Maria Homem: menos Deus, mais Psicanálise
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Maria Homem: menos Deus, mais Psicanálise

Morris Kachani

10 de setembro de 2020 | 17h13

Assista à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=mVTN4DYmUeA

A causa divina é o melhor álibi para você estar fora da lei e realizar seu gozo de transgressão. Isso é um sintoma do Brasil. Flordelis, Bolsonaro, o catolicismo ou o crescimento do evangelismo representam um flerte com a perversão.

Não é para usar o nome de Deus para nada na terra. A discussão honesta seria tirar os deuses e o apelo à fé e ao foro íntimo do espaço público. Isso é modernidade.

Estou deslegitimando completamente qualquer lugar sacerdotal. Não é legítimo esse lugar. Pode ele ser transcendental, terreno, divino ou revolucionário. Todos devem pagar imposto e serem submetidos a uma mesma lei. Não fale em nome de alguém. Fale em nome próprio, essa é a única posição analítica ética.

A posição na qual se delega poder ao grande Deus, qualquer Deus – pode ser o Deus Lacan, o Deus Freud, o Deus Jesus, ela é filial. Isso é nosso masoquismo originário, uma posição infantil esperando que o ‘Grande Outro’ exista e te sustente. Uma estratégia para tirá-lo do lugar de não amparo que é o nosso lugar, dos humanos.

Deus hoje é uma mercadoria. Um produto incrível. Estamos na era do capitalismo imaterial. Alguém se coloca como mediador e te vende isso. Por que não tem imposto para igreja? Pelo amor de Deus, justamente (risos). A religião é um negócio. Ela é terrena. Uma formação da subjetividade humana. Não estou discutindo se há Deus, isso a gente não pode saber. Só que essa mediação é mercado, é poder. As igrejas são isso. O capitalismo vende coisas. Eu vendo a conexão do seu desejo de ligação com a transcendência, através de mim Deus vai te olhar te forma mais complacente. Que instrumentos eu tenho para fazer isso?

Flordelis tem o poder de transformação. É a grande mãe, a realização imaginária do arquétipo materno. É sensacional. O suprassumo do Brasil em todas suas mazelas, séculos de história.

Cuidado com aquele que precisa afirmar muito. Se tem muita força nessa afirmação é porque normalmente está afirmando para fora o que precisa negar dentro. ‘Eu sou super hetero, macho pra caralho’. Como é que é? Eu sei que tem algo aí. Você brocha, o feminino pra você te ameaça? Você não sabe onde pôr as mãos, tem medo desse tipo de mulher que está na arena, que dialoga e é inteligente? Vai precisar falar que ela é feia e inestuprável? Onde que está pegando? Seu pau sobe quando, como e por que? Você não sabe. E eu te digo, não é Deus, é o seu inconsciente e suas punções. Essa é a grande virada, o interessante da modernidade – você pode vir a saber. Você não sabe ainda, mas pode vir a saber.

Por menos Deus e mais psicanálise. Por menos transcendência e mais conhecimento de si e coragem de se escutar. Sem projetar, sem desmatar, negar ou armar a população. Deixa a terra girar.

Como assim liberdade de ir e vir, andar sem máscara ou deixar de tomar vacina? Não pode, é questão de saúde publica. ‘Não quero toxina no meu filho. O movimento Waldorf é super legal e interessante, porque meu corpo tem a sua própria maneira de se defender’. Não!

A adoção é o mesmo caso. Tem que regular, não pode fazer o que quiser. Você não é tão livre quanto você acha individualmente que é. Isso não existe. Se você se iludiu e achou que a modernidade era o grande palco da liberdade individual, pára o jogo e volta. A gente errou. Precisamos honrar o que está pactuado, o que é lícito e o que é ilícito. A gente é razão e irrazão. A gente é irracional. E você não é livre justamente porque tem inconsciente e pulsão. É preciso zelar pelo outro. Se beber não dirija. Feliz ou infelizmente não somos tão livres quanto chegamos a acreditar.

Maria Homem, psicanalista, pesquisadora, professora universitária, com mestrado na Universidade Paris 8, concedeu uma entrevista recente, comparando o Brasil a um paciente doente, que precisa se deitar no divã e passar por um profundo processo de análise. Ora, sendo assim, o caso Flordelis deveria ser objeto de pelo menos uma sessão…

E qual foi o crime da deputada federal, a mais votada no Estado do Rio, objeto de um documentário estrelado pela nata dos atores globais, que hoje goza de imunidade parlamentar? As investigações mostraram que ela foi mandante do assassinato do marido, o ex-pastor evangélico Anderson do Carmo, que já foi seu filho – um dos seus 55 filhos – e seu genro…

E isso é só a ponta de um iceberg enorme, que coloca Nelson Rodrigues no chinelo, como demonstra Maria nesta conversa de fôlego com Inconsciente Coletivo.

Uma conversa cara para este autor, que é libanês, estudou em colégio religioso, e conhece como os discursos exacerbados em nome de Deus são capazes de destruir uma nação e causar distorções na mente das pessoas. Sai dessa, Brasil. #menosdeusmaispsicanálise

É como se existisse uma aura de profetismo presente no espaço contemporâneo, que a modernidade recalcou e disse: ‘chega, Deus está morto e agora é com a razão; agora o Estado é laico. Então vamos usar a racionalidade para debater, fazer o Congresso, o parlamento, nosso acordo é esse. Escola, universidade, racionalidade, mídia, ciência pesquisa e realidade. Materialidade’.

Então você de alguma maneira deixou o imaterial, eventualmente transcendental, sob júdice, trancado. Quer dizer, isso você nunca conseguiu, porque é uma aspiração humana fundamental. Só que agora ela está explodindo na forma de vários profetismos. Flordelis, pastor Everaldo, Edir Macedo, Papa Francisco, Steve Bannon, Olavo de Carvalho, rabino Sobel… são figuras muito diferentes, mas que falam do anseio transcendente humano. Você quer deuses, você quer a verdade para a grande pergunta – quem somos, de onde viemos, para onde vamos. Narrativas vêm à tona e
dizem, tudo que está aí ou seja a modernidade e suas instituições – basicamente a ciência, a politica, a escola e a mídia -, não faz sentido. É uma guerra, uma outra lógica de mundo – porque a modernidade não entregou o que dela se esperava.

O conflito é muito mais profundo do que a gente imaginou. Havia um grupo que imaginávamos majoritário, um grupo que diria que a modernidade está posta, que supunha estarem pactuados os ideais da Revolução Francesa. Pelo Estado de direito democrático, da liberdade individual, da igualdade de oportunidades, da fraternidade, da redistribuição de renda. Eu estava achando isso muito claro. Acontece que esse jogo foi sendo colocado em xeque. Despontam as narrativas antes
muito marginais que hoje se autorizam o direito e eventual legitimidade para dizer que esse jogo é furado, que não somos iguais perante a lei, que há uma hierarquia e a tradição pré-moderna é a correta, a razão é um equívoco. Tudo isso é materialismo. E globalismo. Equívoco. Tem que ter Deus, hierarquia, patriarcalismo.

Eu não sinto – mas eu penso, que a terra não é o centro do universo. Essa passagem é contraintuitiva, tão inusitada, que até hoje há pessoas que dizem que não é assim. A terra pode não ser o centro do universo mas é o centro da vida, do humano. É preciso suportar essa ferida narcísica e reconhecer nosso pequeno lugar diante do universo e do outro. Eu branco não tenho privilégios sobre os outros.

O mediador entre os homens e os deuses se vale de um golpe retórico e simbólico para estar fora da lei dos homens. Dizer que está agindo em nome de Deus é roubar no jogo. ‘Eu posso adotar criança indígena, eu vi Jesus na goiabeira. Eu posso matar o marido’. A lógica transcendental é muito complexa para justificar nosso acordo terreno e laico. Por isso que a modernidade legislou que o Estado tem que ser laico. Porque se não, não se consegue fazer nem a lei e nem a punição. E não existe a lei sem a punição.

Existe muita discussão sobre conciliar fé e razão. Você se vê pequeno e parcial dentro de algo que te transcende. É uma conquista até analítica; a gente sai do narcisismo, reconhece que há o outro, o cosmos, o mistério. Constrói a humildade com relação aos outros. Mas o detalhe é quando alguém aparece e diz, ‘eu sei do que trata a transcendência; eu sou o sacerdote, eu sou o pastor’. Nesse lugar do humano e desconhecido, alguém entra no meio e se coloca como mediador (…) A psique tem um
lado negacionista. Você recalca o que não quer saber e te tira do lugar narcísico mais confortável.

O regime escravocrata patrimonialista continua. Temos o resquício das castas nobres aristocráticas que vão dar conta do Estado e que seriam intocáveis. Daí o sustento monetário extremo, e ainda a ideia da aposentadoria para sempre. Seja eventualmente das castas militares e de suas filhas se não casarem, ou, para não ficar só neste exemplo, os professores da USP. É uma lógica aristocrática que vai fetichizar um grupo. Isso é a real elite no sentido antigo do termo, das elites santificadas, das
elites que são representantes de Deus na Terra. Tudo isso é resquício pré-moderno, nosso desejo de colocar Deus Pai todo poderoso e seus representantes de ouro na terra. Gente, somos todos apenas funcionários. Nosso sistema é infantilizante.

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