O amor nos tempos de hoje

O amor nos tempos de hoje

Morris Kachani

02 Outubro 2017 | 07h33

Foto: Brigitte Dummer

Entrevista com a diretora Julia Murat

 

Por Tracy Segal

Manhã do primeiro dia da primavera de 2017. O Rio de Janeiro dividido entre o Rock in Rio e a espetacularização de uma guerra cotidiana – porém não menos sangrenta – que escolhia como cenário da vez a Rocinha. O trânsito da cidade está caótico, algumas vias estratégicas para o escoamento estão fechadas, enquanto o exército invade a favela. Chego ao encontro marcado com Julia Murat, diretora do filme “Pendular” no MAM,  prédio modernista pendurado sobre a Baía de Guanabara que foi cenário da efervescente vanguarda das artes plásticas e do cinema no século passado.

Julia Murat é uma diretora de  37 anos que acaba de estrear no Brasil seu segundo longa metragem chamado “Pendular”. O filme recebeu o prêmio da crítica no Festival de Berlim na mostra Panorama, além de compor o time de cineastas citados na matéria “From Brooklyn to South Africa, 8 Filmmakers to Watch” (do Brooklyn a África do Sul, 8 cineasta para ficar de olho) no New York Times. O filme acabou de  participar do  Festival de Brasília, onde Julia Murat também exibiu o documentário “Operações de garantia da lei e da ordem” .

“Pendular” é a história de um casal. Uma bailarina (Raquel Karro) e um escultor (Rodrigo Bolzan) dividem um espaço para viver e trabalhar, um galpão isolado numa área inóspita da cidade do Rio de Janeiro. O filme abre com eles demarcando seus territórios dentro deste galpão com uma fita crepe laranja que serve como prólogo de uma fábula sobre os limites na relação a dois que se desenrolará no decorrer do filme. Quase nada é dito em palavras, a tentativa de comunicação se dá por outras armas. As palavras e as imagens dividem a tela numa estética minimalista, tudo é reduzido a um estado próximo ao cru, os corpos, as palavras, o som,  a luz e os objetos. É na intimidade dos dois personagens que reverbera a violência dentro do claustro da incomunicabilidade, onde o amor é a ponte ilusória de comunicação e a única via de acesso ao outro.

Este projeto nasce quando Julia estreou seu primeiro longa  “Histórias que só existem quando contadas”, e então começaram a perguntar sobre seu próximo filme. Ela iniciava o relacionamento com o roteirista e produtor Matias Mariani, que viria a ser seu marido e com quem tem hoje duas filhas.  O nascedouro do amor, da paixão, e do como evitar os fantasmas que carregamos de outros relacionamentos pareceu ser a resposta para o que lhe movia a um novo projeto de cinema. Assim surge o embrião de Pendular, e Julia convida seu futuro marido pra escrever com ela.

“O Matias tinha acabado de terminar um casamento. Ele tava muito doído. Foi sobre entrar numa relação procurando não se impor, entendendo quais são os limites, as barreiras que o outro permite e qual o espaço dentro da relação. O caminho inicial foi não falar muita coisa, não conhecer tanto o passado do outro. Naquele momento achei que a relação seria assim para o resto da vida.

Comecei a pensar sobre relações, se apaixonar por uma pessoa e não conhecer o seu passado. Resolvi juntar as duas coisas e chamei ele pra escrever. Ao longo do processo de escritura a gente descobriu que era sobre o começo de uma relação. Mas não é autobiográfico, é sobre entrar numa relação muito apaixonado e não conhecer a vida, o passado do outro.” Me conta Julia.

“Pendular” pode não ser autobiográfico mas é atravessado pela realidade por assumir o tão debatido lugar de fala – Julia Murat habita o mesmo universo de  seus personagens:  artistas cariocas, intelectuais que vivem além das questões emergenciais de uma sociedade em colapso, protegidos das tão discutidas questões de gênero e de classe, ou ao menos não afetados diretamente.

“Ele é um filme bolha. São personagens artistas autocentrados dentro de uma sociedade socialmente tão complexa. É um filme consciente disso, a ideia de confinamento retrata isso. É um cárcere não só da relação, mas também da sociedade. A gente constrói dois artistas exilados da sociedade, que é um reflexo de boa parte dos artistas cariocas, no qual criticamente me incluo. A gente tende a olhar pra nossa bolha. Por isso é tão necessário estar falando.”

O discurso político da arte hoje tende a separar em gavetas, onde “Pendular” poderia facilmente ser rotulado como um filme feminista por ter uma ficha técnica predominante de mulheres, personagens que vivem num mundo sem hierarquização de gênero, além de ser encabeçado por uma cineasta. Mas o fato é que Julia Murat  não reconhece sofrer o descalabro do machismo, o que a onda feminista lhe trouxe foi o espelhamento de seu lugar de privilégio:

“De alguma maneira, na minha bolha social convivi muito pouco com o machismo. É óbvio que ele tá impregnado em todas as relações, mas eu convivi pouco. Eu sempre falei muito contra o pensamento de gênero, se a gente vivesse no mundo ideal isso não estaria em pauta. Como eu olhava o mundo sem reconhecer o gênero nunca tive nenhum desejo de falar de feminismo, de falar da mulher, eu tratava de personagem. O que acho que aconteceu nos últimos cinco anos com o feminismo ganhando força,  foi perceber a minha condição de privilegiada, de que eu tinha esse olhar para o mundo porque eu vivia numa bolha e que isso não é a realidade. Eu sou uma pessoa extremamente privilegiada, classe média, branca, filha de uma cineasta, filha de um casal muito de esquerda.”

“Pendular” teve como referência inicial a performance Rest Energy do casal Marina Abramovic e Ulay, que mostra ela puxando o arco enquanto ele estica a corda e segura a flecha que está apontada para o coração dela. Ao som da respiração ofegante e batimentos cardíacos vemos eles equilibrados pelo contrapeso dos corpos,  qualquer deslize e a flecha atravessará fatalmente o corpo dela. Assim como na performance o que vemos em “Pendular” é uma representação do jogo de pesos e confiança, e um silêncio verborrágico, composto por imagens de força semântica impossíveis de serem descritas. E, como o caminho de um filme da ideia à tela é longo, Julia me conta da dificuldade de captar recursos, pois o roteiro de “Pendular” era composto de silêncios e descrição de imagens, o que dificultou muito. As pessoas liam o roteiro e sentiam como um filme conceitual, não emocional. Como captar recursos para um filme com um roteiro quase sem falas?

“Sei nas internas que uma das pessoas do juri FSA leu o roteiro e falou que era merda mas que eu tinha feito o filme “Histórias que só existem quando contadas” e que era o melhor filme que ele tinha visto nos últimos anos, por isso era preciso acreditar no potencial. Eu me beneficiei muito disso. Por isso mesmo é tão difícil fazer um primeiro filme, e é tão necessário políticas públicas para primeiro filme.”

Foto: Eduardo Amayo

O filme é pontuado por cenas de sexo que mostram a transformação da relação deste casal: “Eu não tinha interesse em simplesmente falar que eles trepam, mas em mostrar como o sexo se modifica numa relação. O sexo tem sua própria dramaturgia.”

Estranhamente o filme recebeu a classificação etária de 18 anos, que para tal deveria ter, segundo as indicações da Secretaria de Justiça, ‘Conteúdos violentos e sexuais extremos. Cenas de sexo, incesto ou atos repetidos de tortura, mutilação ou abuso sexual.’ Nada disso se aplica ao filme, as cenas de sexo fogem ao lugar comum da erotização. Julia me explica: “O jeito que a gente filmou o sexo não é nem romântico nem erótico, buscamos um sexo mais natural.  Foi uma escolha política.”

A produção recorreu a essa decisão, mas existe um cansaço visível na fala de Julia quanto à resistência contra a onda conservadora que implementa absurdos como o fechamento da exposição Queer, em Porto Alegre. A Secretaria de Justiça reconsiderou e a classificação caiu para 16 anos.

Percebo na sua fala a reincidência da importância da tomada de consciência de seu lugar de privilégio como uma postura política neste momento em que outras vozes  surgem, e arrisco a deduzir uma necessidade de silenciar um pouco para a emergência destas novas narrativas.

“A gente precisa entender neste processo o quanto a gente é privilegiado.

Essa é a diferença entre hoje e a esquerda histórica. O lugar de fala também é um lugar super delicado. Ao mesmo tempo a gente precisa construir essa conscientização de que o mundo tá nesse lugar e essa esquerda que fala pelo outro não pode mais.

A gente de esquerda está com muito pouco espaço pra aceitar as diferenças e os erros dos outros, a gente tá atacando uns aos outros internamente. A gente tá com inimigos tão grandes,  tudo que tá acontecendo é tão grave que tinha que conseguir se unir e acalmar as diferenças.”

A fábula  desses dois personagens despidos da questão de gênero, dos problemas financeiros, isolados em sua guerra particular, ecoa toda guerra de um com o outro. Em última instância trata do duelo de diferentes, da incomunicabilidade entre os que deveriam ser pares, mas sem dúvida “Pendular” fala da voracidade no desejo de amar e do desfazer dos limites entre os seres. Citando Jean Luc Godard (1980) para legitimar – outra palavra da moda semântica de nossa época – qualquer lugar de fala, desde que seja autêntico, para ser considerada uma fala política.

“I’ve become aware, after fifteen years of cinema, that the real ‘political’ film that I’d like to end up with would be a film about me which would show to my wife and daughter what I am, inother words a home movie.” Jean Luc Godard

Traduzindo livremente para: “ eu tomei consciência, após quinze anos, de que o verdadeiro filme “político” que eu quero fazer ao fim, seria um filme sobre mim, que mostraria à minha mulher e filha quem eu sou, em outras palavras um filme caseiro”.