“Não dá mais para fazer de conta que não existe o fenômeno trans”

Morris Kachani

08 Janeiro 2019 | 10h49

No complexo do Hospital das Clínicas em São Paulo, funciona o Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual, por onde já passaram cerca de 560 crianças e adolescentes, trazendo a questão sobre não se identificarem com seu sexo biológico.

Todos são submetidos a uma avaliação médica e, dependendo do caso, podem passar por tratamento hormonal e cirurgia.

Em outubro do ano passado, entrevistei o coordenador desta iniciativa pioneira, o psiquiatra Alexandre Saadeh – https://brasil.estadao.com.br/blogs/inconsciente-coletivo/o-universo-trans/.

Esta semana voltei a procurar o doutor Saadeh, para repercutir as declarações recentes da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, e um áudio do jornalista Alexandre Garcia que está circulando pelas redes, https://www.youtube.com/watch?v=LorbuSHGDhE.

Diante do momento político, entre os pacientes do ambulatório e suas famílias, Saadeh reporta uma certa apreensão, mas garante que até agora, fora algumas declarações circunstanciais, nada mudou.

É correto se falar em ideologia de gênero ou este é um termo criado por seus detratores?

Esse é um termo criado aqui no Brasil. É um termo errado, controverso e incoerente. O que existe é a Teoria Queer, criada por Judith Butler, filósofa norte-americana, que rebate a fundamentação biológica para o sexo e para o gênero.

A teoria queer, da Judith Butler, tem uma importância muito grande na cultura ocidental hoje; especialmente para o neo feminismo, e para os movimentos gays. Porque ela abarca essa questão do social, do cultural, da aceitação; é contra o machismo, o patriarcado, essas questões todas. E fala de gênero como uma construção sociocultural.

No livro “Problemas de gênero”, a Judith Butler fala que o sexo biológico não importa, o que importa é a determinação sociocultural que vai dizer sua identidade de gênero. É a sociedade que vai construir isso de uma maneira performática em você. E ela acha que as questões trans são uma forma revolucionária de se opor a essa restrição de gênero aplicada a todos nós.

A teoria queer tem uma importância, um grande valor. Mas, por exemplo, não fala de crianças trans. Se falasse, já estaria contrariando a teoria toda. E não aborda o fato de se ter muito mais mulheres do que homens trans. No mundo machista faria mais sentido ter mais homens trans do que mulheres trans. E não é o que a gente vê. Tem muito homem abandonando esse poder pra virar mulher.

A ministra e o jornalista insistem na identidade biológica: ninguém nasce com gênero, nasce com sexo. Na biologia, temos machos e fêmeas. Quando meninos pensam como meninas, ou meninas pensam como meninos, isso não muda o sexo.

Até aí correto, nascemos machos ou fêmeas ou algo entre os dois, interssexos. Essa é nossa base biológica. Daí, por volta dos três ou quatro anos de idade, expressamos nossa IDENTIDADE DE GÊNERO, que não é gênero (masculino ou feminino e social e culturalmente determinado). Identidade de gênero é a noção que cada ser humano tem de ser homem ou mulher ou algo entre essas definições. Enquanto o sexo é biológica e anatomicamente determinado, a identidade de gênero é subjetiva. Tem uma base biológica, mas contribuições do ambiente. É nessa idade que começamos a expressar se somos homens, mulheres ou algo entre esses polos.

O que tem sido feito e falado efetivamente nas escolas? Fala-se em doutrinação…

Em alguns lugares pode até ter e existir doutrinação, dizendo que ser homem ou mulher é algo social ou cultural, mas não é na maioria das escolas. O que acontece é que as escolas, na sua função cidadã, favorecem a integração de crianças com questões de identidade de gênero, estabelecendo que brinquedo não tem sexo, muito menos as cores. A grande maioria das crianças, assim como na sociedade, é cisgênera (não tem questões entre seu sexo e sua identidade de gênero), mas algumas são trans, ou seja, sua identidade de gênero não é congruente com seu sexo. Essas crianças podem sofrer bullying e até mesmo abandonar a vida escolar. Não vejo doutrinação na grande maioria das escolas que favorecem o convívio com as diferenças.

Como falar sobre transexualidade com uma criança ou um jovem? 

Geralmente o tema vem à tona por conta da mídia ou da presença de crianças com questões de gênero na escola. O ideal é abordar o tema, sempre que levantado ou vivenciado. Não dá mais para fazer de conta que não existe o fenômeno.

Em que medida se deve levar adiante o discurso de um menino que pensa como menina? Por ser um menino justamente, e não um adulto, qual o nível de autonomia e confiabilidade que se deve dar a ele?

O mesmo nível de autonomia que qualquer criança tem para falar sobre si mesma. Quando sente dor ela diz isso e todos acreditamos, mas quando se fala em identidade de gênero a coisa fica diferente. Como se uma criança não pudesse expressar se é menino ou menina. E estamos falando de uma vivência consistente, persistente e insistente, não uma brincadeira.

Comente a frase “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”. E que ninguém vai impedir de chamar as meninas de princesa e os meninos de príncipe.

Essa frase reflete uma imensa maioria que busca a adequação a esse padrão, mas não reflete a totalidade das crianças. Temos sim meninos que vestem rosa, porque são meninas e se sentem e percebem dessa maneira, e o contrário. Aliás, em casos mais raros, não existe nem uma definição; algumas crianças variam de um polo ao outro por anos; alguns a vida toda.

Como os jovens que estão em tratamento e suas famílias, têm reagido a este momento político? Há medo?

Sim, mas até agora, fora algumas declarações circunstanciais, nada mudou. Não acredito que devamos ter medo, mas sim ter clareza e fundamentação científica para afirmar e esclarecer pontos duvidosos.

Citando o presidente da Associação Americana de Pediatria, e o chefe de psiquiatria da universidade de John Hopkins, Alexandre Garcia diz que a administração de hormônios como testosterona para meninas e estrogênio para meninos durante a puberdade, aumenta a pressão cardíaca, pode causar coágulos na circulação e riscos de AVC e câncer. Faz sentido?

Essa associação é minúscula dentro da Pediatria norte-americana e essa posição de ser contra o acompanhamento médico e psicológico de crianças com disforia/incongruência de gênero é absurda para a grande maioria dos pediatras e psiquiatras norte-americanos. O professor da John Hopkins é conhecido por suas posições contra a transexualidade há anos, mas não há nenhum trabalho científico que corrobore suas posições. Há sim muitas evidências que contrariam essa posição tendenciosa dessa associação e desse professor.

…E que o risco de suicídio é 20 vezes maior para quem usou hormônio ou fez cirurgia.

Só para casos mal acompanhados ou diagnosticados (não por ser uma doença, mas por ser uma condição clínica que exige intervenção médica e essa só pode ser realizada frente a uma formulação diagnóstica).

Como países progressistas ou com a questão dos diretos humanos mais desenvolvida, como por exemplo no norte da Europa, lidam com a transexualidade?

De maneira natural, reconhecendo que o fenômeno existe desde a infância e necessita de acompanhamento amplo em termos de saúde.

Na entrevista anterior, você comentou que o Brasil tem uma questão com a transexualidade que remete aos anos da ditadura. Por que esta questão incomoda tanto?

Por colocar em xeque verdades absolutas, preto no branco, o que pode aparentemente gerar confusão na cabeça das pessoas. É justamente o contrário. Quem é homem, continuará sendo homem, quem é mulher, continuará sendo mulher, apesar de que não vai ter relação direta e óbvia com o corpo, com o sexo. Esse poderá ser mudado, mas sempre depois de muito acompanhamento e atenção.