Miguel Nicolelis: terceira onda já chegou e pode ser a pior
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Miguel Nicolelis: terceira onda já chegou e pode ser a pior

Morris Kachani

26 de maio de 2021 | 14h46

Sistema de saúde já levou duas pancadas e vai ter dificuldade em lidar com uma terceira.

Não apenas a vacinação lenta, como a cepa indiana, e o surgimento de outras cepas, preocupam.

2021 já era – a dúvida é se no primeiro semestre de 2022 o país consegue se reerguer.

Brasil certamente será um dos últimos países a controlar a pandemia.

Deve ultrapassar os EUA em número total de mortos, disputando com a Índia a inglória de liderar o ranking mundial.

A conduta de Bolsonaro & cia é criminosa e precisa ser punida.

Entrevista com o neurocientista e professor titular da universidade Duke Miguel Nicolelis. 

Assista à entrevista:  https://youtu.be/G08aOpAsroE

“Nós já estamos na terceira onda, já temos os indícios. Temos um aumento de casos e de internações na UTI ocorrendo em todo o País, temos claramente um colapso hospitalar que não foi resolvido, ele vem se arrastando aos trancos e barrancos, temos vários Estados com taxa de ocupação na UTI acima de 90% e temos agora uma variante indiana – apesar dos alertas de que nós deveríamos ter feito o controle rígido nos aeroportos e nos portos e em todas as entradas no Brasil, nada foi feito. Então novamente nós temos no horizonte as condições para uma terceira onda, com o agravante de que o sistema de saúde já levou duas pancadas de grande porte e vai ter grande dificuldade de lidar com uma terceira onda”

“Existe essa expectativa de aumento de doses em junho; maio já foi para o vinagre porque houve uma redução significativa de doses planejadas. Se nós conseguíssemos aumentar significativamente o número de pessoas vacinadas por dia, próximo de duas milhões ou mais de pessoas – que era o que deveria ter sido a meta desde o início – e tomarmos medidas de restrições, que nós já sabemos quais são, melhora. O problema é a falta de apetite político para fazer isso. Veja que em São Paulo a taxa caiu para 70% de internação de UTI e começou a se abrir tudo. Agora está em 80% de novo e vai aumentar”

“O efeito sanfona é o seguinte, você espera a situação piorar até o limite – acima de 90% de ocupação da UTI -, toma algumas medidas de restrições e mantém isso por uma ou duas semanas. Quando há uma pequena melhora você abre de novo “a sanfona”, e isso não adianta, isso só posterga a pandemia e o sofrimento da sociedade e faz com que o Brasil seja um dos últimos a sair dessa crise. Todos nós estamos testemunhando um dos maiores fracassos sanitários – certamente o maior fracasso sanitário do Brasil – de todos os tempos”

“A gente não pode confiar muito nas previsões [de vacinação]. Veja este mês em que não se conseguiu atingir as metas originárias e isso é muito ruim porque desestimula a população, cria uma sensação de vazio, de inoperância, de inépcia de gestão. Eu tenho a esperança de que em junho a gente possa cumprir as metas”

“É desesperador, dá uma agonia você ver que no meio da maior crise sanitária que já custou 450 mil vidas o presidente se comporta de uma maneira tão absurda, tão irresponsável e ainda com 10 mil pessoas que concordam com isso. Mostra o grau de ignorância e a completa falta de empatia humana que tomou parte de uma parcela significativa da sociedade brasileira. Na minha modesta opinião, essa demonstração foi um chute no estômago de todos os brasileiros que perderam familiares e amigos”

“Eu assisto pouco [a CPI da Covid], porque começo a assistir e me dá agonia. Me dá uma certa angústia porque a qualidade das perguntas não é boa e a qualidade das respostas não vou nem comentar. Eu assisti várias comissões de inquérito no Congresso americano nesses meus 32 anos de vida lá e é completamente diferente. Para começar você chama pessoas que sabem fazer interrogatórios. Eu acho que as perguntas na CPI tinham que ser técnicas e feitas por gente que sabe interrogar”.

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