Miguel Nicolelis: A pandemia não acabou
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Miguel Nicolelis: A pandemia não acabou

Morris Kachani

06 de maio de 2022 | 14h34

“Pode até ser que o pior já passou. Mas eu desenvolvi um respeito de não subestimar o que esse vírus é capaz de fazer em múltiplos níveis, a começar pela sua capacidade de se reinventar que é impressionante. Isso chocou a todos nós”.

Vem uma baita onda, e o mar retrocede. É o que estamos observando. Só que a água voltou a subir.

Miguel Nicolelis, neurocientista e professor titular da universidade Duke, utiliza esta imagem para descrever o momento atual da pandemia.

Em outras palavras: apesar das elevadas taxas de vacinação, novas mutações em gestação, aliadas ao relaxamento das regras de distanciamento social, estão pressionando os números para cima.

E há outros aspectos da doença que merecem destaque. A covid longa pressiona o sistema de saúde de forma preocupante – ninguém está prestando atenção aos efeitos crônicos da doença, alerta o professor: “Vamos ter dezenas de milhões de pessoas com sequelas crônicas. O sistema não vai dar conta – na Grã-Bretanha, já colapsou, com o excedente de demandas de diálise, fisioterapia respiratória, cardiovascular, ou aumento do número de acidentes vasculares em decorrência da pós infecção de covid”.

São os efeitos econômicos, sociais, de saúde pública a longo prazo, todos influenciados por o que Nicolelis chama de uma “nova pandemia”; uma pandemia silenciosa, na qual as pessoas não estão morrendo de imediato, mas lentamente sentindo os efeitos da infecção.

“Não dá pra prever, mesmo que você tenha um caso assintomático ou leve, qual é o efeito crônico. Além disso, as vacinas não são 100% protetoras de efeitos crônicos; elas diminuem a gravidade da infecção, da chance de hospitalização e dos números de óbitos, mas elas não diminuem efetivamente as chances de você ter sequelas”.

Assista à entrevista na íntegra:

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“O jogo é complicado de prever porque há muitas variáveis novas como o número de pessoas vacinadas com duas e três doses, novas variantes que respondem em diferentes níveis à imunização, e novas variantes que não dão bola se você teve a ômicron original 40 dias atrás, porque você pode ter uma reinfecção.

É uma dinâmica muito complexa e é uma irresponsabilidade fazer qualquer prognóstico. Não se termina uma pandemia por decreto. Os imperadores romanos tentaram, não deu certo. Remover a emergência sanitária é mais um capítulo dos absurdos cometidos por esse governo. Tem uma motivação evidentemente política em decretar vitória, como se você estivesse disputando um campeonato e decretando unilateralmente ter vencido, mesmo estando na zona de rebaixamento da tabela. E acho que convenceu, porque as pessoas estão vivendo atualmente como se não houvesse amanhã”.

“Quando você remove a imagem mais clara de que existe um problema sanitário no Brasil, que é o uso de máscara, você tenta instalar a mensagem na cabeça das pessoas de que a pandemia acabou. Isso foi feito no mundo inteiro”

“A pandemia é um fenômeno global, e espaço-temporal. Estamos interligados… tem que pensar no planeta como contínuo. Você vai ter áreas de contração e expansão. A peste bubônica levou quase 200 anos para partir da Europa e chegar na China, 200 anos para o troço cruzar o mundo. Hoje temos as vacinas, mas ao mesmo tempo nós estamos em uma conexão de horas entre qualquer país”

“A gente não está prestando atenção mas isso é conhecido – os grandes fenômenos humanos como a queda do Império Romano ou expansão do mundo árabe foram todos decorrências de grandes episódios pandêmicos como varíola, sarampo, praga bubônica”.

“Houve arrefecimento no número de casos de covid, e começaram a aparecer casos de dengue. No que a covid explodiu, a dengue caiu. Não tem uma explicação causal, mas é uma tese que estou começando a disseminar. Existe uma competição entre os vírus. 2020 era para ser a maior epidemia de dengue da história, e isso não ocorreu. Mas agora ela está vindo com tudo”.

“Eu acho que chega próximo de 1 milhão o número de mortes no Brasil, até agora, considerando as subnotificações e os excedentes, em que a pneumonia ou a insuficiência renal aparecem no atestado de óbito por exemplo, mas onde efetivamente a covid foi a causa primária”

“Tinha gente dizendo que a pandemia ia acabar em outubro do ano passado, mas a ômicron, por alguma razão ainda desconhecida, deu origem a uma gama enorme de subvariantes”.

“Enquanto a gente comemorava o Carnaval, na Ásia houve um megasurto de uma subvariante da ômicron, a BA2, muito mais transmissível. Na China, foi preciso fazer lockdown porque ali, se a coisa sai do controle, explode. A BA2 invadiu a Europa e você começa a ver 200 mil casos na Alemanha, no Reino Unido, a França com 150 mil casos”.

“Aparentemente, a explosão recente de casos na Coreia do Sul está relacionada com uma campanha presidencial extremamente polarizada que houve, gerando comícios e aglomerações. Não vejo aqui ninguém falando sobre pandemia, seja na agenda política, seja trazendo uma proposta de estratégia de saúde pública. Este assunto foi obliterado das discussões politicas, não interessa de que lado. O Brasil poderia ter produzido suas próprias vacinas eficazes. Nós tínhamos que estar pensando nisso”.

“A letalidade da Ômicron, em nível individual, parecia ser menor. Todavia, como o número de infectados foi tão explosivo, o número de mortes no mundo foi muito alto, chegou perto do recorde de mortes diárias. Chegamos a ter em alguns dias 13 e 14 mil mortes no mundo como um todo”.

“A pandemia nos ensinou múltiplas lições, desde como viver com menos de maneira mais racional, até recalibrar a forma de viver em sociedade. O vírus nos alertou que nosso modo de viver não é sustentável. Esta é uma oportunidade para refletir e ao mesmo tempo se proteger”.

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