Namastê, Otavio Frias

Namastê, Otavio Frias

Morris Kachani

24 Agosto 2018 | 09h29

A sensação de impotência é muito grande, quando um amigo se vai. Por alguns períodos convivi com o Otavio Frias Filho, que para sempre será lembrado como o diretor da Folha de S. Paulo, que modernizou o jornal.

Mas eu gostava mesmo era do encantador parceiro de vida, que vinha em casa com uma de suas filhas, aos domingos. Por horas conversávamos e bebíamos e fumávamos, enquanto ela e minha filha se divertiam louca e igualmente.

Foram as pequenas, que estudaram na mesma escola, que efetivamente nos aproximaram. Curiosamente, depois que fui demitido da Folha, em 2014. Até ali o nosso contato era apenas digamos, profissional.

Foram imensas trocas intelectuais desde então. Cada um a seu modo introspectivo, investigadores do conhecimento, trocávamos experiências e juntos tentávamos formular os juízos da vida, como se estivéssemos escrevendo um texto editorial a quatro mãos.

Falávamos bastante sobre paternidade, por certo. Só as crianças e alguns adultos afortunados sabem, Otavio era um exímio contador de histórias infantis. E um pai extremamente dedicado e carinhoso.

Mas a pauta evidentemente também incluía a política, e os bons e maus costumes – talvez só não coubessem mesmo os assuntos esportivos, aos quais ele nunca foi afeito.

Otavio entrava com sua lucidez racional, moldada no ideário iluminista, como ele próprio evocava. A mim cabiam os lampejos intuitivos -às vezes exagerados?, um pouco próprios da cultura árabe.

Pois então tive algumas intuições com sua partida. Ele parte a 7 semanas desta eleição escrota, em que Bolsonaro lidera as pesquisas e Lula não larga o osso. Eu também acho muito estranho, que ele esteja partindo no mesmo tempo em que o Grupo Abril entra neste processo de recuperação judicial.

É um mundo que se vai. O mundo de que venho.

Tento pensar na morte, não apenas como uma perda, mas como um processo de transformação. Só que o aperto no coração é muito grande. A sensação de impotência é muito grande.

Acho que eu ainda preciso falar sobre sua generosidade, sobre esta sua extrema sensibilidade que só quem teve a felicidade de conviver de perto, especialmente aos domingos rs, conheceu.

Embora tivesse muito a dizer, sabia ouvir. E era um homem de poucas palavras. Quando eu soube do câncer e o procurei, no começo do ano, assim ele me escreveu: “Aqui vou enfrentando essa situação nova da melhor forma possível. Não é simples mas há portas de saída”.

Abaixo reproduzo, trecho de uma entrevista que fizemos em 2004, um pouco depois do lançamento de seu excelente livro, ‘Queda Livre’, para o site no.

Coube ao Beto Nejme, um dos maravilhosos amigos que fiz durante minhas duas passagens profissionais na Folha, a autoria desta simpática ilustração que acompanha o post. E por que a caneta Bic? É a Bic que ele ficava jogando para cima antigamente, enquanto caminhava pra lá e pra cá, nos headquarters da redação.

“Pra mim a morte dele tem um sentido metafórico/ psicanalítico/ paradigmático/ histórico/ tudojunto”, resume o Betão. Pra mim, também.

Perdi um grande amigo, e o Brasil perdeu um grande cara.

Namastê, Otavio. O Deus que está em mim, saúda o Deus que está em ti.

*

Você se considera satisfeito com a vida?

Acho que na medida do possível, sim. A gente está sempre insatisfeito, mas sim, na medida do possível. Eu diria que estou 80 por cento satisfeito, 70 por cento. Nota sete: tá bom.

Você gosta do que faz?

Não sou apaixonado por jornalismo. Eu tenho uma ligação afetiva até forte a estas alturas com a profissão, eu estou há muitos anos nisso, cresci em parte neste ambiente desde adolescente… Então eu tenho uma ligação forte, uma coisa afetiva, uma coisa de profissional evidentemente, mas eu não sou um apaixonado pelo jornalismo.

Os assuntos que são publicados no jornal ou que passam pela sua mesa, eles te interessam?

Não. Digo que uma parte pequena deles desperta um interesse pessoal. Economia é um handicap para mim, conheço pouco, para não dizer nada. Então, isso é um vôo cego para mim. Esporte realmente é uma área em que não tenho interesse, conheço pouco por falta até de interesse pessoal, de aptidão, de gosto. Opino pouco sobre esporte. Meu interesse é mais por política, sempre fui muito interessado em política, continuo sendo e também pela área de cultura.

Quais são as coisas que menos te apetecem no dia-a-dia em termos de jornal?

Aquele conjunto de coisas: falta de tempo, falta agônica de tempo. Eu gostaria de fazer as coisas mais devagar, gostaria de dedicar mais tempo a cada problema, a cada assunto, gostaria de ter mais tempo para ler, para viajar, para conhecer coisas. Mas isso tudo fica bem sacrificado porque é uma pressão em termos de tempo razoavelmente pesada. Muita reunião, e-mail, telefonema, muitos atritos internos que tenho de alguma maneira desemaranhar, desembaraçar.

Chefiar também deve cansar, não?

É. É um talento bem especial chefiar. Me cansa às vezes. É difícil.

Você consegue ser sincero o dia inteiro?

Não, porque minha função é muito política, né, então… Eu evito evidentemente mentir. Felizmente não me vejo em contingências ou em situações em que eu seja obrigado a mentir. Mas ser político, ser diplomático, isso eu faço o tempo todo. Procurar aparar arestas. De outro lado, em termos de escrita, eu tenho procurado, enfim, ser sincero. Escrevi um livro que pode ter outros defeitos, mas o da insinceridade acho que ele não tem. Então, neste sentido, tenho procurado acreditar mais na escrita e mais na minha capacidade de escrever.

É intrigante um diretor de jornal se dizer não apaixonado pelo jornalismo…

Eu tenho um ritmo pessoal que é muito diferente do ritmo do jornal. Eu tenho uma certa tendência a ser perfeccionista, gosto enfim de atividades mais introspectivas, de reflexão, de leitura, atividades que implicam um certo ritmo muito menos frenético, trepidante do que é o ritmo de vida de um jornal, um jornal diário. Então, eu não tenho muita afinidade intrínseca, sei lá, genuína com a profissão. Mas sou grato a ela, acho que na medida do possível me dei bem nela. E tenho certas aptidões também que ajudaram. Se a minha família estivesse metida digamos num negócio de engenharia, eu seguramente teria feito uma vida muito mais desligada da família do que eu fiz. Eu não teria trabalhado num negócio de engenharia, por exemplo. Mas sendo jornal, sempre fui bom de português, sempre tive muito interesse em política, tive uma certa militância política na época do movimento estudantil.

O que você gostaria de ser?

Talvez professor universitário. Eu teria feito uma carreira universitária se meu pai fosse um empresário de outro setor ou tivesse outra profissão. Mas houve esta coincidência de eu ter alguma inclinação para esta coisa de escrita, e enfim minha família tem este vínculo com o jornal.

Como você lida com a questão de herança, como funciona isso na sua cabeça?

Eu sou uma pessoa relativamente desapegada de valores materiais: riqueza, poder, essas coisas. Não digo que eu tenho desdém por essas coisas, evidentemente que não. Acho que essas coisas têm uma importância, um valor, uma utilidade sem dúvida, mas eu não sou uma pessoa que, digamos, viva em função de perseguir estes objetivos e ao mesmo tempo, por uma circunstância fortuita, eu nasci numa família que tinha propriedade, que é o jornal.

Trabalhar com a família deve ter suas compensações e seus problemas.

Eu acho que, em tese, as empresas familiares são muito criticáveis se comparadas ao modelo das empresas profissionalizadas, exceto por uma razão: numa empresa jornalística, a característica familiar permite que a empresa mantenha uma certa identidade ao longo do tempo e – como eu estou convencido de que no jornalismo a identidade pública dos veículos demora muito tempo para ser construída, assim como demora muito tempo para ser destruída – eu acho que a presença de famílias nos veículos de informação tem esta vantagem comparativa. Não é à toa que o jornal mais carismático do mundo é até hoje uma empresa familiar (‘The New York Times’, da família Sulzberger), um jornal que está situado na economia mais dinâmica, mais avançada do planeta. Em termos de modelo, eu acho que o de gestão profissional é superior ao modelo da gestão familiar, em quase todos os aspectos, até porque a gestão familiar é sempre uma loteria. O seu filho pode ser o Henrique V, mas seu filho pode ser o contrário do Henrique V e isso é lotérico.

Hoje escassearam os grandes jornalistas nas redações… É uma realidade isso?

Talvez. Acho que tem um pouco isso. Quer dizer, as máquinas das redações acabaram ganhando uma preponderância sobre as personalidades. Acho que antigamente você tinha mais personalidades marcantes trabalhando nas redações do que você tem hoje na média, pelo menos. Mas acho que é também um movimento geracional, quer dizer, ralar dentro de uma redação durante horas e horas e horas geralmente é coisa para as pessoas fazerem durante um certo período de tempo. Poucas pessoas ficam no jornalismo muito tempo. Muitas levam uma vida de redação numa fase inicial e depois ou vão fazer outra coisa ou vão ter um tipo de vida que não implica aquele estresse de redação. Viram colunistas ou escritores, como o Elio Gaspari ou o próprio Cony.

Você acha que melhorou ou piorou a qualidade do jornalismo hoje no Brasil?

Eu acho que, na média, melhorou.

Você lê o ‘Estadão’?

Leio, mas superficialmente. Não sou um leitor, digamos, meticuloso, mas leio todo dia.

No que você acha que o ‘Estado’ é melhor que a ‘Folha’?

Digamos assim, quais qualidades eu admiro no ‘Estado’. Eu admiro a qualidade que é talvez ao mesmo tempo um grande defeito do jornal, que é o peso da tradição. Acho isso admirável numa publicação, embora ache que isto também tira movimento, torna a publicação um pouco paquiderme. O peso da tradição do ‘Estado’ e a continuidade, digamos, doutrinária ao longo de tanto tempo, séculos, num país tão instável e cambiante como o Brasil, isso eu acho que é uma coisa muito admirável.

Você acha que a ética predomina nos meios de comunicação?

Eu acho de novo que melhorou. Com relação à época do Chateaubriand, está muito melhor hoje do que naquele tempo. Mas eu acho que tem muita demagogia e muita hipocrisia por trás do discurso de ética jornalística. Acho que a melhor ou a pior qualidade ética de uma publicação tem menos a ver com o desejo e a subjetividade das pessoas que fazem esta publicação, que dirigem esta publicação e tem mais a ver com as condições objetivas de mercado. Quer dizer, quando não há mercado, a mídia precisa recorrer a expedientes que não são éticos para sobreviver mais facilmente.

Como assim?

Imagine um jornal imaginário, no interior de um estado muito pobre do Brasil. Provavelmente, o dono deste jornal o utiliza para fazer negócios, provavelmente ele condiciona o noticiário que  publica a certas conveniências e interesses que ele cumpre como empresário, em termos do que ele espera do governo local, da prefeitura local, do governo do Estado, do escritório do ministério tal na cidade onde esse jornal imaginário é publicado. Ao mesmo tempo, muito provavelmente, neste jornal haverá jornalistas que não só têm dois empregos como eventualmente até cobrem uma repartição pública na qual eles trabalham. Então, qualquer um de nós diria que o comportamento deste dono de jornal não é ético e que o comportamento deste jornalista também não é ético. Eu tendo a colocar o juízo pessoal a respeito destes indivíduos imaginários em segundo plano, eu acho que nessa região imaginária não existem relações de mercado suficientemente diversificadas e densas; então, justamente por isso, esse dono de jornal precisa recorrer a estes expedientes, se não o jornal dele fecha. Eu estou me referindo a isso apenas para dizer que eu acho que, no plano que não são das relações pessoais, esta preocupação ética acaba sendo no fundo falsa, demagógica, sentimental. Eu não acredito nela, eu acredito que a ética tem a vigência no campo das relações pessoais. Fora do campo das relações pessoais, eu acho que são pressões e contrapressões que podem conduzir a um resultado mais ético ou menos ético. Enfim, eu sou materialista.

Agora, é evidente que não estou propagando a falta de ética. Eu só estou procurando dizer que, na minha visão, é menos importante se o dono do jornal ou o jornalista tem boas ou más intenções. Eu acredito em forças, em mecanismos impessoais que obriguem a certos resultados que são mais éticos e eu acho que estes mecanismos são a competição e a depuração pelo mercado, a fiscalização pela opinião pública, o alto esclarecimento do leitorado, etc, etc, etc.

Então, no eixo Rio/ São Paulo, esse tipo de coisa não acontece?

Eu acho que está havendo no momento uma regressão, sim, em alguns campos, premidos por uma crise financeira sem precedentes como esta que está vitimando a mídia brasileira neste período em que nós vivemos. Premidos por esta crise, alguns veículos estão cedendo a certas tentações que, no meu ver, implicam uma regressão em termos do desenvolvimento que a atividade jornalística já tinha alcançado no Brasil. De novo, para dar mais concretude ao que eu quero dizer, a famosa separação entre Igreja e Estado, que é a gíria para designar a separação entre redação e publicidade, entre departamento editorial e comercial, esta separação que se cristalizou felizmente nos principais centros urbanos do país na segunda metade dos anos 50 e o começo dos anos 60, esta separação está sendo enfraquecida. Isso é um exemplo de uma regressão forçada pela crise e que tem conseqüências negativas do ponto de vista, aspas, da ética.

Qual é sua impressão do governo Lula?

É chover um pouco no molhado porque eu acho que um número crescente de pessoas está hoje com a percepção que eu vou tentar resumir: eu acho que é um governo bastante decepcionante.

Você acha que o Lula é preparado para ser nosso presidente?

Do ponto de vista de preparo intelectual e de preparo administrativo, evidentemente não. Mas ele tem um outro tipo de preparo, que é o preparo político, a experiência como chefe político, como líder de uma facção durante muitos anos. Eu acho que provavelmente ele terá se surpreendido, ao chegar ao governo, com a complexidade dos problemas a serem enfrentados e com o fato de que, uma vez instalado no governo, você precisa agradar determinados setores e desagradar outros, uma tarefa muito mais difícil, mais espinhosa do que ela se afigura para quem esteve na oposição durante tantos anos. Eu acho que ele reage muito mal às críticas, não está acostumado a ser questionado, sempre esteve muito acostumado a ser incensado, ser bajulado, sempre foi cercado por uma corte, que gerou uma idéia de que ele era uma espécie de salvador da pátria, porque ele era um proletário, porque ele era uma pessoa de origem popular, porque ele tinha uma vocação de pureza política. Tudo isso evidentemente tem um aspecto ilusório e a conclusão é que me parece ser uma pessoa que não está acostumada a conviver com o questionamento, com a controvérsia, com a crítica.

Parece que houve um desentendimento entre vocês em um almoço durante a campanha eleitoral.

A ‘Folha’ tem esta tradição de convidar os principais candidatos para um encontro no jornal e, também segundo a tradição, este encontro é off the records, ele funciona mais como uma troca de idéias, nada do que é discutido nestes encontros é publicado. E então tivemos um encontro deste tipo com a presença do então candidato Lula e alguns assessores, e a presença também do proprietário do jornal, que é meu pai, e alguns editores. Durante este almoço, eu fiz um questionamento, bastante veemente, e que ele respondeu de uma maneira que não me pareceu adequada. Eu disse a ele, em resumo, que achava uma tolice a idéia de que uma pessoa sem educação formal, sem formação universitária não pudesse chegar à presidência da República, achava evidentemente uma idéia obsoleta. Então, que a minha pergunta não ia nesta direção, que eu não estava cobrando dele o fato de que ele não tinha um histórico de educação formal, mas que havia pessoas que pareciam fazer um questionamento muito mais adequado, pertinente que era o seguinte: de que modo, e esta era então a minha pergunta, ele vinha se preparando nos últimos 20 anos, quando teve tempo e condições de estudar, aprender, se debruçar sobre os assuntos. Então eu perguntava que tipo de preparo ele vinha procurando desenvolver nestes últimos 20 anos.

E o que ele respondeu?

Ele disse terminantemente que não ia responder a esta pergunta porque achava ela preconceituosa. Ele, deliberadamente então, confundiu a pergunta com o velho clichê de que alguém que não tem universidade não pode ser presidente, embora o preâmbulo da minha pergunta fosse exatamente o contrário. Eu achei a resposta atravessada e, depois, mais perto do final do encontro, fiz uma pergunta de novo em termos de bastante veemência, até ásperos, sobre a coligação que ele estava fazendo com o PL. Então, eu dizia que era normal que o PT passasse a uma política de alianças, mas que todo mundo esperava que estas alianças se situassem no campo que vai do centro para a esquerda. E, no entanto, ele estava coligado com um partido que não é só um partido de direita no espectro político brasileiro, mas que é um partido que sempre funcionou como correia de transmissão dos interesses de um político como o Paulo Maluf. Daí, ele tentou responder de uma maneira atravessada e eu repliquei. E, então, ele levantou e disse que desse jeito não dava para continuar e que ele ia embora. Levantou-se e foi embora seguido pelo seu séqüito. Em resumo, foi isso.

Em quem você votou?

Eu sempre anulo. Há muitos anos, eu decidi anular sempre meus votos porque me dá uma maior possibilidade de isenção psicológica. Como eu acho que é importante eu não entrar em clima de torcida, quando está todo mundo em clima de torcida se é Collor ou Lula, se é Fernando Henrique ou Lula, se é sei lá…

Mesmo com o Maluf no páreo, você não vota?

Claro que, pessoalmente, eu tenho horror ao malufismo. Mas, enfim, o jornal se propõe a fazer um jornalismo apartidário, há um compromisso público de o jornal dar visibilidade para as candidaturas de uma forma equânime. A ‘Folha’ tem uma outra concepção de política, diferente da concepção de outros jornais. Quer dizer, para certos jornais, a participação política do jornal se dá porque o jornal apóia um partido, uma causa e segue naquela linha, daquele partido, daquela causa. Acho uma concepção respeitável, mas não é a concepção da ‘Folha’. A concepção que vigorou, prevaleceu na ‘Folha’ é a idéia de que o jornal faz uma espécie de metapolítica, incide sobre as condições de produção da política e não só a política propriamente dita. A função do jornal é tornar mais transparentes as relações da política, a lógica da política, a maneira pela qual a política é feita e não fazer o prato da balança pender a favor deste político, ou daquele político. São duas visões diferentes de intervenção pública de um jornal. Acho ambas legítimas, talvez até complementares.

Você não acha que a imparcialidade é um mito?

Eu acho que é. Agora, eu acho que o desejo de ser imparcial e uma série de procedimentos técnicos, de técnica jornalística que permitem que o texto seja um pouco mais imparcial que outro, tudo isso eu não acho que seja um mito. A objetividade jornalística é um mito, eu concordo, mas eu posso te mostrar dois textos relatando uma cena que ocorreu ali naquela mesa há dez minutos e um pode ser mais objetivo e o outro ser claramente não objetivo.

Quais são seus maiores medos?

Puxa, eu tenho muitos medos, assim. Medo de altura. Uma certa claustrofobia também, mais leve do que o medo de altura. Uma certa aracnofobia.

Escorpiões também?

Mais aracnóides. E tenho os medos que todo ser humano tem, né? Medo de envelhecer, medo de morrer, medo de ficar sozinho, de sofrer. Claro, a minha condição humana.

Qual o seu maior desejo hoje em dia?

Tenho muitos desejos, mas, dentro do que a gente está conversando, meu maior desejo é continuar escrevendo, continuar publicando livros que eu ache que valeram a pena fazer, como foi o caso desse. Eu realmente fiquei muito contente com o resultado. Gostaria muito também de fazer uma série de viagens que eu não fiz, lugares que eu gostaria de conhecer e quem sabe ainda ter filhos.

Talvez esta seja a grande viagem.

Ter filhos de certa forma é uma aceitação, uma aceitação do tempo, da morte. Acho que é isso que está implicado em ter filhos. É uma infantilidade racionalista não querer ter filhos e é uma prepotência, melhor dizendo, uma onipotência não querer.

Como você enxerga o amor?

Eu acho é que uma das dádivas da vida. Um dos sentimentos mais maravilhosos que existem é o sentimento de estar apaixonado, de estar amando. Mas, até talvez como uma compensação, e eu acredito bastante no que o Emerson chamava de leis das compensações, tudo compensa tudo. Então, talvez até a título de compensação por ser um sentimento tão intenso, ele é um sentimento efêmero, que dura um determinado tempo. Eu já li biólogos que dizem que o tempo do enamoramento na espécie humana, não por acaso, corresponde mais ou menos ao período da gestação, da primeira socialização do bebê. Como se ele fosse um dispositivo realmente da seleção natural para que o casal ficasse junto durante um período de um ano, um ano e meio. Enfim, verdade ou não, o fato é que empiricamente você constata que é um sentimento efêmero e eu acho que, na melhor das hipóteses e felizmente esta hipótese se verifica em inúmeras ocasiões, este sentimento acaba desaparecendo e dá lugar a um outro tipo de sentimento que é menos intenso, que é menos vibrante, mas que, aí sim, é um sentimento duradouro.

Você acredita em casamento?

Eu acredito nestes casos, nos casos em que o sentimento intenso, porém efêmero da paixão, se transforma em um sentimento menos intenso, mas muito duradouro que é o sentimento de ternura, respeito, carinho entre os cônjuges, amor, se você quiser, entre os cônjuges. Isso eu acho que ocorre e acho que são abençoados pela sorte os casais com os quais isso acaba acontecendo.

Como é que você vê o futuro? Você é otimista em relação ao futuro do mundo?

Eu sou muito otimista em relação ao futuro porque eu acho que, com todas as dificuldades, em duas ou três gerações a miséria provavelmente vai estar reduzida a uma situação quase residual. Eu tenho esta convicção, eu acho que o desenvolvimento tecnológico e a possibilidade de multiplicação das riquezas vão nos trazer a esta situação. Apesar dos terrores, a humanidade teve uma evolução de qualidade de vida no século XX, a meu ver, maior do que a acumulada nos séculos anteriores e eu acho que esta progressão vai continuar e, então, dentro de duas, três, quatro gerações. a miséria material terá se transformado num fenômeno mais ou menos residual.

Como você vê o filme ‘As Invasões Bárbaras’ neste contexto?

Eu gostei muito de ‘Invasões Bárbaras’. É tudo muito multifacetado e eu acho que o modo de vida ocidental vai acabar prevalecendo, acho que vai acabar dissolvendo todos os restantes. Claro que com tudo que ele tem de bom e de ruim, porque ele tem uma contrapartida. A padronização, tecnificação, ciência, capitalismo, tudo isso cobra uma contrapartida, claro. Limita a vida pessoal, torna as pessoas escravas da mercadoria, robotiza elas.