Maria Homem: “No final, eu simpatizei com o ano de 2020”
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Maria Homem: “No final, eu simpatizei com o ano de 2020”

Morris Kachani

16 de dezembro de 2020 | 10h02

“O primeiro passo para qualquer coisa é a maior consciência – é mais angústia, é mais sofrimento. Tivemos tudo isso em 2020. Estamos melhores? Estamos menos alienados, estamos menos covardemente ocultos por trás dos paredões de anestesia que a gente cria.

Assista à entrevista: https://youtu.be/XMvcUuW-mFo

Se você estava escapando com a anestesia cotidiana dos bares, restaurantes, sociabilidade, “barulho”, você agora foi obrigada a escutar essa câmera de eco”

“A quarentena é revelação, eu gosto da revelação”

“Esse tempo de exceção desvela, escancara, abre a caixa de pandora de muitos elementos e relações que estavam inconscientes e muitas vezes reprimidos”

É como se todos estivéssemos brincando de “estátua”. De repente veio um vírus da China e todos tivemos que ficar parados onde estávamos. Um ‘freezing’… que continua.

A psicanalista Maria Homem, pós graduada em psicanálise e estética pela universidade Paris VIII, acaba de lançar ‘Lupa da Alma’, livro ensaio sobre como a pandemia se projeta no self, nas relações amorosas, nos laços familiares, no trabalho, na rotina da casa, no protagonismo das telas e na lida com o luto e com a morte.

Nesta primeira parte, a conversa girou em torno de dois temas: o amor nos tempos do covid-19; e, filhos, filhas, pais e mães.

“”Carentena” é você se deparar com a falta que nos constitui em torno da qual você desenha toda a sua vida, essa dialética de falta e desejo, para você ver o que está querendo, o que te move. A grande operação seria sair da carência e ir para a falta, ou seja, sair de um lugar de uma pura demanda e ir para o ‘pera aí, diante da falta que é parte da vida e de mim mesmo, como é que eu quero seguir? Qual é realmente o meu desejo? O que me alimenta?”

“Se a carentena ou quarentena/vírus tiver trazido essa pergunta sobre como você vai lidar com a falta e bancar o seu desejo, acho que vai ter valido a pena”

“Amor e política é quase a mesma coisa,

com o perdão da palavra, porque é a relação do eu e o outro, é a relação em último instância com o diferente, com alteridade. Não tem nenhum casamento que não seja um grande aprendizado político, não tem nenhuma parceria que não seja negociação, alianças com parte da própria pessoa e com colegas, com acordos e desacordos. Isso talvez seja, remonta ao banquete Platão. É uma discussão de você com a ideia, com a forma, com a sofia, com a sabedoria”

“A rigor ninguém nasce e vive sozinho, nunca. Você pode estar de corpo material sozinho em casa, mas você está habitado por fantasmas vivos e mortos, do presente e do passado. É você no divã e mais uma miríade de personagens. E por outro lado você pode viver com alguém e se sentir profundamente sozinho dentro daquela coabitação”

“A interação no Tinder aumentou, você fala mais, a gente tem métrica robótica pra saber isso. Então não é só uma ferramenta para um encontro concreto entre os corpos. Como você [na quarentena] tem uma dilatação desse tempo, você tem que preencher esse tempo com muito blá blá blá, e isso te leva a uma oportunidade, porque esse blá blá blá te leva a falar e a talvez descobrir mais do outro e de você. É mais ‘blá’ e menos ‘bim’”

“Toda operação familiar em alguma medida é também se relacionar com a idealização da gente mesmo como família.

Sem dúvida, o movimento geral das conexões dos indivíduos com as famílias, é de dissolução.

A família nuclear burguesa moderna, ela já é uma grande passagem que vai se soltando cada vez mais do ambiente tradicional macro”

“É uma mudança muito radical a gente supor que o casamento possa ser por amor. Isso é o começo da
modernidade. Agora, eu ainda ousaria dizer que a gente vai poder escolher as parcerias, e vai dizer que as relações familiares também podem ser por afinidades eletivas e não por elos sanguíneos. Quem é meu irmão? Quem eu escolho que é meu irmão? A mesma coisa para pai, mãe. Quem sabe no século 21 meu filho vai escolher outra mãe, ‘deixa eu ver no Tinder de mães’”

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