Luiza Erundina, aos 85 anos: “É o sonho que move a gente e mantém a gente jovem”
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Luiza Erundina, aos 85 anos: “É o sonho que move a gente e mantém a gente jovem”

Morris Kachani

13 de novembro de 2020 | 15h43

“A velhice não é uma doença, e alguém que tem bastante idade, mas tem uma cabeça boa, tem energia e sonha ainda. Aliás, a Ecléa Bosi (psicóloga e escritora) me disse assim: ‘a velhice não está em mim, está no olho de quem me vê’.

Assista à entrevista: https://youtu.be/48CQ_SwyMxk

O sonho, a meu ver, para ele ser sonho não pode caber numa vida, por mais longa que ela seja. Se eu tivesse conseguido concretizar meu sonho, pelo qual eu dei minha vida… não me casei, não constituí família, rompi com o padrão de minha geração no Nordeste, que era o de toda mulher casar muito cedo e reproduzir aquele modelo antigo de família pobre e miserável fugindo da seca. E eu rompi com isso. E as pessoas me perguntam o que me deu na telha de eu ter compreendido aquilo tão precocemente – não vou me casar, eu quero estudar! Não vou casar cedo e ter uma filharada e reproduzir esse modelo. Para você optar pela política, você tem que ter paixão pela política, ir além do seu tempo, além dos seus limites, além da sua condição pessoal, e vale a máxima da Hannah Arendt: “a política são atos e gestos
coletivos””

“Ganhar a prefeitura de São Paulo é uma ferramenta importante, é um espaço importante, é uma fronteira importante de resistência ao bolsonarismo, ao Bolsonaro, ao seu governo, ao genocida que é ele, à forma como ele está tratando as comunidades indígenas, tratando os pobres, os quase 200 mil que morreram por causa dessa pandemia, por descaso absoluto, negando que exista de fato essa gravidade. É a desumanidade de alguém que não tem a condição de governar uma nação da importância e do tamanho que é o Brasil”

“Não se tem uma tradição de unidade na esquerda. No Brasil nós estamos tendo dificuldades em unificar as forças democráticas e populares em torno de um projeto eleitoral, e nos falta um projeto político consensado entre nós. É uma tradição brasileira que é diferente do Uruguai, do Chile, da Argentina, que compõem estas frentes em tempos eleitorais”

“O voto útil nunca funciona a nosso favor, é sempre a favor deles. Em 2016 [eleição municipal de São Paulo, quando Erundina era candidata pelo PSOL] também funcionou contra nós e a favor deles”

“30% das pessoas que estão votando na gente, são jovens de 18 a 24 anos. Eles estão descobrindo a política de novo. Tem que se encantar”

Luiza Erundina, atual vice na chapa de Guilherme Boulos (PSOL) na acirrada disputa à prefeitura de São Paulo, é uma figura singular da história política brasileira.

Paraibana de 85 anos, assistente social (UFPB), iniciou carreira política em 1980 no PT, partido ao qual foi filiada até 1998. Depois, ingressou no PSB onde ficou até 2016. Atualmente está no PSOL. Já foi vereadora de SP (1983-86) e deputada estadual de SP (1987-88), brevemente Ministra-Chefe da Secretaria da Administração Federal (gov. Itamar Franco, 1993), prefeita de São Paulo (1989- 1993) e atualmente deputada federal pelo Estado de SP (1999- agora).

Nesta entrevista, ela compartilha o legado de seu conhecimento e a visão de mundo, em um espectro temático mais amplo e antenado com a proposta do canal Inconsciente Coletivo.

Do que SP precisa e do que SP não precisa? “Para um segmento da sociedade paulistana precisa de tudo; agora, a minoria de 1% não precisa de nada, tem até mal estar do bem estar. Tem um conceito que diz: excesso de bem estar gera mal estar. Deve dar depressão, isolamento. Enfim, eles são tão ricos e poderosos que se isolam com medo de perder as riquezas deles. Isso não é confortável para nenhuma
sociedade e eles não estão aberto à solidariedade. A solidariedade é uma condição de você estabelecer condições melhores de vida para todos em uma sociedade e esses indivíduos que têm mais precisariam ter mais sensibilidade, aceitarem ser mais tributados para dividir um pouco mais com quem tem menos que são a maioria. Para que a sociedade seja mais pacífica, menos violenta, mais igualitária, seja mais suportável.

Isso é o socialismo libertário, democrático, da solidariedade, da igualdade de direitos, da redução da exclusão”

Por que terminou seu mandato da Prefeitura de SP com a taxa de aprovação baixa (20%)?

“Essa avaliação se deu por parte de um setor da mídia que fez oposição ao meu governo o tempo todo e é compreensível que isso tenha acontecido dessa forma porque eu entendo que a minha eleição para governar São Paulo, uma cidade com tradição de caciques políticos e pessoas poderosas e ricas, porque às vezes, acontece uma “zebra”. Eu cheguei no dia da eleição [em 1989] em terceiro lugar com 18%, muito atrás do Maluf, do Serra e do Leiva, portanto caciques políticos que já se davam por vencedores, sobretudo o Maluf. Aí, de repente, no dia de eleição o quadro virou completamente. Uma mulher, nordestina, de um partido de esquerda, com uma prática política ligada à população da periferia, a população favelada e que estava sempre no apoio nas situações de despejo das famílias pobres…Eu não era bem vista”

O que aprendeu como prefeita? “O poder não é tão grande quanto se imagina. Tem limites muito fortes, sobretudo na instância local. Quer dizer, a legislação procede de outras esferas – federal e estadual. São poucos os tributos que são de competência municipal.

Eu aprendi que é preciso manter coerência mesmo que isso signifique não conseguir realizar aquilo que você pretendia. Primeiro por ter minoria na Câmara, porque para ter maioria na Câmara eu teria que ter feito concessões éticas, que é o que alguns governos progressistas terminam fazendo para terem governabilidade. Frequentemente fazem concessões com aliados de outras classes por princípios inimigos e acabam cedendo seus compromissos e projetos originais a essas forças políticas.

Ao contrário, nós invertemos prioridades e fizemos uma gestão democrática, com participação popular, com controle social e foi o que permitiu que eu concluísse o governo, com todas essas limitações, com o apoio popular”

“Eu acho que o diferencial de um governo progressista e democrático com uma vocação ao socialismo é um governo que se diferencia pelo método de gestão, que exerce o poder em nome do povo, dividindo esse poder com a origem do poder, que é o povo. Eu costumava dizer no início do meu governo: “eu quero sair do governo com menos poder do que quando eu entrei, porque eu terei dividido ou devolvido esse poder ao povo”

Quem é Bruno Covas? “Alguém que você não sabe porque veio. Ele segue o chefe dele, que é o Doria. Ele era vice do Doria e o Doria deixou a tarefa no meio do caminho para ser candidato a governador, portanto ele não foi eleito, ele era vice. Ele não tem até agora um projeto próprio e segue o projeto e os compromissos do Doria; a privatização em massa, a privatização da saúde, da educação, das creches especialmente, a privatização dos parques públicos, enfim, ele não trouxe um programa de governo. Portanto ele não tem cara como gestor público, ele é um mero seguidor do Doria, que disputa com Bolsonaro a presidência da República. Ele nem é uma liderança política, ele vem na sombra de uma outra liderança política que é perversa”

Márcio França: “O Márcio França eu conheço bem, porque eu fui do partido dele, fiquei 19 anos no PSB; ele é um contador de votos. Primeiro ele nunca saiu da presidência do partido, está há décadas na presidência, o partido é dele, ele se coloca como candidato, mas não adota nenhuma democracia interna. Quando termina qualquer eleição, ele olha o mapa eleitoral, vê quem se saiu bem mas não se elegeu e vai lá e seduz o cara ou a cara e diz: “Olha, você teve tantos votos e se você vier para o meu partido, você vai se eleger na próxima”. Então ele traz as pessoas a partir de uma promessa de que vai garantir a próxima eleição, e é assim que ele vai construindo o partido, calculando votos de pessoas de outros partidos até que se cumpram os desejos e objetivos dele. E qualquer um serve, ele foi vice governador do Alckmin e depois prefeito de São Vicente, e uma das críticas que se fazem a ele é que
ele encheu o governo com familiares dele”

Lula: “O regime presidencialista tem um problema que é o fato de que para conseguir governar, só com coalizão. E em geral essas coalizões levam a perder as condições para se cumprir aquilo pelo o que se conquistou o poder. E aí se coloca a questão da governabilidade, então se o governante não constrói uma base popular forte, militante, organizada, politizada e presente – e não houve um empenho nesse sentido -, não consegue governar”

Luciano Huck e Sérgio Moro: “É uma chapa muito esquisita, mas está muito de acordo com o panorama que se instalou no país a partir de um certo momento. O juiz Sérgio Moro é aquele que ameaçou as grandes figuras do establishment brasileiro e depois virou ministro no governo, perdeu sua condição como juiz e perdeu a liderança que tinha na sociedade brasileira. Ele não é mais o Moro celebrado, festejado e louvado como sendo aquele que perseguia os corruptos, prendia os  engravatados. Isso era uma retórica e agora vai se alinhar com outro [Luciano Huck] cujo único mérito que tem é ser conhecido na televisão com uma mídia que não prima pela educação política do povo”

A derrota de Trump: “Foi uma derrota contra o bolsonarismo, ou contra o próprio Bolsonaro. É uma derrota da direita radical, do representante desse espectro político- ideológico. E Bolsonaro não estar conseguindo o crescimento dos candidatos a prefeito aqui em São Paulo e no Rio de Janeiro, é mais uma derrota que se soma. Não vejo o Biden como um revolucionário, alguém que vai mexer nas questões estruturais e valores dos Estados Unidos, mas entre Trump e qualquer um, evidentemente
qualquer um é bem melhor”

Machismo estrutural na política: “A política é machista, aliás, a sociedade brasileira na raiz da sua cultura é machista sobretudo em relação ao poder. Porque uma mulher eleita para um espaço institucional, seja no congresso ou no executivo, é um lugar a menos para o homem, e o homem não é tão feminista. Mesmo se dizendo como tal quando chega na disputa do poder é ele que está em primeiro lugar. Tanto é que os projetos de lei que dizem respeito a nós mulheres, no Congresso
Nacional muito pouco se viabilizam porque não se tem o voto dos homens, que são mais de 2/3 das posições dentro do Congresso. Só nestas eleições de 2018 que se conseguiu chegar a 77 mulheres no Congresso”

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