bar Mitzvah, em um ritual muitas vezes bem judaico, e assim aparece toda a minha rejeição a esse tipo de relação. Como é que eu ia explicar uma certa timidez amorosa ou nas minhas conquistas naquela época sem falar disso? As pessoas falavam que era uma exposição de intimidade maior do que cabia, mas eu sustentei que o livro precisava ser daquele jeito”

“Eu acho que tem muitos “silêncios” na minha formação. O silêncio na separação dos meus pais quando eu tinha 4 para 5 anos, o silêncio sobre o passado do meu pai, os silêncios sobre a depressão do meu pai e um outro muito forte, que é o silêncio sobre a morte dos meus irmãos. Um irmão chegou a nascer e os outros a minha mãe abortou. Eu passei a minha vida inteira sabendo que eu tive três irmãos “que não vingaram”, que não nasceram ou o Rodolfo que nasceu e viveu dois dias. Minha mãe teve covid-19 muito forte no ano passado e eu fiquei vinte dias no hospital com ela, só eu podia entrar porque eu já tinha tido e nessas conversas a minha mãe disse que foram 10 abortos aproximadamente”

“Eu tenho uma relação com a arte em geral muito idealizada. No começo talvez pelas artes plásticas e pela música. A música, vamos dizer, era o presente da minha vida que vinha pela minha avó e pelo meu pai. Eu ouço música full time. E a relação com as artes plásticas através das aulas de arte da minha mãe e a literatura também à beira da cama da minha mãe. Antes de eu me tornar editor, já estava sendo criado por essas relações”

“Na hora que eu viro um profissional da literatura é natural que essas idealizações entrem em xeque. Houve um momento em que eu percebi que a Companhia das Letras ia ter sucesso em uma feira de livro na qual “Boca do Inferno” explode mundialmente. Aquilo me dá um choque e gera a primeira depressão pós-juvenil”

“Eu nunca tive a disposição de comprar drogas. Eu experimentei um pouco de maconha, mas eu tive uma reação de larica fortíssima em que eu chegava a colocar um banquinho na frente da geladeira para ficar comendo. Mas foram muito poucas vezes, e eu cheguei a experimentar cocaína porque no ambiente de trabalho pré Companhia das Letras tinha cocaína, na Editora Brasiliense. Mas usei muito pouco. Tenho muito autocontrole e as drogas ficaram para trás”

“O sucesso sempre ajuda, mas assim como os remédios, traz efeitos colaterais. O sucesso tem efeitos colaterais, tipo desvirtuar um ego controlado, despertar a arrogância. A culpa não é do sucesso em si, a culpa é de como você se relaciona com ele”

“Quem é arrogante é inseguro”

“Nesses anos em que você tenta acertar o medicamento você passa pelos efeitos colaterais; dor de cabeça, sudorese, tremor nas mãos, insônia e os efeitos na sexualidade. Você passa a ter uma diminuição muito grande da libido. No meu caso não chegou a afetar tanto, mas você passa a ter dificuldade de ter prazer no ato sexual. É uma coisa terrível porque o sexo seria uma das poucas coisas que restam para um deprimido que não consegue na fase aguda da depressão nem trabalhar. Você fica em casa, você não consegue ter relação social mas o seu corpo funciona plenamente. De repente o remédio te tira o prazer, de alguma forma você não consegue se relacionar sexualmente da forma normal, você passa a fazer sexo tântrico sem querer porque você não consegue ejacular, é muito ruim. Isso é o remédio te dizendo. “eu sou seu senhor”.

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