Neca Setubal: A democracia fracassará se não agirmos como cidadãos
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Neca Setubal: A democracia fracassará se não agirmos como cidadãos

Morris Kachani

10 de julho de 2020 | 17h23

Citando artigo recente do colunista Martin Wolf, do Financial Times, a socióloga, educadora e acionista do Itaú Neca Setubal propõe no pós-pandemia o fortalecimento do papel do Estado na elaboração de políticas públicas, mas lamenta: “Realmente não temos a menor condição nem voz para falar com o governo federal, em nenhuma das instâncias, em nenhum setor do governo. Isso é muito preocupante. Quando eu penso em termos de educação, é um crime de responsabilidade. Este ano simplesmente não existiu o MEC. Absolutamente nada”.

Assista a entrevista: https://youtu.be/Xw29STfIfcY

Quase R$ 6 bilhões foram doados por empresas, instituições e famílias, em ações de filantropia nesta pandemia. Esta foi uma surpresa boa. Em 4 meses, quase o dobro do que foi arrecadado ano passado.

O engajamento da sociedade civil multiplicou as possibilidades de atuação, com várias experiências bem-sucedidas.

A maior parte no campo da assistência social, mas também na área de saúde, apoio a microemprendimentos, questão de saúde mental, e educação.

Porém, nos Estados Unidos, a filantropia representa cerca de 2% do PIB, no Reino Unido, 1,5%, e no Brasil, em torno de 0,2%.

Por que será?

Com a palavra Maria Alice Setubal, uma das maiores protagonistas desta área no Brasil. Graduada em ciências sociais pela USP, mestre em ciência política e doutora em psicologia pela PUC.
Presidente do conselho da Fundação Tide Setubal e do GIFE, entidade que reúne 170 fundações empresariais.

Aqui ela compartilha sua visão sobre que foi, o que é e o que deve ser a filantropia no país.

“Sempre fui um pouco crítica da filantropia no Brasil porque achava que deveria ter uma cultura de doação maior na sociedade. Que a gente poderia fazer muito mais. E realmente a pandemia me fez ficar muito satisfeita porque houve uma rápida acolhida da sociedade civil. O que assistimos foi a entrada de novos atores, pessoas físicas e empresas, e os institutos se mobilizando muito rapidamente na direção da crise da pandemia, para as doações chegarem na ponta.
Em muitos outros países a sociedade civil não teve a mesma agilidade. Foi muito positivo nesse sentido. Destaco lideranças das periferias e favelas que tiveram um papel fundamental, e o apoio a organizações de base que estão conseguindo agir de forma mais orgânica”.

“O setor mais rico da economia tem que se responsabilizar mesmo. O desafio é que continue se responsabilizando. Foi muito importante, continua sendo, mas temos que continuar, porque essa recessão não vai acabar tão cedo”.

“O impacto é para todos claro, mas em níveis muito diferentes. Empresas e fundações estão ganhando menos com a pandemia. Mas assim mesmo, quem pode deve se responsabilizar pela sociedade como um todo. É uma questão ética”.

“A organização da sociedade civil no local é importante. Um estudo da universidade do ABC mostrou que em Paraisópolis, tanto no número de mortos como na disseminação, o impacto do vírus está com um nível semelhante ao dos bairros nobres de São Paulo. Isso é incrível”.

“Os Estados Unidos têm uma cultura de doação, de participação no coletivo, do bem comum, que não se compara com a nossa. Sempre acho que os elementos fundantes de um país têm um impacto muito grande. Nos Estados Unidos, primeiro criaram a sociedade e depois o Estado. Aqui, foi o contrário. Você não tem uma cultura do bem coletivo, você tem a cultura de tirar vantagem”.

“De um outro lado, o nível de confiança nas instituições por aqui é muito baixo. Como a maior parte da população é excluída da qualidade dos serviços, isso acaba acontecendo. Mas eu acho que pode mudar. Várias pessoas estão falando sobre uma nova economia, sobre a exigência de voltar a importância do papel do Estado e das políticas públicas”.

“O momento político está muito difícil. A área da saúde sem ministro, nem na educação. Inacreditável. Se fosse um filme você diria que exagerou de fazer a caricatura de um governo. Mas a realidade é mais tenebrosa e sombria que um filme”.

“Em relação a políticas de educação, é impossível conversar com este governo. Porque este governo desqualifica a sociedade civil e desqualifica as fundações. Então elas conversam com os secretários estaduais e municipais. Toda articulação está sendo feita através destes canais”.

“A generosidade está sempre em um degrau diferente, assimétrico. Você dá para o outro – com você em cima, o outro em baixo. Na solidariedade você se coloca em um lugar igual, de responsabilidade, de cidadania.
O que eu espero é que a gente continue sendo generoso mas com mais solidariedade. Entender o lugar do outro como um lugar de cidadania, e não apenas o de dar comida, do “eu que tenho para quem não tem”. O outro tem uma voz que te alimenta e faz parte da mesma sociedade. É sutil a diferença, mas isso impacta bastante”.

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