Natalia Pasternak: segunda onda está à espreita e não há data para nenhuma vacina
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Natalia Pasternak: segunda onda está à espreita e não há data para nenhuma vacina

Morris Kachani

23 de outubro de 2020 | 14h12

Com Isabella Marzolla

Entrevista com Natalia Pasternak, doutora em microbiologia pela USP, especialista em genética molecular e presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC), instituto fundado por ela em 2018, para difundir políticas públicas baseadas em evidências científicas.

Assista à entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=teItLfHe4vI

“Não podemos cometer o mesmo erro que cometemos no começo da pandemia, de não olhar o que está acontecendo nos outros países, ou de achar que o que está acontecendo lá não vai acontecer aqui. A impressão que eu tenho quando a gente olha a segunda onda na Europa agora é que “ah, a segunda onda só acontece no país dos outros”, a gente não está se preparando para a segunda onda aqui no Brasil. E na verdade, a segunda onda já está chegando”

“Não podemos baixar a guarda e achar que esses números não podem subir de novo; eles podem, a gente está vendo isso agora na Europa”

“Até aonde a gente sabe, quem já teve a doença está protegido. A gente não sabe por quanto tempo está protegido, mas ao que tudo indica, quem pegou uma vez a doença está protegido e não vai pegar outra vez. Não estamos vendo casos recorrentes de reinfecção, os que aparecerem foram muito pontuais”

“(…) A fase 3, que é essa pela qual estão passando as quatro vacinas que estão sendo testadas aqui no Brasil, que são a da AstraZeneca da Universidade de Oxford, a Sinovac da China, a Pfizer da Alemanha e a Janssen da Johnson & Johnson, não tem data para terminar. Cada uma delas precisa juntar um número específico de pessoas doentes para ter uma boa análise estatística, para comparar o grupo que
tomou a vacina e o que tomou o placebo. (…) Não dá para prever data de chegada da vacina porque não é por tempo, é por número de pessoas doentes”

“Ficar colocando data agora é mexer demais com a esperança das pessoas. Já tá todo mundo tão angustiado, que eu acho que não vale a pena ficar falando que é no meio de dezembro [vai sair a vacina]”

“A gente tem essa grande vantagem no Brasil, que é ter um dos melhores programas de imunização do mundo, ninguém faz campanha de vacinação como a gente, é de dar inveja em muito país desenvolvido. E sim, nós temos duas plantas vacinais grandes nacionais, o Butantã e Bio-Manguinhos, que estão acostumados a produzir e distribuir vacinas, e o PNI, o nosso programa nacional de imunizações, do SUS, que também tem muito experiência em organizar campanhas de vacinação. Então se a gente fizer tudo certinho, sem sofrer interferências políticas no processo, a gente tem tudo para ser um dos primeiros países do mundo a vacinar a população de forma efetiva”

“Bolsonaro está fazendo um belo desserviço para a população, confundindo, assustando e gerando uma desconfiança completamente desnecessária e inoportuna. A gente sempre teve uma população no Brasil extremamente favorável a vacinas, uma população que entende que a vacina é um direito do cidadão e que sabe que em outros países do mundo não tem vacina de graça do SUS, para todo mundo. Então é um direito, um privilégio que o brasileiro tem. (…) A gente nunca precisou obrigar ninguém a tomar vacina desde a Revolta da Vacina, no início do século XX”. (…) O movimento anti-vacina no Brasil, ele é muito, muito discreto ainda, não é como nos EUA e na Europa, que é um movimento grande que atrapalha as campanhas de vacinação”

“Não é momento de ficar discutindo obrigatoriedade da vacina, de ficar colocando nacionalidade em vacina, como se isso fizesse alguma diferença. É momento de fazer boas campanhas de comunicação com a sociedade para que as pessoas sejam esclarecidas sobre a importância e segurança das vacinas”

“Existe uma politização da vacina e dos medicamentos desde o começo da pandemia. A gente viu empresas subindo e descendo na cotação da bolsa de valores por causa de notícias que aparecerem na mídia por conta de vacina e medicamentos. As ações da AstraZeneca, por exemplo, ontem caíram por causa da notícia do jovem médico que morreu de covid, no Rio de Janeiro. Essa politização da ciência é péssima para a ciência”

“Escola é muito particular, é uma situação que tem que ser analisada caso a caso, escola a escola, cidade a cidade. A escola não existe em uma ilha. (…) A escola está dentro da cidade, e quando abre uma escola você coloca uma grande população que estava reclusa, que estava protegida, que volta em circulação. São os professores, os estudantes, os pais do estudante, que muitas vezes vão ter que pegar transportes públicos para se locomover até a escola, então você coloca de volta nas ruas toda uma população que pode estar suscetível ao vírus, isso tudo tem que ser levado em conta quando você vai abrir escolas, por isso tem que olhar a taxa de transmissão comunitária de cada cidade”

“Diz muito sobre a nossa cultura, que a gente tenha priorizado abrir os bares, restaurantes e jogos de futebol, antes das escolas”

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