Miguel Nicolelis: “Ômicron não vai ser leve”
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Miguel Nicolelis: “Ômicron não vai ser leve”

Morris Kachani

07 de janeiro de 2022 | 16h13

Há menos de um mês, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que 2022 deverá ser o ano “em que acabaremos com a pandemia”.

O neurocientista Miguel Nicolelis, da Universidade Duke, que previu e alertou sobre o cenário catastrófico que se alastrou pelo Brasil no primeiro semestre de 2021, não tem tanta convicção a esse respeito. O sinal de alerta disparou com a escalada da variante Ômicron, que vem provocando repetidos recordes diários de infecções.

Assista a entrevista: https://youtu.be/ykJbAEO_w2s

“Não sei como estas previsões são feitas. Não acredito que a gente esteja no epílogo da pandemia. Achavam que a delta era o final da história, e de repente surge a Ômicron. E a capacidade de aparecerem novas mutações é grande”.

“Vivemos três epidemias simultâneas, com duas cepas do covid – delta e Ômicron, e influenza. Não era momento para influenza ter disparado, é atípico. A vantagem é que seus picos são mais curtos.

Então nós temos um conluio de três vírus RNA, e ainda um quarto vírus de RNA à espreita, que ninguém sabe o que vai acontecer este ano, que é a dengue”.

“À parte, existe o receio com as infecções múltiplas de vírus. Dos vírus trocarem conversa entre si, material genético. A possibilidade é real – com a mesma célula infectada por dois vírus RNA, isso é possível”.

“Hoje, é difícil prever o que acontecerá, porque são muitas variáveis – interações entre vírus, diferentes doses de vacina em diferentes níveis no país, janela imunológica de proteção de duas doses acabando, e uma variante com uma taxa de transmissão 70 vezes mais alta.

Fica difícil de cravar mas só posso dizer uma coisa: não vai ser leve. Esta palavra deveria ser removida do vernáculo. Quando um agente infecta 2,5 milhões de pessoas em 24 horas, não tem nada de leve”.

“O Brasil, como os Estados Unidos, teve uma janela de baixa, de casos e de óbitos. Uns cinco e seis meses de respiro, talvez pela combinação da imunidade que foi criada com a gama – porque foram milhões de casos -, e a subida da vacinação”

“Mas agora nós passamos de 2 milhões de casos no mundo, com só os EUA respondendo por 1,5 milhões de casos na segunda-feira (3). O número de internados por Covid nos EUA é recorde em dois anos da pandemia. E nós estamos em um governo democrata, não dá para culpar o Trump”

“No Brasil, hoje vivemos uma queda de quatro vezes na vacinação diária; nós fomos de 2 milhões de doses diárias para mais ou menos 500/600 mil doses nesse momento. Nossa taxa de terceira dose é muito baixa, entre 15 e 17%. A adesão está muito baixa. O Brasil precisa acelerar a terceira dose e vacinar as crianças”.

“Março, abril e maio foram os meses mais letais da história do Brasil. Os dados são subnotificados no Brasil, então os números que nós tínhamos até o meio do ano devem ser multiplicados por 3 ou 4 vezes.

É provável que os 27 mil casos que foram anunciados no Brasil anteontem sejam novamente, de 3 a 4 vezes, até mais, subnotificados”

“Nós não sabemos a realidade epidemiológica do Brasil, porque não temos dados para estudar ou conferir. Estamos vivendo em um apagão de dados, o que é outra tragédia. Estamos ao sabor dos ventos, é um navio navegando em um mar de vírus sem nenhum instrumento, completamente à mercê”.

“O meu 4 de janeiro de 2022 foi muito semelhante ao meu 4 de janeiro de 2021. Eu continuo extremamente apreensivo, mas com um agravante, a sociedade civil mundial, especialmente no Brasil, chutou o balde. As pessoas estão cansadas de ficar em casa, as pessoas não conseguem nem prestar atenção nas notícias da pandemia. Nós não temos nenhuma liderança desde o início aqui no Brasil, não temos campanha de vacinação, estratégia de combate e adiamos a vacinação das crianças sem nenhuma razão real científica. Agora o surto começa de novo e é cada um por si”

“Ontem o presidente da OMS voltou atrás e disse categoricamente que não podemos chamar a Ômicron de ‘leve’, em hipótese alguma, porque mesmo que ela tenha sintomas mais brandos em algumas pessoas, nas pessoas não-vacinadas ela pode matar do mesmo jeito que outras variantes. E a taxa de transmissão dela é tão absurda, tão louca, que nós passamos de 2 milhões de casos como um tiro de foguete no mundo todo.

Países como o Reino Unido, que estavam tendo uma média de 40 mil casos, estão tendo 200 mil casos hoje em dia, os EUA passaram de 200 mil casos para 1 milhão em uma semana, a França e a Itália bateram recorde. Até países como Portugal e Israel, que tiveram vacinações exemplares, estão tendo recordes de casos”

“Quando você tem um número gigantesco e você multiplica por um número menor, você ainda tem um número gigantesco. Então se você tem 2 milhões de casos, mas só 10% de casos graves, você ainda está falando de 200 mil pessoas por dia. É um número gigantesco e nenhum sistema hospitalar no mundo dá conta”

“O sistema de saúde brasileiro não se recuperou do colapso do ano passado. E muita gente doente por outras causas não vai ter como ir ao hospital. É por isso que em 2021, por exemplo, tivemos meio milhão de mortes a mais, comparado a 2018 e 2019”.

“Imunização de rebanho é uma ideia maluca, porque novas variantes podem pipocar a qualquer momento. Se tiverem um aspecto diferente com transformações mais profundas no que tange à resistência a vacinas e anticorpos neutralizantes, além de mais transmissíveis, a imunidade vai para o vinagre. É uma guerra existencial: existe um organismo coletivo ali fora cuja única função na vida é se multiplicar e sobreviver. Ele vai procurar nichos para se manter vivo”.

“Políticos de todo matiz ideológico no mundo e no Brasil em particular, falharam muito e não têm mais poder de convencimento para impor lockdown. São inacreditáveis os erros absurdos que o Centro de Controle e Prevenção de Doenças americano cometeu, tanto com Trump como com Biden”.

“A liderança de nosso ministério da saúde é uma catástrofe. O atual ministro está pau a pau com o general Pazuello. Entrarão para a história como os mais inaptos. Aqui no Brasil perdemos toda a noção. É o que chamo da confluência dos 3 Ps – pandemia, pandemônio e paralisia das instituições e sociedade civil. Onde já se viu proporem prescrição médica para vacinar crianças no meio de uma pandemia?”.

“Há muita medicação antiviral sendo desenvolvida pelos laboratórios. Muitos cientistas dizem que o aparecimento de medicação antiviral, como esta da Pfizer que foi recentemente aprovada e começa a ser distribuída nos Estados Unidos e em Israel, pode ser a virada do jogo”.

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