Marina Silva: Bolsonaro e a instrumentalização da política pela fé
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Marina Silva: Bolsonaro e a instrumentalização da política pela fé

Morris Kachani

04 de maio de 2021 | 09h50

Eu diria que há uma instrumentalização da política pela fé, no caso da política que vem sendo feita pelo Bolsonaro. É uma visão equivocada, fazer com que pelas leis do Estado se possa impor à sociedade um conjunto de valores que são do mundo da fé.

Pelo menos na fé cristã isso não tem espaço, e muito menos na fé cristã evangélica, que tem o legado da reforma protestante, que foi a grande luta para que tivéssemos a separação do Estado com a igreja. É uma incoerência imaginar que agora se imponham os costumes de quem crê a quem não crê por uma lei do Estado.

É uma incoerência teológica. Para que o sacrifício de Jesus? Por que iria para a cruz do calvário? O cristianismo é a anunciação, a compaixão, o amor e respeito ao outro, compadecer-se e valorizar a vida. Não consigo encontrar estes frutos”.

Assista à entrevista: https://youtu.be/-13wgAtl9iY

“Nós elegemos um Presidente da República que não tinha um plano de governo e tudo que ele prometia era desfazer o que tinha sido feito. Me pergunte o que esse governo construiu, a única coisa que ele fez foi aquilo que o elegeu, o discurso de ódio”.

“Eu não acho que a fé deve instrumentalizar a política e nem a política instrumentalizar a fé. Eu sou cristã evangélica da Assembleia de Deus, fui cristã católica durante muito tempo, costumo dizer que tive uma conversão dentro da conversão”.

“Independente de crença ou não, todas as pessoas têm sentido de compaixão, de amor, de justiça, de liberdade. Aliás existem algumas que não têm nenhuma fé e que vivem isso de uma forma muito mais sincera do que aqueles que hipocritamente arrotam sua fé”

Entrevista com Marina Silva, ex-ministra do meio ambiente, ex-senadora, liderança da Rede Sustentabilidade que disputou as últimas três eleições presidenciais

Lula e Bolsonaro

“Eu acho que a polarização fez um grande mal ao Brasil porque nós somos um país ancestralmente polarizado. Nós polarizamos com a metrópole, nós polarizamos entre império e república, nós polarizamos entre indústria e agricultura, nós polarizamos entre democracia e ditadura. Mas até aí, essas polarizações se davam em torno de ideais, de regimes de governo, de modelos econômicos.

Depois com a ditadura a gente começa a fazer a polarização entre partidos; era Arena vs MDB, na democratização, PT vs PSDB. E agora nós temos o empobrecimento do empobrecimento, que é a polarização em torno de nome de pessoas; é Lula ou é Bolsonaro”.

“Eu espero que as eleições de 2022 sejam as eleições que coloquem no centro do debate o combate às desigualdades sociais, a educação de qualidade, a cooperação com o mundo para que a gente possa resolver os problemas da pandemia”

Ciro Gomes e João Santana

“Eu tenho uma relação de amizade com o ministro Ciro Gomes, nós trabalhamos juntos no Ministério do Meio Ambiente, ele foi uma pessoa que me ajudou muito e o que eu tenho dito publicamente e nas conversas é que esse não é o momento de ficar discutindo o nome da pessoa. A gente quer discutir o projeto.Tendo um projeto alcançado com os diferentes segmentos da sociedade, aí sim verificar qual é a melhor pessoa para tornar o projeto vitorioso. (…) Chega desse negócio de ficar discutindo a pessoa e depois inventar um projeto. Foi assim com a Dilma, foi assim com Bolsonaro”

“(…) Chega desse negócio de ficar discutindo a pessoa e depois inventar um projeto. Foi assim com a Dilma, foi assim com Bolsonaro”

“Eu tenho uma clareza em relação ao João Santana e obviamente eu não tenho que responder pelas decisões pelas quais o PDT e o ministro Ciro Gomes contrataram o João Santana. O que eu posso dizer é que o João Santana é uma pessoa que deu historicamente uma péssima contribuição para a política brasileira. Inclusive essa contribuição do ódio onde a política pode ser usada como produto não importando as formas e os meios para alcançar os objetivos a que eles se propõem.

Quem inventou as fake news foi o João Santana em 2014 a mando do PT como operador da campanha da ex-presidente Dilma”

PT

“Infelizmente o Partido dos Trabalhadores se posta nessa visão de que não tiveram erros, diante dos graves problemas de corrupção, diante dos graves problemas de ter feito a lógica do Poder pelo Poder em prejuízo de ganhos muito significativos que haviam sido alcançados nos próprios governos dos PT. (…) Eu não vejo nenhuma disposição deles de fazer autocrítica”

Explicando 2013

“Nós temos o caso de 2013, quando a população, no que há de mais progressista, no que há de mais sonhador, no que há de mais colaborativo de um povo para com seus governantes, foi pacificamente para as ruas dizer, “nós queremos que as conquistas sejam conquistas estruturantes, duradouras na saúde, na educação, no transporte, na moradia, na relação do poder com os recursos, com mecanismos sociais, meios transparentes das políticas públicas”

Explicando 2014

Essa frustração aumenta com os graves problemas de corrupção, de sorte que que quando chegamos em 2014, a sociedade tinha um desejo de mudança, de alternância de Poder. Houve uma grande violência política, uso indiscriminado da corrupção para – no meu entendimento – fraudar a vontade soberana do povo com roubo, com a violência política, com mentira e fake news

Explicando 2018

“Nós já estamos vindo de um processo de frustração da sociedade brasileira muito grande. Tudo aquilo que de certa forma a gente faz um certo investimento, acaba criando grandes expectativas. Tem uma grande energia investida, e se isso é frustrado, é recalcado, pode retornar como uma espécie de raiva, de revolta, como algo destrutivo; e eu acho que é isso que de certa forma aconteceu em 2018.

As pessoas já vinham de uma frustração com os governos que tiveram a oportunidade de governar o Brasil após a reconquista da nossa democracia. Foram o PT e o PSDB, que deram boas contribuições, em relação ao Plano Real e ao combate às desigualdades, mas que se perderam em projetos de Poder pelo Poder, não foram capazes de estabelecer os bens já estabelecidos porque queriam se manter no Poder e não consideraram que em uma democracia temos que ter projetos de longo prazo para os nossos curtos prazos políticos e não transformar os projetos de longo prazo em curto prazo para alongar o prazo do governo na política.

“Quando você tem esse recalque com uma força reacionária de direita – que desde a época da ditadura vivia o recalque de suas posições porque a democracia foi se reestabelecendo, se reconstruindo a partir de grandes expectativas após a Constituição de 1988  -, esse recalcado vem com a força da destruição. Juntando com toda a frustração, as eleições de 2018 não foram as eleições de quem queria prestar atenção nas ideias nas propostas, nos debates; era de quem queria se vingar, de quem queria aniquilar, de quem queria anular. E quem fez o discurso da aniquilação, de destruir o que existia e de prometer mais destruição? O Bolsonaro. O Bolsonaro ganhou dizendo que ia acabar com o IBAMA, ia acabar com o Ministério do Meio Ambiente, ia acabar com a Funai, que não ia ter mais um centímetro de demarcação de terra indígena e toda a sua trajetória era de preconceito com as mulheres, contra gays, contra as pessoas pretas e de apologia, do Poder pelo Poder e do dinheiro pelo dinheiro para quem o tem e para quem aceita esse tipo de serviço”

Visão estratégica

“Esse País, que está vivendo agora insolvência econômica, social, de saúde pública, de gestão, ambiental, política e de valores, consegue se reerguer”

“Esse País, que está vivendo agora insolvência econômica, social, de saúde pública, de gestão, ambiental, política e de valores, consegue se reerguer”

“A nossa história é feita de paradoxos; um País com uma capacidade fantástica e com vantagens comparativas inigualáveis, mas que neste momento da sua história não faz jus a elas”

“Hoje o Brasil está trancado pelo lado de fora. Nós somos um país que teria as condições de liderar a quebra de paradigma da economia do século XXI, porque podemos ter uma matriz energética 100% limpa, podemos ter uma agricultura de base sustentável, podemos preservar 100% das nossas florestas sem precisar derrubar nenhum pé de mato. Somos capazes de ser uma potência agrícola e ao mesmo tempo uma potência ambiental”

“Esse País já viveu situações bem difíceis, inclusive situações de cerceamento da liberdade na época da ditadura, e foi capaz de se reconstruir. Já viveu situações de completo descaso em relação às desigualdades sociais e já foi capaz de apresentar políticas importantes para combater injustiças sociais. Já viveu um desequilíbrio econômico e foi capaz de ter um plano de estabilidade econômica que nos tirou daquele buraco. Já viveu situações de elevadíssima destruição da Amazônia e foi capaz de desenvolver um plano de prevenção e controle do desmatamento, reduzindo o desmatamento em 83% durante quase uma década, e evitando lançar na atmosfera 4 bilhões de toneladas de CO2 de 2003 a 2008; esse País foi responsável de 2003 a 2008 por mais de 80% das áreas protegidas que foram criadas no mundo.

“Quem assumir a Presidência do Brasil vai ter que integrar o debate das mudanças climáticas, fazendo uma recuperação econômica que atenda aos objetivos do desenvolvimento sustentável do Acordo de Paris, que promova o combate às desigualdade sociais, que enfrente os problemas das discriminações das mulheres, dos pretos e daqueles que vivem em situação de vulnerabilidade; um País que seja capaz de resolver os graves problemas que vão ser criados, os efeitos indesejáveis da revolução tecnológica, da disrupção tecnológica que já está gerando bilhões de desempregados e que com a pandemia ficou mais agravado”.

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