O adeus do rabino Michel: balanço e memória afetiva de um ciclo que se encerra
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O adeus do rabino Michel: balanço e memória afetiva de um ciclo que se encerra

Morris Kachani

09 de julho de 2021 | 18h56

Desde 2005, Michel Schlesinger, bacharel em direito pela USP e graduado em rabinato pelo Instituto Schechter, ligado à Universidade Hebraica de Jerusalém, oficia os cultos e serviços religiosos da Congregação Israelita Paulista (CIP).

Michel ocupou a enorme lacuna deixada por Henry Sobel em um momento de crise sem precedentes. Com um perfil ético-político-religioso que define como sendo “reformista conservador”, em um espectro que agrega o reformismo em uma ponta e a ortodoxia em outra, foi aos poucos ganhando um protagonismo singular no âmbito da comunidade judaica, acabando por se tornar um porta-voz da diversidade, liderança relevante no diálogo inter-religioso e também, no intra-religioso – o que muitas vezes é mais desafiador ainda.

Esta entrevista é uma espécie de memória afetiva e balanço sobre todo este ciclo que agora se encerra. Em breve, Michel e sua família se transferem para Long Island, no Estado de Nova York, atendendo a um convite da comunidade local.

Assista à entrevista: https://youtu.be/DzFjTuAgtkw

Conta o rabino que a esta altura a CIP vive um dos seus melhores momentos e que isso se deve à capacidade de reinvenção da instituição: “a gente hoje multiplicou por dez a participação em cada um dos nossos serviços religiosos e em cada uma das nossas aulas e cursos graças ao uso da tecnologia. Tínhamos durante a celebração do shabbat (dia de descanso semanal), quando vinha bastante gente, umas 350/400 pessoas; e agora no online, com a pandemia, nós chegamos a ter 4 mil pessoas”.

Estariam as pessoas precisando mais de Deus?

“Eu acho que as pessoas estão precisando de Deus e acho que Deus migrou para o Zoom. Deus passou a morar no Zoom porque é a forma segura de você continuar próximo da sua comunidade. Certeza que Deus não quer que ninguém se exponha ao risco.

Com relação a toda essa discussão de reabertura dos templos e das igrejas, acho que temos que fazer o que é saudável e seguro e o seguro nesse momento é conversar com as pessoas na tela do computador.

A pandemia ensinou que a tecnologia pode servir para manter as pessoas próximas e isso tem sido para mim uma esperança de que vou encontrar um caminho para continuar perto de quem amo tanto, minha comunidade, minha família, as pessoas que fizeram parte dessa etapa da vida”.

“Hoje principalmente me sinto dividido. Por um lado, a felicidade pela oportunidade de aprender e crescer que tenho pela frente. Mas por outro, a tristeza. Porque eu amo a CIP, é a minha sinagoga desde que nasci, há 44 anos. Saio com uma tristeza muito grande por deixar a CIP e também por deixar o Brasil, porque me sinto muito brasileiro. Navego no idioma português como em nenhum outro. As letras de forró e de samba fazem parte da minha história. Minha vontade é de voltar para cá para compartilhar a experiência que será adquirida”.

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