Miguel Nicolelis: a pandemia não acabou; longe disso
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Miguel Nicolelis: a pandemia não acabou; longe disso

Morris Kachani

19 de outubro de 2021 | 09h42

“Nós estamos nos deixando levar pelo desejo, na minha opinião, de sair disso o mais rápido possível e esquecendo que esse vírus é um vírus ainda pouco conhecido, que tem uma variante no mundo que tem feito estragos circulando por onde passou, inclusive em países com taxas de vacinação muito maiores do que nós temos”

“Eu não deixaria o meu filho ir para a escola sem estar vacinado, sem ter professores vacinados, funcionários vacinados”

“Nos EUA teve um pico explosivo em janeiro que terminou em fevereiro do ano passado. Começaram a vacinar muita gente, a delta chegou, só que aí teve um período [da variante delta] para encontrar os suscetíveis. E quem são os suscetíveis? Os adolescentes, as crianças, os adultos e idosos que tinham tomado a primeira dose logo no começo da campanha de vacinação em janeiro/fevereiro e que ficaram depois de seis meses com uma taxa de imunidade mais baixa. É por isso que os EUA cruzaram quase 300 mil casos há 2/3 semanas e 3 mil mortes por dia. E aí se reverteu o otimismo. Quais foram as três medidas cruciais que levaram a essa explosão de casos? O otimismo exagerado, a revogação do uso de máscara e a abertura das escolas”

“Nessa onda que está acontecendo nos EUA e que começou no final do verão, as UTIs pediátricas da Flórida, do Texas, do Alabama, do Mississipi, de todos os Estados do sul e do meio-oeste ficaram lotadas, pela primeira vez na história americana. Nem nas crises de pólio, antes da vacina, era assim”

Assista à entrevista: https://youtu.be/fzRH-0Bht-c

“Eu não consigo ver esse otimismo que alguns colegas meus estão vendo. Discordo frontalmente de algumas análises. Foi em um relatório da Fiocruz que eu recebo semanalmente, que eles disseram assim: “o efeito da variante Delta que ocorreu em outros países não se materializou no Brasil”. Só faltou [colocarem] o “ainda”, porque eles não podem dizer que não se materializou: nós estamos na mesma janela de tempo e com os mesmos números, a propósito, que os Estados Unidos estavam, aliás números maiores, o dobro.

E em junho, depois de cinco meses de bonança, quando até o presidente americano foi na TV dizer que a pandemia tinha acabado e que era o “verão da alegria”, quebrou a cara, porque existiam bolsões no país com baixas taxas de vacinação de segunda dose. E é exatamente o que está acontecendo no Brasil. Essa semana eu analisei dados de múltiplas regiões de cidades-chave que eu acompanho há 19 meses, que considero cidades alertas, e algumas delas como Teresina (Piauí), Brasília (DF) e Santos (São Paulo), tinham revertido a curva e estavam começando a subir”

Para o neurocientista e professor titular da universidade Duke Miguel Nicolelis, que vem acompanhando os desdobramentos da pandemia desde o começo, há boas notícias para serem contadas.

A vacinação avança no país, com ampla aceitação da população brasileira – a taxa de aceitação gira em torno de 90%, enquanto nos EUA cerca de 40% recusam a imunização. “O negacionismo é bem menor, apesar do nosso presidente”.

Assim mesmo, por outros motivos, leia-se falta de vacinas disponíveis em alguns bolsões do Brasil, a situação atual traz similaridades preocupantes com o quadro norte-americano.

É cedo para se tirar a obrigatoriedade do uso de máscara, mesmo sendo ao ar livre. Eventos como ano novo e carnaval, nem pensar. Estádios lotados também, lembrando que foi a Eurocopa o estopim do repique da doença na Grã-Bretanha.

“O Brasil fala de “média” [de óbitos] na mídia, na televisão, e esquece que a média tem uma dispersão. A média não é um número absoluto, ela é um parâmetro estatístico com uma dispersão. E eu fui olhar nos lugares com dispersão para baixo da média, nos lugares em que a vacinação com a segunda dose quase que parou, principalmente na região norte do país, como Amapá, Roraima, e mesmo Estados do nordeste que em teoria estariam melhores. Então você começa a ver o mesmo quadro que ocorreu nos Estados Unidos potencialmente se desenvolvendo no Brasil, ou seja, bolsões de baixa vacinação onde a delta circulou. Categoricamente tanto no México quanto no Brasil a Delta venceu a disputa com a variante Gama”

“Nós estamos longe de ter uma proteção vacinal que consideraria segura, que é de 75% com segunda dose. Em termos de escala global, a pandemia não acabou, e entre meus colegas mais sérios há quem diga que só vai acabar em 2024. E assim mesmo, com a humanidade convivendo com o vírus”

“Retirar a obrigatoriedade do uso de máscaras é de uma estupidez total, irresponsabilidade completa e quase criminosa. (…) Querer tirar [o uso de máscara] nesse momento e voltar às aulas presenciais sem nenhuma forma de proteção, do jeito que são as escolas públicas no Brasil, mesmo em São Paulo, é um total absurdo”

“Agora o que nos resta é aumentar dramaticamente a vacinação, e homogeneizar essa vacinação por todo o país. Estados como São Paulo e Mato Grosso do Sul atingiram bons patamares, mas não podemos esquecer o Amapá, Roraima, Acre e Tocantins, alguns Estados do Nordeste que estão bem abaixo da média nacional de vacinação. Assim como as crianças e adolescentes”.

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