O Levante Feminino

O Levante Feminino

Morris Kachani

26 Novembro 2018 | 14h56

“A gente tem mais tradição escravocrata que democrata”

“As pessoas têm medo da liberdade. Medo da mulher que goza, medo do feminino”

*

No mesmo dia em que Bolsonaro titubeava sobre a nomeação do novo ministro da educação, fui assistir o filme “Slam – Voz de Levante”.

Saí impressionado com a vivacidade dos poemas e das performances, nesta arte da cultura de rua hoje dominada pelas minas de 20, 25 anos, e espraiada por 150 eventos pelo país afora.

Também impressionou, a feitura artesanal do filme, o ritmo da montagem, o cuidado com cada imagem escolhida. Foram 350 horas filmadas, em 7 anos de trabalho. Claro, há um detalhe aqui outro ali, mas no geral o filme flui e emociona. Algo não tão comum no gênero documental, e menos ainda na matriz brasileira.

Por fim, também impressionado fiquei, por não ter conseguido encontrar um ponto de contato que fosse, entre o espírito das poesias do filme e o espírito da escolha de Bolsonaro. O novo ministro fala em resgatar valores tradicionais ligados à preservação da família. Enquanto que nas rodas de slam, a mãe gentil idealizada no nosso hino, é motivo de indignação. Uns falam em escola sem partido, outros em política de reparação, em revisão da História, em ensino de África nas salas de aula.

Como se fossem dois Brasis. Em algum momento precisarão dialogar…

De toda forma, antes de seguir adiante no texto, gostaria de reproduzir aqui alguns dos slams que vi e ouvi.

“Mãe gentil” – Poeta : Luiza Romão

eu queria escrever a palavra

BRASIL!

Aquela em nome da qual tanto homem vira bicho

e tanto bandido, como a gente viu,  general

Eu queria escrever a palavra Brasil

Aquela em conceito racista machista país

Eu queria escrever a palavra Brasil  colônia produto perfeito

PAU-BRASIL, o pau-branco hegemônico, enfiado a torto e a direto

suposto direito de violar mulheres

o pau-a-pique, o pau-de-arara, o pau-de-araque

o pau-de-sebo, o pau-de-selfie, o pau-de-fogo, o pau-de-fita

O PAU patriarcal, face e orgulho nacional

A COLONIZAÇÃO, ELA COMEÇOU PELO ÚTERO

matas virgens,virgens mortas

A COLONIZAÇÃO FOI UM ESTUPRO!

deodoro metendo a espada entre as pernas

de uma princesa babel

pedro ejaculando-se dom precoce

costa e silva gemendo cinco vezes

AI AI AI AI AI- AI 5

 

Getúlio Juscelino Geisel Collor Jânio Sarney

a ordem parte da cabeça do membro ereto

de quem é a favor da redução mas vê vida num feto

é o pau-brasil multiplicado trinta e três vezes

e enfiado numa só garota

eu olho pra caneta e tenho certeza

eu não vou mais escrever o nome desse país

enquanto estupro for prática cotidiana

e o ideal de mulher,

A MÃE GENTIL

 

“Garoto” – Poeta: Isaac Quaresma (aluno do Ensino Fundamental)

Moro na favela e tenho direitos, mas muitos me ignoram e não me dão respeito. Na escola eles se afastam de mim e falam: “muleque, favelado, sai de perto daqui”. Moro na favela e acho isso normal, “sou da selva, sou leão, sou demais pro seu quintal”. Sou favelado memo e tenho orgulho disso, posso ser seu patrão no futuro, então pense nisso!

 

Poeta : Luz Ribeiro 

Os minino passam liso pelos becos e vielas

Os minino passam liso pelos becos e vielas

Os minino passam liso pelos becos e vielas

Vocês, que falam becos e vielas

Sabem quantos centímetros cabem num menino

Sabem de quantos metros ele despenca quando uma bala perdida o encontra?

Sabem quantos nãos ele já perdeu a conta?

Quando cês citam “quebrada” nos seus TCCs e teses

Cês citam a cor da parede natural tijolo baiano?

Cês citam os 6 filhos que dormem juntos?

Cês citam que geladinho é bom só porque custa 1 real?

Cês que citam que quandocês chegam pra fazer suas pesquisas seus vidros não se abaixam?

Não citam, não escutam, só falam falácias

É que cês gostam mesmo é do gourmet da quebradinha

Um sarau, um sambinha, uma coxinha

Mas entrar na casa dos meninos que sofreram abuso durante o dia

Não cabe nas suas linhas

As suas laudas não suportam o batuque dos peitos laje vista pro córrego

Seu corretor corrige as estruturas de madeirite

Quando eu me estreito nos beco feito pros menino ?? próprio

Eu me perco e peco por não sabe nada, por não ser geógrafa

Invejo tanto esses menino mapa!

E os menino malandrão, fazendo a lição

Acorda cedo, dorme tarde, é chamado de função

Queria casa, mas é Fundação!

Não tem prestígio, não tem respeito, é sempre suspeito de qualquer situação

Cês já pararam pra ouvir alguma vez o sonho dos menino?

É tudo coisa de centímetros: um pirulito, um picolé, um pai, uma mãe, um chinelo que lhe caiba no pé

Um aviso: quanto mais retinto o menino mais fácil de ser extinto

Seus centímetros não suportam 9 milímetros

Porque esses meninos… sentem metros.

 

Poeta: Roberta Estrela D’Alva

Aê, se eu encontrasse um desses caras na rua,

acho que eu ia olhar bem na cara dele e dizer mais ou menos assim:

Escuta: Não sou sua puta

Eu sou guerreira tô na luta, e isso eu não vou aceitar

A batida é muito boa, mas o papo é à toa

Pega uma peneira e côa e cê vai ver o que vai sobrar:

Mulher é puta, gay não é gente, o que importa é o dinheiro

Milhões de discos vendidos e essa mensagem vai ganhando o mundo inteiro

Será que eu tô louca? Será que eu tô errada?

O que tem valor nesse mundo é uma jacuzzi cheia de mulher pelada?

Uma arma na cintura? Uma corrente de ouro no pescoço?

Uma batida bem produzida com um discurso, tosco?

Ah…por favor, vamos falar do que interessa

Ou não? Não tem problema nenhum? A gente vive numa festa?

Vive? Então me mostra porque eu não tô vendo

Eu vejo fome injustiça guerra, eu vejo o coro comendo

Eu vejo o negro se fudendo, sem emprego sem escola

Criança morrendo na minha cara, todo dia, toda hora

What’s going on? Marvin Gaye me diz

Eu tô vendo tudo do jeito que a gente nunca quis

Quem tem a chance de dizer alguma coisa não diz

E a molecada, desse discurso é aprendiz

Qual é o problema? Quem faz? Quem cultua?

No que se transformou a chamada “Cultura de Rua”

O Hip Hop é isso? Aboliu-se totalmente a palavra amor?

E qual a diferença entre ser escravo do dinheiro ou do feitor?

O slam surgiu em Chicago em 1984. É uma espécie de batalha de versos: nestes encontros, cada participante tem 3 minutos para soltar a voz e se apresentar, diante de um júri formado pela plateia e que avalia tudo – originalidade, performance e recepção.

Tatiana Lohmann e Roberta Estrela d’Alva são as diretoras do filme. Roberta, atriz e cantora, apresentadora de “Manos e Minas”(TV Cultura), formou-se em Artes Cênicas pela USP e fez mestrado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.

Tatiana é fotógrafa, montadora e diretora. Tem em sua filmografia autoral documentários, videoarte e videoclipes. Neste último gênero, dirigiu o vídeo da música Respeito É Pra Quem Tem, do rapper Sabotage. 

*

Qual seria a cena do slam no Brasil de hoje?

Roberta – Um slam majoritariamente negro, muito jovem, com muitas mulheres participando; da autoafirmação, do grito, do levante, de todas as vozes que não são status quo, das vozes que não são ouvidas.

Nesse momento pós-eleição, ele será amplificado por conta do contexto. Vendo o filme agora, depois que tudo passou, as palavras podem ser as mesmas, mas elas se resignificaram em relação ao tempo histórico.

Tatiana – Quando a Mahogany L. Browne fala da importância do artista, que sem os artistas nós estaríamos fodidos – essa fala ganhou outra dimensão agora nesse momento em que muita gente afirma que “artistas mamam na Lei Rouanet, não precisamos de vocês, não precisamos de cultura, não precisamos de Ministério da Cultura”. Ficou tudo mais pungente.

Sofremos muitos ataques de haters na página do filme. Massivamente. É chocante.

São mais meninas que meninos no slam?

Roberta – Pelo menos empata.

Tatiana – No começo, praticamente não havia mulheres. E é muito importante o papel da Roberta como ativista da causa nesses dez anos de slam. Ela pedia para as mulheres competirem. Defendia que metade tinha que ser mulher.

O que há de tipicamente brasileiro no slam que é feito aqui? Qual o perfil de nosso slam?

Roberta – Um perfil mais jovem hoje em dia. No mundo inteiro, o slam acontece mais em clubes, teatros, associações, lugares fechados. Aqui no Brasil acontece na rua.

Eu acho que o espaço público traz uma estética. Por exemplo, não há microfone, as pessoas falam alto. Uma pessoa que fale um poema mais delicado talvez não tenha tanto espaço. É um poema do pulmão. Um corpo mais aberto.

É diferente eu fazer um slam no teatro, com proteção, e numa arena redonda como no Guilhermina, por exemplo.

Dos 150 eventos que temos hoje no país, eu chutaria que 145 acontecem na rua e nas periferias. A zona leste de São Paulo é um dos centros mais prolíficos, é o lugar que tem mais slam. É um movimento muito forte nas beiras da cidade, nas periferias, e também no centro.

Então não tem essa coisa de pagar, a rua é de todos e de ninguém. Diferentemente dos Estados Unidos.

São cantos de revolta?

Roberta – Eu acho que são cantos de levante. Mais do que revolução, revolta, a palavra que dá conta de explicar – e por isso o nome do filme –, é levante. O levante acontece fortemente. Você vive aquele momento como uma utopia, uma fresta no tempo. E ele se desmancha no ar, não dá tempo de você cooptar, não dá tempo do sistema capitalista comprar e vender. Ele se desmancha pra acontecer em outro lugar.

E em termos de temática?

Roberta – Gênero, raça…

Tatiana – Injustiça social.

Roberta – País sem pai. Feminicídio.

Tatiana – A polícia que mata.

Roberta – Extermínio da juventude pobre negra. Abuso sexual das mulheres.

As pessoas estavam sem esse lugar de expurgo?

Roberta – Aqui você é aceito do jeito que você é. Não precisa pagar. Pode ir com a roupa que for. Pode ser gordo, magro, preto, branco. No slam se aceita todo mundo.

Tatiana – E você não precisa ser um poeta que estudou, que se formou numa faculdade, que leu os clássicos. Tudo lá é considerado poesia. E essa é uma grande discussão que sempre acontece. “Isso não tem poesia, isso não tem qualidade”. Se trata de uma expansão da ideia de poesia.

Tradição oral, talvez.

Roberta – É como se o slam fosse um galho de uma grande árvore. Como se tivesse uma nave mãe, que é a oralidade; e aí você tem os gritos da África, os trovadores, os aedos gregos, os glosadores, o repente… O MC do hip-hop é um braço dessa oralidade, o funk também…

Sempre tive uma dúvida com relação, se ali a mulher é presa ou predadora. Que acham?

 Roberta – O funk só coloca uma lente de aumento. Ele dá poder pra Valesca Popozuda, mas ao mesmo tempo olha o jeito como falam das novinhas. Não é uma coisa só. É atrito, é dialético. Essas culturas são complexas, estão sempre em processo. Não dá pra falar sobre cânone.

A Anitta seria um pouco essa dialética?

Roberta – A Anitta faz o que ela quer.

Tatiana – Eu a acho poderosa, muito espontânea, competente. É uma mulher que faz muito sucesso. Mas tem um lugar que eu acho complicado, que é essa coisa das divas, de reforçar um paradigma de beleza que me parece muito condicionado pelo olhar masculino. Eu acho que por um lado é libertador e por outro não é. Nos aprisiona repetindo esses padrões.

Nesse sentido eu prefiro a Jojo Todynho. Quando eu vejo uma mulher que ainda por cima não corresponde a esses padrões, aí eu já considero que estamos num caminho mais interessante.

Vocês têm amigos do lado do Bolsonaro?

Roberta – Muito pouco. Família, né.

Tatiana – Tenho um amigo. E um pouco de família.

Como explicar os votos da população mais pobre em Doria para prefeito, e agora em Bolsonaro?

Tatiana – É essa coisa de você se vender como diferente de tudo o que estava no poder. No caso do Doria, até o “não político”.

Roberta – Esse assunto é espinhoso, tem muitas vertentes. Simplificando, soma-se a isso um planejamento de muito anos. E as coisas que não foram passadas a limpo. 400 anos de escravidão que não foram passados a limpo nesse país, não temos políticas reparatórias sérias.

Racismo é crime na Constituição e um candidato a presidente, que diz que vai defender a Constituição, é racista e não acontece nada. E a ditadura não é passada a limpo. A lei da anistia foi um câncer para o Brasil.

Outra coisa é o moralismo que assola o país. A falta de consciência para as pessoas serem livres e tomarem decisões com sua própria cabeça. As pessoas têm medo da liberdade. Têm medo de mulher que goza, medo do feminino…

Tatiana – E medo desses novos arranjos familiares. Essa família tradicional a gente já sabe que não existe mais. Todo esse processo trans é uma das coisas que mais assusta essa moralidade.

Roberta – Isso pegou num lugar do conservadorismo. Todos os pais – que são muitos no Brasil – que preferem um filho morto do que viado e não tinham coragem de falar, ganharam voz.

Seria concebível um slam bolsonarista?

Roberta – No slam não tem nenhum cara que vai lá ser machista, ele seria trucidado pelo público. Por isso que o slam é o futuro!

A população é conservadora?

Roberta – Eu acho que sim. A população não é ensinada a pensar fora da caixa, livremente.

Tatiana – O ser humano de modo geral tem medo do novo. A primeira vez, por exemplo, que eu entrei em contato com toda essa gama de novas situações de gênero que estão acontecendo foi num documentário que eu montei alguns anos atrás, e eu ouvi alguns dos depoimentos mais tocantes da minha vida, de pessoas que foram pais de família a vida inteira, ricos, e com 60 anos assumiram que queriam botar peito e virar mulher. Mulheres que fizeram a transição pra homens, mas continuaram tendo útero e engravidaram. Então tem um aspecto de homem com barba e barriga de grávida. Aquilo me abismou um pouco, também bagunçou minha cabeça.

Só que a minha postura, a postura de uma pessoa progressista, tende a ser de dizer: eu não conheço essa experiência. Eu não sei como é estar no mundo e sentir isso. Então eu observo, acolho e claro que aceito. Enquanto tem gente que tem a postura de negar.

Roberta – E de demonizar. Porque tem uma coisa evangélica forte também. Já dizia o Plínio Marcos: a escola é para uniformizar as crianças. Você não ensina música na escola, não ensina poesia. Não ensina a pessoa a ser tornar um adulto que elabora o mundo de maneira poética. Não tem imaginário; tem o demônio, a Igreja; o certo e o errado.

Tatiana – Lembro de uma matéria da Eliane Brum falando: de tudo o que está acontecendo, o que mais me dá medo é essa bancada evangélica, esse tipo de pensamento. E a gente viu realmente que essa é uma das forças de perversão de um princípio. Você pega o princípio cristão – mais uma vez, como foi feito na caça às bruxas – que é um princípio de amor e aceitação do outro, e em nome disso você crucifica e diz que está errado, que em nome disso você pode matar, pode excluir.

Roberta – No momento que tem um levante – essa pra mim é a palavra do momento – o levante feminino…

Se você visse a Tawane Teodoro, a menina que foi campeã do Slam SP; ela tem 17 anos, e é uma força incontrolável. Ela é de uma plenitude, ela é linda. E ela tira sarro, tem um sarcasmo, ela entendeu!

Quando os regimes totalitários entram, a primeira coisa que se fecham são as escolas e teatros. Porque essa é a possibilidade, a zona autônoma. A poesia é uma possibilidade de transcendência da nossa miséria humana. Não só o poema escrito, mas a poesia do momento. Você não pode deixar ninguém pensar.

A poesia salva.

Roberta – Como acontecia no Bronx, em 1968. O hip-hop surge exatamente disso. Os caras estavam em gangues, se matando, e começaram a colocar essa energia para dançar, para grafitar, em palavras.

Vocês acham que tem algum extremismo no slam?

Tatiana – Acho que todos nós corremos o risco nesse momento de, por rejeição àquilo que pra nós é uma ignomínia, de colocar energia demais num determinado discurso. Eu observo em mim isso. No dia das eleições, por exemplo, eu estava na fila para votar e comecei a olhar as pessoas e ficava assim por dentro: “aposto que é bolsonarista, olha a roupa”. Que é isso, Tatiana? Que pensamento horroroso. Estou julgando a pessoa por um figurino! Eu não quero que façam isso comigo, que me estigmatizem, e eu estava fazendo exatamente isso.

É um exercício diário de revisão de estar nesse mundo dividido que pede muito autodiscernimento, muito amor no coração.

Roberta – Mas eu não acho o slam extremista. Extremista é uma pessoa jovem preta morrer a cada quinze minutos no país. Aqui tem uma luta. Parem de nos matar. Nós estamos falando de vida. O slam é um efeito colateral a um corpo doente que ainda pulsa. E ainda bem que essas pessoas conseguem fazer isso elaborando poesia.

Existe improviso no slam? Ou as pessoas chegam nos eventos com os poemas prontos?

Roberta – Existir, existe, mais é muito mais raro. Essa é justamente a diferença do slam para uma rinha de MCs ou um desafio de embolada por exemplo. Não se trata de quem tem mais sagacidade no improviso, mas quem defender melhor o seu texto, seu tema, como conseguem dar forma e corpo aos poemas.

Roberta, o que muda em sua poesia aos 40 anos?

Roberta – Fiquei mais velha, não quero falar mal do outro, quero propor coisas.

E como está a molecada?

Roberta – Não tem ‘a’ molecada. Tem molecadas. Tem uma juventude muito consciente. E tem os perdidos, no crime, usando drogas.

Tatiana – E os evangélicos. Claro que entre eles há pessoas conscientes e há igrejas com pastores legais. Mas é uma grande maioria num processo de moer carne, lobotomizante.

Vocês estão otimistas com o futuro do Brasil?

Roberta – Não. Mas eu não sei como vai ser o nível de repressão que vai surgir, se vão chegar a parar uma roda de slam na rua, por exemplo.

Tatiana – Ou seja, otimistas não estamos.

Roberta – Não sei se vão existir espaços para acontecerem os slams. Espaço para um filme como o nosso.

Tatiana – Mas já estavam acontecendo coisas na rua. A polícia já estava querendo reprimir o slam antes de tudo isso. No ano retrasado já aconteceu de pessoas com camiseta do Bolsonaro chegarem nos slams e ficarem no fundo assistindo, com uma atitude ameaçadora.

Roberta – A polícia sempre serviu pra isso, pra reprimir quilombo e escravo. Ela foi criada pra isso, pra proteger o interesse da classe dominante branca desse país. Agora, ela ter autorização estatal para passar o rodo; como o Doria falou: “a polícia vai atirar pra matar”. Se ele muda uma lei e coloca: o policial que matar em serviço não será julgado, nem investigado. Isso é muito diferente. Você legisla a favor do massacre deliberadamente.

Tatiana – E mais ainda, as pessoas querendo fazer isso por conta. Então o número de ataques a pessoas trans nas ruas aumentando; o número de estupros, de violência com mulheres aumentando.

Mas, justamente, a gente não vai se desesperar, não vai ficar com medo. Porque isso é resistência.

Muitos policiais são negros e pobres.

Roberta – Muitos policiais saem do mesmo extrato social do que aqueles que vão barbarizar, é fato. A carreira militar acaba sendo opção para muitos. O fato é que um policial está ali para manter a ordem, de acordo com os interesses de uma classe dominante que é invariavelmente branca e rica. Quando ele veste a farda, ele é um policial que está ali para garantir essa ordem, não importa o que tenha a fazer. E isso não é só uma coisa das polícias, tem uma grande parte de seguranças privados, vigias, que também seguem essa lógica.

Quando as pessoas falam que o racismo no Brasil na verdade é mais um problema social do que de cor de pele, o que vocês pensam?

Roberta – A democracia racial é um mito. Eu respondo com um exemplo muito simples, que é a Frente 3 de Fevereiro, da qual faço parte. Ela tem esse nome porque foi criada no dia que mataram um dentista negro chamado Fábio Ferreira Santana. Esse dentista tinha uma namorada loira, um carro do ano, o pai dele era policial; ele foi parado no Campo de Marte, a polícia estava procurando um suspeito. Ele foi pegar o RG no bolso e atiraram nele.

Isso prova que você pode ascender socialmente, mas se sua pele for preta você pode morrer. Não é social o problema. É racial. A polícia brasileira foi criada para reprimir quilombo e ajuntamento escravo. No primeiro presídio, 95% dos presos eram pretos. E assim continuou. A escravidão não está tão longe de hoje. A gente tem mais tradição escravocrata do que democrata.

Vocês já investigaram a árvore genealógica de suas famílias?

Tatiana – No meu caso, meu pai é a pessoa mais morena da família. Eu digo moreno porque o cabelo dele com o tempo foi ficando liso, então eu identificava ele como um cara moreno; ele poderia parecer um italiano, meio mouro. Minha mãe é super branca, filha de alemão. Na adolescência, estava numa aula – colégio de padre, super branco, mega careta – e chegou um professor preto revolucionário. Na primeira aula ele olhou pra mim e falou assim: “você é neguinha”. Aquilo pra mim mudou tudo. Eu fiquei muito orgulhosa. Conversei com meu avô, que confirmou que tínhamos um antepassado africano. Meu pai era racista, ele disse que era mentira. Mas meu irmão conseguiu descobrir que esse antepassado era de Moçambique.

Roberta – Isso que ela está falando é uma política, não é só o pai dela. No Brasil temos a política do embranquecimento. Os teóricos de relações sociais tinham na cabeça deles que o Brasil com o tempo ia se misturar e apagar a presença negra. O que não aconteceu, porque o Rio de Janeiro foi o lugar que mais recebeu escravos no mundo.

Tatiana – O Rio chegou a ter 70% de pessoas negras, chegou a ser a maior cidade negra fora da África.

Roberta – Não tem como limpar isso. Então, por que a implicância com a mestiçagem? Porque durante muito tempo a mestiçagem serviu para escamotear a negritude.

Tatiana – Meu pai dizia pra mim: “eu não quero uma filha com cabelo de bombril e nariz de batata. Vai fazer plástica nesse nariz e alisar esse cabelo”. Alisei o cabelo durante anos. Uma criança ouvir isso… vou carregar pra sempre.

O que vocês acham que deveria ser feito?

Roberta – Políticas reparatórias sérias. Cota é uma política reparatória. Contratações em empresas. O futuro é o dia que o homem enxergar que isso está errado sem eu precisar falar. O branco ver que só tem branco e achar horrível.

Quando a Angela Davis (filósofa americana e ícone da luta pelos direitos civis) veio pro Brasil e assistiu TV, ela falou: “Eu estou na Suécia, não é possível”.

Tatiana – Precisamos também de professores conscientes, escolas conscientes, que saibam colocar a História nessa perspectiva. Eu tenho 48 anos. Fui de uma geração que aprendeu tudo errado; a visão mais branca, mais equivocada.

Roberta – A lei 10.639, que o presidente Lula colocou, que é ensino de África nas escolas. Isso é política reparatória. É na base.

Você fala em política reparatória nas escolas, em um momento em que o debate é sobre escola sem partido.

Roberta – Se o que a gente tinha é o mínimo perto do que realmente precisa ser feito, imagine agora. O que se aponta é um governo racista, que como os senhores de outrora, entende que pessoas negras são corpos que servem para trabalhar e servir. Não entendem a política de cotas porque baseiam seu discurso na meritocracia, o que é a maior desonestidade de todos os tempos.

Vendo o filme, percebi que existe um ambiente de acolhimento entre as pessoas do slam, e também de alguma festividade. Dá pra ser feliz no meio dessa loucura toda?

Tatiana – Eu poderia te dizer que não. Mas também é parte da resistência a gente celebrar, imaginar e fazer esse mundo novo, porque se não a gente sucumbe junto.

Roberta – O Zé Celso resume isso num termo que é felicidade guerreira, que é o nome de uma música do Gilberto Gil. Não é uma felicidade boba. Eu estou indo para a guerra com alegria, sou um guerreiro. Nas giras, nas festas, nos rituais, o povo negro sempre resistiu festejando.