O Brasil de Petra Costa
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O Brasil de Petra Costa

Morris Kachani

05 de julho de 2019 | 18h20

Ninguém ficou indiferente a “Democracia em Vertigem”, filme de Petra Costa que estreou na Netflix há duas semanas. A empreitada a que a jovem diretora de 35 anos se lançou é ambiciosa. “Eu e a democracia temos quase a mesma idade. Não deveríamos estar pisando em terra firme com 30 e poucos anos? Essa foi minha frase-guia para fazer o filme”, escreveu ela, em seu twitter.

Admito que como Petra e tantos outros e outras, tenho sentido uma certa vertigem. Me pergunto se estamos avançando rumo ao passado autoritário, e se nossa democracia terá sido apenas um sonho efêmero, como é dito no filme.

O que não significa que compactue inteiramente com o encadeamento narrativo sobre os fatos políticos proposto por Petra no seu filme. Foi lendo um texto de Joel Pinheiro da Fonseca na Folha (economista e mestre em filosofia política pela USP), que entendi isso.

O texto começa assim: “A história trágica do Lula-herói que foi obrigado a ceder a práticas corruptas da velha política para levar adiante um projeto inclusivo de país, sendo impedido por uma mutreta da malvada elite, simplesmente não cola. E enquanto a esquerda insistir nela seguirá incapaz de se reinventar”.

E termina assim: “Bancos e Fiesp deitaram e rolaram nos anos Dilma. O amor só acabou quando a fonte secou. Corrupção, fraude contábil e recessão foram a receita perfeita para a derrota não apenas nos tribunais, mas também nas urnas. Dilma não conseguiu nem sequer se eleger senadora. Enquanto a esquerda fingir que foi golpeada pela elite, será incapaz de conquistar o povo”.

Como The New York Times e Guardian, também acho que “Democracia em Vertigem” é um dos melhores filmes do ano e merece concorrer ao Oscar.

Não é fácil fazer de um documentário político uma peça de arte. Acho que poucos filmes feitos no Brasil na última década com essa temática, de ficção ou não-ficção, conseguiram transcender a esse ponto. Pense em “O Mecanismo”, por exemplo.

Chama atenção também a coragem de Petra em expor não apenas seu ponto de vista como também sua história pessoal e as contradições. Ela é filha de Marília Andrade, socióloga e neta de um dos fundadores da construtora Andrade Gutierrez. Marília e o pai de Petra foram militantes de esquerda, e seu nome é uma homenagem a Pedro Pomar, assassinado na ditadura.

Na Lava Jato, executivos da Andrade Gutierrez chegaram a ser presos, enquanto Petra rodava seu documentário. 

Dividimos esta entrevista em duas partes. Na primeira, conversamos sobre as convicções políticas de Petra, sobre seu lugar de fala, e cotejamos justamente o texto de Joel.

“O que entendi deste processo é que a esquerda, enquanto esteve no poder, acreditou que poderia andar de mãos dadas com a elite sem incomodá-la”.

“Da minha perspectiva enquanto herdeira, o que eu posso dizer, não tendo participado nunca da empresa (Andrade Gutierrez), é que eu sou a favor da taxação das heranças. Porque eu como herdeira não me sinto no lugar de merecer. Uma das formas mais injustas de perpetuação das desigualdades é a herança. No Brasil, a média de imposto sobre herança é de 4% enquanto na Europa Ocidental, nos Estados Unidos e no Japão, essa taxa varia de 25% a 40%. A esquerda, durante os 13 anos que esteve no poder, não tocou nisso”.

A democracia é muito frágil e na maior parte dos países ela está sendo cooptada pela oligarquia. E para voltar a funcionar, precisa voltar a ser mais radical. Combater a asfixia do dinheiro sobre as instituições democráticas”.

Depois, uma espécie de making off, onde Petra discorre sobre os motivos que a mobilizaram, a maneira como a obra foi financiada, e as inúmeras dúvidas que atravessaram as decisões durante o processo de montagem, quando nada menos que 5 mil horas de filmagem, além de um acervo enorme de imagens de arquivo, foram transformadas em 120 minutos.

 “Eu acho que muito do desejo de fazer o filme também surgiu a partir da condução coercitiva do Lula, de tentar entender a trajetória dele, desde ‘O ABC da Greve’, de Leon Hirszman, passando por ‘Entreatos’, de João Moreira Salles, até hoje, que é claramente um terceiro eixo dessa trajetória”.

Quais foram as melhores críticas que você leu sobre seu filme?

As críticas me surpreenderam positivamente. Tem sido um presente reler o filme através dessas críticas. Lá fora, compararam bastante o que está acontecendo no Brasil, com o resto do mundo. Isso pra mim é muito gratificante, porque era algo que eu desejava muito mas não sabia se iria ressoar.

Quais são as suas convicções políticas?

Eu aprendi muito fazendo esse filme. Tinha uma visão muito mais superficial da política. Houve um engajamento dos meus pais contra a ditadura, conforme conto no filme, mas sentia ao mesmo tempo que eles já tinham meio que feito a luta e que eu podia me concentrar em temáticas mais psicológicas. Que meu dever enquanto cidadã era votar a cada quatro anos.

Eu acho que fazendo esse filme descobri o quanto a democracia não é um dado, que ela está eternamente em construção, e que ela está vivendo uma crise que pode ser tanto uma crise que a levará ao fim, como uma crise de meia idade.

Claro que eu concordo com o Andreas Kalyvas, um autor grego que eu cito, que é um autor contemporâneo, para quem a democracia para funcionar, tem que ser radical. Na democracia, por definição, a maioria é o povo. Mas desde a Grécia antiga ela é constantemente cooptada pela oligarquia. Então acho que é essa a minha convicção política de hoje.

A democracia é muito frágil e na maior parte dos países ela está sendo cooptada pela oligarquia. E para voltar a funcionar, a democracia precisa voltar a ser mais radical, ou seja, realmente servir ao povo. Combater a asfixia do dinheiro sobre as instituições democráticas.

Você chegou a ler a crítica que o Joel Pinheiro da Fonseca escreveu na Folha? Eu queria que você desse uma lida no primeiro parágrafo e comentasse sobre ele pra mim, se você topar obviamente. 

Discordo dessa leitura. Eu não digo no filme que Lula foi obrigado a ceder a práticas corruptas da velha política. O que eu digo é: “Eu votei no Lula com a esperança de que ele reformasse eticamente o sistema político. Mas lá estava ele, repetindo práticas que ele sempre criticou e formando alianças com a velha oligarquia brasileira.”

Entrevistamos mais de 100 pessoas. Entre essas selecionamos Gilberto Carvalho, uma das poucas vozes dispostas a fazer autocrítica. Gilberto não fala que o Lula foi obrigado a ceder, o que ele fala é que o PT errou em ceder.

O PT se iludiu que poderia ser amigo dos “grandes”, que poderia fazer política só com o Congresso, e acabou abandonando as bases (“o pé fora” como ele diz), a pressão social que seria necessária para fazer mudanças mais efetivas. Seja na taxação das grandes fortunas e das heranças, seja na reforma política. Acho que se perdeu a oportunidade de transformar questões estruturais que perpetuam a desigualdade no País. Não dá pra ignorar as conquistas alcançadas e o filme quis tratar delas também.

A figura do Lula adquiriu uma dimensão histórica inegável, que vai muito além das acusações rasas de vitimismo.

E o fato de que ele possa estar na prisão sem ter tido um julgamento justo deveria causar revolta em pessoas de todos os espectros políticos. Porque isso é um ataque ao estado de direito, ao funcionamento correto das instituições. Se hoje corrompem as regras do jogo democrático para tirar um personagem do tabuleiro político, como cobrar justiça quando a vítima for você?

Tem um último momento do texto que diz, “enquanto a esquerda fingir que foi golpeada pela elite, será incapaz de conquistar o povo”. 

Eu não falo em nenhum momento que a esquerda foi golpeada pela elite. Menciono elite duas vezes no filme, uma quando estou diante do muro:

“Eu vejo que a história dessa crise, desse muro, atravessa a minha família.

De um lado, é a história da elite da qual meus avós fazem parte. Do outro, é a história dos meus pais e da esquerda que eles sonharam que está desmoronando.”

E outro momento no final do filme: “Apesar das declarações antidemocráticas de Bolsonaro, uma parte significativa da elite começa a vê-lo como a melhor alternativa para defender os interesses do mercado”. Aqui faço referência a como a elite entrou em lua de mel com Bolsonaro depois da entrada de Paulo Guedes.

O que entendi deste processo é que a esquerda, enquanto esteve no poder, acreditou que poderia andar de mãos dadas com a elite sem incomodá-la.

Por exemplo, no Brasil, a média de imposto sobre herança é de 4% enquanto na Europa Ocidental, nos Estados Unidos e no Japão, essa taxa varia de 25% a 40%.

A esquerda, durante os 13 anos que esteve no poder, não tocou nisso.

Algum comentário adicional?

Sobre essa questão da desigualdade até o FMI já fez autocrítica. Depois de 2008, grandes papas da economia neoliberal fizeram autocrítica. Eu não vejo tanto essa autocrítica chegando na elite financeira no Brasil. De como o capitalismo desenfreado gerou a crise de 2008 e continua a gerar um aumento enorme da desigualdade do mundo.

Adam Smith já falava que era necessário controlar a ganância das grandes empresas. E eu não vejo essa discussão chegando no Brasil. O que nós vemos é a discussão esquerda x direita, esquerda bolivariana, da direita que quer mais liberalismo, mais liberdade econômica, da esquerda que quer controlar tudo e transformar o Brasil em uma Venezuela. Eu acho essa discussão demagógica e pouco produtiva… e não é disso que trata o filme.

O que acho importante é analisar como mundialmente a democracia está sendo asfixiada pelo poder financeiro. Seja pela influência do dinheiro nas mídias sociais desvirtuando eleições pelo mundo afora, seja nas campanhas políticas, seja pelo lobby das empresas nos parlamentos.

Eduardo Escorel escreveu que o senso crítico do filme é menos acentuado com Dilma do que com Lula. Você concorda?

Eu aponto no filme que o governo de Dilma cometeu diversos erros na economia, que ela não negociou com o congresso, e a fala do Requião, escolhida a dedo, aponta que ela brigou até com seus eleitores. Nada disso, no entanto, justificava um impeachment ou questionar o resultado eleitoral como o próprio Tasso Jereissati (PSDB) reconheceu depois.

Nas redes sociais vi alguns comentários contestando o seu lugar de fala. Você pode comentar sobre isso?  

A questão do lugar de fala é um dos principais debates na antropologia. Minha primeira tentativa de fazer um documentário foi sobre a gentrificação do Harlem, bairro negro de Nova York vizinho a minha universidade. E não terminei esse filme justamente porque não encontrei meu lugar de fala enquanto brasileira e branca. Depois encontrei meu lugar de fala tratando de questões que me eram muito íntimas, tanto em “Olhos de Ressaca”, quanto em “ELENA” e “Olmo e A Gaivota”.

Me permiti fazer “Democracia em Vertigem” porque encontrei meu lugar de fala como cidadã. Do que eu podia falar com legitimidade? Da minha relação com a democracia, e foi isso que tentei fazer. Exponho minhas origens e suas contradições.

Você mesma se coloca, mencionando que é herdeira da Andrade Gutierrez. O que a Andrade Gutierrez representa para você?

Olha eu cresci sem ter muito contato com “Andrade” da família, mas sou privilegiada por conta disso. Acredito que a Lava Jato foi super importante como um marco histórico, porque ficou clara essa relação promíscua que existia quase desde o início das empreiteiras no país. Espero que de hoje em diante isso se consiga transformar. Um país precisa de construção civil, mas não da forma como era feito. Então eu acho que a Lava Jato veio para transformar uma relação que não precisava existir daquela forma. E no entanto, enfim, da minha perspectiva enquanto herdeira, o que eu posso dizer, não tendo participado nunca da empresa, é que eu sou a favor da taxação das heranças. Porque eu como herdeira não me sinto no lugar de merecer. Uma das formas mais injustas de perpetuação das desigualdades é a herança.

No filme você fala bastante, mas aparece pouco. Quem é você?

Quem sou eu? Difícil dizer né. Nasci em Belo Horizonte, mudei pra São Paulo com um ano e meio, meus pais se separaram mais ou menos nessa época. Cresci gostando muito de teatro, de música, de cinema, que marcaram muito a minha infância. Eu comecei fazendo faculdade de artes cênicas na USP e ao mesmo tempo Artes do Corpo na PUC.

E aí eu comecei a sentir que o teatro não era suficiente, aprender teatro não era suficiente para falar do mundo. Eu senti uma necessidade enorme de entender mais de sociologia, filosofia, história, política. E aí eu me transferi pra Columbia, em Nova York, onde tem um sistema que eles chamam de Artes Bibliográficas, em que você pode fazer diversas matérias.

E lá eu conheci a antropologia que me pareceu a disciplina mais adequada para entender o Brasil, através de uma perspectiva mais de baixo pra cima.

Daí eu fiz antropologia e foi através da antropologia que eu conheci a câmera, porque comecei a filmar as minha etnografias e me apaixonei pela câmera como ferramenta para entrar na vida das pessoas. Sair na rua e sair entrevistando pessoas que você não tinha nenhum contato antes, e de repente ter mais intimidade com elas do que com amigos antigos – isso foi tentador.

Mas em um certo momento eu entrei em crise com a antropologia, com documentário, porque eu ainda não conhecia a montagem, a alquimia que se pode fazer. Eu era mais levada pelo conteúdo. E comecei a querer talvez trabalhar mais no campo de trabalho social. Então fiz o mestrado em antropologia social na London School of Economics focado na questão de trauma social, com o desejo de trabalhar em comunidades no Brasil.

Mas senti uma abstinência enorme da arte e assim que terminei o mestrado, procurei trabalho no cinema, e o meu primeiro trabalho foi como assistente de montagem de um filme de José Padilha chamado Segredos da Tribo. E aí em seguida eu fiz o meu primeiro filme que é um curta que o Erik Rocha e a Ava Rocha trabalhavam nele, e eu aprendi muito com eles.

O que você achou de “O Mecanismo”?

São pontos de vista bem diferentes sobre o mesmo assunto.

Vamos falar um pouco sobre o processo de criação de “Democracia em Vertigem. Quantas horas você filmou?

Eu filmei muitas horas, incontáveis horas, porque a gente começou concentrando nas manifestações de rua. A gente filmou todas as manifestações que aconteceram em março de 2016, a favor e contra o impeachment, em São Paulo, no Rio, em Brasília…

E aí confesso que demorou um pouco para entender que aquilo não iria ser decidido nas ruas, mas no Congresso. Daí fomos para o Congresso no começo de abril e filmamos intensivamente.

A gente foi conseguindo acesso à comissão do impeachment, aos corredores… Nessa época entrevistamos o Bolsonaro, e muitos outros, dezenas de parlamentares.

Achamos que o filme ia se dar ali, naquela votação. Filmamos todo o processo até 11 de maio. E esse dia foi o mais intenso, o dia da votação no Senado, uma jornada que durou quase 40 horas, desde a votação até a posse do Temer no Planalto celebrada com fogos de artifício, passando pelo último pronunciamento de Dilma. No final ainda consigo adentrar o Palácio do Planalto…

Eles tomam ali o palácio, em uma das cenas que para mim foi a mais cinematográfica, porque na época da Dilma era tudo muito controlado, era tudo protocolar. E de repente tudo se abre e vira uma festa. As pessoas indo para todos os andares, uma missa ecumênica que eles não me deixaram entrar… Na época foi até fascinante, porque sabe quem que tava na porta da missa ecumênica que fizeram para a posse do Temer? Me fugiu o nome agora. Como chama aquele ex-deputado que carregou as malas de dinheiro e apareceu na televisão?

O Rocha Loures?

Sim, ele era o braço direito do Temer, no caso do Joesley, o homem que carregou as malas. Nós temos essa imagem. Isso infelizmente acabou não entrando no filme. De eu perguntando para o segurança: “Mas Deus não é pra todo mundo?”.

Foi um dia fascinante. Porque eram realmente 90% de homens brancos retomando aquele palácio com uma enorme euforia.

Então as filmagens começam em 2016.

Sim, e vão até janeiro de 2019.

E quantas horas deram no total?

O material que a gente filmou deu mais de 5 mil horas. Isso contando só o que a gente filmou. Sem contar o que a gente pegou de material da Lava Jato, toda a pesquisa de material de arquivo que vai desde a construção de Brasília até o golpe militar, todos os generais, as diretas, a fundação do PT… Enfim, só de materiais de arquivos nós temos também um acervo imenso.

Que dúvidas você teve durante o processo?

Inúmeras. É o meu primeiro filme político. Sempre me atraiu muito investigar como a dimensão pessoal é política, seja em um suicídio ou em uma gravidez, no caso de “Elena”. Normalmente isso é apresentado de forma muito machista, eu acho. Mas nesse filme a equação se inverte e é como se a política aparecesse em primeiro plano, com relação à dimensão pessoal.

Demorou um tempo para entender qual seria a minha abordagem. Eu me inspirei muito no filme “Batalha do Chile”, de Patricio Guzmán, e tentei fazer uma abordagem mais objetiva, contar os fatos…

Pra mim ficou muito claro desde o início que o filme precisava de uma narração. Não dava pra ser um filme observacional. Ninguém entenderia quem são os personagens e qual é o drama. Se chegar ali nas manifestações de pára-quedas, você não consegue entender de onde surgiu essa polarização, esse ódio, então tinham muitos elementos que precisavam ser explicados.

Aí eu comecei a tentar trabalhar de uma forma objetiva, mas isso não tinha nada a ver com a minha forma de fazer cinema e nem com a forma como eu passei a entender a representação, fazendo antropologia – minha ideia de sempre expor a fragilidade de qualquer interpretação como sendo uma interpretação, uma rachadura subjetiva, digamos.

Assim acabei decidindo que seria uma narração em primeira pessoa. E aí me veio aquele óbvio: que eu e a democracia temos quase a mesma idade e eu achava que nesses trinta e poucos anos estaríamos pisando em terra mais firme.

Você está mais firme?

Me sinto mais madura, com menos incertezas pessoais, como as que exponho em “Elena”.

E afinal entendi que eu queria fazer um filme sobre a minha relação com a democracia.

Mas daí, por onde passaria isso? Ficaria só concentrado no Congresso, nas ruas? Desde o começo eu queria muito ter acesso à Dilma e ao Lula. Eu acho que muito do desejo de fazer o filme também surgiu a partir da condução coercitiva do Lula, de tentar entender a trajetória dele, desde “O ABC da Greve”, de Leon Hirszman, passando por “Entreatos”, de João Moreira Salles, até hoje, que é claramente um terceiro eixo dessa trajetória.

O “ABC da Greve” cobre muito bem a formação do Lula como um líder, o “Entreatos” é a chegada do Lula na presidência e aí eu penso, “puxa alguém tem que fazer um filme com o que está acontecendo agora com o Lula”.

Mas foi muito difícil conseguir esse acesso. Primeira coisa que eu fiz foi escrever uma carta pra ele e pra Dilma, mas não teve resposta. E aí mais depois eles respondem e eu consigo esse acesso, e consigo fazer o que eu queria desde o começo que era ter as ruas, o Congresso e o Palácio no filme.

A trajetória seria do começo ao fim do impeachment. Só que quando a gente começa a dar conta dessa complexidade que ocupa a história do impeachment com os flashblacks necessários para entendê-lo, começa o escândalo do Temer. Surge essa história que não termina. Não demora muito pra ficar claro que o filme só iria terminar com a eleição do próximo presidente.

A montagem deve ter sido uma loucura. 

Na montagem a gente ficou com uma dúvida também porque demorou um tempo pra decidir que eu realmente queria falar da minha história pessoal, porque parecia um pouco… Poderia ser um pouco, enfim, delicado da minha parte colocar uma história pessoal em uma história que era nacional.

Eu não queria cooptar uma história que dizia respeito a todos, falando da minha história. E aí a gente foi montando, e eu tendendo contra esse desejo de narrar em primeira pessoa. Tivemos vários montadores muito bons, um deles era o que montou todos os filmes do Eduardo Coutinho.

Até que a gente apresentou um workshop para uma plateia internacional e o que mais gostaram foi a narrativa pessoal. Eram ucranianos, tchecos, americanos. Pessoas muito distantes do Brasil que falaram que foi através dessa trajetória pessoal que conseguiram entrar em uma história que não lhes dizia respeito. E aí ficou claro pra gente que realmente era um bom instinto.

O que dá para falar sobre o financiamento do filme? Ele se pagou?

Eu estava fazendo outro filme sobre um outro tema quando a crise implodiu. Como a gente começou sem planejamento, no calor do momento, no começo foi financiado pela minha produtora, a Busca Vida Filmes. E aí, com um primeiro material em mãos, começamos a aplicar para diversos fundos estrangeiros. E a gente ganhou vários deles, como o Doc Society, Tribeca, Sundance, Berta, Threshold.

A partir daí a gente mandou para alguns compradores e distribuidores, e a Netflix se interessou rapidamente. Começamos a negociar e eles financiaram o filme a partir de então.

Esse financiamento todo do filme, teve verba pública do governo brasileiro?

Não teve nada. Nada, nada, nada.

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