O horror e o belo: a psicanálise com os moradores de rua
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O horror e o belo: a psicanálise com os moradores de rua

Morris Kachani

28 de julho de 2021 | 09h42

Entrevista com o psicanalista Jorge Broide, professor de psicologia na PUC-SP, que há mais de três décadas atende a população de rua em consultórios improvisados

“Desde sempre está colocado que a sociedade quer que você morra, que você não exista, que você pelo menos não encha o saco. Então essa é uma coisa da rua. Quando a gente passa pela rua e vê a população de rua, eles são o que a gente nega.

A população de rua tem um cheiro muito forte e esse cheiro muito forte é um cheiro primitivo que nós temos dentro da gente. (…) Então eles mostram algo que não queremos ver; “Olha para a gente, olha o que você fez”, “olha o último escalão que você pode chegar a ser”

Assista à entrevista: https://youtu.be/cyrd7ZDXtG4

É possível ser feliz morando na rua? É muito difícil, é muita pressão, é muita violência, você vive o tempo inteiro na urgência, o tempo inteiro no limite com a morte. Você vive o tempo inteiro na carência, no desespero e no desamparo”

“Dessas perdas, dessa dependência, aquilo tudo que está depositado sem palavras, vai ficando só a sensação da dor, do desespero, dos momentos de lazer e evidentemente que com isso é impossível estar na rua sem se drogar. O cara vive esse turbilhão [de emoções] o tempo inteiro”

“Se você pergunta para alguém que mora na rua quanto tempo ela está na rua, ela responde “dois anos” em um dia, “cinco anos” no outro e “um ano” na outra semana. A pessoa perde a noção de tempo e espaço, o tempo para a pessoa vai sendo marcado pelas perdas”

“A vida afetiva [na rua] tem uma precariedade, mas ela acontece. Um elemento muito importante na vida das pessoas que moram na rua é o cachorro. O cachorro é no Vidas Secas [livro do Graciliano Ramos] o “Baleia” e a rua está cheia de “Baleias”. O sentimento humano, a dor, a delicadeza e o afeto não cabem nessa situação de tanta violência com o outro, e isso é depositado no “baleia” [cachorro], pois são esses cachorros que cuidam, que avisam [se tem perigo]. Os cachorros são fundamentais na rua [para esses moradores]”

“Tem uma enorme população que está saindo dos presídios e que é jogada na clandestinidade. Para onde essa população vai? Para a rua. Eles são mais de 40% entre a população de rua. O nível de violência da cidade subiu mesmo porque o cara sai do sistema penal com essa marca de “gado” dentro dele. Hoje podemos dizer que a estrutura do sistema penal caminha pela rua, ela navega pela cidade através da população de rua”

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De acordo com o Censo de 2019, mais de 24 mil paulistanos são moradores de rua. Pessoas e famílias que vivem às margens da sociedade, na miséria, sem muitas vezes quererem, receberem ou se adequarem aos programas assistencialistas do Estado. 

Neste contexto a psicanálise para a população em situação de rua surge como uma importante ferramenta.

Jorge Broide, professor de psicologia na PUC-SP, reúne mais de 3 décadas de experiência no assunto e acaba de lançar um livro a respeito – “Clínica Psicanalítica na Rua” (Editora Juruá).

Nele, são descritas sessões de suas escutas às crianças, adolescentes e adultos embaixo dos viadutos, nas malocas, nas praças, nos “mocós”, que mostram com muita clareza que a psicanálise pode estar em qualquer lugar, ou melhor dizendo, tem de estar onde a vida está.

A trajetória profissional de Broide nas ruas desde 1976 explicita a possibilidade de fazer uma psicanálise rigorosa em condições radicalmente diferentes das do consultório particular. São ricas as contribuições da clínica psicanalítica fora do setting de consultório, com evidências da potência da psicanálise na escuta do inconsciente em diferentes situações sociais.

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“Eu escuto a vida como ela é. Nessa clínica escuto interessantemente como estão misturados o horror e o belo e como se a gente aguentar o horror, o belo surge. Essas pessoas geralmente nunca tiveram quem as escutasse de verdade e nunca tiveram, pela urgência social terrível que viveram, alguém que as olhasse de verdade. Quando a pessoa percebe que está sendo verdadeiramente escutada ela fala, fala daquilo que nunca falou, fala verdadeiramente da sua vida e é aí que surge alguma coisa”

“Logo no primeiro momento já entendi que a psicanálise não se resume ao consultório particular e de classe média, que a psicanálise é muito mais do que isso e que a psicanálise não se valida por quatro paredes, um divã e uma poltrona. Não é isso que valida o saber psicanalítico, são muitas outras coisas”

“Quando alguém vai morar na rua, essa pessoa não vai por causa de uma ruptura. Tem uma ruptura que é o catalisador, mas são muitas rupturas que vão se dando na família e nas outras relações afetivas, na comunidade, no estudo e na sobrevivência econômica. Todas essas rupturas vão se dando e quando chega no limite a pessoa vai para a rua e ela tem que refazer todos esses laços afetivos de novo na rua, ao mesmo tempo. (…) E é na rua que ela tem que ganhar dinheiro, que tem que se proteger, que tem que reconstituir uma vida afetiva. É ali que ele tem que aprender.

Quando tudo isso vai para um lugar só [a rua], acontece algo parecido com uma regressão – a rua passa a representar para a pessoa o mesmo que uma mãe para um bebê. Tudo que ela precisa agora está na rua. Só que a rua não é uma “mãe”, a rua é carniça, é violência, miséria absoluta. A rua é uma outra temperatura e pressão, são outras coisas”

“A invisibilidade com a população de rua ou com as populações empobrecidas se dá antes mesmo do nascimento dessas pessoas. Essa invisibilidade se dá por uma questão de classe e se dá por uma questão de exclusão social. Então aquilo que o Lacan chama de o “grande outro” ou aquilo que a gente chama de estrutura social, não vê e não deseja que essa pessoa [pobre ou moradora de rua] viva antes dela nascer ou só deseja a vida dessa pessoa se ela for trabalhar para ele.

Mas essas pessoas já têm uma experiência com o “grande outro” de que não são desejadas e isso causa uma marca profunda dentro do sujeito. Essa invisibilidade que não há o outro que deseje que ela viva. Por isso que na relação clínica, na relação analítica, quando eu estou na rua e digo “fala você”, eu estou dizendo para ele: “estou te vendo, eu quero que você viva”

“Para criar dispositivos eu utilizo os conceitos do Foucault. Ele tem um conceito que ajuda muito em que ele diz que o dispositivo tem que responder uma urgência social. (…) A ideia é como é que a gente constrói, pegando essas “máquinas da fazer ver e fazer falar”, para pode operar na rua, para trabalhar com essa urgência que temos na rua. O Lacan coloca que existem quatro conceitos fundamentais da psicanálise: o inconsciente, a repetição, a pulsão e a transferência. Então quando nós estamos na rua, estamos montando um dispositivo para atender uma urgência social, fazendo uma “máquina de fazer ver e fazer falar” que funciona através do inconsciente, da repetição, da pulsão e da transferência”

“”Boa tarde, meu nome é Jorge, eu sou psicanalista. Minha profissão é escutar as pessoas que estão com angústia, que estão passando mal, que estão sofrendo muito e que não têm com quem falar, querem falar das suas coisas, querem ter um espaço para falar de si e do que está doendo. Se você estiver afim, estou aqui”. E a pessoa topa imediatamente. Acontece [a sessão] em pé, na rua mesmo”

“Acontecia rigorosamente no mesmo dia e hora da semana durante dois anos e meio e nos reuníamos em torno dessa caixa de engraxar sapatos para falar da vida e ali interpretávamos sonhos, na transferência. Então, eu nunca deixei de fazer o trabalho psicanalítico em qualquer situação de rua que eu estivesse. O tema era a vida deles. Qual era a história deles?”

“Tem muitos assuntos que chegam com a violência muito forte que existe na rua, tem muitos assuntos que chegam com as perdas, com o desespero, com o horror da morte, de estar diante da morte. Ao mesmo tempo, no meio disso, tem muitos momentos em que a pessoa se vê enquanto sujeito e esse é um momento de muita beleza, de se reencontrar consigo mesmo ou com o outro em uma possibilidade de vida”

“A partir de uma pesquisa que estamos fazendo, começamos a perceber que a linguagem da rua está mudando, a gíria da rua está mudando, a pulsação da rua está mudando, o jeito do laço social na rua está mudando e isso vem pulsando naquilo que a gente denomina escuta territorial.

Acabamos descobrindo que quando uma pessoa é presa, ela cai no sistema penal e no Código Penal Brasileiro o Juiz dá a seguinte sentença por crimes contra o patrimônio e por tráfico de drogas: tanto tempo de prisão mais multa. Tem tipos de multas, a multa fiscal – que é quando você não paga o imposto de renda, por exemplo – e a multa penal. A multa penal significa que a pessoa não pagou a multa e ela não cumpriu integralmente a sua pena. O pessoal sai do sistema penal geralmente sem saber que deve essa multa ou quando sabe a multa está em uma média de 7 mil reais enquanto a pessoa sai do sistema penal de havaianas e roupa do corpo, sem documento.

Quando a pessoa vai tentar tirar o documento, se ela vai tirar o título de eleitor, ela não consegue porque não cumpriu a pena [não pagou a multa] e se não tem o título de eleitor não pode ter carteira de trabalho”

“Na clínica é fundamental que eu possa escutar onde estão esses fios invisíveis que amarram esse sujeito à vida. A partir do momento em que a pessoa começa a falar dela é que vão aparecer esses fios. Não é um monte de fio, são dois ou três. São muitos exemplos, mas um fio pode ser o próprio cachorro”

“Você não pode falar que o sofrimento de alguém que mora na rua é maior do que alguém de classe média, porque no consultório a gente vê o tanto que as pessoas sofrem. O que me parece ser muito importante de ser pensado é que nós da classe média temos uma rede de sustentação social das rupturas que ocorrem ao longo da vida, que quem está na pobreza, na miserabilidade não tem. Então a ruptura que ocorre na vida dessas pessoas [que moram na rua] causa uma repercussão muito maior [dentro delas]”.

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