Lula, por Bob

Lula, por Bob

Morris Kachani

19 Março 2018 | 12h46

Uma jam session com o fotógrafo Bob Wolfenson

Tudo começou com uma conversa no bar Balcão, quando por acaso, topei com o Bob Wolfenson: tão eloquentes são as imagens de nossos políticos que os jornais estampam, que talvez fosse o caso de nos determos em algumas para analisá-las, a fim de entendermos melhor as entrelinhas do poder. A velha ideia de que uma boa imagem pode valer mais que mil palavras…

E o Bob, rei dos retratos, dos ensaios de moda, dos nus, herói da resistência da fotografia autoral, nestes tempos de instagram… curtiu a ideia de fazer este trabalho.

Então entrei em contato com a turma da editoria de fotografia do Estadão, que me enviou uma seleta de imagens dos bastidores da política nacional, para que o Bob as analisasse.

Fui visitá-lo em seu estúdio, em uma agradável tarde de temperatura amena no verão. Espantei-me com o espaço. Acho que o escritório dele é um dos mais bonitos que já conheci. E olha que já entrevistei em seus ninhos presidentes, CEOs, banqueiros, socialites, artistas em geral…

Moraria nele, rs

Não estamos falando de ostentação. Os móveis são bonitos e tal, tem uma bela estante de livros, fotos maravilhosas nas paredes. Mas o que chamou a atenção mesmo, foi a mirada do belo jardim, estilo japonês, com uma portentosa cerejeira, cercada de pedriscos brancos, que se avista do janelão.

Fiquei feliz por vê-lo assim acomodado naquele espaço…

Decidi dividir esta reportagem em dois posts. No primeiro, Bob analisa algumas fotos de política (Carmen Lucia, Temer, Doria, Alckmin…) feitas pela turma do Estadão, e por fim acaba revirando seu baú, mostrando os retratos que ele próprio fez do Lula, como este que ilustra o início deste post, com divertidos comentários de bastidor.

E, amanhã, devo postar a entrevista que fizemos depois desta jam session com as fotos. Foi uma conversa mais íntima e sincera, cheia de revelações surpreendentes.

Foto: Dida Sampaio/ Estadão

Eu acho que aqui tem uma coisa da solidão do poder, dos corredores do alto poder brasileiro. Também tem uma piada na placa da porta. E um pouco de moda; o jeito como ela está vestida, como se veste uma ministra do Supremo, uma presidente do Supremo Tribunal Federal em 2018. Com o que parecem ser dois penduricalhos de cortina no casaco.

Você conhece o conceito de punctum, do Roland Barthes? O elemento essencial de uma fotografia é o tal do punctum, que, em geral não está explicitamente colocado.

Punctum seria ponto mesmo?

É. Qual o ponto onde você resolve as questões que estão sendo colocadas na foto. Talvez esse cordão de isolamento fora de foco aqui seja o punctum.

Interessante.

Esse cordão de isolamento diz muita coisa. Pelo fato de estar fora de foco, você não percebe, você já olha pra ela, vê a expressão. O primeiro elemento que me veio nessa foto foi uma certa melancolia do poder, o isolamento. Esse cordão reafirma isso de uma certa forma: não ultrapasse essa área. Ela está protegida.

Vamos pra próxima.

FOTO: Patricia Cruz/ Estadão

Essa é engraçada. Você vê um cara seco, todo empedernido. Tratando de um fato em que as pessoas estariam muito mais atingidas: a chuva. Não estariam com toda essa fleuma, essa pompa. É uma piada também. Um cara super protegido dessas chuvas de verão, é quase como se ele vivesse numa redoma.

FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

Essa é a foto típica do político que se vende como tal. Um homem atarefado, cheio de papéis pra resolver, acenando pra o povo, com esse cenário de uma certa austeridade atrás, personificando a caricatura do político.

FOTO: ANDRE DUSEK/ESTADÃO

Essas fotos de políticos são muito engraçadas, porque é muito fácil fazer isso. Se você pega o cara no meio do caminho você tem essa coisa mais anedótica.

As mãos do Temer parecem que falta um dedo. Talvez ele esteja imitando o Lula.

Eu vejo como política a escolha dessas roupas, dessas gravatas, os ternos. É uma coisa que deve tomar bastante tempo desses caras. Uns são muito mais, digamos, relax com isso, outros me parecem muito preocupados com a aparência.

FOTO: FABIO MOTTA/ESTADÃO

Essa é ótima. Pra mim é o que há de mais trágico na política. Acho que é no mundo inteiro, não é privilégio do Brasil, não. Acho que todo político tem um pouco essa… aí juntou três, ao meu ver são três pessoas que eu não admiro.

Um bando masculino, uma coisa feia de homem. O fotógrafo David Bailey, que eu admiro muito, dizia: “Não há nada mais feio que cinco homens dentro de um carro”. Eu acho que não há nada mais feio do que muitos homens juntos numa coisa política, num clube do Bolinha.

Eu fiquei olhando um pouco o visual dos ternos de cada um também, né.

Até que o Crivella está arrumado, né. Achei o Crivella o mais elegante dos três.

E eu fico sempre pensando: esses caras são mais novos do que eu…

FOTO ALEX SILVA/ESTADÃO

Eu acho que a Lula tem todos os símbolos dele. Acho um símbolo forte isso da falta do dedo. Mostra uma trajetória, um percurso. Ele está sereno. Provavelmente isso é depois da condenação. Ou é antes?

Depois.

Ele me parece sereno.

E essa camiseta está engraçada. Ele de camiseta preta, meio justinha, meio babylook. Está fazendo musculação.

Você já fotografou ele?

Muitas vezes. Tenho vários retratos dele, desde os anos 70. Fiz foto pra campanha, fiz foto pra jornais.

FOTOS: BOB WOLFENSON

A primeira vez foi nos anos 70. Era um líder operário emergente e me mandaram lá para São Bernardo. Estavam ele, dona Marisa e os filhos pequenos. Tinha uns líderes sindicais também, ele estava em uma reunião. Aí ele saiu, nem se interessava, não estava com o menor interesse para fazer aquilo. Mas tinha enfim um pouco de vaidade, cálculo político. A foto era para uma revista chamada Senhor Vogue.

E eu tenho também uma série dele de terno e gravata, já não me lembro se para a capa da Senhor Vogue também, ou para a Nova (Cosmopolitan). Também não recordo se fui para lá uma ou duas vezes para este trabalho.

Enfim, é uma série dele de terno e gravata, em uma casa muito humilde, com as paredes todas puídas. Essa é uma boa história. Alguém vestiu ele -a gente levou um produtor-, porque a ideia da capa tinha um quê de subversão, no sentido entre aspas da palavra subversão. Os editores queriam colocar um líder operário de terno e gravata, meio domesticado, as ambiguidades da elite. Então a gente colocou ele de paletó e gravata, e eu me lembro que ele ficou de cueca. E eu comecei a fazer as fotos assim, com ele de cueca, paletó e gravata.

Já não me recordo direito, faz 40 anos. Já não recordo se ele colocou a calça depois porque tem umas fotos em que ele está com a calça…

Enfim, não fiz nenhuma foto em que aparecia a cueca, até por um certo pudor. Mas eu me lembro disso ter acontecido.

Depois nos 80, 90, fiz fotos exclusivamente para sua campanha, fiz por altruísmo. E depois, já para a Folha de S. Paulo, fiz um retrato clássico. Era uma foto do FHC e outra dele, acho que foi em 98, no dia da eleição.

Como era sua sensação no contato pessoal com ele?

Olha, foram momentos muito diferentes. Uma coisa de 40 anos atrás, outra de 20, 25. Nunca mais o vi, depois da presidência. Mas eu acho que foi sempre… a não ser no momento da campanha, que ele estava muito tenso, quando eu fiz as fotos para ele mesmo, eu achei que ele estava um pouco… digamos assim, seco. De resto sempre achei ele colaborativo. Mas ele não é assim uma simpatia né? Um cara super atarefado, cheio de questões, que estava diante de um mero fotógrafo…