Mangabeira Unger: para acordar a genialidade adormecida da Nação
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Mangabeira Unger: para acordar a genialidade adormecida da Nação

Morris Kachani

13 de novembro de 2019 | 11h11

Foto: Jamil Bittar/ Reuters

O auditório do primeiro andar do Largo São Francisco ficou pequeno, para receber o tanto de gente que compareceu ontem para uma homenagem ao filósofo Roberto Mangabeira Unger, da qual fizeram parte também o músico Caetano Veloso e, mais cedo, o político Ciro Gomes.

Era o painel intitulado “Filosofia, Política e Direito para a emancipação política”, coordenado por Alessandro Octaviani, com palestras dedicadas à interpretação da obra do professor de Harvard (Obama foi seu aluno) – 16 livros sobre filosofia, teoria social e direito, além de duas passagens como ministro nas gestões petistas – , que se estendeu desde a manhã, até o turno da noite, quando aconteceu a homenagem propriamente dita.

Introduzindo o encontro, seu conterrâneo Caetano deu um show, chegando a entoar um samba de roda, com acompanhamento da plateia entusiasmada e formada basicamente por alunos da instituição, batendo palmas. Era uma composição de seu filho Moreno, com alguns versos que serviriam de inspiração aos escritos de Mangabeira Unger:

Eu sou a base do supremo absoluto impessoal

Da eterna natureza do poder transcendental

Eu sou eu sou, transcendental

“Acho que o Brasil não pode desperdiçar essa potência intelectual que é Mangabeira”, disse Caetano, para depois citar a fala de um ex-professor de seus tempos no colégio: “o Brasil é tão grande, mas tão grande, que não cabe no abismo”.

E então passou o microfone para Mangabeira Unger, que, com seu sotaque meio baiano meio americanizado, começou falando sobre sua infância e duas experiências que lhe foram decisivas. Mencionou a mãe que lhe lia “A República” de Platão aos 7 anos, para espanto da plateia (“eu não entendia tudo, mas começou ali uma paixão pelo pensamento, na sua expressão mais ambiciosa”), e a influência que seu avô Otavio, que foi governador da Bahia, e fundador da UDN, exerceu sobre ele. “Passava minhas férias com ele e a seu lado desfilava no desfile de 2 de julho, quando a Bahia comemora sua independência. Era uma experiência mágica. Sugeria a ideia de uma vida maior – a vida no palco da história”.

E então desatou a falar sobre suas duas grandes paixões, filosofia e política.

“Filosofia não como especialidade acadêmica mas como pensamento em guerra insistindo na prerrogativa de tratar daquilo que é impensável, indizível – as coisas que mais importam. E a política como corrente transformadora na ideia de dominar a estrutura dada e reinventá-la. São para mim as 2 atividades mais merecedoras de uma vida humana. Porque elas dizem respeito a tudo, e exigem tudo – uma mobilização completa das emoções”.

Mangabeira dividiu sua apresentação em 3 partes: sua relação com a circunstância histórica, o desenvolvimento de sua obra e pensamento, e por fim, sua relação com o Brasil.

Sobre a circunstância histórica: “a minha vida ocorreu em um interlúdio contrarrevolucionário. Um longo período revolucionário na história da humanidade. Um grande projeto que acendeu fogo em todo mundo. Este projeto teve duas vertentes. Uma delas política, sustentada pelas doutrinas do liberalismo, do socialismo e da democracia. E uma vertente personalista, que foi sustentada pelo romantismo, e agora pela cultura romântica popular, que repercute em todo mundo, e que em todo mundo traz a mensagem da divindade das pessoas comuns. Este é o projeto mais poderoso do mundo. Continua a ser o projeto mais poderoso do mundo. Não é que não tenha inimigos. Mas é o projeto que comanda a agenda da humanidade, e todos os outros projetos reagem a ele. É o projeto mais forte, mas paradoxalmente agora fraco, porque seus adeptos como eu não sabem quais devem ser seus próximos passos. Nem no aspecto político, nem no aspecto personalista”.

“Muito cedo decidi a não permitir que minhas ideias e atos fossem controlados pelos preconceitos e pelas premissas desse interlúdio contrarrevolucionário. O que queria é que o projeto continuasse, que o fogo se alastrasse pelo mundo, que a revolução persistisse. Mas entendi que para persistir, ela tinha que ser reinventada nos seus aspectos políticos e personalistas e nas ideias que a sustentavam”.

“Fui profundamente influenciado pela experiência da geração de 68, que foi como a experiência de 1848 na história europeia. Um espasmo romântico e revolucionário durante esse intervalo contrarrevolucionário a que aludia. Apareceram slogans nas nações mais ricas, de que imaginação é poder. Não ficava claro o conteúdo, aquela onda arrefeceu. Os românticos amadureceram, ficaram adultos e abandonaram os devaneios de sua juventude. Eu, não. Me determinei desde muito cedo em traduzir aquelas ideias aparentemente vazias em conteúdo. Lembrando a advertência do poeta Blake: se o tolo persistisse em sua tolice, ficaria sábio”.

“Vejo em minha obra uma tentativa de analisar as premissas do pensamento moderno, para facilitar a rebelião contra elas”.

“No mundo contemporâneo, o reformista conservador é tipicamente um ex-marxista, um marxista desencantado. Ele pensa que a verdadeira mudança seria a revolução, mas a revolução é inacessível, e se fosse acessível seria perigosa demais. Então ele pensa que o que resta fazer é a humanização. Falso”.

“O pensamento ocidental embarcou em uma série de dualismos. Como se nós fossemos uma exceção ao regime geral do mundo – a divisão entre o reino da natureza e o reino da graça na teologia medieval, a distinção entre o mundo das coisas físicas e mentais em Descartes. Foi necessário alegar uma exceção milagrosa ao regime geral da natureza.

Seria importante encontrar outra posição. Não há leis imutáveis na natureza nem estruturas permanentes. Tudo que existe é efêmero e nem por isso menos real. Precisamos separar o critério da realidade do critério da eternidade. É a base para entendermos o mundo no qual o novo pode existir, um mundo aberto à imaginação, onde a transcendência possa fazer sentido”.

“A esquerda que encontrei na minha experiência foi uma esquerda menor que se apresentava no palco da história como humanizadora dos projetos de seus adversários conservadores. O que ela oferecia à humanidade era o açúcar. Dizia que tinha como objetivo supremo a igualdade, mas era a igualdade alcançada por políticas compensatórias, pela tributação progressiva e pelas transferências sociais. Não pela mudança das estruturas que determinava a distribuição fundamental das vantagens econômicas e educativas”.

“Nós não queremos planilhas fechadas. Queremos instituições econômicas e políticas que sejam corrigíveis, que organizem sua própria transformação à luz da experiência. Uma forma experimentalista e aberta das alternativas institucionais”.

“Na economia, a grande tarefa seria aprofundar e disseminar radicalmente a nova vanguarda produtiva – a economia do conhecimento, que leva a imaginação para a vida produtiva. Ela, a economia do conhecimento, existe hoje apenas na forma de franjas excludentes nas grandes economias. Excluem a grande maioria dos trabalhadores e das empresas. Para aprofundá-las é necessário disseminá-las. Enquanto continuarem a ser ilhas, serão motores de desigualdade e estagnação”.

“Na política, em substituição às democracias fracas, uma democracia de alta energia que não necessite de crise para propiciar mudança. Que derrube a ditadura que os mortos exercem sobre os vivos. Que acelere o ritmo superando prontamente os impasses. Por exemplo, com eleições antecipadas”.

“E uma educação que liberte a mente. Os currículos nacionais que encontrei são uma espécie de infantilização das ortodoxias da cultura universitária. Um casamento forçado entre matéria e método, emasculando os jovens para entregá-los às etapas superiores já condenados ao servilismo intelectual. O que precisa haver é o ensino analítico e dialético, que ensine cada matéria de pontos de vista contrastantes”.

“E na ética, um entendimento de como viver. Os dois modelos que temos na cultura ocidental são insuficientes. São o modelo da caridade cristã – uma forma radical de altruísmo-, e o modelo da aventura romântica, que é um narcisismo.

Precisamos de outra concepção, que faça justiça ao que há de mais profundo na própria cultura cristã e romântica. O infinito que há no finito. Para nos humanizar, precisamos nos aproximar desse atributo divino que é a transcendência”.

O amor é mais importante que o altruísmo. Altruísmo é o dom dado pelo superior ao inferior, à distância, sem risco íntimo. O amor, não. O amor é reconciliação com o outro, a imaginação com o outro, à custa do aumento da vulnerabilidade – o amor ao contrário do altruísmo é perigoso e portanto precisamos de outra concepção de como viver.

Precisamos das virtudes básicas. Como a coragem. Sem ela todas as outras se esterilizam. Ou a purificação, de distinguir o que é mais importante do que não é. Teríamos que formar na nossa civilização outra concepção de como viver”.

Sobre sua relação com o Brasil:

“Para mim o Brasil foi o grande terreno de viver essas ideias. Sempre entendi que o atributo essencial do nosso país é a vitalidade, uma vitalidade assombrosa, quase cega, uma pujança desmesurada. E a tragédia histórica. Nossa história tem sido condenar a grande maior dos concidadãos a viverem vidas pequenas por falta de instrumentos e oportunidades que permitissem transformar essa vitalidade em uma nação peculiar. Portanto precisamos de um projeto nacional.

Com relação aos grandes eixos no plano institucional, na economia primeiro seria necessária a democratização radical das oportunidades, pois o atalho para o crescimento através da indústria convencional não funciona mais. A alternativa é a economia do conhecimento que por enquanto funciona apenas como um conjunto de ilhas, de franjas excludentes. Temos que construir uma forma de incluir a economia do conhecimento.

Mas como preliminar, precisamos consertar as finanças do Estado, não para ganhar a confiança no mundo financeiro, mas pela razão oposta: para que o Brasil e seu governo não dependam dessa confiança, mas possam criar um projeto rebelde de construção nacional. Sabemos que a rebeldia nem sempre é premiada, mas a obediência é castigada invariavelmente.

Resgatar ao mesmo tempo a maioria dos trabalhadores que penam no purgatório da informalidade e da precarização, que vivem na sombra da ilegalidade. Há dois discursos sobre trabalho no Brasil e no mundo. O discurso corporativista sindical, de uma minoria organizada que sacrifica os interesses de uma maioria desorganizada.

E o discurso neoliberal que é só um eufemismo, trazendo em si uma flexibilidade que condena a maioria a uma insegurança econômica radical. Construiu uma série de regras ao lado da legislação trabalhista existente, que protege, representa e organiza a maioria precarizada e informal. Não pudemos ter uma escalada de produtividade no Brasil apostando em salário aviltado e trabalho desqualificado.

Na política, uma versão brasileira daquilo que chamei de democracia de alta energia. Elevar a temperatura, aprofundar o potencial de experimentalismo do regime federativo, para traduzir o projeto nacional na moeda das realidades regionais. A política regional deve ser entendida não como uma compensação, não como uma distribuição de esmolas, mas como dialética do vanguardismo, com cada região construindo vantagens comparativas de baixo para cima, e não impostas por Brasília.

Não temos guerra aqui. Na Europa por exemplo a mudança ocorreu com o impulso da guerra. Quando a paz volta, os europeus adormecem. Esquecem as dores no consumo. Não sabem ficar acordados em paz. Nós não podemos depender das guerras para proporcionar mudanças, precisamos de instituições que tornem esse processo de mudanças endógeno.

E na educação, uma maneira de aprender e de ensinar ao invés de guerrear contra nossos pendores. O Brasil é uma grande confusão criadora, uma anarquia, um país no qual o sincretismo é ao mesmo tempo problema e solução, a mistura de tudo com tudo. Por que colocamos uma camisa de força no brasileiro? Por que queremos transformar a criança do século 21 na criança francesa do século 19? É preciso romper com o enciclopedismo raso e o ensino dogmático e doutrinário.

Organizar no nosso país um ensino que afirme primazia da capacitação analítica sobre conteúdos mortos. Que prefira o aprofundamento seletivo à abrangência enciclopédica. Que rejeite a combinação de autoritarismos e individualismos na sala de aula e instaure um trabalho de equipe e cooperação, e que aborda todas as disciplinas sempre dialeticamente, de modos contrastantes. Tudo deve ser ensinado 2 vezes. Isso que vai acordar a genialidade adormecida da nação.

Esse projeto institucional tem que ter por contrapartida a mudança de consciência. Toda mudança revolucionária é política e religiosa. A forma tradicional da vida social no Brasil é uma mistura, uma troca da prepotência e do afeto. A sentimentalização das trocas desiguais. A alternativa a isso é a cultura moral, liberal e protestante fria, da autonomia, do respeito. E o que o Brasil quer na verdade é ser ao mesmo tempo livre e caloroso. Libertar-se sem deixa de ter calor, e para isso precisamos ter outra moral, outra concepção do potencial de nossa vida em comum, a partir do reconhecimento do impulso profético que está amplamente difuso em toda nação.

O que devemos querer é a aliança entre a vitalidade e a imaginação. Queremos a organização da sociedade e da cultura, que nos permita viver acordados.

Deste casamento resulta a grandeza. A grandeza compartilhada, a pujança casada com a ternura. É o que eu quero para os seres humanos, para o Brasil e para mim mesmo. É o que quero com mais fervor do que sei entender ou justificar”.

 

 

 

 

 

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