Mortes por asfixia no pulmão do mundo: o luto possível, segundo Maria Homem
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Mortes por asfixia no pulmão do mundo: o luto possível, segundo Maria Homem

Morris Kachani

01 de fevereiro de 2021 | 10h00

“É um fenômeno muito complexo no Amazonas, mas uma parte disso gira em torno do que chamo a “erótica da morte”. O “gozo” do torturador, o “gozo” do genocida, o “gozo” daquele que precisa estar em um lugar de decisão sobre a vida e a morte e que faz todo um arsenal estético da camuflagem, da arma, do exército, da invasão do Capitólio; fascismos, neofascismos, máximo de poder; todo eles estão trabalhando nessa tentativa de subversão de um lugar”

Assista à entrevista: https://youtu.be/4PwV-wCoay4

“Eu preciso tornar isso tudo banal para que você morra e eu viva; a gente está muito longe de ter uma lógica igualitária democrática”

“”Aqui é proibido pescar e é aqui que eu quero pescar, porque você disse que era proibido”; qual é o meu problema? Que história é essa de tirar o meu direito de ir e vir? Já que eu estou identificado em um lugar que tudo pode e que é imortal, eu não me importo com a sua morte e com sua vida, aliás, eu gozo mais se você morre porque isso reforça a ideia de que você é mortal e não eu””

“Quando eu vejo uma posição de alguém que precisa a priori destruir o outro, matar o outro e não sentir, isso me choca. A gente tem que deixar o outro entrar, como o outro válido. Ou é isso ou é o fim do planeta, a destruição. Se a gente banaliza uma narrativa em que o outro é menor, que o outro é mal, o outro é bandido, o outro tem que morrer, isso é uma defesa patológica de você contra aspectos de si mesmo que você não consegue sustentar”

“Às vezes eu tenho medo de que a gente banalize o gozo da destruição, porque o ponto importante é que a gente goza nesse lugar imaginário de estar identificado com um certo divino, que é o mito daquele que tem o poder da vida e da morte. Isso é mortífero para você e para todos os envolvidos. Eu tenho medo de que a civilização embarque numa espiral de gozo mortífero muito mais do que ela vai poder segurar”

Como cozinhar um almoço, cuidar das crianças ou exercer as tarefas mais banais do cotidiano, enquanto um monte de gente está morrendo por asfixia no seu próprio país, em um lugar que, ironia das ironias, é conhecido como sendo o “centro do pulmão do mundo”, por inépcia de um governo lunático, de extrema-direita, democraticamente eleito e apoiado por parcela significativa da população?

Naturalizar estas mortes? Se alistar em um trabalho voluntário? E o luto? Que luto que se espera de você?

É preciso esquecer da morte para se viver; mas é preciso resgatar a memória de quem se foi; e cultivar a alteridade.

Nesta entrevista com a psicanalista Maria Homem, assomam algumas pulsões: o gozo do genocida, o erotismo da morte, e a banalização dela própria.

“Vamos deixar vivo quem está morto. A gente precisa do amparo de identificação imaginária com o outro. Esse trabalho de “deixar vivo”, ele acontece porque a gente faz uma identificação inconsciente para manter para sempre a nossa missão, a nossa causa, o nosso amor, o nosso amado, o nosso filho, o nosso pai. Vencer a morte através da vida”

Maria é pós graduada em psicanálise e estética pela universidade Paris VIII, e lançou recentemente ‘Lupa da Alma’, livro ensaio sobre como a pandemia se projeta no self, nas relações amorosas, nos laços familiares, no trabalho, na rotina da casa, no protagonismo das telas e na lida com o luto e com a morte.

“Se eu tiver o privilégio de crescer sem medo do outro, sem pânico e achando que o outro é mais companheiro do que inimigo a ser destruído, podendo viver de forma confortável a vida, é mais agradável”

“O primeiro grande luto é da estrutura da infância, que é desmontar um lugar de potencial máximo parental, de “deus pai todo poderoso”. Se o filho não faz esse luto, ele não cresce e não vira ele mesmo: um humano com capacidade de escolha, decisão, liberdade, livre arbítrio. Essa é a ideia, isso é democracia, isso é a grande virada da modernidade”

“A gente não lida bem com a ideia de parcialidade e isso é a base da democracia”

“Onde é que a gente erra? Onde que está o nosso desejo inconsciente muito infantil totalitário?”

“A gente também suporta a morte com sobrevida. A grande função da religião é te dar essa sobrevida. O “grande Deus”, a “grande vida” vai existir para sempre”

“Há uma conivência das elites com esse projeto político. As elites no século XXI sustentam isso [as tragédias e caos] em nome da mesma fantasia mítica de que é um lugar divino/privilegiado de serem os “amigos do rei”.

“A gente tem um país tão injustiçado que qualquer discurso de “justiça” cola”

“Às vezes a gente tem tanto pânico da morte propriamente, que uma estratégia de sobrepassar essa angústia, esse vácuo, esse vazio, é você fazer uma “erótica da morte”, que é você ficar bem perto da morte. É por exemplo, você [tatuar] símbolos de caveira, armas em você. A capacidade de matar, a capacidade de destruir. Você faz uma inversão sujeito-objeto na equação, ou seja, não é você que é objeto da estrutura do cosmos e da vida. Você diz, “eu controlo a vida, eu tiro a vida. Eu dou e eu tiro”

“Qualquer movimento autoritário, fascista ou neonazista, tem uma identificação com o lugar daquele que mata, daquele que tira. Como se fosse uma identificação bastante pueril de um lugar divino, suspostamente divino, com um lugar de uma transcendência que dominaria essa vida”

“A gente tem que fundar uma estratégia de posição para afirmar a vida, ao redor de toda a “não-vida”. Isso não é óbvio; é que dá certo para a maioria das pessoas, mas precisou acontecer essa operação quando a gente é muito bebê. Isso é início da grande “maternagem”. Tem todo um “não-ser” que não é muito visível e que a gente tem que não ver, que é a morte, que é a perda, que é a violência, que é tudo isso que vai revelar para a gente que “eu não vou estar aqui para sempre, como que vou dar sentido para aquilo que faço?” Quando você não consegue fazer essa operação você está em um ponto de melancolia ou depressão grave/catatônica”

“Tem que ter um outro que te receba, quando você chega nessa vida, e insufle isso de desejo, de paixão, de sentido, de significação. Porque senão você pode cair em um lugar que é justamente esse, o da queixa do melancólico: “por quê? Para que sair da cama?” Tem um grande peso da repetição do ciclo da vida, tudo de novo. Se você faz a conta de quanto você precise comer, aí dá preguiça. Talvez por isso a gente precise fetichizar um pouco o prato de comida, colocar tanto dinheiro na comida, na bebida, na sobremesa, no galho de alecrim aromatizado com ervas da Tailândia. Esse momento nada mais é do que a sua submissão a ter que cuidar desse corpo que é mortal, que vai desaparecer daqui a pouco e você precisa ir colocando nele energias contínuas”

“A escala humana, a sua congregação de células, é um átimo de consciência em uma vastidão de partículas. Então, a gente precisa de coragem para viver e saber da condição humana”.

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