O ativismo segundo Eliane Brum
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O ativismo segundo Eliane Brum

Morris Kachani

15 de março de 2022 | 14h02

Foto divulgação

“Aprendi a alegria na resistência e na vida em comunidade”

“O nosso presente já é hostil. Se a gente quiser ter um futuro que a gente deseja, precisamos criar muito rapidamente um outro tipo de sociedade”

“Não faz sentido do meu ponto de vista uma democracia que não inclua os não-humanos atualmente”

As razões que levaram Eliane Brum a trocar o conforto de seu apartamento em São Paulo pela vida na roça de Altamira, nas franjas de Belo Monte, foram o tema desta entrevista.

Assista à entrevista:

Premiada escritora e jornalista, colaboradora de diversos veículos da Europa e dos Estados Unidos, lançou recentemente “Banzeiro Òkòtó”, pela Companhia das Letras.

Um livro de denúncia que mescla relato pessoal, ativismo e investigação jornalística em defesa da Amazônia. Leitura essencial em um momento em que o Senado discute o ‘pacote da destruição’, já aprovado pela Câmara dos Deputados, que flexibiliza o licenciamento ambiental (PL 2.159/2021) e amplia o uso de agrotóxicos (PL 6.299/2002).

Foto divulgação.

Amazônia, centro do mundo

“Eu defendo há muitos anos, assim como muitas outras pessoas, que é preciso deslocar a centralidade. Não é mais Nova York ou Paris. Nesse momento os centros do mundo são os enclaves da natureza, como a Amazônia, a maior floresta tropical do planeta, ou os oceanos.

Isso não significa só uma inversão geopolítica, que é muito importante, mas significa propor que outro tipo de pensamento passe a liderar o mundo humano. Todas essas catástrofes climáticas vieram de um pensamento de matriz ocidental, branca, patriarcal, masculina e binária, que nos trouxe até aqui”

“Não é mais uma época dura da nossa história, é o maior desafio da experiência humana nesse planeta. A nossa espécie está ameaçada de extinção. E está ameaçada por conta de ações humanas – mas, é bom lembrar, não de todos os humanos”

“A realidade da Amazônia é muito brutal, 24 horas por dia, mas eu também encontrei aqui uma alegria da resistência e de viver em comunidade, que faz uma enorme diferença. O caminho é coletivo – é criar com os outros, comemorar com os outros (…) Aprendi a rir, nem que seja por desaforo. É paradoxal – acho que tenho muito mais alegria vivendo aqui do que eu já tive vivendo em São Paulo ou em Porto Alegre, ou na cidade em que eu nasci, Ijuí”

“Paradoxalmente, nesse momento em que vivemos de catástrofe climática, de pandemias, de fascistas no poder, como Bolsonaro, a resistência me faz sentir que eu estou me envolvendo. Vim para cá por coerência e desejo.  Se eu defendo que a Amazônia é o centro do mundo, é aqui que devo estar. Aqui a gente não espera as coisas acontecerem. Aqui a gente faz. Como diz a Greta Thunberg e toda geração maravilhosa que ela representa, não adianta lamentar.

A minha experiência com Altamira, de viver aqui, não é uma experiência de tristeza, mas sim de um confronto muito grande com a brutalidade cotidiana”.

Belo Monte, a vanguarda dos acontecimentos

“Altamira me sinalizava as coisas que iam acontecer. Tinha que prestar muita atenção no que acontecia em Altamira, porque ela era vanguarda nesse sentido. A minha hipótese é que Belo Monte pode ser vista e interpretada como uma crise climática que está localizada num espaço muito curto de tempo”

“Em 10 anos a cidade se transformou; o rio foi barrado, o lago foi  morto, ilhas inteiras desapareceram levando memórias, os ossos dos parentes que viviam lá, as memórias de vida das pessoas. Toda a paisagem foi desfigurada e Altamira se transformou, segundo o Atlas de Violência em 2017, na cidade mais violenta do Brasil”

“Aqui é uma linha de frente da guerra climática. O que acontece aqui nos sinaliza o que vai acontecer. (…) A destruição não destrói só uma parte do planeta, ela está conectada, é um efeito em cadeia”

“Os horrores que são decididos em Brasília, aqui viram sangue, no mesmo dia. A violência passou a fazer parte de minha vida de outra forma”.

O fim do mundo

“O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro certa vez me disse que o fim de mundo dos indígenas foi em 1500. Que os indígenas sabem viver o fim do mundo. Talvez depois de todas as barbaridades que fizemos com eles, eles possam nos ensinar sobre como viver após o fim do mundo”.

“As pessoas na floresta já viveram vários fins de mundo. Belo Monte foi um fim do mundo. É preciso recriá-lo. É preciso resistir. Isso não significa aceitar”.

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