Mortes por sufocamento: uma realidade constante
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Mortes por sufocamento: uma realidade constante

Morris Kachani

06 de junho de 2022 | 11h17

A morte por sufocamento de Genivaldo de Jesus Santos, negro e esquizofrênico, após agentes da PRF (Polícia Rodoviária Federal) soltarem gás lacrimogêneo no porta-malas da viatura em que foi colocado, escancaram uma trágica realidade social brasileira e a maneira como a temática da doença mental vem sendo conduzida pelo Estado, em seu pior aspecto.

O estouro da Cracolândia e a “limpeza” das ruas das grandes capitais às vésperas da Copa em 2014, são fenômenos da mesma natureza.

Seja pelos cortes de verba, seja pelo restabelecimento de uma lógica manicomial, de confinamento, colocando a Reforma Psiquiátrica em xeque, a política pública de saúde mental vem sofrendo sérios reveses, em um momento dramático agravado pelo quadro da pandemia.

Este foi o tema da entrevista com a psicóloga da Área Técnica de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso, Daniela Santos Bezerra, doutora em psicanálise pela UERJ, e pós-doutoranda pela USP.

Assista à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=EY7xdFWncaI

Acabamos de ver acontecer um sufocamento em via pública de um usuário de saúde mental. O sufocamento desse rapaz, vem acontecendo longe das nossas vistas dentro das comunidades terapêuticas. Não com essa técnica de gás, que é o nazismo colocado ali na nossa frente, um campo de concentração.

O que acontece é que se levam essas pessoas que estão em sofrimento psíquico para lugares longínquos, e lá dentro sofrem tortura, ataques a sua própria forma de existir, seu sofrimento é colocado como um problema que tem que ser enterrado, que é um problema de caráter, e ele precisa de remédio, oração e de trabalho. É isso que acontece nas comunidades terapêuticas – é tentar colocar as pessoas no padrão, mas bem longe dos nossos olhos”

“A gente está tendo o benefício de pesquisadores que entraram nas universidades com políticas afirmativas estarem mostrando para a gente o quanto o Estado se forma, e do jeito que é a História do País, no caso 330 ou 340 anos de escravidão e mais 20 anos de ditadura e o quanto ele é estruturado para atacar a própria população. Mas não é qualquer população, é a negra, pobre, periférica e que destoa do padrão “disney””.

“De 2006 para cá, foi acontecendo um desinvestimento financeiro na política pública de saúde mental. Isso foi cada vez mais sendo minado e deliberadamente, em 2018, o financiamento público não veio para o Ministério da Saúde, foi para o Ministério da Cidadania e aí são milhões e milhões investidos em clínicas psiquiátricas e comunidades terapêuticas para internar as pessoas. Porque o Ministério da Saúde está muito “bem amarrado” pelas conquistas legais mostrando que não é para a gente investir tanto em internação, a gente precisa investir mais em serviços abertos, de acolhimento”.

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