Natalia Pasternak: “Se Coronavac se mostrar ruim, estamos em um mato sem cachorro”
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Natalia Pasternak: “Se Coronavac se mostrar ruim, estamos em um mato sem cachorro”

Morris Kachani

28 de dezembro de 2020 | 11h46

Enquanto até mesmo nossos vizinhos latino-americanos iniciam suas campanhas de vacinação contra o covid-19, o Brasil, que tem grande tradição, reconhecida internacionalmente, de saber vacinar a população, segue no escuro.

Assista à entrevista: https://youtu.be/bM8Bp76faBo

Como diz a divulgadora científica Natalia Pasternak, doutora em microbiologia pela USP, especialista em genética molecular e presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC), “estamos todos frustrados, no escuro, sem saber o que temos realmente de eficácia e segurança das duas vacinas com as quais a gente tem os maiores acordos bilaterais, que é a da AstraZeneca e a do Butantan”.

E mais: “O Brasil sem a Coronavac corre o risco de ficar descoberto”.

Isso em uma época bastante complicada, com o número de casos e hospitalizações subindo, os hospitais públicos e privados reportando que as UTIs estão cheias e que vai faltar leitos se a coisa continuar assim.

“A gente já esteve pior, mas estamos voltando para um cenário parecido com o pior, que era quando a gente tinha uma média de 1.000 mortes por dia. Ficamos bastante tempo com essa média”.

Enquanto isso, temos um ministro da saúde “quase inexistente, que quando aparece, atrapalha”.

“É surreal a desconexão com a realidade que os nossos representantes do governo federal têm”.

Natalia viralizou nas redes por estes dias. Ela participava como convidada do jornal da TV Cultura, e ficou indignada com uma reportagem que falava em tratar com bom humor e leveza as pessoas que ainda não usam máscara. Com razão.

Coronavac

“É a quarta vez que eles adiam a entrega dos resultados (da Coronavac). A gente está parecendo quadrilha de festa junina, ‘Olha o resultado da Coronavac…É mentira!’
O Instituto Butantan está se comportando com a sociedade de uma maneira desrespeitosa, inábil e incompetente”

“Não faz sentido nenhum. É um erro de comunicação muito grave, desperta desconfiança, dá margem a teoria de conspiração, a todo tipo de especulação do porquê eles não estão falando, o que estão escondendo de nós.
Quando muito provavelmente é incompetência mesmo. Devem ter esquecido de combinar com os chineses. Provavelmente é incompetência, não acho que tenha
nenhum problema com os dados, mas de qualquer jeito o exemplo é péssimo, a comunicação é péssima, mostra um desrespeito pelos jornalistas, um desrespeito pela população.
É um exemplo do que não fazer. É um exemplo de como não se comportar. É um exemplo de dizer, “olha, eu fiz um lockdown aí para vocês mas eu tô indo lá para Miami fazer umas comprinhas e já volto”

“Se a gente for especular, pode ser que a eficácia seja um pouco mais baixa do que eles esperavam e aí eles querem juntar com o resultado dos outros países, o que não estava previsto porque são ensaios independentes. Ou, pode ser
que os resultados não foram apresentados da forma correta para a Sinovac e para o Comitê Independente. Pode ser um monte de coisa que não quer dizer que a vacina é ruim. E pode ser que a vacina é ruim”

“Estamos todos frustrados, no escuro, sem saber o que temos realmente de eficácia e segurança das duas vacinas que a gente tem os maiores acordos bilaterais, que é a da AstraZeneca e a do Butantan”

“A AstraZeneca com certeza vai atrasar pra fazer o pedido da Anvisa porque eles tiveram problemas nos testes clínicos e vão ter que refazer”

“Quanto maior a eficácia, mais você garante a imunidade de rebanho até com uma cobertura vacinal menor. Quanto você tem uma eficácia muito baixa você precisa de uma cobertura vacinal extremamente robusta para dar conta do recado”

“Qualquer vacina acima de 50% de eficácia, já vai ser útil para ajudar a diminuir a taxa de transmissão da doença, ajudar a diminuir a incidência de doença grave e morte. Não é o ideal, não é uma maravilha, mas vai ajudar”

“Se a Coronavac se mostrar uma vacina ruim, que não dá para usar, a gente está num mato sem cachorro, porque a AstraZeneca vai demorar e a gente não tem nenhum outro tipo de contrato bilateral grande.

A gente está na fila de espera para comprar umas doses da Pfizer, mas a Pfizer já garantiu doses para o resto do mundo, então a gente realmente entraria em uma fila de espera. E a gente tem um acordo muito pequeno no Covax, o consórcio da OMS, que a gente aderiu pleiteando doses a 10% da nossa população; é isso que a gente têm. O Brasil sem a Coronavac corre o risco de ficar descoberto”

Ministro da Saúde

“[O Pazuello] É quase inexistente, quando ele aparece, ele atrapalha. Ele realmente tem sido um ministro da saúde que veio preencher um papel de que seria o grande mestre da logística e do planejamento e se mostrou completamente incompetente em logística e planejamento”

“Olha, ‘para que a ansiedade?’ é uma das frases mais infelizes que o ministro da saúde já falou. Porque realmente, qual a ansiedade de uma população que já está há quase um ano em quarentena, sem poder ver seus entes queridos, sem poder trabalhar, com a economia colapsando, muita gente passando necessidade, onde as vacinas são a nossa esperança mais efetiva de um retorno à vida normal? Eu acho essa ansiedade justificável e se o ministro da saúde não enxerga isso, ele deve viver em alguma outra realidade, que é a mesma do Presidente da República, na qual as pessoas que tomam vacina viram jacarés”

Obrigatoriedade da vacina

“A discussão da obrigatoriedade, que só surgiu por causa da fala do Presidente Bolsonaro, é ignorante e inoportuna. Nunca no país a gente tinha discutido obrigatoriedade de vacina, sendo que curiosamente elas sempre foram obrigatórias. E quando o presidente fala isso, ele cria uma imagem mental na cabeça das pessoas, as pessoas imaginam um agente de saúde arrombando a porta de sua casa com uma seringa na mão e as amarrando em uma cadeira para te vacinar.
Quando na verdade, a gente está no máximo falando de restrições da vida civil que já existem. Você não pode matricular seu filho em uma escola pública sem mostrar a carteirinha de vacinação, você não pode prestar concurso público, você não pode receber um auxílio governamental, como por exemplo o Bolsa Família. Essas restrições civis existem justamente porque vacina é um ato de saúde coletiva, não é individual”

Mutação

“A mutação preocupa no sentido que se for um vírus ainda mais transmissível do que o original, a gente vai ter que redobrar os cuidados de quarentena com uma população que já tava relaxando esses cuidados. Os cuidados não mudam, seja um vírus original ou qualquer tipo mutante – o uso de máscaras, evitar aglomerações, o distanciamento físico, isso funciona para qualquer vírus, mutante ou não.
Em relação às vacinas, é muito pouco provável que elas não funcionem. Teria que ter mutações muito específicas que mudassem a “cara” da proteína, que mudassem a “cara” do vírus, para que não fosse mais reconhecida pelos anticorpos gerados pela vacina, e isso é pouco provável de acontecer agora. Pode ser que daqui alguns anos surjam mutantes tão diferentes da linhagem original que a vacina já não reconheça, mas é pouco provável também”

2022

“Normal, normal, tipo show de rock todo mundo juntinho, só em 2022. Ao longo de 2021 vamos ter campanhas de vacinação, não vamos terminar de vacinar a população antes do final de 2021, com sorte, pode ser que demore mais. Vai depender realmente da nossa capacidade e da adesão da população”.

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