O bom e velho Thomaz Souto Corrêa

O bom e velho Thomaz Souto Corrêa

Morris Kachani

18 Setembro 2018 | 13h24

Quando saí da Abril, em 2010, desocupei uma sala toda envidraçada que dava para o “nosso rio Hudson”, na Marginal. Aquele prédio tinha um glamour. Ele era chic, todo moderno, parecia mesmo que estávamos em Manhattan, não fosse o cheiro ruim do rio Pinheiros.

Seus 24 andares eram ocupados pelos diligentes funcionários da corporação. Jornalistas por certo, de vários tipos de revistas, mas também executivos, gente da publicidade, do marketing, da gráfica, artistas visuais. Era divertido.

Visitei a nova sede da Abril na semana retrasada, e que assombro. A editora ocupa um predinho de quatro andares, além de três andares em outro, em um conjunto comercial completamente sem graça, também na linha da Marginal, mas lá pros lados do Panambi.

A sala do Thomaz Souto Corrêa, 79 anos, vice-presidente do Conselho Editorial do Grupo Abril, onde trabalha há mais de cinco décadas na criação, desenvolvimento e reformulação de revistas, parece ter sido teletransportada de um prédio a outro. Continua espaçosa, cheia de revistas, e com o velho mural onde ele pendura página a página cada publicação que examina, facilitando sua visualização como um todo, como se fosse um grande raio x. Houve uma época em que estas sessões de diagnóstico de uma revista capitaneadas pelo professor Thomaz tinham a mesma importância digamos, que uma sessão com o Boni dentro de uma ilha de edição na TV Globo.

Porém a sala de Thomaz na antiga sede parecia uma nave espacial, porque muito alta e iluminada. A daqui, pelo menos quando adentrei, parecia tomada de uma certa atmosfera de melancolia… uma sensação que se desfez quando Thomaz chegou, um pouco depois, sempre dotado de um senso de humor e carisma tão próprios.

O Thomaz por duas vezes presidiu a Associação Nacional de Editores de Revistas. Ele talvez seja o maior entendedor de revistas no Brasil.

Fui procurá-lo porque, caramba, o Grupo Abril pediu recuperação judicial, está devendo para um monte de gente, estão circulando pelo whats app manifestos terríveis de ex-funcionários em dívida. E ele talvez seja a maior testemunha viva do que foi e do que virou o Grupo Abril.

Com Thaís Roque

O Grupo Abril entrou com um pedido de recuperação judicial e deve R$ 1,6 bilhão. Você esperava passar por esse movimento?

Eu esperava morrer antes, pra falar a verdade. Mas, não se deu. Então estou vivendo isso com muito interesse.

Emocionalmente, como você está vivendo isso?

São dois lados da mesma moeda, e a moeda sou eu. Um com muita tristeza. Quando desaparece a propaganda em revista – e isso é uma coisa internacional –, ela perde uma fonte de renda importantíssima e é obrigada a cortar custos.

Eu vejo com muita tristeza esse empobrecimento da revista de consumo, essa falta de recursos, esse monte de gente sendo mandada embora, as pessoas que ficam tendo que trabalhar heroicamente para dar conta. Essa é uma face.

Na outra face eu vejo essa cruzada, eu acho o movimento interessantíssimo. Evidentemente a gente tem que trabalhar o conceito de como se fazia no papel e como vai passar a ser feito no celular. É besteira a gente ficar tentando fazer a mesma coisa.

Estava lendo no New York Times online uma reportagem de um crítico de balé sobre a estreia de um determinado espetáculo. Ele diz algo como “vai estrear o balé tal, e eu queria levar você, leitor, por esse balé”. E ele decupa o balé! Ele apresentava um trecho em vídeo e explicava os movimentos. “Isso acontece por tal razão. Agora prestem atenção nesse movimento por isso e isso”. E ia ilustrando e explicando. Esse é o jornalismo levado ao digital com competência, por exemplo.

Li no New York Times também uma matéria sobre música clássica que era assim: “Nós pedimos ao nosso crítico de música que fosse atrás de pessoas que ele conhece e entendem de música clássica, para buscar indicações que atraíssem novos ouvintes”. Então ele sai perguntando a maestros, músicos, jornalistas especializados, que pedaços de obras eles indicariam para atrair essas pessoas à música clássica e coloca esses trechos de três, quatro minutos…

Mas talvez um documentário ou um podcast fossem mais eficientes, não?

Estamos falando de competência, Morris. Estamos falando de ideias que estão por aí e ninguém faz, e esses caras estão fazendo. Que eu posso fazer no celular, no Ipad; só não posso fazer no papel, infelizmente.

É esse o momento de imprensa que eu estou vivendo e observando com fascinação. Eu diria que a oportunidade é enorme.

Você acha que o que aconteceu com a Abril é uma crise da própria corporação, ou tem a ver com o modelo de se fazer revista?

As duas coisas. Sobre a corporação eu não quero comentar muito, mas ela passou por uma crise muito séria. Por outro lado, a Abril vinha vivendo o que o Brasil vivia: a economia do país que acabou com a publicidade, acabou com uma série de coisas; e o mercado de revistas em si, com sua própria crise.

Essas duas crises se combinam numa empresa que tinha seus próprios problemas estruturais e financeiros, e deu no que deu.

Você é como o Boni da Abril. Você tem uma trajetória de cinco décadas praticamente. E foi o único que ficou. Você está vendo tudo.

Esse lado da moeda é muito triste. Mas, se eu viro a moeda, eu acho que tem caminho, que tem saída. Infelizmente não tivemos recursos para continuar na virada para esse novo caminho que liga o papel às novas plataformas.

Você sente falta do Roberto Civita?

Sinto falta do Roberto e sinto falta do senhor Victor. Dos dois. Tenho pensado muito no senhor Victor. Ele era um empreendedor. Foi quem fez a Abril. Diziam assim pra ele: “Por que você vai fazer uma gráfica se tem tantas gráficas?”. Ele respondia: “Porque eu preciso de uma distribuidora, porque ninguém vai distribuir a quantidade de coisas que eu vou lançar”. “Por que você vai fazer uma revista de carro em um país que não tem estrada, nem indústria automobilística?”. Ele respondia: “Porque esse país vai ter carro e vai ter indústria automobilística”. E assim foi. Ele era um visionário.

Victor achava que tinha que ajudar a educação no Brasil, porque ele queria mais leitores para as revistas e os fascículos. E como ele queria ajudar a educação no Brasil? Ajudando os professores. Aí ele faz a revista Nova Escola, que chegou a ter tiragem de um milhão de exemplares.

Entende do que eu sinto falta? De gente assim.

O Roberto se foi antes da crise, né?

Talvez seja injusto dizer isso, mas a crise já estava montada.

Fora da Abril, tem gente que você visualiza com esse potencial no Brasil?

Não.

Lá fora?

Jeff Bezos (fundador da Amazon e dono do The Washington Post). Ele está fazendo isso.

Ele deu uma palestra em uma conferência de um jornal italiano em que fala assim: “O Washington Post é uma empresa de tecnologia”. É uma visão de futuro.

Você tem saudades?

O passado já foi. Era bom? Era bom. Era divertido, a gente fazia muita coisa; mas eu não acho que a gente tem que fazer hoje as coisas que já fizemos.

Você acha que a Veja exagerou em alguma coisa?

Acho que não, pelo contrário. Acho que deveria fazer muito mais.

Em termos de escolha política, você não acha que foi um pouco exagerado?

Acho que a Veja tem uma quantidade de leitores fiéis que nenhum outro órgão de imprensa tem. Que mais você quer? A tiragem hoje está em uns 600, 700 mil. É muita gente.

Como você está enxergando o país?

Eu tenho vergonha do que eu vejo nesse momento de propaganda eleitoral. Eu não sei onde estou. Essa radicalização de um lado e outro. Eu não sei pra que lado vai. Ainda bem que eu sou um homem de idade.

Você acha que as habilidades de um editor de revista podem ser utilizadas em outros lugares?

Sim. Editar pra mim é organizar um conjunto de elementos. Um bom editor é capaz de organizar qualquer coisa que precise de organização, não somente páginas e textos. Um bom editor deveria editar os discursos políticos, propaganda política.

Uma vez eu brinquei, vendo um desfile de escola de samba, dizendo que obviamente havia faltado um bom editor, porque a sequência estava errada; um bom editor teria visto isso.

Como você vê os robôs eletrônicos, os editores eletrônicos?

Eu perguntei a um grupo de jovens: O que é um algoritmo? Eu não faço ideia do que seja um algoritmo. Aí me disseram assim: “um algoritmo é uma sequência de decisões lógicas”.

Editar é uma sequência de decisões lógicas. Se um robô é capaz disso, talvez seja capaz de editar. Só que ao editar uma sequência de decisões lógicas, uma hora entra uma coisa de talento, de feeling, mais humana, emocional. E aí o robô saberá o que fazer? Ele é somente racional, vai ficar atrás de um editor humano. Por enquanto temos uma vantagem.

E essa conversa se deu porque me contaram esses dias sobre uma experiência inglesa com algoritmos a respeito da curiosidade. Aí eu ficou preocupado. Porque, se os algoritmos forem detectar curiosidade, é possível que a reunião de pauta dos algoritmos seja melhor que a nossa. Até brinquei com o seguinte: o jornal faz a reunião de pauta com os jornalistas. Aí o editor-chefe fala: “já teve a reunião dos algoritmos?”. “Já”. “Tragam as ideias dos algoritmos”. Periga ser melhor que a nossa! Isso ainda não está acontecendo, algoritmos, inteligência artificial, ainda não estão suplantando os jornalistas. Mas os jovens devem ficar preocupados.

Você anda otimista com o futuro?

Eu sou otimista. Há ciclos, vemos isso na História. O Brasil não vai se suicidar coletivamente. Tem uma hora que dá uma melhorada, e a vida continua.

E com relação à profissão?

Nós vamos nos reinventar ou morrer. Como a gente não vai morrer, vamos nos reinventar.

Se você tivesse um neto querendo cursar jornalismo…

Eu batia nele até ele mudar de ideia (risos).

E o Grupo Abril, você acha que ele tem chance de se reinventar?

Não sei. Não tenho resposta.

O Grupo Abril, em algum momento de sua trajetória, pegou para si a missão de formar os jornalistas, assim como alguns outros grupos como a Folha, o Estado e a Globo. Só que eles formam profissionais adequados a eles. E eu estou falando sobre a reinvenção da nossa atividade. Isso tem que surgir nas escolas, ou de alguma outra forma que não sei.

Mas eu acho que as escolas de comunicação têm que fazer alguma coisa, se não, não há como mudar o futuro dessa profissão. Vamos ter que nos reinventar por nós mesmos.

Eu não vejo as escolas em geral, reestudando ou lançando coisas que me permitem dizer que estão preocupadas com a reinvenção, modernização ou atualização dos cursos de jornalismo, visando esta nova realidade. Espero estar errado, e se estiver errado, gostaria de saber o que está sendo feito.

O mundo está mais focado no entretenimento hoje em dia, talvez.

Tudo bem. Se o mundo vai para o caminho do entretenimento, vamos nos reinventar pelo entretenimento. Dá para informar com entretenimento.

Walter Clark – há décadas, na Globo – fazia um grande esforço para que as pessoas não se levantassem pra mudar de canal. Então ele criou uma grade de programação para que as pessoas permanecessem sentadas. Aí chegou o controle remoto. Aí chegou a internet. A variedade de séries na TV paga é inacreditável. Mas ainda assim a grade se mantém.

E o aspecto da imprensa como o quarto poder que fiscaliza?

Eu acho que isso está mudando. Eu vejo na geração dos filhos da minha mulher. Eles vêem notícias na internet, não no jornal. A notícia é aquela que passa. Eles estão sabendo o que está acontecendo, mas não estão vendo isso em nenhum site de jornal. As notícias passam, o amigo manda. A opinião que tem influência é a dos amigos, não de algum órgão de imprensa. Isso é preocupante.

Seria você um dinossauro do velho jornalismo?

Eu sou egresso do papel revista. Com o passar do tempo percebi que as revistas estavam fazendo suas versões digitais. Comecei a lê-las pelo meu Ipad e vi que algumas coisas estavam mudando de uma maneira muito interessante. Por exemplo, durante décadas você folheava uma revista impressa na horizontal. Agora, você percorre a revista na vertical. Com isso matou-se a página dupla, que era uma maravilha, uma das grandes invenções da revista impressa. Você surpreendia seus leitores com uma página dupla linda, bem layoutada, com uma foto grande, uma tipografia bem desenhada.

Algumas coisas, como certos anúncios que são pensados para o papel, perdem completamente a graça no digital. São transformações.

E isso piora porque sabemos que o Ipad está perdendo importância, as pessoas estão vendo tudo nos smartphones, onde a tela é muito menor.

O nosso desafio de comunicador, de maneira geral, é como provocar impacto, como chamar a atenção das pessoas pela tela do celular.

Antigamente, a gente trabalhava nos títulos das capas de revista com cuidado, porque era o que prendia a atenção de quem ia comprar a revista na banca. No celular, na minha opinião, o que chama a atenção é uma imagem muito forte.

Às vezes eu acho que a revista é como o vinil. Já foi uma coisa gigante mas hoje, só para os fãs.

Eu pertenço a um grupo de consultoria de mídia internacional e, sabendo que eu ia pra Londres, meus colegas me falaram para visitar por lá uma loja chamada MagCulture. Fui. Havia lá uns 200 títulos de revistas. E eu, que me considero relativamente informado, conhecia uma meia dúzia. São todas revistas alternativas. Muito bem feitas, muito bonitas. Sem anúncio. As pessoas estão fazendo revistas pra quem gosta de revistas. Eu faço uma revista sobre um assunto que gosto, portanto vou fazer uma revista caprichada. Quem vai comprar minha revista também gosta daquele assunto, portanto está disposta a pagar um preço caro por ela. Já foi feito um livro sobre essas revistas, chamado “Print is Dead. Long Live Print”.

Então, as revistas estão entrando em uma nova vida, digamos assim, que é uma vida diferente do que vinha tendo. Eu acho que o que está fadado a desaparecer talvez sejam as grandes revistas, que a gente conhecia como revistas de consumo. Mas vai levar algum tempo até isso acontecer.