Mary Del Priore: mortes em escala, curas milagrosas e ausência do governo nunca foram novidade
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Mary Del Priore: mortes em escala, curas milagrosas e ausência do governo nunca foram novidade

Morris Kachani

19 de janeiro de 2021 | 14h43

Especialista em história social do país enxerga paralelos entre situação sanitária atual e epidemias que varreram o país desde o descobrimento

“Já nas cartas do Padre Anchieta no período Colonial, nós temos registros que foram as epidemias de varíola que acabaram com tribos inteiras de indígenas. Temos relato de padres jesuítas correndo com tesouras atrás dos índios para cortar as pústulas da varíola. Depois, no século XVIII nós temos todo o território – do Nordeste ao Sul – varrido por cólera, por febre amarela. A febre amarela, na época, era chamada de’bicha’ porque matava na velocidade da mordida de uma cobra. E nós podemos até
fazer paralelos com os dias de hoje, porque as pessoas acreditavam que essas doenças eram castigos divinos, que haveria explicações místicas para esses acontecimentos e mortes. A epidemia de varíola, entre 1856 e 1857, matou 200 mil brasileiros. Cidades inteiras da Itália foram salvas pelo isolamento e em São Paulo homens com arcabuz ficavam na entrada impedindo a chegada de pessoas vindas do litoral. Então esses cuidados e essas crenças místicas são paralelos”

Assista à entrevista: https://youtu.be/RdnIOdVQI9U

“Mais um paralelo importante ligado à maior parte da população hoje, é a total ausência de médicos na vida dos brasileiros. O Império nunca se preocupou em construir hospitais ou com a saúde pública. Foram nos primeiros anos da República, anos 20, que nós tivemos as famosas missões sanitárias. Getúlio criou os primeiros hospitais de câncer e tuberculose, pois a tuberculose era uma epidemia constante. Mas eram hospitais privados, e para onde corria a população? Para as curas milagrosas, é importante a gente acompanhar nos jornais a presença dos curandeiros. Os grandes sanitaristas vão tentar iluminar esses lugares perdidos com ciência e medicina”

“As pessoas estão muito focadas na gripe espanhola porque ela teve inclusive espectadores que conviveram com muitos de nós. Como é o caso do Nelson Rodrigues, que foi um jornalista que acompanhou de perto e que viu as pessoas caírem de boca no bueiro, cujos corpos eram depois recolhidos em uma carroça.

Lembro também que tivemos uma outra pandemia, que costumamos esquecer, porque ela teve um fundo moralizante, que foi muito mal recebida no Brasil, que foi a Aids. Nós esquecemos do quanto perdemos amigos, do quanto perdemos conhecidos, abandonados pela família. Na época os hospitais não sabiam bem do que se tratava. Muitos médicos se negavam a tratar”

A história costuma ser um espelho pelo qual a gente só olha no retrovisor, para se ver o que aconteceu e tentar entender o que está acontecendo.

E nossa história é pródiga em exemplos não exatamente edificantes, quando o assunto são as epidemias ou o negacionismo.

Epidemias foram várias, e para todos os gostos. Teve cólera, febre amarela e varíola, antes mesmo da gripe espanhola no começo do século XX.

Não havia médicos e menos ainda hospitais para atender a população. Espaço fértil para o surgimento dos curandeiros, das crendices e do atributo do castigo divino a quem estivesse doente.

Nem é preciso ir muito atrás: nos anos 80, o estigma da Aids fez recrudescer este mesmo viés moralizante.

Em termos de negacionismo, o anti-exemplo fica com a Revolta da Vacina. Que surgiria dentro de um contexto mais amplo de “higienização” da sociedade, o que incluía a remoção dos pobres para as periferias.

Só Bolsonaro mesmo, que nem paralelo tem…

Especialista em História do Brasil, Mary Del Priore concluiu o doutorado em História Social na USP e pós-doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, na França. Lecionou História na USP, PUC-RJ e na Universidade Salgado de Oliveira. É colaboradora de periódicos nacionais e internacionais, científicos ou não. Escreveu, organizou ou colaborou em várias publicações, sendo laureada com prêmios e títulos como o Prêmio Casa Grande Senzala, outorgado pela Fundação Joaquim Nabuco e o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.

“Os jornais do final do século XIX, início do XX, são atravessados pelo debate entre a sociedade imperial de medicina e as próprias associações de medicina contra os chamados embusteiros. Os embusteiros vinham desde médicos homeopatas, até aquelas curas milagrosas, nas quais os brasileiros estão acreditando até hoje, quando consomem ivermectina e cloroquina”

“Com a dificuldade de chegar em um médico, as pessoas eram tratadas em farmácias. As farmácias no interior que eram ao mesmo tempo um centro de debate político de informação e de cura para todos os males. Era ali que se partejava, que fazia o aborto, que se tirava bala de tiroteio. O farmacêutico nos anos 20 é revestido de todo o poder, de toda ciência da cura e dos remédios caseiros”

“Imediatamente após a Proclamação da República havia um projeto que estava todo embutido. São anos em que vai aparecer eletricidade, vai aparecer água encanada, vai aparecer telegrafia, telefone, os bondes, há um desejo de modernização que vai se traduzir nas reformas urbanas em São Paulo, por exemplo, e na capital do Brasil na época, que era o Rio de Janeiro. O Rodrigues Alves perdeu um filho de febre amarela quando ele foi viver no Rio de Janeiro e então ele chama o jovem Oswaldo Cruz, recém-chegado da Europa, para capitanear todo um movimento de saneamento na cidade.

Esse saneamento teve vários aspectos, a higienização da cidade, a modernização… Higienização no sentido de afastar as classes pobres para as fímbrias, e começam a nascer os subúrbios, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, e a partir daí também, a vacinação. O Oswaldo Cruz vai ser horrivelmente tratado pela imprensa, contrariamente a hoje onde temos a imprensa como o nosso único farol de informações. Na época ele vai ser chamado de caçador de ratos. O clima era de walking dead ou coisa parecida, pessoas rastejando pelas cidades. E a Revolta da Vacina explode quando esses grupos de vacinação começam a adentrar os bairros pobres.

Na época a vacinação era vista como uma invasão de privacidade. (…) O que os operários não queriam era que suas mulheres fossem vacinadas nos braços e nas coxas, lugar impedido do olhar que não fosse o do companheiro ou do pai. Teve uma semana de quebra-quebra no Rio de Janeiro e a história da Revolta da Vacina começa e termina ‘mais ou menos’ por aí”

“Nós passamos de cidadãos, ou nem isso, a consumidores. Porque os anos da ditadura, eles foram anos de um enorme crescimento econômico e o aparecimento de uma classe média.

Mais que entender esse capitão genocida e limítrofe que nós temos como presidente, eu acho importante a gente entender quem votou no presidente. Nós temos uma parcela grande dos brasileiros, 35%, que ainda o apoiam. Apesar de eu não ser socióloga, eu trabalho muito num veio, que fala em Familismo Amoral, ou seja, você protege todos os interesses da vida privada e descarta-se a vida pública.

Se analisar esses 50 anos, entre 1950 a 2000, aconteceu um crescimento muito grande de uma classe média que passa a ser consumidora de Fusca, de televisão. Eu lembro que a criação de inúmeras estatais deu milhares de empregos, há uma tentativa de fazer grandes obras, de reindustrializar o Brasil e curiosamente a gente esquece desses outros aspectos do consumismo desenfreado no Brasil; os hipermercados, a democratização da televisão, a propaganda, a noite, a balada, as praias…Tudo isso vai dar em um caldo, que a meu ver, vai transformar o brasileiro não em um cidadão, mas em um consumidor”

“Depois da ditadura, o número de cartas que vão chegar em Brasília pedindo a volta da ditadura e grupos femininos pedindo censura a programas com homens afeminados… Esse é o Brasil que não está tão longe. É um Brasil que tem 50 anos”

“Sempre que as populações se sentem ameaçadas ou que sua segurança está colocada em xeque, os velhos usos, costumes, tradições – as reações são sempre de extremismo. Não esse extremismo que nós vemos hoje com esses fascistas identitários que querem transformar ideias em certezas morais, mas extremismos que levam a muito choque, que levam a muita tensão. Eu diria que o nosso genocida tem
em comum com o Trump não só esse desapreço pela vida humana, mas esse apoio de dar independência as polícias, que eu acho do maior perigo”

“Eu acho que o Bolsonaro não pensa em uma nação brasileira, ele pensa em uma facção brasileira. É algo parecido com uma milícia, que vai ficar a serviço do Estado”

“Durante a época do Getúlio, o comunismo sempre foi o grande “inimigo” da família católica, da família unida, e um pouco é isso que reverbera nesse governo Bolsonaro. Mas não há nada parecido [equivalente] com o que estamos vivendo hoje. Podemos pensar nos porões da ditadura…”

“Elite no Brasil é uma piada né? Eu acho que é uma piada desde sempre e os ingleses é que tinham razão quando eles vieram ao Brasil depois da abertura dos portos; eles chamavam o Brasil de Brasis, porque eles entendiam que isso daqui era uma concha de retalhos. Hoje nós temos uma elite rentista, que vive da renda das suas indústrias, terceirização das diretorias. Temos muito disso com muita pouco informação e sobretudo um desinteresse profundo pelo Brasil. Um quadro bastante lamentável”

“A classe média apoiou a ditadura. É bom que se lembre disso. Até que houve um desgaste e a classe média se levantou contra o Collor, como se levantou contra a Dilma”

“Só não vê que o Brasil é um país mestiço quem sofre de miopia ideologia. Nós todos somos mestiços. Todos nós temos, como diz o Alberto da Costa e Silva, no fundo da gaveta uma avó índia, uma negra, uma parda, uma cafuza, uma cabocla. Então achar que o Brasil é um Brasil de duas cores é ignorar toda a pesquisa que vem sendo feita nas faculdades de história. (…) Para que serve história? A história só serve se a gente quer saber dela. Se a gente não quiser conhecer a história do Brasil, nós vamos ficar
derrapando em binarismos que não levam a nada. Nós temos mais que estudar o que nos une do que o que nos separa, nós temos que ter mais instrumentos que nos levem de um polo ao outro do que ficar martelando em cima das diferenças; nós não vamos avançar se continuarmos assim”

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.