O outro Covas

O outro Covas

Morris Kachani

06 Abril 2018 | 12h26

Filho do ex-governador Mário Covas e tio de Bruno, novo prefeito de SP, Mario Covas Neto achou ‘péssima’ a saída de João Doria

Por Paula Forster

 “Ele ganhou uma eleição para prefeito, porque não tinha nenhuma rejeição e adotou um discurso de não político tradicional que colou muito com a aspiração popular de renovação. Agora o que ele tem para mostrar?

O não político se mostrou um carreirista, que está saindo para ser candidato. Como gestor, não mostrou ainda a eficiência, era preciso mais tempo e ele não quis esperar. Essas duas coisas são contraditórias para quem quer ser candidato a governador e isso vai ser fatal para sua candidatura”.

Ele é filho do ex-governador de São Paulo e de um dos fundadores do PSDB. É também tio de nosso novo prefeito, Bruno Covas. Vereador por dois mandatos e até então Presidente do Diretório Municipal do PSDB. Nestas eleições, no entanto, estará de outro lado.

Mario Covas Neto, 58 anos, anunciou a sua saída do PSDB no começo de março e se filiou oficialmente ao “Podemos”, em evento organizado na terça-feira, dia 03 de abril. Ele apoiará o rival de João Doria ao governo do Estado, Marcio França, e o concorrente de Geraldo Alckmin ao comando do Governo Federal, Álvaro Dias.

“Acho que talvez precise de uma reciclagem sim. O poder atrai pessoas que estão em busca de poder. Acho que uma das grandes razões para o partido [PSDB] mudar o seu comportamento ao longo do tempo foi justamente ter tantos anos no comando”.

Conversei com o herdeiro de Mário Covas sobre o atual cenário do partido de seu pai. Covas Neto, que é ‘Neto’ porque seu pai era Covas Júnior, saiu do PSDB depois de 29 anos.

Ele, que assim como o ex-prefeito Doria torce pelo Santos e costumava frequentar os estádios a seu lado, desenvolve aqui um olhar crítico sobre a gestão de João Doria de um ano e três meses, que se encerra hoje. E desfia os motivos de sua saída do partido:

“Eu acho péssimo. Eu fiz uma campanha inclusive de “Fica Doria”. Isso é atitude de político. Se ele é um gestor, ele deveria ficar o tempo programado”.

“Não faz sentido sair agora, a não ser por uma ambição política. E é isso, né? A questão dele é a ambição pelo poder”.

“Eu não me coloquei contra nenhuma proposta do prefeito, mas fui contra algumas tramitações, em função de um atropelo para as coisas serem votadas. E não tinha nem razão para esse atropelo. Não teve concessão do Pacaembu, não teve concessão do Ibirapuera. Nada aconteceu até agora. Então não justifica aquela pressa toda”.

“É só uma demonstração de força. É só para dizer: ‘olha, nós vamos fazer na hora que dá. É agora. Nós queremos fazer agora e vai ser agora’”.

Quem assume a prefeitura é o sobrinho de Mário Covas Neto, Bruno Covas, que fará 38 anos amanhã, no dia 7 de abril, e está na carreira política pelo 12º ano. Pelo visto, o tio, que viu Bruno crescer, se dá bem com ele. Apesar da diferença de temperamento.

“Eu diria que a grande diferença política minha e do Bruno são os cabelos – ou a falta de cabelos dele nessa altura (risos)”.

“Bruno aceitou passivamente a saída dele da Secretaria das Prefeituras Regionais, quando o prefeito João Doria alegou que a zeladoria da cidade não ia bem. Quando a nova pessoa assumiu, por várias vezes, Doria disse que a questão da zeladoria tinha melhorado. O Bruno não esboçou nenhum tipo de reação contrária – inclusive declarou que aqueles que esperavam uma divisão entre ele e o prefeito se enganariam, porque na matemática dos dois era soma e não divisão.

Sinceramente, eu não teria a mesma disposição de aceitar passivamente – mas isso é questão de temperamento”.

 “Eu só posso apostar em um bom governo. Se eu apostar em um mau governo isso tem reflexos em mim. As pessoas na rua me confundem com o Bruno. Muitas não sabem que são duas pessoas diferentes. Alguns acham que eu sou o vice-prefeito, tem gente que acha que eu sou o pai do Bruno ou que o Bruno é meu pai, porque eu sou “Mario Covas Neto”… Fazem muita confusão”.

O que você acha da candidatura de João Doria ao governo de São Paulo?

Eu acho péssimo. Eu fiz uma campanha inclusive de “Fica Doria”. Eu acho péssimo falar para o eleitor para quem eu pedi voto – e pedi voto para mim e para ele – que aquele que se apresentou como um não político, está saindo para ser candidato a outra coisa. Isso é atitude de político. Se ele é um gestor, ele deveria ficar o tempo programado. Todo esse processo de privatização e de concessão, nada aconteceu até agora. Não justifica sair da Prefeitura depois de um ano.

Como analisa esse primeiro ano de mandato?

Curto.

Sim (risos), e qual é a análise que você faz deste ano?

Eu acho que ele se esforçou bastante, mas o tempo é muito curto. O primeiro ano você atua com o orçamento feito pela gestão anterior e a divisão de volumes de recursos está conceitualmente atendendo a gestão anterior.

Neste primeiro ano, Doria fez um grande ajuste em virtude do não aumento da passagem de ônibus, de um possível déficit… Seguraram bastante as despesas e os custeios, para poder chegar ao fim do ano com a conta empatada. Foi um ano muito mais de ajuste do que de realização.

Não faz sentido sair agora, a não ser por uma ambição política. E é isso, a questão dele é a ambição pelo poder. Ele quer sair da prefeitura para ir para o Governo do Estado e se tiver chance ele vai para o Governo Federal.

Isso me incomoda, porque eu esperava que ele cumprisse o discurso que o fez ganhar no primeiro turno: de ficar quatro anos e usar a experiência da vida privada para modernizar o Estado e transformar São Paulo em uma cidade moderna e digital. Nunca nenhum prefeito ganhou antes de um segundo turno. Sair agora é trair todo esse discurso.

Você aposta em um bom governo de Bruno Covas à frente da Prefeitura de São Paulo?

Eu só posso apostar em um bom governo. As pessoas na rua me confundem com o Bruno. Muitas não sabem que são duas pessoas diferentes – alguns acham que eu sou o vice-prefeito, tem gente que acha que eu sou o pai do Bruno ou que o Bruno é meu pai, porque eu sou “Mario Covas Neto”… Fazem muita confusão. Isso implica dizer o seguinte: tudo o que acontecer de bom ou de ruim com ele reflete em mim, a mesma coisa de mim para ele. Óbvio que desejo um sucesso absoluto. Quero mais é que dê muito certo.

Então vamos esclarecer: o que o Bruno Covas é seu? E como é ele pessoalmente?

O Bruno é meu sobrinho, filho da minha irmã. Convivo com ele desde que ele nasceu. Vi ele crescer, ficar jovenzinho, depois virar adulto. Acompanhei a vida dele inteira. Acho que ele tem uma ótima formação acadêmica e política [se formou em direito pela USP e em economia pela PUC-SP, foi duas vezes deputado estadual de São Paulo, secretário do Meio Ambiente do governo Alckmin, eleito deputado federal e ocupou cargo de secretário das Prefeituras Regionais de João Doria], e tem bons exemplos que viu ao longo da vida, que ele procura seguir – como eu.

Mas a relação de vocês é próxima?

Do ponto de vista político, não. Do ponto de vista pessoal, sim. É muito fácil se relacionar com ele. É bem humorado, inteligente, faz piadas… A diferença é que nós somos de outras gerações e, por isso, nosso círculo de relacionamento também é diferente. Ainda que os conceitos que nós ganhamos de um partido sejam os mesmos, a forma de você desenvolver depende do temperamento e da personalidade de cada um.

Mesmo que em alguns momentos estejamos em situações diferentes – como nestas eleições, em que provavelmente Bruno vai apoiar outros candidatos que não os meus -,  isso não muda nossos conceitos em relação à serenidade, obrigação, responsabilidade, democracia… São conceitos enraizados.

Qual a diferença política entre vocês dois?

Eu diria que a grande diferença política são os cabelos – ou a falta de cabelos dele nessa altura (risos).

Essa é uma avaliação que eu não consigo fazer, não consigo enxergar com nitidez. É óbvio que é diferente e eu identifico a diferença pelo fato de sermos de outras gerações e também pelo fato do Bruno, desde pequeno, estar muito na situação, enquanto eu já estive muito tempo na oposição. As nossas visões são um pouquinho diferentes nesse aspecto, mas de resto eu não consigo dizer sobre uma diferença.

Não tem diferença de visões, de opiniões entre vocês?

Não. Acho que não. O Bruno é mais discreto e, talvez, acabe tendo mais sucesso de articulação por isso. Por outro lado, talvez eu desperte mais paixão, por ter posicionamentos mais nítidos. Acho que pode ser essa a diferença mais sentida. Agora, como Prefeito, ele vai precisar se manifestar mais corriqueiramente e penso que essa forma dele vai ser modificada ao longo do tempo.

Conseguiria falar sobre alguma decisão política sua que certamente Bruno Covas agiria diferente de você?

Não, isso quem pode falar é o próprio Bruno. Eu posso falar de algo que ele agiu e que eu faria diferente. Ele aceitou passivamente a saída dele da Secretaria das Prefeituras Regionais, quando o prefeito João Doria alegou que a zeladoria da cidade não ia bem. Quando a nova pessoa assumiu, por várias vezes, Doria disse que a questão da zeladoria tinha melhorado. O Bruno não esboçou nenhum tipo de reação contrária – inclusive declarou que aqueles que esperavam uma divisão entre ele e o prefeito se enganariam, porque na matemática dos dois era soma e não divisão.

Sinceramente, eu não teria a mesma disposição de aceitar passivamente – mas isso é questão de temperamento. A chapa foi eleita dos dois e o Bruno ajudou Doria eleitoralmente a conquistar a prefeitura. Não foi justo. Achei incorreto tirá-lo desta forma – tornar pública uma insatisfação do prefeito, colocando Bruno como alguém que não era competente para fazer a coisa.

Tem mais gente da família Covas na política?

Não. Hoje, só nós dois – eu e o Bruno. A família não é tão grande assim (risos). Até teriam alternativas, mas ninguém se habilitou até hoje.

Gostaria de saber mais sobre o seu pai. O que ele representa para você?

Meu pai representa a bússola política. É a orientação do que me parece correto, de toda base do caminho político que a gente procura seguir – a orientação, os conceitos, a forma, a postura, os compromissos… Eu acho que ele não só representa a mim, como representa a muitas pessoas. Olho politicamente, não como pai, mas como um líder político de uma dimensão tão grande que a dificuldade é exatamente como essa comparação se dá entre a gente. Eu prefiro que essa comparação nunca seja feita, porque eu sei que a dimensão política dele é muito muito muito maior do que a minha.

O que ele representa para o partido?

Acho que pela forma em que ele é citado em vários eventos, em vários discursos e em vários textos no partido significa que a figura dele é uma figura especial. Talvez, tão especial como a do Fernando Henrique ou até superior a dele. Acredito que seja assim.

É um referencial. Alguém que faleceu há 17 anos e ainda hoje é citado como exemplo de correção, de um homem público e realizador.

Não é à toa que tem tantos prédios públicos espalhados pelo Brasil inteiro – que eu não faço ideia de quantos são e nem onde estão – que levam o nome dele. Essas homenagens têm um significado. Não foi articulado por mim ou por alguém da minha família, isso foi homenagem prestada por pessoas que viram nele alguém que merecia ter essa lembrança. Eu espero que eu e o Bruno tenhamos a capacidade de não manchar essa memória dele, tenhamos a capacidade de manter viva, acesa e que a gente possa, com nosso pequeno brilho, fazer com que a luz dele se ilumine cada vez mais.

O que motivou a sua saída do PSDB? Cansou do partido?

Na realidade é um processo que veio se acumulando. Na minha primeira campanha – sou vereador do segundo mandato – eu já dizia que o PSDB deveria retornar a suas origens. Por exemplo, no primeiro ano de sua fundação, cinco presidentes do partido se alternavam no comando a cada dois ou três meses. Isso mostrava que o PSDB era um partido de lideranças e não de donos. Para você ter uma ideia, durante a presidência do Aécio Neves não havia reunião da executiva nem tampouco do Diretório Nacional. Ficou a critério dele, como se o partido fosse dele.

Eu também fui sendo cada vez mais polido das minhas ações, por causa de lideranças partidárias que, para agir a seu favor, preferiram me deixar isolado. Se você não está muito bem no ambiente e se o ambiente não está satisfeito com você, é melhor procurar outro caminho e aí eu saí.

Então a vontade de sair do partido já vinha…

Não é a vontade de sair… é a insatisfação com o PSDB que vem desde aquela época. A gota d’ água veio agora, no momento em que eu soube pelo noticiário da rádio, de que a minha função aqui na Presidência da Comissão de Justiça da Câmara, ia deixar de acontecer, por acharem que eu não estava sendo – digamos favorável, mas não é esse bem o termo.  O que é uma grande mentira, porque eu não votei contra nenhum projeto que o prefeito mandou para cá no ano passado.

Quando fui vereador da oposição, eu votei a favor e contra o governo, conforme eu achava que deveria votar e todos com justificativa. Por que na hora que esta o governo do meu partido, eu não tenho essa possibilidade? Não vou ser oposição de dizer não a tudo, mas também não posso dizer sim a tudo.

Você disse que não diria “amém” a todas as propostas do prefeito João Doria. Mas não teve nenhuma proposta que votou contra?

Eu não me coloquei contra nenhuma proposta do prefeito, mas fui contra algumas tramitações por causa do atropelo para as coisas serem votadas. E nada aconteceu até agora. Não teve concessão do Pacaembu, não teve concessão do Ibirapuera. Eu era presidente de uma Comissão de Condição e Justiça e o mínimo que eu tinha que zelar era pelo regimento da casa. E eu deixei isso claro ao João Doria. Eu não entrei contra o mérito do que estava se querendo, mas com a forma.

Não tinha razão para esse atropelo. É só uma demonstração de força.  É só para dizer: ‘olha, nós vamos fazer na hora que dá. É agora. Nós queremos fazer agora e vai ser agora’. Com isso eu me rebelei, porque nem o PT agiu dessa forma.

Você acha que teve um racha no partido envolvendo a velha guarda do PSDB e João Doria – até em relação a essas prévias?

Imagino que esteja se referindo a Aluísio Nunes, Serra, Goldman… Todos tiveram na época da eleição para prefeito de João Doria um posicionamento contrário a sua escolha pelo partido – prefeririam Andrea Matarazzo. Agora, eles novamente se colocaram de forma frontamente contrária. Eu não sei como vão agir durante a eleição. Mas nesse momento não é mais da minha alçada avaliar isso.

Como acha que seu pai se posicionaria em relação a isso?

Eu não sei. Difícil responder por outra pessoa, especialmente que não esta aqui para me confirmar ou desmentir. Não sei mesmo.

Qual a sua opinião sobre figuras emblemáticas do partido como Fernando Henrique Cardoso e Aécio Neves?

Eu considero o Fernando Henrique talvez a maior figura do PSDB. Talvez hoje por não viver o dia a dia do partido, ele tenha mais dificuldade de se posicionar em relação a alguns problemas corriqueiros. Mas do ponto de vista geral, a clareza que ele tem da analise política é extremamente grande.

Já em relação a Aécio Neves não. Ele se mostrou a maior decepção que o PSDB poderia proporcionar à vida pública brasileira. Eu me senti extremamente incomodado como dirigente do partido na época com a atuação dele como Presidente Nacional do Partido – uma atuação de tratar o partido como se fosse dono, não realizando um debate interno necessário e democrático, prorrogando o seu mandato de Presidente Nacional para coincidir com o processo eleitoral, porque isso lhe era conveniente, e finalmente com aquela lambança que ele fez naquelas gravações, aquele palavreado chulo e aquela situação que envergonhou a todos nós. O fato que me fez sair do PSDB foi justamente o partido tratar Aécio Neves de uma forma branda e sem se importar com o estrago político que fez a todos nós.

E o João Doria? Vocês são amigos?

Eu o conheci lá atrás, quando meu pai foi prefeito e Doria foi presidente da Paulistur. Como torcemos pelo mesmo time – pelo Santos – assistíamos jogos de futebol juntos. Com o tempo, passamos a nos encontrar esporadicamente em eventos e em situações sociais. Não tinha mais nenhum contato próximo.

Nossa relação se aproximou na Campanha Eleitoral, porque eu era presidente do Diretório Municipal e ele era um dos pretendentes. Depois da eleição, as coisas esfriaram, justamente porque ele acabou fazendo uma articulação na Câmera que priorizou o Milton Leite, o tendo como o seu parceiro. A gente acabou ficando em posições diferentes e nos afastamos politicamente.

Pessoalmente, não há afinidade?

Ele é uma pessoa muito educada e faz gesto de consideração. Não há quem converse com João Dória que não saia encantado com o jeito dele de se colocar. Ele dá atenção a todo mundo. Não tem nenhuma dificuldade em relação a isso.

Agora do ponto de vista da condução política, os nossos posicionamentos são divergentes e isso nos afasta. Não faço parte do grupo que comunga com as ideias dele, mas isso não quer dizer que a gente não vai se encontrar, não precisamos nos tornar inimigos. É o tal negócio: não é porque a pessoa tem uma religião diferente da minha, torce pelo outro time ou politicamente tem outra visão, que precisa ser meu inimigo. A gente apreende, especialmente no Parlamento, a ter convívio assim. Você convive com gente que pensa diferente de você. Não quer dizer que a pessoa seja ruim, mal educada ou sua inimiga.

E que mundos são esses diferentes? Que visões diferentes são essas?

Olha, a minha visão sempre foi partidária. A visão do João Dória é de governo: se a base parlamentar é composta pelo PSDB, pelo ciclano, pelo beltrano, por alguns partidos ou por vários, para ele não importa. Eu não vejo assim. Para mim, no momento em que Doria foi eleito pelo PSDB, ele deveria priorizar o partido dele. Muitos dos que estão na base partidária nem estiveram ao lado dele na campanha, estiveram contra ele.

Nos quatro anos do PT aqui na prefeitura, o presidente da Casa foi do PT, porque tinha a maior bancada, mas o segundo cargo na mesa era do PSDB, porque tinha a segunda maior bancada. Assim, você forma uma mesa da câmara composta por vários partidos, seguindo a vontade popular expressada nas urnas. O PSDB tinha a maior bancada aqui, mas não ocupou a presidência, porque João Doria considerou o que era mais interessante do ponto de vista do governo e não do partido.

Para facilitar o governo dele?

Para fazer as coisas andarem ligeiras. Preferiu escolher alguém com que pôde transgredir as regras, porque ele sabe que eu não iria transgredir. Além disso, ele espera que os vereadores do PSDB aceitem todas as regras que ele determinar.

Algum exemplo concreto dessa situação?

É só você ver o que aconteceu agora nesse episódio dos professores. Pela primeira vez em cinco anos que eu estou aqui, eu vejo o PSDB fechar uma aprovação pressionando expulsar quem não votasse a favor. Você obriga as pessoas a votar segundo o entendimento do prefeito.

Queria fazer passar de qualquer jeito, até o momento em que viram que não teria voto suficiente e retiraram o projeto, depois de um desgaste imenso com tropas de polícia aqui na rua, com gente ensanguentada, com milhares de pessoas na porta da Câmara durante semanas, fazendo pressão em cima dos vereadores que se mostraram a favor do projeto, teve gente que foi ameaçada fisicamente… Ele conseguiu, em curto espaço de tempo, aglutinar uma oposição que não existia, deixar vários vereadores em uma posição frágil e deixar a bancada do PSDB completamente refém dos funcionários públicos.

É uma posição equivocada, de quem não percebeu de que na política existem momentos de que é necessário recuar. Quando você está na política você tem que negociar. Quando se vira prefeito, você não vira dono da cidade, você é empregado da população. Tem que ser mais flexível. A bancada está rachada, aqueles que votaram a favor, ficaram marcados. Tinha que negociar, chamar as entidades para analisar quais seriam as melhores soluções. Negociar. Algo que o Bruno Covas é capaz de fazer, o Doria não.

Doria foi gestor ou foi um político neste um ano?

Eu não sei te dizer, porque não houve tempo suficiente para analisar. Um ano e três meses é extremamente curto. Não dá para você dizer que ele foi um bom gestor, porque tem que dar mais tempo para isso acontecer e também não dá para dizer que foi um bom político.

Agora, ele se mostrou um péssimo político com essa questão dos professores. Dizer que quer e vai ser desse jeito.

E você acha que ele ganha para governador?

O Doria? Eu acho que não. Acho que vai ser fatal para ele. Ele ganhou uma eleição para prefeito, porque não tinha nenhuma rejeição e adotou um discurso de não político tradicional que colou muito com a aspiração popular de renovação. Agora o que ele tem para mostrar?

O não político se mostrou um carreirista, que está saindo para ser candidato. Como gestor, não mostrou ainda a eficiência, era preciso mais tempo e ele não quis esperar. Essas duas coisas são contraditórias para quem quer ser candidato a Governador e isso vai ser fatal para sua candidatura.

Qual a diferença entre Alckmin e Álvaro Dias?

Do ponto de vista ideológico tem muito pouca diferença. Em relação à condução e à ótica da máquina pública ambos são extremamente responsáveis e eu diria que qualquer um dos dois que vier a se candidatar a Presidente da República, o Brasil vai estar bem servido. Em relação ao temperamento é um pouquinho diferente. Talvez o Álvaro Dias seja uma pessoa mais atirada e se coloque mais claramente, enquanto Geraldo é mais do tipo de fazer pelos bastidores.

Nesse momento eu estou com Álvaro Dias, porque é do meu partido e acho que nesta situação em que a população olha com muita desconfiança a classe política como um todo, o Geraldo está um pouco contaminado com isso, porque o PSDB está contaminado, enquanto o “Podemos” não.

Acha que é muito tempo de PSDB no poder?

Acho que talvez precise de uma reciclagem sim. O poder atrai pessoas que estão em busca de poder. Acho que uma das grandes razões para o partido mudar o seu comportamento ao longo do tempo foi justamente ter tantos anos no comando. O poder funciona como um polo de atração muito grande de vários interesses, que acabam entrando na máquina partidária e participando dos partidos, sem o compromisso com a sua origem.

Talvez um momento de sair do governo sirva para ele (PSDB) ficar mais enxuto e identificável internamente e também para a população fazer um juízo de valor do que foram todos esses anos de governo do PSDB. Eu não acho ruim ter uma visão nova, acho bom que aconteça, até porque se não for bom retoma. As eleições são periódicas. Você pode corrigir as coisas conforme o tempo.

Diferença entre João Doria e Marcio França?

Aí tem muitas diferenças… Márcio França é um político já de muito tempo, não é o caso do João que está se transformando em um político agora – quando declara a sua saída da prefeitura.  Márcio França já foi Prefeito de São Vicente mais de uma vez, foi vice-governador de Geraldo Alckmin nestes quatro anos…

Acho que fará bem à população dar uma renovada, ter um período de saída do PSDB do governo do Estado… A mudança vai estar com Márcio França e não com João Doria.