Nabil Bonduki: “Na pandemia, os desiguais ficam ainda mais desiguais”

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Nabil Bonduki: “Na pandemia, os desiguais ficam ainda mais desiguais”

Morris Kachani

01 de maio de 2020 | 11h22

Um recorte social da geografia da cidade nos tempos pandêmicos

Por Isabella Marzolla

Assista à entrevista: https://youtu.be/F3w_qoBk1YY

Os bairros mais afetados pelo vírus neste momento são periféricos e de renda mais baixa, como a Brasilândia (81), Sapopemba (77 óbitos), São Mateus (58 óbitos), Cidade Tiradentes (51 óbitos), Cachoeirinha (50 óbitos), Sacomã (50 óbitos), entre outros.

Mas o vírus nem sempre esteve circulando pelas periferias. Até dia 31 de março, de acordo com o boletim Covid-19 da Secretária Municipal de São Paulo, os bairros que registravam maior número de casos eram na região da Lapa/Pinheiros, que inclui bairros como Jardim Paulista, Itaim Bibi, Perdizes, Pompéia – somando na época 284 casos. Na Vila Mariana/Jabaquara (zona sul) foram 90 casos registrados e na região central da capital, a Coordenadoria Regional de Saúde do Centro registrava nos bairros da Sé e Santa Cecília 50 casos pela doença.

Enquanto bairros de baixa renda, à época, apresentavam baixo número de infectados; Cidade Tiradentes e São Mateus, que hoje são dos mais afetados, ao final de março apresentavam apenas 1 caso. Ao norte da capital, a Brasilândia tinha 1 e Cachoeirinha 13, sem nenhum óbito. Hoje esses quatro bairros lideram o ranking de mais atingidos.

Impossibilidade de isolamento social, falta de saneamento básico adequado, longos deslocamentos com muitas conduções até o local de trabalho e a aglomeração populacional acabam exponenciando a proliferação do covid-19 com facilidade, atingindo principalmente a população que habita as regiões mais pobres e distantes das zonas centrais de São Paulo.

Nabil Bonduki é atualmente professor da FAU-USP. Foi relator do plano diretor de São Paulo de 2002 a 2014, superintendente de habitação popular no governo de Luiza Erundina (1989-1992), secretário de cultura durante a gestão Haddad (2015-2016), consultor na elaboração de planos diretores e de habitação para inúmeros municípios, como Franca, Ipatinga, Nova Iguaçu, Taboão da Serra, Salvador e Distrito Federal e autor do livro “Origens da Habitação Social no Brasil”.

Aqui seguimos o deslocamento do vírus pela cidade, pelos vários bairros e pelo Centro, através do olhar de Bonduki.

“Em São Paulo, temos mais de 3 milhões e meio de pessoas que vivem e dormem com três ou mais pessoas no mesmo dormitório e 250 mil que dormem com 5 ou mais no mesmo dormitório (…) E em torno de 30 mil que vivem em situação de rua”. Para esses todos, lembra Bonduki, o confinamento é muito duro.

Nesta entrevista ele elogia a postura do governador, mas questiona uma medida.

“A gente vê a irresponsabilidade da prefeitura e do governo. Porque quando caiu o número de passageiros no transporte coletivo, com o isolamento, ao invés de manterem a frota no mesmo patamar anterior, eles reduziram. Isso é uma lógica meramente econômica.”

Lamenta claro a ausência de uma unidade política para enfrentar a pandemia no país…

Lembra que “muitas vezes se utilizou os problemas sanitários como forma de fazer a limpeza social”.

Mas encerra o bate-papo com um tom de otimismo. “Uma cidade melhor vai ser também uma cidade melhor na época da pandemia. Uma cidade menos desigual que enfrente os problemas de segregação socioambiental, todos eles vão ser positivos na pandemia”.

“Quem sabe essa utopia de uma cidade mais sustentável, mais justa e com menos desigualdade, uma cidade que a gente possa conviver no espaço público, vire uma realidade no futuro próximo”.

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