O estilo Boechat

O estilo Boechat

Morris Kachani

07 Junho 2018 | 13h15

Quem sintoniza o dial do rádio na BandNews FM às manhãs de segunda a sexta-feira, encontra-se já familiarizado com o timbre de voz grave e rouco, o sotaque carioca, o senso de humor, os comentários e as opiniões proferidas por Ricardo Boechat ao longo das duas horas em que está incumbido da apresentação do jornal matutino. À noite, ainda, ele ocupa o posto de âncora do Jornal da Band, em uma impressionante maratona jornalística diária.

Filho de diplomata e nascido em Buenos Aires, na Argentina, hoje com 67 anos, Ricardo Boechat construiu sua carreira em uma outra era, no Rio de Janeiro, tendo vivido alguns dos anos da glória do Jornal do Brasil, para depois assumir uma coluna com o próprio nome em O Globo.

De uma certa maneira, Boechat já foi uma espécie de cronista dos costumes cariocas e hoje o é, se assim podemos dizer, dos costumes brasileiros. Especialmente no programa radiofônico, ele é capaz de opinar inadvertidamente, sobre o nosso bem servido cardápio de notícias.

Para não falar sobre o senso de humor, contando amplamente com o reforço de José Simão no time, mas não só. Outro dia, Boechat pedia para a produção do programa averiguar qual era a manchete do principal jornal dinamarquês, para comparar com as nossas…

Gosta de uma boa discussão, o Boechat. Tanto é assim que decidiu deixar disponível no ar o número de seu celular, para que os ouvintes pudessem procurá-lo.

Por essas e outras, decidimos procurá-lo.

Entrevista a André Dominguez do Carmo e Morris Kachani

Você curte mais fazer televisão ou rádio?

Muitas vezes eu já me vi pensando sobre essa história de “amar o que se faz”. Do ponto de vista da afetividade, o rádio é o que me capturou e o que me captura até hoje. Ali eu me solto, falo mais, improviso, brinco, faço a própria dinâmica do meu tempo.

Agora, o que há para se amar na apresentação de um telejornal? É um trabalho mais mecânico, ainda que a tradição da Bandeirantes de não interferir na opinião de seus âncoras me permita a liberdade.

Essa liberdade existe, de fato?

Na Band, sim, porque o ambiente interno tolera. Aqui não tem coro gregoriano, em que todo mundo canta no mesmo tom. O Reinaldo Azevedo fala de um jeito, o Luiz Megale fala de outro, o Fábio Pannunzio fala de outro e eu falo de outro. É publicamente notório que em algumas ocasiões eu expresso opiniões divergentes das do editorial da casa. Não é sempre que as ideias são conflitantes, há os momentos em que as opiniões convergem, é claro. Mas essa é uma margem que não existe fora daqui.

Na Globo, por exemplo, não existe?

Me mostre vozes dissonantes lá dentro. Talvez eles tenham o dom de concordar entre si com muito mais facilidade do que os outros seres humanos. A partir do momento em que a Globo sinaliza editorialmente que o mundo é quadrado, todos concordam que o mundo é quadrado. Não tem um desalinhado ali dentro. Eu não estou desqualificando, nem julgando. Estou dizendo que é como se você montasse um time de futebol que jogasse com uma determinada harmonia nos passes, na estratégia.

Voltando à questão do telejornal, você estava dizendo que…

No meu ver, os telejornais estão envelhecidos pela fórmula. Sempre um cara posicionado, maquiado, com uma boa gravata, de terno, um fundo atrás dele. Agora imagine esse cara nu. E sem cenário algum. O que se faz? A mesma coisa: a leitura de uma cabeça e o “play” em um VT. E assim termina o telejornal. Até hoje é essencialmente isso. Certo dia introduziram a troca de olhares entre os âncoras – o que é um avanço na história da humanidade. E agora trocamos olhares até quando não faz sentido. Quando começaram com essa interação entre o William Bonner e a Fátima Bernardes, vieram me perguntar o que eu estava achando. E eu dizia que me impressionava que eles não o fizessem sendo casados.

O nível do jornalismo está igual ao que era no seu tempo de colunismo? A impressão é que, às vezes, existe mais notícia do que jornalismo.

Eu acho que tem mais notícia e tem mais jornalismo. As escalas são muito maiores e as comparações ficam difíceis em função disso. No meu tempo, você precisava estar dentro de uma redação convencional, com uma oficina gigantesca, com um parque gráfico gigantesco para transformar em produto aquilo que era elaborado. Outra opção era você estar em uma rádio, que precisava de uma rede de antenas, transmissores, silêncio e microfones para transformar em produto aquilo que era elaborado. Ou, então, você estava em uma televisão e precisava dos estúdios, cenários, torres e antenas para transformar em produto o que era elaborado. Hoje, um celular de R$500 faz tudo isso. Não produz o impresso, mas edita, formata, põe cor, faz sonoplastia, tira foto, faz vídeo. E com o seguinte detalhe: você aperta um botão e manda o que produziu para o mundo inteiro. Hoje, você é a Globo, você é a CNN.

Onde está o problema, então?

No conteúdo, que sempre foi uma commodity escassa. Quantos verão a queda do avião? Quantos terão a exclusiva da alta do dólar ou da queda do petróleo? Quantos saberão onde vai ser o próximo ataque da Al-Qaeda ou do Estado Islâmico? Então, se você amplia a plataforma de captura dessa commodity que é escassa, muita gente vai ficar sem ela – o que tende a produzir outras formas de conteúdo: o comentário, a análise, a conversa fiada, a mentira, a distorção. Mas isso não quer dizer que o jornalismo perdeu em qualidade. Na soma, a qualidade de hoje é maior.

É diferente.

Eu digo que não haveria como responder ao mundo de hoje com o jornalismo de ontem.

Jornalismo é uma profissão em extinção?

Você está discutindo plataformas ou a atividade? A atividade certamente, não. As plataformas, certamente sim. É claro que algumas plataformas morrerão, assim como a comunicação já se fez na era paleolítica batendo com pedra sobre pedra. Isso não traz nada de trágico, nem de glorioso. É a roda da história.

Precisamos falar de Brasil. Atravessamos uma crise muito forte.

As crises são vividas por seus contemporâneos e dimensionadas por eles. Pergunte o que é uma crise para o seu pai, que é libanês. Pergunte o que é uma crise para um avô judeu polonês. Pergunte o que é uma crise para um negro de 70 anos do Alabama.

Você tem toda a razão.

Pegue as crises do Brasil República, só no campo político: Delfim Moreira, presidente da República, enlouqueceu, endoidou, pirou no mandato; Prudente de Morais morreu de Gripe Espanhola a caminho da posse; Getúlio Vargas deu um tiro no peito dentro do Palácio do Catete; Jânio Quadros renunciou e nunca conseguiu explicar o motivo; Golpe Militar de 1964, vinte anos de ditatura, tortura, sequestro, censura; Tancredo Neves morre a caminho da presidência da República fechando o ciclo militar, abrindo todas as cortinas da esperança civil, da redemocratização; governo José Sarney com 70% de inflação ao mês; impeachment de Fernando Collor; impeachment da Dilma Rousseff… É claro que é uma baita crise.

Mas você acha que a crise está sendo superdimensionada?

Como você quer que a imprensa chame essa crise? De brincadeira? É uma tremenda crise: 13 milhões de desempregados mais 28 milhões de pessoas no subemprego, que desistiram ou que estão trabalhando menos do que necessitariam. É uma monumental crise. Mas não vem me dizer que depois dela é o fim do mundo. Depois dela haverá um ciclo, como em todas as anteriores.

Quais seriam os caminhos para sair da crise? As eleições seriam um caminho?

Democracia. Democracia na veia, no cérebro, nas escolas, na sociedade. Liberdade. Liberdade e democracia.

É bom ser jornalista nessas horas, não é? Poder documentar o cenário atual da nação…

Mas quem está impedido de fazer isso? Hoje, todos temos arenas. A mística do jornalista foi criada a partir da ideia de que nós somos testemunhas oculares da história. Quantas vezes você viu a batida do trem? E o assalto ao banco? Eu nunca vi. Nunca fui testemunha de coisa alguma. Essa testemunha ocular da história, hoje, tem um celular que filma, grava, edita e difunde. É o maravilhoso mundo novo da comunicação. Nesse contexto, o jornalista precisa redimensionar o seu papel, o seu protagonismo.

Você está otimista com as eleições?

Eu sou um cara agitado, pilhado. E esperançoso. Mas não sou otimista. Qual é a diferença? Muito simples: o otimista é um imbecil que você coloca em uma jaula junto com uma onça e ele acha que vai conseguir dar conta do bicho. O esperançoso é o cara que, dentro da jaula com a onça, vai procurar uma saída. Eu estou nesse segundo grupo. Acho que o país está com a onça na jaula. Mas, também, acho que tem uma porta em que esqueceram de botar a tranca.

A população está mais politizada?

A sociedade brasileira jamais esteve tão interessada em política quanto hoje. Significa que ela está politizada? Não. Significa que ela deu o primeiro passo para aumentar o seu teor de politização. De 2013 para cá, o fenômeno do despertar do interesse político na sociedade brasileira não encontra paralelo no mundo. As manifestações de junho de 2013, pela sua organicidade e originalidade… Foi um movimento espontâneo da população: rejeitou bandeiras, partidos, discursos, lideranças.

Aqueles movimentos foram o motor para o impeachment da Dilma?

O impeachment foi uma urdidura da classe política para dividir aqueles movimentos, não tenha dúvida. Porque daquele processo – a despeito do fracionamento idiota, priápico e sexualmente mal resolvido dos black blocs – iriam surgir desdobramentos significativos. Só que a divisão gerada entre a falsa luta entre o “bem” e o “mal”, que na verdade era “mal” contra “mal”, produziu uma cisão na sociedade que ainda perdura. Mas acho que, de fato, a sociedade brasileira mudou depois de 2013.

E a Operação Lava Jato?

A Lava Jato é o maior patrimônio da sociedade brasileira contemporânea. Eu digo isso desde os primórdios, porque ela está quebrando dogmas e mitos. E é fundamental que os continue quebrando. Para mim, o grande desafio da Operação Lava Jato é alcançar a repactuação do contrato entre a sociedade e o Estado.

A sensação é de que o Estado brasileiro está desmantelado.

O Estado brasileiro possui 4 alicerces: é perdulário, ineficiente, opressor e corrupto. Está constituído e apoiado em leis e códigos que formam uma enorme estrutura de autoproteção para beneficiar as quadrilhas partidárias que ocupam postos, tratam e conduzem as decisões públicas ao sabor do seu enriquecimento e perenidade no poder.

Você começa a apresentar o jornal no rádio às 7h30, vai direto até às 9h30 e à noite você está na bancada do Jornal da Band. O seu fôlego é invejável.

Medido com que bafômetro? (Risos) Pode acrescentar, além disso, a coluna semanal que mantenho na IstoÉ. Também gosto muito de participar de debates, palestras, eventos, mediar painéis. Adoro o contato direto. Eu não tenho a sensação de que eu trabalhe mais do que já trabalhei.

O colunismo social faz falta para você?

Uma coluna diária é uma atividade obsessiva. Você passa 24 horas por dia pensando em um furo de bastidor, correndo atrás de um acontecimento para chegar na frente. É uma tarefa que impõe uma competição muito truculenta com a concorrência. Muitas vezes eu me vi perguntando se a adrenalina que eu colocava para fazer as colunas de antigamente resultava do amor ou se eu era um dependente químico daquela rotina. Hoje, eu tenho quase convicção de que era algo patológico. Hoje eu não sou mais um “competidor” no sentido de correr atrás da notícia de primeira mão. Não tenho mais a preocupação de ter o furo jornalístico, o insight.

A sua tarefa, agora, é mais de um comentador, de um jornalista que opina.

Isso, sim. Eu não sou mais um “competidor” no sentido de correr atrás da notícia de primeira mão. Não tenho mais a preocupação de ter o furo jornalístico, o insight. Se acontece de eu receber uma exclusiva, aí eu dou. Mas hoje é diferente, é outra história.

Você passou por uma crise depressiva. Como foi essa história?

Foi em 2015. Alguns meses antes de acontecer, eu já andava mais irritado e briguento do que o normal. Também passei a ter insônia e a perder o interesse e a vontade em tudo de fora do ambiente de trabalho. Além disso, eu estava bebendo mais do que seria o razoável. Mas só depois eu relacionei esses fatos com o desencadeamento do evento depressivo, porque eu não tinha retrospecto.

Outra coisa é que eu passei a ter dificuldade em improvisar a fala de abertura do jornal do rádio e comecei a escrever esse texto. Só que eu comecei a ter problemas para colocar as minhas ideias no papel, não me achava nos pensamentos. A gota d’água foi quando eu percebi que não conseguia mais ler os jornais, compreender o que estava lendo, jogar um olhar minimamente lógico e aceitável sobre o panorama à minha volta.

Até o dia em que você não conseguiu entrar no ar.

Eu estava a poucos minutos de começar o jornal e me deu uma pane. Abriu um buraco dentro da minha cabeça, do meu peito. Foi o clímax da minha angústia. Eu já estava sentado na bancada, o comercial já estava no ar… A fala de abertura é o momento de maior exigência sobre mim, porque eu abro o programa falando de improviso, às vezes durante vinte minutos. Não diria que é uma coisa complexa, mas, também, não é banal.

Eu sei que eu já vinha perdendo o controle sobre aquela pressão natural de quando já se tem familiaridade com a coisa. Mas, nesse dia eu entrei em pânico e só tive a reação instintiva de dizer que não ia mais fazer o programa naquele dia. Foi então que eu levantei da bancada, saí do estúdio, desci para o meu camarim, bati a porta e comecei a chorar. E chorei convulsivamente por sei lá quanto tempo. Eu chorava de soluçar.

Como você conseguiu sair dessa crise?

A minha mulher ligou na rádio para saber o motivo de eu não ter entrado no ar e disseram que eu não estava passando bem. Ela veio até aqui. Eu ainda estava no camarim completamente destroçado. Sei que minha mulher ligou para o meu médico e ele disse que aquilo estava com cara de ser um surto depressivo e que era para me levar em um psiquiatra. Ela passou em casa comigo, eu tomei um banho, mas não queria ir a lugar algum, queria era me enfiar na cama. No fim ela conseguiu me levar e eu comecei a fazer o tratamento. Descobri que existem diversos tipos diferentes de depressão e que se você tiver a sorte de o médico identificar o seu tipo e acertar na dose da medicação, em torno de 15 dias você já está recuperando as condições de voltar para o mundo.

Você escreveu um texto sobre a sua experiência com a depressão que viralizou nas redes sociais.

Eu lembro que quando voltei a trabalhar, sem nenhuma pretensão de produzir referência, apenas para dar uma satisfação para os ouvintes da rádio – porque, afinal, eu tinha ficado ausente por quase três semanas –, eu fiz um relato do que tinha sido aquela experiência, esse texto foi publicado no Facebook e deu 17 milhões de visualizações.

Em função dessa repercussão, eu passei a receber centenas de mensagens de pessoas desabafando, pedindo ajuda, indicação médica. Detalhe: eu respondia todo mundo, ninguém ficou sem resposta. Todos os e-mails que eu recebi, sem exceção, foram respondidos um por um. E mesmo dentro do ambiente de trabalho muita gente passou a me abordar para dizer que também sofria com a depressão ou tinha um parente ou um conhecido que também estava passando pela mesma situação.

As doenças que afetam o Sistema Nervoso Central estão crescendo enormemente e é o grande nicho da pesquisa médica, hoje em dia. Não é brincadeira. Não tem classe social, não tem raça, não tem faixa etária. Atinge famoso e atinge anônimo.