O “capitãozinho do mato” e o “coronel”

O “capitãozinho do mato” e o “coronel”

Morris Kachani

27 Julho 2018 | 18h28

Fernando Holiday, sobre Ciro Gomes: “É realmente uma coisa de dono do engenho tentando colocar o negrinho no seu lugar”

No coração do Itaim, em frente à sede paulistana do Facebook, encontramos com Fernando Holiday e outras duas dúzias de soldados do Movimento Brasil Livre (MBL) que se preparavam para acampar na noite fria da última quinta-feira, em protesto contra a ação da plataforma que removeu páginas e perfis ligados ao grupo.

Era a terceira vez que o MBL promovia um acampamento de protesto. As outras duas ocorreram em frente à casa de Eduardo Cunha, para que este encaminhasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff e, depois, na frente do Congresso Nacional, dentro do mesmo contexto.

Fernando Holiday na verdade se chamava Fernando Silva Bispo. Mas, em homenagem à cantora americana de jazz Billie Holiday, de quem é fã, decidiu adotar o sobrenome dela, o que lhe rendeu sorte e fama.

“O MBL queria construir um canal de YouTube e estavam pensando em um nome artístico para mim. A primeira ideia foi ‘Fernando Fucker’, mas podia não pegar muito bem. Foi quando abrimos um livro e lemos o nome ‘Holiday’. Confesso que no início pareceu ideia para nome de drag queen, mas fomos testando e o nome pegou. Inclusive, recentemente eu consegui autorização da Justiça para incluir o ‘Holiday’ no meu nome, então agora eu me chamo oficialmente Fernando Holiday Silva Bispo. Ainda bem que foi assim. Eu nunca ganharia a eleição com o ‘Fucker’”.

Fernando, aliás, também admira o trabalho de Nina Simone, Cazuza, Legião e até algumas canções de Chico Buarque.

Eleito com 48.055 votos nas eleições municipais de 2016, é o primeiro vereador assumidamente gay, e o mais jovem de todos, a assumir o cargo em São Paulo (nascido em 96, Fernando foi criado na Vila Brasilândia e em Carapicuíba; hoje vive com a mãe em um apartamento na região central da cidade).

Desde então, ele coleciona polêmicas, amizades e inimizades fervorosas. Quem não se lembra por exemplo de quando o vereador fazia visitas surpresas a escolas municipais para verificar se estaria acontecendo algum tipo de “doutrinação ideológica” por parte dos professores?

Por defender uma posição avessa à implantação de uma política de cotas raciais, ganhou de seus detratores nas redes sociais a maldosa alcunha de “capitão do mato”.

O que não se esperava é que o presidenciável Ciro Gomes, em momento de destempero, a ecoasse durante entrevista recente.

Eis o tema de nosso bate-papo. Uma leitura não muito convencional sobre o racismo brasileiro, certamente com algumas contradições, mas que merece ser ouvida. Afinal, a voz de Holiday é a voz de alguém que, de um jeito ou de outro, viveu e vive isso na pele.

Com André Dominguez do Carmo

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O que o MBL faz acampado em frente à sede do Facebook, em São Paulo?

A nossa principal bandeira é a da liberdade de expressão. O que mais nos traz incômodo e revolta é que o Facebook se compromete a tratar seus usuários de forma isonômica e transparente, mas os perfis e páginas removidos simplesmente não receberam nenhum tipo de justificativa pela exclusão. Houve um desrespeito às leis brasileiras.

No que consistiam estas páginas e perfis que foram excluídos?

Eram páginas locais do MBL, de alguns municípios como São José dos Campos e Taubaté, por exemplo. Havia, também, perfis pessoais de coordenadores ligados ao movimento.

Em nota, o Facebook fala de uma “rede coordenada que se ocultava no uso de contas falsas e escondia das pessoas a natureza e origem de seu conteúdo com o propósito de gerar divisão e espalhar desinformação”. Foram 196 páginas e 87 perfis removidos. Eram todos ligados ao MBL?

O Facebook não divulgou uma lista oficial, mas não eram todos nossos. O que posso garantir é que não havia nenhuma conta falsa ligada ao MBL. Aquelas eram páginas de pessoas reais, de fato.

O MBL não usa robôs?

Não. Geralmente, quem utiliza robôs não tem um alcance orgânico das publicações. No nosso caso, temos alcance orgânico por conta própria, já que estamos sempre envolvidos em polêmicas.

E aquelas páginas como o “Jornalivre” e o “Brasil 200”?

Não são páginas nossas. O MBL apenas compartilhava conteúdo desses perfis.

Essas páginas espalham desinformação?

Digamos que eu não acompanho as notícias deles, só quando o MBL compartilha. E destas, nunca vi uma falsa. Agora, não sei responder por tudo o que era publicado.

Existe uma guerra digital em curso?

Existe, hoje, uma guerra muito grande entre duas forças do espectro ideológico: a esquerda e a direita. E ambas vêm criando suas mídias alternativas. São portais de notícias que já trazem um viés político muito claro, de interpretação dos fatos. E isso tem feito com que os veículos de comunicação tradicionais sejam deixados de lado.

Essa onda de fake news é preocupante?

As fake news sempre existiram, com ou sem internet. Elas nada mais são do que a fofoca com a qual a humanidade sempre lidou. Só que agora com alcance muito maior.

Fofoca é uma coisa, informação errada é outra, não?

É o boato com poder de compartilhamento muito maior. O lado negativo da internet é o poder que ela dá a coisas negativas, mas não vejo fórmula para combater isso. Qualquer que seja, vai acabar no viés da censura. Quem vai definir o que é a verdade?

Os jornalistas e as agências de checagem de informação estão aí para isso.

Aquilo que é óbvio o usuário percebe e as grandes mentiras não se sustentam por muito tempo, são facilmente desmentidas.

Na sua opinião, o Facebook agiu segundo um viés político?

Por tudo o que tenho visto e pelo depoimento do Mark Zuckerberg ao Congresso dos EUA, acredito que o Facebook tem uma tendência esquerdista e de deletar com maior facilidade páginas ligadas à direita. Até aqui, nenhuma página de esquerda foi prejudicada nesse sentido e as fake news são espalhadas por ambos lados.

A quem interessaria a remoção dessas páginas ligadas ao MBL no Facebook?

Aos candidatos das mais diferentes vertentes da esquerda. Com essa redução do alcance e com a remoção de nossas páginas, nosso poder de conscientização do povo na época das eleições diminui e os candidatos de esquerda saem ganhando.

O Facebook tem dito que será uma ação contínua. Faz pouco tempo o deletou uma postagem da revista Fórum, por exemplo.

Mas foi apenas uma postagem que foi banida, não a página.

Com base no que aconteceu aqui, o prejuízo é só da direita. O Facebook deveria se propor a ser a nova Ágora do Século 21 – o espaço em que as pessoas debateriam sem medo. De alguns meses para cá, no entanto, a plataforma mudou algoritmos e diminuiu o alcance de nossas publicações. Na época do impeachment atingíamos 30, 40 milhões de pessoas. Agora são 6, 7 milhões. É uma rede social ligada à censura.

Censura, mesmo?

Sim, exclusão discriminatória e sem nenhuma justificativa.

O Facebook falou, também, em manipulação do debate público.

Isso pode ser interpretado como angariar mais apoiadores para suas causas, o que acabaria sendo um elogio para o movimento. A nota oficial do Facebook é muito vazia.

O MBL exagera nas redes sociais?

Não. O que há são fatos noticiados pela grande mídia e que nós divulgamos a partir do nosso ponto de vista. Se isso for manipulação, então a história é outra.

Que exemplo você poderia dar?

O caso da desembargadora que falou do relacionamento da Marielle Franco com um membro de uma organização criminosa. Noticiamos o fato assim: “Desembargadora quebra narrativa da esquerda”. Nós noticiamos a fala da desembargadora, mas já analisando as suas consequências. A fala foi desmentida, depois nós também noticiamos isso. O problema é que isso foi considerado fake news.

Outro exemplo, agora hipotético. Digamos que depois da prisão do Lula nós noticiássemos: “Justiça foi feita, o maior bandido do país está na cadeia”. Nós colocamos juízos de valor.

Que candidatos o MBL vai apoiar nas eleições?

Para governador de São Paulo, nós entendemos que o João Doria é a melhor opção. Já para presidente, não vamos apoiar uma figura individualmente no primeiro turno: há quem votará no João Amoedo, Álvaro Dias, Geraldo Alckmin, Jair Bolsonaro…

Acredito que no Ciro Gomes você não vá votar.

Não (risos).

Qual sua opinião sobre ele?

Eu o acho um sujeito muito instável, acostumado ao poder e a dizer e fazer o que bem entende. Mas, agora ele terá de se acostumar com esta nova fase política do Brasil.

Como recebeu aquela fala dele a seu respeito, chamando você de “capitãozinho do mato”?

A primeira reação foi de surpresa pelo fato de eu ter sido citado dentro do contexto da pergunta. Depois, veio aquela sensação de revolta, porque muito pior do que se propagar o racismo é achar que não se está fazendo isso. O Ciro Gomes se sentiu no direito de me ofender com uma fala racista simplesmente pelo fato de eu não pertencer ao mesmo espectro político dele. Não é só o movimento negro de esquerda que representa os negros, entende?

Você já refletiu intimamente sobre essa imagem do capitão do mato tão atribuída a você?

Sim. Essa é uma tentativa clara de me ofender pela cor da minha pele. Capitães do mato eram negros libertos utilizados para capturar e torturar outros escravos. Acho esta imagem completamente repugnante, uma comparação muito mesquinha e baixa, ainda mais vinda de um presidenciável.

Quando eu soube do caso, veio à minha mente a imagem de um Brasil arcaico.

Ciro Gomes é de uma família antiga: os Ferreira Gomes dominam o Ceará faz tempo e a fala dele realmente é coisa de dono de engenho tentando colocar um negrinho no seu lugar.

Em um hipotético segundo turno entre Bolsonaro e Ciro Gomes, quem você apoiaria?

Bolsonaro. Aí seria uma questão de tudo ou nada. Se o Ciro o assumir a Presidência, ele vai perseguir o MBL. Fora o caos completo que seria devido à desconfiança do mercado financeiro sobre a figura dele. Além disso, o Bolsonaro tem ideias mais próximas que o nosso momento político e econômico precisa.

Como você vê as perspectivas do Bolsonaro?

Entre todos os candidatos, foi o que mais soube utilizar as redes sociais a seu favor. Mas, sinceramente, não sei se a internet consegue sustentá-lo ao longo do período eleitoral nem o conduzir a um segundo turno. Acho que a televisão e o rádio ainda serão determinantes nessa eleição.

Voltando ao tema do preconceito racial. Como você enxerga a questão do racismo no Brasil?

Existe racismo no Brasil. A esquerda não está errada em dizer que o racismo é uma herança da nossa história e que após a abolição da escravidão não houve nenhum tipo de reparo por parte do Estado, de modo que os negros foram abandonados à sua própria sorte. Acontece que hoje se tornou impossível para o Estado pagar essa dívida histórica levando em conta, exclusivamente, a cor da pele. Algo que, na verdade, só faz aumentar o racismo.

No longo prazo a política de cotas raciais não tende a “reparar” essa dívida histórica?

Creio que e conseguirmos focar em cotas sociais por critérios socioeconômicos – visto que os descendentes dos escravos foram morar nas periferias das grandes metrópoles –, e se conseguirmos garantir educação de qualidade àqueles que estudam nas escolas públicas, inserindo o pobre de uma forma geral nas universidades públicas, então nós conseguiremos pagar essa dívida sem trazer mais uma vez a questão do conflito racial à tona. Em poucas palavras, sou a favor das cotas sociais. E acho que as cotas raciais só fazem aumentar o racismo.

Na sua visão, o que caracteriza o racismo brasileiro?

Diferente do racismo americano, que é muito mais explícito, o racismo brasileiro é velado e se manifesta, por exemplo, quando um negro entra em um shopping e os seguranças ficam em alerta por achar que aquele negro vai roubar alguma loja. Ou então, quando naturalmente se associa os negros da periferia aos bandidos da periferia.

Como se dá essa associação?

Quem reforça o racismo são os grandes grupos midiáticos e os partidos de esquerda que, necessariamente, entendem que o negro pobre da periferia tem uma pré-disposição à bandidagem. É isso que mantém o racismo vivo de forma latente até hoje.

A própria polícia não contribui, também, para a manutenção dessa realidade?

Eu discordo. Nós esquecemos que, muitas vezes, o policial também vem da periferia e convive com aquela realidade. É claro que existe racismo dos polícias, não vou dizer que não existe, mas a polícia não é a propagadora nem a incentivadora desse preconceito.

Mas, os dados mostram que as pessoas que mais morrem no Brasil são jovens negros que moram nas periferias.

Estando na periferia, sendo branco ou negro, é muito ruim da mesma forma.

Você, mesmo, veio da periferia de São Paulo, não?

Eu fui criado pela minha mãe na Vila Brasilândia e em Carapicuíba. Meu pai desapareceu cerca de nove meses depois de eu ter nascido, então a minha mãe me criou sozinha. Eu estudei a vida inteira em escola pública e convivi muito de perto com a situação da bandidagem interferindo na vida dos jovens que moravam na periferia. O traficante, às vezes, mandava muito mais do que a própria diretora da escola e que os mais “descolados” eram aqueles caras estavam ligados com o tráfico.

Aquela associação do “capitão do mato” remete à imagem do “negro com alma branca”?

A questão do “capitão do mato” é, realmente, uma tentativa de trazer o negro para uma senzala do Século 21 em que um negro não é um negro de verdade se ele pensar de forma diferente. E isso já me disseram literalmente diversas vezes: brancos, negros, ativistas e não-ativistas.

Você falou da grande mídia. Qual a sua opinião sobre a Rede Globo?

A Globo é uma instituição que perdeu muito do seu poder, da sua influência e agora, tenta forçar o debate público brasileiro rumo a um sentido mais progressista ligado ao pensamento de esquerda – mais ou menos para compensar os erros do passado, como ter apoiado a ditadura militar, por exemplo.

Você também é o primeiro vereador assumidamente homossexual a ser eleito. Como é o seu relacionamento com os ativistas do movimento LGBT?

Não tem muita diferença do que com os ativistas do movimento negro. Justiça seja feita: até hoje eu recebi muito menos ataques do movimento LGBT do que do movimento negro. Agora, penso que o movimento LGBT atual peca muito ao confrontar as religiões e demais instituições. Acredito que o melhor caminho é demonstrar que ser homossexual não faz com que a pessoa seja diferente e nem obriga a termos relações diferentes com o restante da sociedade.

Você gosta da Parada do Orgulho LGBT?

Eu acho interessantíssimo por aquilo a que ela se propõe a fazer na teoria, ou seja: demonstrar que os gays são iguais a todos os outros, buscar direitos iguais e lutar pelo fim do preconceito. Mas, ao meu ver, o movimento LGBT se perdeu e o que teoricamente seria uma causa nobre, acabou virando um grande carnaval.