Lula e Serra são a mesma pessoa!

Lula e Serra são a mesma pessoa!

Morris Kachani

11 Abril 2018 | 17h34

O ator Arthur Kohl fala sobre a incrível façanha de personificar dois ícones políticos de pólos opostos, nas telas*

Por Paula Forster

*Agradecimento ao escritor Michel Laub, que cantou a dica desta divertida reportagem

Ele que está na tela de milhões de telespectadores do mundo todo interpretando o ex-Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva, em “O Mecanismo”, série dirigida por José Padilha, é o mesmo que viveu na pele o personagem José Serra, em 2017, no longa-metragem “Real: a história por trás do plano”, dirigido por Rodrigo Bittencourt, com um público bem mais restrito – nos primeiros 40 dias em cartaz, atraiu somente 47 mil pessoas.

Pai de três filhas e com 62 anos de idade, Arthur Kohl mora há 30 no bairro de Caucaia, na cidade de Cotia, e se encontrou comigo em um café da Vila Madalena, na emblemática tarde da sexta-feira 6. Enquanto seguia o impasse sobre a prisão de Lula, no Sindicato dos Metalúrgicos, Arthur falava sobre o processo de construção destes personagens marcantes e sobre as críticas à série.

Kohl ficou conhecido, em 1991, por protagonizar um comercial da Brastemp, dirigido por Fernando Meirelles. Atuou também em papéis secundários, em séries como “Castelo Rá Tim Bum” e “Os Normais”. Participou também de “Malhação”, das novelas “Páginas da Vida”, mais recentemente de “O Outro Lado do Paraíso”, e das minisséries “JK” e ”Som & Fúria”. Com formação em jornalismo, ele ainda é locutor, dublador e artista plástico.

Descobri em Kohl uma pessoa de simplicidade ímpar, boa de papo, desconectada do mundo “internético” – “rede social para mim é uma cerveja no bar do trevo (risos)”. Que aprecia a vida interiorana quando não está na frente das câmeras, dedicando-se à culinária e à realização de trabalhos artesanais em madeira.

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“O PT fez o maior marketing que a Netflix já teve. ‘O Mecanismo’, na semana de lançamento, foi a série mais vista do mundo. Inacreditável. Mas as críticas não me afetam. Caramba, se a sua ideologia, se a sua filosofia e os seus princípios dependem de um folhetim que está passando em um canal de rede, ‘orra’, acho que precisa rever os seus princípios, porque é muito pouco para se alterar tanto.”    

“Os petistas pegaram muito na coisa do ‘caramba, colocaram uma frase na boca do Lula que foi dita por Romero Jucá’… Eu tenho várias respostas. A primeira é que se eu fosse diretor eu não faria. A outra é que eu acho que não faz diferença nenhuma.”

“Eu saquei que o Lula tem uma coisa de olho, que ao mesmo tempo em que está conversando com uma pessoa – ele está prestando atenção, porque ele é ladino, né?, no melhor dos sentidos – mas ele tem uma questão de olhar o entorno e é de leve isso. Eu moro na beirada do interior de São Paulo e tem muito cara que é assim lá. Muito político – vereador, prefeito – que você encontra tomando café na padaria, que vem e te abraça: ‘Oi, que prazer em vê-lo’, mas ao mesmo tempo a outra mão já está acenando para outra pessoa que está passando ali. É comum aos políticos. Também percebi que quando Lula está nervoso, fica assim – balançando o corpo para frente e para trás na cadeira. Essas coisas ajudam a compor o personagem.”

“O Serra tem um jeito de falar quase ‘PSDbedica’, muitos caras do PSDB têm isso. Uma coisa meio professoral, mas que tem um ‘ai meu deus, deixa eu explicar para essa menina que ela está tão longe da onde eu já cheguei’. É uma coisa paternal meio à moda antiga: ‘presta ação, estou te ensinando isso’. É aquela coisa: somos a igualdade, mas eu estou um degrauzinho acima de você.”

“O Lula e o Serra também têm um traço muito igual que é a obstinação. Eu vi uma entrevista com o Serra em que ele diz que estava largando o governo e se lançando candidato a presidente, porque o Brasil precisava de uma pessoa como ele – e ele falava do fundo do coração. Poxa, que incrível uma pessoa achar isso de si mesma. Porque geralmente é o outro que pensa isso de você. Os ouvintes de Maria Bethânia falam isso dela, por exemplo, mas ela não diz isso sobre si mesma. Essa coisa o Lula também tem: ele acha que é imprescindível. É uma característica que dá uma força política para os dois.”

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Como é interpretar o Lula e o Serra?

Tinha um grande ator amigo nosso, que já morreu, o Chiquinho Brandão, que dizia que a única característica indispensável a um ator é ser um bom mentiroso. Você faz um assassino e nunca matou ninguém, faz o dono da loja e nunca teve loja, faz um tarado sexual e nunca teve tara. [Fazer o Lula e o Serra] é engraçado, porque foi coincidente, né? Uma gravação foi perto da outra.

Fiquei triste que o Serra não gostou da minha interpretação. Ele disse que nunca usou terno listrado (risos). As reações de políticos são ótimas (risos). E aí veio esse convite do José Padilha para fazer o Lula e eu achei muito interessante.

Você está calcado no “cara”, mas não é para fazer uma imitação, não é para “fingir que é” – estou falando como trabalho de ator. Eu sou um cara grande, comprido, o Lula é baixinho. Somos geminianos, isso ajuda um pouco (risos). Então, é um exercício interessante, prestar atenção como a pessoa age, como reage, os gestos, os pequenos detalhes, e tentar, na medida em que isso é possível, imaginar como funciona a cabeça do Lula, por que agiu como agiu e escolheu esse caminho – independente das críticas, de ser de direita ou de esquerda, mas é interessante pensar que ele é um cara que veio da onde veio e tomou o tamanho que tomou. E nesse momento é uma figura muito presente, que acaba criando esse amor e ódio.

Como que foi o processo para se aproximar da representação do Lula?

Foi divertido. Hoje em dia tem a figura de preparador de elenco, que é muito legal. Tinha uma mão muito boa, que te alertava de algumas coisas, te lembrava de outras. Com o Lula, eu fiz a mesma coisa que fiz com o Serra: eu fui ver muita coisa no youtube nos intervalos da vida política da pessoa. Então, eu vi muita coisa do Serra no momento em que ele deixou de ser prefeito e ainda não era governador, porque ali tem mais a presença do “cara”. E ficava me atentando em pegar os detalhes, que acabam ficando guardados no inconsciente das pessoas – e quando você faz igual, vem a mensagem ao telespectador. Do Lula, eu peguei para assistir algumas entrevistas mais longas, onde o “cara” se abre mais, se expõe mais.

Hoje em dia, com a quantidade de acesso às imagens em movimento, você vai pegando os jeitos.

O que conseguiu sacar do Serra e do Lula assistindo a estes vídeos?

O Serra tem uma coisa de juntar as mãos quando está falando determinada coisa e ele não separa mais. Ele acaba de falar sobre aquele ponto e não desgruda. É interessante.

Eu saquei que o Lula tem uma coisa de olho, que ao mesmo tempo em que está conversando com uma pessoa – ele está prestando atenção, porque ele é ladino, né?, no melhor dos sentidos – mas ele tem uma questão de olhar o entorno e é de leve isso. Eu moro na beirada do interior de São Paulo e tem muito cara que é assim lá. Muito político – vereador, prefeito – que você encontra tomando café na padaria, que vem e te abraça: “Oi, que prazer em vê-lo”, mas ao mesmo tempo a outra mão já está acenando para outra pessoa que está passando ali. É comum aos políticos. Também percebi que quando Lula está nervoso, fica assim – balançando o corpo para frente e para trás na cadeira. Essas coisas ajudam a compor o personagem. Além disso, os outros atores dão bons palpites também: “essa hora, não levanta não, você tá tranquilo”. Você vai acertando com quem está dividindo a cena.

Que mais? Tem mais alguma característica?

Ah, o Lula tem um negócio de ficar mexendo na barba e também tem uma coisa de encontrar todo mundo abrindo o braço para dar um abraço: “oh minha querida”. É legal pegar essas coisas que remetem ao cara, sem tentar ser imitação, porque se não a chance de cair na caricatura é perigosíssima. Se alguém parar aqui na frente e falar “a-ha-hai”. Você fala: Ok, Silvio Santos, que mais? Então, o legal é quando você consegue pegar pequenas coisinhas que depois que o cara vê ele fala: “é isso que está batendo… o movimento, o jeito, o olhar”.

O Serra tem um jeito de falar quase “PSDbedica”, muitos caras do PSDB têm isso. Uma coisa meio professoral, mas que tem um “ai meu deus, deixa eu explicar para essa menina que ela está tão longe da onde eu já cheguei”. É uma coisa paternal meio a moda antiga: “presta ação, estou te ensinando isso”. É aquela coisa: somos a igualdade, mas eu estou um degrauzinho acima de você. O Serra é um homem inteligentíssimo, ele fala com um raciocínio linear e vai listando os motivos para chegar ao que vai dizer lá no final.

Tem alguma semelhança em fazer o Lula e o Serra?

Eles têm o lado do “homopolíticos” – que é outra coisa que está em discussão na série né? Política se faz assim, políticos agem assim. É que nem no Supremo – o sujeito está com vontade de mandar o cara “à merda”, mas ele fala “Vossa Excelência”. Existe uma postura.

O Lula e o Serra também têm um traço muito igual que é a obstinação. Eu vi uma entrevista com o Serra em que ele diz que estava largando o governo e se lançando candidato a presidente, porque o Brasil precisava de uma pessoa como ele – e ele falava do fundo do coração, não estava no palanque, estava em uma entrevista. Ele falava, do fundo do coração: “Eu tenho uma importância, uma inteligência, uma visão geral, que o Brasil precisa de mim como presidente”. Poxa, que incrível uma pessoa achar isso de si mesma. Porque geralmente é o outro que pensa isso de você. Os ouvintes de Maria Bethânia falam isso dela, por exemplo, mas ela não diz sobre si mesma. Essa coisa o Lula também tem: ele acha que é imprescindível. É uma característica que dá uma força política para os dois.

Alguma diferença entre fazer estas personalidades?

Olha, não sei… a gente volta naquela história, né? Tem que mentir de um jeito e mentir de outro para fazer (risos). O Serra é paulistano, a família dele é de comerciantes do Brás, então tem esse sotaque aberto do paulistano, com um jeito italiano. O Serra é tão paulistano quanto eu. Foi criado quase que no mesmo “ecossistema”. Então tem coisas no jeito, nas referências de memória dele, que são minhas também, porque sou paulistano, também vim de família pequena, fazendo pequenas coisas em São Paulo.

O Lula tem uma história completamente diferente, que acho que justifica um pouco o jeito do “olho” dele que a gente comentou. É um cara que desde muito menino precisava ficar de olho: “Opaaa, não mexe nisso aqui não, que isso aqui é meu” (risos). O Serra fechava a porta de casa e ninguém entrava na casa dele. Essa diferença socioeconômica da história dos dois, acho que faz muita diferença na postura de cada um.

A hora que o Lula usou aquela expressão: “Mataram a Jararaca, mas não bateram na cabeça, a jararaca esta mais viva do que nunca”, ele está se definindo muito bem – e não estou falando nisso pejorativamente. Ele está dizendo: “eu tive que ser uma jararaca para sair da ‘merda’ que eu estava e chegar aonde eu cheguei” – e aí você entra no mérito de julgar se os métodos para sair de lá foram bacanas ou não, aí é outra história, mas como pessoa, ele teve que arrastar um caminhão.

O que você sentiu ao interpretar Serra e o Lula?

Olha… o Serra foi uma participação bem mais rápida, um trabalho mais curto e ele também é um cara menos presente na vida da gente, né? Por mais que ele tenha sido prefeito, que a gente saiba quem ele é, com suas vantagens e desvantagens, gostando ou não.

Em relação ao Lula, quando me mandaram o roteiro da série – e eu gostei, achei super bem escrito -, eu liguei para o produtor e disse: “eu não entendi, eu vou fazer quem?”. Quando ele me contou, que eu faria João Higino, eu pensei: “‘porra’, interessante. Não é o assessor, é o cara”. E eu fiquei pensando muito nisso. É muito fácil nesse maniqueísmo que a gente vive dizer: “o Lula é um filho da puta, é um desgraçado…”. Tem cara que nunca soube de nada, é da classe média de Sorocaba e que você encontra dizendo, “lá no Sindicato ele já roubava”.

Eu fiquei pensando como é para o cara ser quem ele é, como é na cabeça do cara ter tomado um caminho que ele não pode voltar atrás. Porque isso é uma coisa que me impressiona nos políticos, nenhum deles volta atrás e diz: “foi mal, errei, isso aqui foi uma cagada”.

E como ficou a vida depois de ter feito o papel do Lula?

Ah, eu entro no comércio lá perto de casa e – na brincadeira, essas coisas de interior –as pessoas falam: “Opa, por favor, seu presidente, entra aqui”. E eu fico assim: “caralho”, eu estou representando a bola da vez, né? Que responsa. Acabaram de dar o tiro, né? O cheiro de pólvora está no ar aqui para gente. É legal o retorno que recebo dos amigos, de pessoas do meio dizendo que não fui atrás da caricatura, que representei ele de verdade…

Como ator, eu faço um personagem, faço outro e assim segue. Mas fazendo o Lula, é marcante.

Com esses acontecimentos, estou mudando a forma de olhá-lo como pessoa. Eu fico pensando o que está passando na cabeça dele. Eu acho tão significativo – embora não saiba o que isso significa – que ele tenha ido passar a noite no Sindicato dos Metalúrgicos, com os “brothers” dele, tomando uma cerveja. É engraçado, depois dessa volta enorme que ele deu na vida, ele é daquela turma, é lá que ele fala “vou me resguardar” – por mais que tenha gente que fale que isso é uma jogada política, para mostrar que ele veio do povo. Tá bom, que seja. Mas ele tinha 50 mil lugares para escolher e ele escolheu lá.

Fico pensando também o quanto que isso está mudando para as pessoas que me veem interpretando ele. O cara petista está “puto” com a série e os antipetistas estão: “oh demais, mostra mesmo como ele é podre”. Mas a série só está mostrando como o mecanismo é podre. Fico pensando o quanto que tudo isso vai mudar esse ângulo das pessoas.

Eu acho incrível que a gente esteja vivendo em um mundo em que as pessoas estão passando na rua e gritam: “Chico Buarque, filho da puta, seu viado, vai pra cuba”. Que é isso, sabe? Chico Buarque é como o Mozart. Você pode não gostar, não curtir as músicas dele, não escutar. Ok, mas essa tachação? Ele tem uma importância na nossa constituição como povo, como nação, como identidade brasileira, que merece respeito.

Essa sua forma de olhar o mundo, tem a ver com o seu trabalho? Essa forma de ver os políticos como ser humano…

Como ser humano e capaz de coisas legais, como também capaz de fazer muita merda, como todos nós.

Eu circulei muito no mundo e só tenho três pessoas na minha lembrança em que eu tinha a sensação de que eram pessoas do mal. De resto, todo mundo está tentando acertar, tentando ser feliz.

O Serra é um cara que quer ser feliz, o Lula é um cara que quer ser feliz… aí mete o pé pelas mãos, erra, acerta, faz burrada, mas está todo mundo buscando ser feliz.

Tem uma coisa que eu penso muito em relação não só aos políticos, mas aos famosos em geral. Se você pegar o Serra, vestir nele uma camisa pólo listrada, calçar uma sandália e colocar ele andando na Santa Efigênia comprando três metros de fio e prestar atenção em volta, vai perceber que tem cinco mil José(s) Serras pelos bairros de São Paulo. Eu sempre fico pensando nisso, mas aí de repente vira uma coisa icônica: o Serra é o vampiro brasileiro. Imagina a quantidade de Anitta(s) que não estão aí esperando o ônibus na Avenida Teodoro Sampaio. Isso leva a gente a lembrar que todo mundo é igual. Tem um lado do cara que é comum.

Não consigo olhar e falar assim: “O Lula é um filho da puta, interesseiro”. Ele foi filho da puta em um monte de momentos, ele foi interesseiro em um monte de momentos, mas assim como o Serra, assim como meu amigo borracheiro… Eu acho isso das pessoas em geral.

Acho sim que tem um monte de coisa errada e que vamos ter que arranjar outros caras para estes postos para continuar melhorando – eu acredito que o Brasil está melhor do que antes e vai continuar melhorando.

Como era o clima nos sets do filme “Real: a história por trás do plano”?

O set do longa-metragem era bem tranquilo, mas eu tive menos tempo de convívio, porque filmei poucos dias. Senti um clima bastante neutro, politicamente falando, mas ao mesmo tempo tinha no ar algo de “o FHC era outro nível” – se é que me entende – afinal tivemos até a visita dele no set um dia.

E nas gravações do “O Mecanismo”? Rolava algum clima pró ou anti-PT? Alguém levantou essa bola durante as gravações? 

Não, não havia clima pró ou contra Lula, nem pró ou contra PT. Senti até, em alguns momentos, um clima de dureza por estar contando aquela história. O roteiro nos fazia pensar no quanto é difícil encarar a realidade dos fatos algumas vezes.

Qual sua impressão pessoal sobre o Padilha? 

É a primeira vez que eu trabalhei com o Padilha. Foi muito bom. Ele é um cara elétrico, agitado, tem o jeito carioca… e ele sabe muito bem o que quer e faz com muita consciência e inteligência. Não é de hoje que ele se mete em temas polêmicos. No geral, ele tem muita objetividade e consegue um clima bem legal no set, há ânimo no ar.

Quais suas convicções políticas? Já votou no Lula ou no Serra?

Nunca votei nem em um e nem em outro. Não acredito na política que é feita nos dias de hoje, acho tudo muito antigo, tanto as ideias, quanto os métodos. Mas de todo modo tendo a acreditar que o melhor caminho está mais para a esquerda, se é que essa divisão ainda faz algum sentido.

As críticas à representação do Lula, à série… elas te afetam?

Não me afeta. Só acho uma pena, porque vi uma dureza ideológica, o cara deixa de apreciar uma obra que tem leituras interessantes. Acho muito excessivo: caramba, se a sua ideologia, se a sua filosofia e os seus princípios dependem de um folhetim que está passando em um canal de rede, “orra”, acho que precisa rever os seus princípios, porque é muito pouco para se alterar tanto.

A série é obviamente baseada em fatos reais – por isso que gera esse barulho todo –, mas é uma obra ficcionada, é um folhetim, tem a brincadeira da ficção. É o que na minha adolescência seria a novela das oito, que todo mundo parava para ver. E ela cumpre esse papel. Você senta para assistir um e acaba vendo três episódio. É um entretenimento.

Acho uma pena que a esquerda se perca dessa ideia. As pessoas pegaram muito partidariamente, e a visão se apequenou. Os petistas pegaram muito na coisa do “caramba, colocaram uma frase na boca do Lula que foi dita por Romero Jucá”…

Ia te perguntar sobre isso, inclusive. O que acha dessa crítica?

Eu tenho várias respostas. A primeira é que se eu fosse diretor eu não faria. A outra é que eu acho que não faz diferença nenhuma. Na mesma série tem uma cena em que o Lula senta ao lado de Dilma e fala: “você precisa trocar a cúpula da Polícia Federal”, ela diz que não e ele insiste: “me escuta uma vez na vida, criatura”.

Mas sobre isso o PT não falou nada e é muito parecido, como atitude, você dizer “precisamos estancar a sangria” ou você dizer “precisamos mudar o chefe da Polícia Federal”. Você está querendo interferir no andamento das coisas em uma seara que não é para você interferir.

Por outro lado, não adianta também falar: “tá vendo, independente de estar na boca dele ou não, ele é um filho da puta”. Não, ele não é um “filho da puta”, ele é um político. Todo problema é que ele virou um político como todos os outros. Um dos caras que saiu em defesa feroz dele ultimamente foi o Renan Calheiros. “Cara”, eu não queria Renan Calheiros meu amigo, me dando uma força, mas na política isso vale. É um jogo que sempre foi feito. E é isso que o mecanismo mostra: é uma coisa viciada da sociedade e não particular desse ou daquele partido, que está presente no “macro” e no “micro” da sociedade. Isso que é importante discutir e pensar. “Oh não tem jeito de esquecer essa multa aí. Quatro pontos na minha carteira, ‘cenzinho’ aqui na mão, eu prometo não mais ultrapassar”. E parece razoável isso, né?

A repercussão foi grande mesmo, assisti a série, tantos comentários que vi a respeito, fiquei curiosa…

O PT fez o maior marketing que a Netflix já teve. “O Mecanismo”, na semana de lançamento, foi a série mais vista do mundo. Inacreditável. Eu achei interessante a ideia de mostrar que é um mecanismo que vai continuar funcionando na sociedade e é isso que é assustador, porque o PT entrou na política com o discurso de que iam mudar essa “parada” e não mudaram, acabaram entrando no mecanismo. É um fato e, em cima do fato, você pode criticar ou não, mas não precisa chegar aos ódios, nessa coisa visceral que chega hoje em dia.

O Lula teve a maior aprovação histórica de presidente no Brasil, ele poderia ter chegado e dito: “olha, tem caras retrógrados querendo me pressionar. 85% da população que gostam de mim, fiquem atentos”, ao invés disso ele foi tirar foto no jardim com o Maluf. É uma opção dele. Ok. E é um fato histórico hoje em dia, que já passou. A série mostra isso. Mas a série mostra também os machistas “filhos da puta” que existem na Polícia Federal, por exemplo.

E você como ator, como acha que é estabelecida essa relação entre arte e política?

Acho que tem de tudo. O filme “A lei é para todos” fechou uma colaboração com a Polícia Federal, que ajudou na pesquisa, facilitou as coisas, os carros no filme estão com a nomenclatura “Polícia Federal”, em “O Mecanismo” estão como “Polícia Federativa”. A Polícia Federal ofereceu a mesma coisa ao Padilha em troca de ver o roteiro, e o Padilha preferiu deixar para lá. Acho mais interessante essa postura e eu faria assim também, se não você perde a chance, por exemplo, de mostrar que nesse mecanismo também tem os podres na Polícia Federal. Acho que são posturas e caminhos diferentes, não é o que define a qualidade de um trabalho artístico. É escolha pessoal. Eu procuro sempre fazer as minhas coisas com recursos próprios.

O que você acha que está no inconsciente coletivo da nossa sociedade brasileira hoje?

No fundo no fundo, estamos vivendo na borda de um momento em que está todo mundo dizendo assim: “esse jeito que a gente inventou de viver em sociedade, de tocar as coisas, de fazer comércio, de cuidar da natureza, não rolou. Precisamos pensar alguma outra coisa para entrar no lugar disso que a gente acha que é o estabelecido. Não está mais fazendo sentido”.

Pelo lugar onde eu moro e pelo meu jeito, tenho amizades muito simples. Tenho amigos próximos que são carteiros, borracheiros, auto elétricos, vendedor de material de construção. As pessoas percebem que não faz mais sentido a ideia econômica como está funcionando. Então, isso é uma coisa que está no inconsciente coletivo de todo mundo.

Sabe o “Baile da Ilha Fiscal” – o último grande baile do Império antes de ser proclamada a República? Foi um vale tudo, porque depois daquela, não adiantava mais ter o título de duque ou de barão, acabou para eles… Acho que vivemos um pouco isso. Por mais que tenha muita gente pensando que é preciso mudar, tem muita gente falando que já que é o fim da festa, antes de acabar, preciso garantir o meu. É a última corrida. Inclusive por muito medo de experimentar o novo esquema, porque é sempre mais trabalhoso. Por isso toda essa violência, tem gente querendo na marra que as coisas não mudem – de um lado e de outro.