Monja Coen: “Vida religiosa e álcool não se opõem”
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Monja Coen: “Vida religiosa e álcool não se opõem”

Morris Kachani

26 de agosto de 2021 | 11h50

Nova “Embaixadora de Moderação” da Ambev – empresa que dobrou seus lucros entre o primeiro trimestre de 2021 em comparação ao ano anterior – explica que ensinamentos budistas como procurar o caminho do meio e auto-conhecimento podem servir também ao consumo moderado de álcool e outras drogas

“No Japão bebe-se muito, monges e monjas bebem muito, inclusive quando tem algum memorial, um enterro, velório, bebe-se, se você não bebe é considerado esquisito. São coisas bem interessantes de se pensar, de culturas diferentes. Essa visão muito restrita do que seria um monge ou uma monja é uma fantasia. Um monge, uma monja, um padre, um religioso são seres humanos como todos os outros seres humanos, só que a gente vive de acordo com regras, preceitos, fazemos votos. Uma coisa é você quebrar o voto, outra coisa é você dar uma “manchadinha” nele e depois você se purifica e volta ao ponto de equilíbrio”

“Vamos lembrar que boa parte dos mosteiros católicos na Europa produzem vinhos e cervejas. Então não tem nada a ver, vida religiosa e álcool não se opõem. Nas cerimônias católicas os padres bebem vinho na missa, que seria o sangue de Cristo. O álcool faz parte da vida social há muitos séculos, o erro é beber em excesso”

“Pediram que eu fizesse alguns vídeos, junto com psicólogos. Esses psicólogos fizeram pequenos testes para que a própria pessoa perceba se o que ela está bebendo é adequado ou não para ela, para que cada um de nós tenha consciência de que bebida não é para acabar com a depressão, com a tristeza, com a raiva. Ela é para ser uma celebração, como fazemos na Páscoa judaica e nas missas católicas”

“Quando me pedem para fazer propaganda de moderação, consciência e auto-conhecimento, essa é a minha linha de ativismo social: conhece a ti mesmo e transforme o mundo, sendo você a transformação”

Assista à entrevista: https://youtu.be/AFwRFQK5PzA

“Até meditar demais não é bom, rezar demais não é bom, tudo que é em excesso não é benéfico”

No início de agosto, a decisão da Monja Coen de aceitar o convite da Ambev para se tornar a nova “Embaixadora de Moderação” da empresa, gerou um debate intenso sobre ética e consumo na internet.

A Ambev é a produtora das cervejas Brahma, Skol, Antarctica, Stella, além de vinhos, vodcas e outras bebidas alcoólicas e não-alcoólicas. A receita da empresa foi de R$ 16,6 bilhões e o lucro de R$ 2,7 bilhões entre janeiro e março desse ano.

Durante a pandemia houve um aumento considerável no consumo de álcool; 35% das pessoas entre 30 e 39 anos estão tomando doses excessivas de álcool e o alcoolismo se tornou mais comum por conta do isolamento social, de acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde.

Para Fábio Mariano Borges, sociólogo, antropólogo e professor de tendências do consumo da ESPM, “O último terreno sagrado caiu, foi corrompido. O budismo ainda é envolto nessa aura sagrada, que lhe dava um tom imaculado e, quando a monja se rende ao mercado, isso se perde”.

Hilaine Yaccoub, doutora em antropologia do consumo, postou: “Será que a monja Coen acredita mesmo nesse papo bem intencionado da Ambev que, concomitante a contratação desse discurso, investe pesado em outras frentes demonstrando completo descaso na preocupação com qualquer mensagem de autoconhecimento e moderação no consumo?”.

Outro ponto sensível é sobre a linha tênue entre tolerável e abuso – não há nível 100% seguro de consumo.

Monja Coen responde a estas e outras questões, nesta que é sua terceira participação no canal Inconsciente Coletivo. Ela é fundadora da Comunidade Zen Budista no Brasil, já vendeu mais de meio milhão de livros, e conta com mais de 1,8 milhão de inscritos em seu canal no Youtube e 2,7 milhões de seguidores no Instagram.

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“A Ambev me procurou e me perguntou se eu podia participar de um projeto que estavam fazendo sobre moderação ao beber. Não é para alcoolismo, não é para pessoas que têm a doença do alcoolismo. É para 50% da população mundial que bebe, mas que precisa saber beber com dignidade, de maneira correta”

Não somos iguais, cada um de nós tem necessidades diferentes, cada um de nós tem que ter a consciência do que é adequado para si e em que momento. Então quando a Ambev me perguntou se eu poderia participar de um grupo de estudos sobre moderação da bebida, eu falei “claro”. O que Buda fala é “o caminho do meio”, que é sem excesso e sem falta, então o caminho do meio que é o caminho da consciência, da moderação, de quanto que é adequado, é uma coisa que me interessa divulgar”

“A campanha da Ambev eu aceitei fazer de muito bom grado para dizer “não faça excessos, a gente sabe que tem um caminho do meio que pode ser alegre, prazeroso. Bebeu demais passa mal, vomita, fala besteira”

“Por que de repente todas as empresas ficaram tão boazinhas? Tão a favor da natureza? Eles querem vender seus produtos, querem o lucro, mas se para ter o lucro nós propusermos pensamentos que são benéficos para a sociedade no mundo, eu apoio. O que eu apoio é o pensamento que beneficia o ser humano, porque o lucro deles [Ambev] não chega até mim”

“Interessa mais a Ambev ter um público constante e que não se exceda muito [bebendo], para não ficar doente e morrer. Então eles também sabem que estão lidando com alguma coisa que se for em excesso pode fazer muito mal”

“Esses dias estava passando um programa com o Chico Buarque, Gilberto Gil, contando da época dos grandes festivais. E em determinado momento o Chico diz assim, “pois é, eu fui nesse lugar, mas eu não lembro o que estava acontecendo lá porque me disseram que eu tava [bêbado]”, e ele ri. Isso é uma propaganda para embriaguez, porque ele é um grande ídolo, é um cara amado, grande compositor, grande musicista, grande crítico social e ele achava muito divertido estar “chupado” [bêbado]. Eu acho isso ruim, não acho bonito a gente dar um exemplo de “ah fiquei tão chupado, engraçado”. Isso não!”

“A gente vai ter que abusar um pouco para saber primeiro, sobre nosso limite. Quem nunca abusou não vai saber. Você abusa e fala “nossa, passei mal, vomitei, não foi legal”

“Quando eu trabalhei no Jornal da Tarde como repórter, eu bebi muito. Nós saíamos da redação, a gente ia jantar às duas, três da manhã e a gente sempre tomava vinho, quando não era whisky, outras coisas. Eu tive até um acidente de carro, bati em uma árvore e nunca mais bebi da maneira que eu bebia com o pessoal. Praticamente não bebo mais”

“Descobriu-se agora produtos que são feitos com cannabis e que são muito benéficos, que são usados como cura de doenças… Tudo é como se é usado. Se você está só fumando um cigarro de maconha e fica mais atento, com a presença mais clara, isso é uma coisa. Agora, se você vai misturar com coisas que fazem o efeito contrário, não vai funcionar para nenhum lado e a pessoa fica perdida na história”.

“As pessoas têm que perceber que você pode ficar alegre sem o cigarro, sem a bebida, que você pode ser feliz sem o amor. É possível viver a plenitude sem um relacionamento estável amoroso e retribuído”.

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