O Natal é uma festa incompreendida
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O Natal é uma festa incompreendida

Morris Kachani

22 de dezembro de 2017 | 16h18

“É como se Jesus tivesse nascido na Cracolândia. E quem o tivesse acolhido fossem os maloqueiros e a comunidade LGBT. E quem cantasse fossem as transexuais, que são como os magos, gente maluca, herege, infiel”

Como será o Natal da população da rua, hoje contabilizada entre 16 e 22 mil pessoas? O morador de rua fica mais sensível nesta época do ano, como de resto tanta gente fica? E qual o significado do Natal? Como ele se entrelaça com o conceito de pobreza? Como vivê-lo sob a mácula da desigualdade social, na maior cidade do país que é campeão mundial de concentração de renda, onde o 1% mais rico concentra 48% de toda a riqueza nacional, os 10% mais ricos ficam com 74%, e 50% da população possui menos de 3%?

Não se pode dizer que o padre Júlio Lancelotti seja exatamente um consenso, por conta de suas opiniões políticas, tradicionalmente ligadas ao PT, e que lhe renderam inclusive um processo movido por Bolsonaro, por ter chamado o parlamentar de racista, machista e homofóbico.

Dito isso, Lancelotti é uma voz que merece ser ouvida. Aos 68 anos, este sacerdote católico, pároco da igreja São Miguel Arcanjo, na Mooca, tem um histórico de apoio incondicional à população de rua. Formado em pedagogia e teologia, foi professor primário, professor universitário, membro da Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo desde seu início e há mais de dez anos é o Vigário Episcopal do povo de rua. Participou ainda, do processo de formulação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

E com este post, me despeço dos leitores este ano. Agradeço demais pela atenção dispensada, pelas opiniões emitidas, pelas reações apaixonadas – goste-se delas ou não. Afinal, esta é mesmo uma arena de debates, para se ventilar e trocar ideias e impressões. Agradeço também à turma do Estadão, pelo suporte e apoio, e aos colaboradores e parceiros deste blog. E por fim agradeço os entrevistados, que me receberam, uns com mais e outros com menos paciência, para calorosas discussões.

Sem todos vocês, este espaço não existiria e jamais receberia menção como o segundo melhor blog do ano no Prêmio Estadão de Jornalismo, em apenas 7 meses de existência. Saio agora de férias mas a partir da segunda quinzena de janeiro, como se diz, tamos aí. Voltarei certamente com o ânimo redobrado, e a vontade de participar ainda mais do debate público, em um ano delicado em que decidiremos quem será nosso próximo presidente.

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“Eles vêem a festa do lado de fora, não tem a festa deles do lado de dentro. Então as fantasias são muitas, lembram da família, dos amigos, quem tem filhos lembra dos filhos. E quem não tem ninguém chora porque não tem ninguém.

Para alguns a situação piorou, para outros, vai melhorar… É uma sensibilidade em que cada um procura seu auto-afago.”

“Em algumas áreas da cidade eu diria que a Guarda Civil Metropolitana está descontrolada. Aqui na Mooca perderam todo controle da violência, levando comida, documentos, remédios, roupas e trazendo muita humilhação e escracho ao morador de rua.”

“No poder, todos são iguais. Apenas mudam as marcas, cada administração busca a sua. Não há uma ação política articulada.”

“Se precisa ter tanta solidariedade no Natal, é porque no ano inteiro faltou. Não nego, moralizo ou condeno, o rico que só vai dar a comida agora. Ele deve partilhar sempre. Nossa luta e a de Jesus não é de só um dia, mas para a vida. Por isso o mataram.”

“Numa cidade como a nossa, existe de tudo. Existe solidariedade, mas existe também o ódio que permanece.”

“O Natal é o nascimento, a proteção da vida ameaçada. A originalidade é do Deus que se humaniza. Interessante observar sobretudo, que não é a vida humana que se diviniza. É que Deus mostra o contrário, se faz fraco e pequeno entre os pobres, mas o homem não entende. A pobreza é a riqueza do mundo. O Natal é uma festa incompreendida.”

“O Natal em São Paulo, é o contraste entre Jerusalém e Belém, entre Tel Aviv e a Faixa de Gaza, entre o poderoso e o serviçal, a força e a fraqueza, a fartura e a falta.”

“Comprar e dar presente, nada tem a ver com religião e cristianismo. Os primeiros cristãos não faziam nada disso. Estas são tradições que o sistema vai se apoderando. Tudo tem que gerar lucro, até Deus.”

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O que você está fazendo exatamente, neste momento?

A agenda está bastante carregada, com muitos encontros, grupos de novena. Mas na rua a vida continua difícil, com os rapas e agressões da Guarda Civil Metropolitana. E a população de rua fica mais agitada nessa época.

Ah é?

Porque muitas lembranças vêm à tona. É época de balanço, perguntam-se como foi no ano passado e o que será no ano que vem. Para alguns a situação piorou, para outros, vai melhorar, muitos querem telefonar para a família… É uma sensibilidade em que cada um procura seu auto-afago.

Eles vêem a festa do lado de fora, não tem a festa deles do lado de dentro. Então as fantasias são muitas, lembram da família, dos amigos, quem tem filhos lembra dos filhos. E quem não tem ninguém chora porque não tem ninguém.

Mas ao mesmo tempo, a população de rua é muito imediatista. Por exemplo, com a chuva, todos se molham e passam a se preocupar principalmente com isso. Outra coisa que marca, é o aumento iníquo do gás, está muito alto. Muita gente pelo Brasil, voltou a usar lenha e etanol.

Mas a população de rua usa gás?

Em barraquinhos, sim. Ou em quartos que abrigam os recicladores e gente que saiu da rua. Muitas famílias pobres.

Você comentou sobre rapas e agressões da Guarda Civil.

Em algumas áreas da cidade eu diria que está descontrolado. Aqui na Mooca perderam todo controle da violência, levando comida, documentos, remédios, roupas e trazendo muita humilhação, escracho. Eles dizem aos moradores, “vai chamar o padre, pode falar com o papa”, e ameaçam quebrar tudo. Uma coisa horrível.

Por que fazem isso?

Isso se chama zeladoria urbana. Querem então tirar a coberta, o colchão. Está acontecendo em vários lugares, como na Vila Leopoldina, ou Santana. É uma ação sistemática que continua permanentemente estruturada. O que nos espanta é que a portaria número 1 deste ano, foi assinada mas ninguém cumpre. Ela coloca a não retirada dos pertences que são itens de sobrevivência, como o fogareiro, a panela o colchão e as cobertas. Os funcionários da Prefeitura agem ao contrário, eles chutam e humilham.

Quanta gente está morando na rua hoje em São Paulo?

O último dado oficial foi de 16 mil, mas mesmo na Prefeitura já há um consenso de que hoje são mais de 22 mil.

Está aumentando?

Claro, tem muita gente andando pelo Brasil à procura de trabalho.

Todos procuram trabalho?

Alguns procuram trabalho. Tenho acompanhado um africano por exemplo, e admirado sua seriedade como forma de se expressar. Os empregadores gostam de empregar africanos porque são obedientes de forma geral, e trabalham muito. E este africano tem tentado muito um emprego, e não consegue. E então ele foi ficando na rua e bebendo. A mudança que aconteceu nele, na sua forma de ser e agir, é gritante. Ele foi perdendo o perfil inicial por conta do sofrimento.

Qual seria o perfil do morador de rua?

As pessoas na rua vão perdendo tudo: documento, roupa, mala, amor próprio. Uma sucessão de perdas, aí a pessoa vai ficando insensível.

Quando o papa Francisco instituiu o Dia Mundial do Pobre, em novembro, fizemos um almoço dentro da igreja. Na mesa havia dois arranjos de flores. Pedi para uma das convivas pegar as flores e entregar para um morador de rua. E esta foi uma cena de muito impacto. Como o morador de rua acolheu este gesto. Em um primeiro momento ele poderia dizer, “leva isso embora, que vou fazer com uma flor? Eu preciso é comer”. Mas o gesto em si e o que a mulher lhe falou, rompe barreiras. É preciso induzir formas e experiências que rompam com esse esquema.

E os menores?

Muitos em situação com a família na rua, isso tá aumentando. Com o pai ou com a mãe.

Como é a psique de um menor morador de rua?

Eles têm uma visão por um lado de sobrevivência. Mais espertos, não são tímidos, enfrentam. Têm uma característica de luta muito forte.

Em que medida a criminalidade e a população de rua dialogam?

Se você percorrer as delegacias em busca de BOs envolvendo crimes cometidos por moradores de rua, verá que não há. O que há é muita reclamação. Porque faz sujeira, cria uma situação desagradável. Ou por vezes, o morador pede comida ou dinheiro de maneira impositiva, constrange. Nos Consegs (Conselhos Comunitários de Segurança), este tipo de reclamação aparece sempre entre as 5 primeiras. Então o problema é mais por ser desagradável, do que por insegurança.

Essa gestão da Prefeitura é pior, em termos de atendimento à população de rua?

É igual. No poder, todos são iguais. Apenas mudam as marcas, cada administração busca a sua. Nesta, é a Cidade Linda, na anterior era Braços Abertos, as tendas e hotéis sociais. O problema é que não temos uma ação política articulada. Cada gestão age de alguma forma. E a população rua faz parte da lógica. No neoliberalismo tem que ter alguém sobrando, nem todos têm acesso à mesa, para ver o que restou ou sobrou.

E o que o Natal tem a ver com isso?

O Natal nada tem a ver, embora seja importante reconhecer nessas pessoas a dignidade humana, a presença de Deus.

Não seria este um tempo de comiseração com os pobres?

Numa cidade como a nossa, existe de tudo. Existe solidariedade, mas existe também o ódio que permanece. Por exemplo, a prefeitura abriu um Centro Temporário de Acolhimento no bairro de Água Rasa, e o povo de lá quer que eles sumam.

Por que esse ódio?

Olha, estamos em uma cidade que tem constrastes. Em uma linguagem não muito bem aceita atualmente, eu diria que esta é uma questão de classes. Tem muitas diferenças, vamos ter ceias muito grandes e finas, e gente comendo marmitex.

Hoje no Belém aconteceu uma situação interessante. Participei de uma confraternização entre os funcionários de uma agência bancária. No caminho, encontrei a Tainara, uma moradora de rua que conheço. Estava com o marido e o nenê de três meses, tomando conta de carro.

Disse pros funcionários que Natal é o inusitado, e então convidei a Tainara para entrar na agência. Sua chegada comoveu muito, cantaram Aleluia pra ela, com violão e violino, o nenê passando de colo em colo. Até que a certa altura lhe ofereci um damasco seco. E ela me perguntou, “O que é isso? Nunca tinha visto”. Uma funcionária pegou um queijo, acho que era francês, cortou e juntou com o damasco. A Tainara me olhou admiradíssima. “Como deve ser bom”, comentou. E gostou muito, quando provou.

A cidade tem muitas camadas que não se tangem, a Tainara ficou muito espantada de entrar na agencia bancária. Tem que ir rompendo as barreiras do apartheid, nossa cidade tem apartheid.

Como a desigualdade social se entrelaça com o Natal?

Se precisa ter tanta solidariedade no Natal, é porque no ano inteiro faltou. A solidariedade do Natal pode chegar uma semana antes, ou 15 dias. Mas no dia do Natal mesmo, cada um está no seu. E os pobres na rua, comendo os restos. Não nego, moralizo ou condeno, o rico que só vai dar a comida agora. Ele deve partilhar sempre. Nossa luta e a de Jesus não é de só um dia, mas para a vida. Por isso o mataram.

Como vai ser seu Natal?

Vou celebrar duas missas no dia 24, e no dia 25 mais uma, sete e meia da manhã.

E a ceia?

Não tenho ceia. Terminada a missa, vamos nos juntar a alguns moradores de rua e quem mais vier.

Por que se fala de Natal e dos pobres?

Falar sobre o Natal dos pobres é estranho. É porque Jesus nasceu pobre. Natal de rico é onde, no shopping? O dos pobres é embaixo do viaduto.

Qual o significado do Natal?

O Natal é o nascimento, a proteção da vida ameaçada. A originalidade é do Deus que se humaniza. Interessante observar sobretudo, que não é a vida humana que se diviniza. É que Deus mostra o contrário, se faz fraco e pequeno entre os pobres, mas o homem não entende. O Natal é uma festa incompreendida.

O que é o Natal em São Paulo, para você?

É o contraste entre Jerusalém e Belém, entre Tel Aviv e a Faixa de Gaza, entre o poderoso e o serviçal, a força e a fraqueza, a fartura e a falta. Se tudo que sobra das festas de Natal fosse partilhado, seria suficiente para todos.

O Natal cristão é um escândalo, porque se for olhar nos relatos evangélicos, eles mostram coisas muito escandalosas. Quem acolheu o Deus humano foram os pastores, considerados os piores representantes possíveis, fedorentos, desonestos, ladrões. Dentro do judaísmo, os pastores eram os impuros, as pessoas que Deus rejeita.

Traduzindo para os tempos de hoje, é como se Jesus fosse nascer na Cracolândia, e só fosse reconhecido pelos maloqueiros de lá. Dizer isso pode causar impacto. Jesus nasceu em Belém, que era a periferia do sistema. Ele não nasce no palácio dos Bandeirantes ou no prédio da prefeitura. Quem vai acolhê-lo são os maloqueiros e a comunidade LGBT. Quem vai cantar para Jesus são as transexuais, que são como os magos, gente maluca, herege, infiel. Vejo a umbanda, o candomblé, os ateus entre eles. Por isso o papa Francisco pede que a gente não celebre o Natal com romantismo, nem que seja piegas.

Então como deveria ser o Natal?

Fazer o Natal dos pobres é fazer com que eles tenham dignidade, lugar pra morar, condições para escolher o que vão vestir e comer. A pobreza é a riqueza do mundo, há comida para todos, não é pra fazer sacolinha dos pobres. Uma vez um menino da comunidade me disse, “eu sei porque não tem passarinho pobre. É porque não tem passsarinho dono de armazém.

Jesus mostra que o caminho não passa pelo poder e pela riqueza. Os ricos poderão vir, se mudarem de vida. É por isso que Jesus vai dizer, mais tarde, que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no céu.

E o consumismo?

É a lógica do sistema.

Comprar e dar presente, é um ato religioso?

Nada tem a ver com religião e cristianismo. Os primeiros cristãos não faziam nada disso. Estas são tradições que o sistema vai se apoderando. Tudo tem que gerar lucro, até Deus.

E o visual do Papai Noel?

Não é criação da igreja. O presépio é uma formula teológica, não é um relato histórico. Ninguém fotografou e fez selfie do presépio, ou escreveu a crônica do que estava acontecendo. Dos quatro evangelistas, sé dois falam do nascimento de Jesus.

A vestimenta de Papai Noel é uma criação que vem das tradições europeias, nada tem a ver com o cristianismo. Inclusive aqui no Brasil, os conservadores deveriam pedir para que ele se vestisse de azul. Pois vermelho pode ser associado ao comunismo…

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