O estresse pós-traumático de Isa Penna
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O estresse pós-traumático de Isa Penna

Morris Kachani

30 de março de 2021 | 17h22

Insônia, tontura, a sensação de que você é um lixo, uma falta de vitalidade, falta de libido total e absoluta, e problemas de ordem de estabilidade emocional.

“É um trauma físico porque quem já sofreu esse tipo de assédio sabe, que quando a gente fecha o olho, lembra dessa sensação, sente uma aflição aqui onde ele encostou, sente o calor do corpo dele se aproximando. É um negócio muito ruim de sentir mesmo”.

Assista à entrevista: https://youtu.be/czIEkpEuqfs

Assim a deputada estadual Isa Penna (PSOL) descreve os sintomas que vieram à tona, três meses depois de ter sido apalpada pelo deputado Fernando Cury (Cidadania), no plenário da Alesp. As câmeras capturaram a cena toda e não obstante, o Comitê de Ética da casa optou por uma pena branda de 119 dias de suspensão ao deputado, com a equipe do gabinete de Cury dando expediente.

A deputada avisa, que apesar de ter descoberto que a política institucional “é um lugar horrível para a mulher”, e de ter inclusive passado por sua cabeça a ideia de renunciar ao mandato, está disposta a guerrear.

Nesta terça-feira porém, recebeu a notícia indigesta de que os parlamentares não poderão apresentar emendas ao projeto do Comitê de Ética. Desse modo, amanhã os deputados vão decidir se mantêm ou não a suspensão proposta – mas não há como aumentá-la ou então propor a cassação do mandato.

Nesta entrevista, Isa revisita todo o percurso do incidente, dentro de uma perspectiva pessoal e intimista. Desde o antes, passando pela postagem do vídeo em que aparecia dançando funk, até as terríveis sensações do durante e o o desgosto com o depois – quando o Comitê de Ética votou pela frustrante proposta.

“A mensagem que esse caso pode passar para os assediadores é extremamente perigosa. É quase que uma validação do assédio institucional”

“Quem são os deputados que estão na Assembleia Legislativa? Na maior parte são os coronéis, é aquela galera que é lá do “interiorzão da vida”; da região de Bauru a “família não sei quem” que é dona do shopping, da farmácia; da região de Ubatuba. as famílias poderosas de lá. Esses sujeitos que estão ligados a pequenas oligarquias locais são as pessoas que vão para a Alesp. Sabe aquele filho de coronel, que quando bate o carro, o pai liga para o delegado e pede para passar um pano? O Fernando Cury é isso, o Fernando Cury é um agroboy”

“São homens mimados, poderosos, regendo a nação né, no caso o Estado de São Paulo. É assim que eu qualificaria a Alesp”

“Naquele dia, eu fui até a mesa do Cauê Macris (presidente da Alesp na época) e encostei na bancada dele, conversando sobre qual era a pauta, se ele achava que acabaria hoje… E aí eu perguntei, “Cauê, você tem filha?”. E ele me respondeu que tinha gêmeas e me mostrou inclusive uma foto. E falei, “olha Cauê, se a sua filha um dia quiser ser deputada vai ser difícil, viu, é muito difícil aqui para uma mulher”, ao que ele me respondeu “Isa, mas a sua vida é mais difícil ainda porque no país machista que a gente vive, você é feminista”. Naquele momento, eu estava de costas e senti um toque na lateral do peito e uma aproximação, aquela aproximação que a gente chama de “encoxada”. É uma aproximação que o corpo inteiro do cara vem aos poucos encostando todo o corpo em você”.

“(…) Depois ainda eu vi o deputado Fernando Cury em uma rodinha, com o Alex de Madureira rindo, isso até está no vídeo, aparece com muita nitidez. Então vejo ele rindo, volto, vou até ele, meto o dedo na cara dele, falo para ele respeitar as mulheres dessa casa, que ele era um babaca, que ele estava fedendo a whisky, pedindo pra tirar esse bêbado da minha frente”

“Foi uma avalanche na minha vida, tanto pelo que aconteceu na hora quanto pelo que aconteceu depois, isso vai te acumulando um estresse. Eu tenho que tomar cuidado agora para esse estresse não se tornar algo crônico, porque isso pode acontecer”

“Eu aprendi que a política é um lugar horrível para as mulheres. Estou falando da política institucional, acho importante dizer isso”

“No Conselho de Ética, foram cinco deputados contra quatro deputados, ou seja, um voto de diferença. O deputado Alex de Madureira, o deputado Delegado Olim, o deputado Adalberto Freitas, o deputado Estevam Galvão e o deputado Wellington Moura, que foi o grande ator no Conselho e que apresentou fotos do Fernando Cury casando-se, que levou mulheres que conheciam o Fernando Cury. O engraçado foi que eu nunca vi uma defesa que assinasse ou complementasse tão bem a acusação, porque ele levou mulheres para testemunhar sobre a conduta do deputado e todas eram subordinadas a ele. Foi uma defesa que assinou embaixo daquilo que a gente chama de “cultura de estupro” aqui no Brasil”

“A violência sexual já foi muito estereotipada de forma equivocada, ela já foi muito atribuída aos homens negros. Esse é um cara [deputado Fernando Cury] “cidadão de bem”, cidadão de família, casado. É isso que acontece, são esses mesmos caras protegidos pelos status sociais diversos, que se escondem sobre isso para dizer “não, olha só, eu tenho aqui a minha mulher”. O que eu quero dizer com isso é que a violência sexual não é aquela ideia de que o estuprador é um monstro, psicopata, serial killer, não é nada disso. O assediador, o estuprador infelizmente é a regra para jovens mulheres”

“Eu estava em uma live outro dia e pedi, era um grupo de umas 30 mulheres, e eu perguntei quantas pessoas já tinham sido assediadas, e todas levantaram a mão. Aí eu perguntei quantas foram assediadas antes dos 15 anos, acho que com exceção de duas ou três, todas levantaram a mão. Aí perguntei quantas tinham tido contato com a sexualidade através do assédio, e 1/3 levantou a mão”

“A conversa agora entre os deputados é que, essa situação é uma mancha na história da Alesp, nós temos que limpar a história da Alesp, e limpar a história significa resolver rapidamente e passar para frente. Significa não constranger os deputados que se sentem desconfortáveis com a necessidade de se manifestar publicamente sobre a sentença que lhes parece mais adequada”

“Eu sinto que agora eu sou a deputada que ninguém quer chegar muito perto”

“O que eu percebo das mulheres da esquerda e da direita, é que as mulheres da esquerda têm mais liberdade para denunciar. O que não significa que não exista machismo – e muito – na esquerda”

“Se o Doria fosse na TV falar qualquer coisa [sobre o caso], como “vamos apurar”, ele se dignaria a falar sobre um tema tão importante para as mulheres, e eu dormiria mais tranquila, porque não seria um silêncio, portanto, uma permissão ao assédio”

“Eu cheguei num ponto em que eu pensei na mulher dele [do Fernando Cury], pensei na família dele e me senti mal por ele”

“Eu não sou a deputada que foi assediada, eu sou a deputada que reagiu. Eu sou uma mulher que desde muito menina é indignada por algumas coisas e que se decepcionou muito no curso da política também. Mas eu não perco a minha fé na humanidade”.

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