O universo trans

O universo trans

Morris Kachani

20 Abril 2018 | 11h04

Por dentro do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual, do HC, por onde já passaram cerca de 560 crianças e adolescentes, trazendo a questão sobre não se identificarem com seu sexo biológico.

Quem nos fala é Alexandre Saadeh, psiquiatra, que teve a iniciativa de criar esta instituição pioneira.

 

Como foi criado o seu ambulatório?

Eu comecei o meu trabalho no ProSex (O Projeto Sexualidade (ProSex) foi criado em 1993, no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Destina-se à assistência, ensino, pesquisa e prevenção dos transtornos da sexualidade, bem como a serviços junto à comunidade)., lá em 93 como sendo um projeto criado pela doutora Carmita Abdo, e que acabou virando um programa que tocamos juntos. Já havia alguns pacientes transexuais, e na época não podíamos fazer nada além de ouvi-los, propor psicoterapia pra alguns, acompanhar; mas era uma população que, pra medicina, pra área de saúde, não existia.

O Brasil tem uma questão com a transexualidade que remete aos anos da ditadura. Em 1971, um cirurgião plástico da Unifesp, Roberto Farina, operou uma mulher transexual, fez a cirurgia de redesignação e saiu na mídia. Um promotor de justiça ficou sabendo e entrou com um processo contra ele por lesão corporal, por tirar um órgão funcional.

Ele foi condenado, perdeu o CRM temporariamente e depois conseguiu reverter o caso. Só que isso marcou a medicina brasileira em relação à transexualidade. A gente não põe a mão porque isso dá processo, gera problemas.

Até hoje?

Não. Em 1997, o Conselho Federal de Medicina foi o primeiro órgão profissional que lançou uma resolução colocando a possibilidade dessa população ser atendida pelos médicos em termos endocrinológicos, psiquiátricos e cirúrgicos de maneira experimental. Até então a população transexual não existia em termos de saúde pública, de acompanhamento, de qualquer intervenção médica.

A partir desse momento os transexuais começaram a procurar o HC, e foi preciso montar um serviço para essa população. Montamos o projeto que acabou sendo meu doutorado.

Não havia nada em língua portuguesa na época, só conteúdo de fora…

Ainda tem pouco, né?

Muito pouco, mas já tem alguma coisa..

A primeira resolução do Conselho de Medicina estabelecia um acompanhamento experimental só para adultos. E aí comecei. Fui pesquisar, fui atrás, montei, errei muita coisa. Não conhecia nada, era super preconceituoso – no sentido de ignorante, mesmo. Era aberto à fala, mas, se surgisse uma pessoa super masculina na minha frente, automaticamente era ‘ele’. E a  pessoa queria ser chamada de ‘ela’. Eu errava pronomes, errava os artigos, errava o gênero. Foi um aprendizado. Com as primeiras pacientes foi uma troca muito grande, aprendi muito com elas.

Em 2002, o Conselho de Medicina fez uma nova resolução liberando todo o atendimento para as mulheres transexuais, mas mantendo os homens transexuais – qualquer tratamento – como experimental.

Mulheres transexuais são os homens que passaram por transição ou as mulheres que passaram por transição?

Biologicamente, as mulheres transexuais têm um aparato masculino, nasceram homens; mas são mulheres. Então, você trata pelo gênero com o qual se identifica e não pela biologia. Por um respeito.

Para elas, com a resolução de 2002, ficou tranquilo fazer hormonioterapia, a neovagina…

Como funciona a neovagina?

Construímos uma vagina nova em quem não tem. Tira o pênis, escroto, testículo; aproveita todos esses tecidos e faz uma neovagina. Depois que crescem os pelos, você olha e são vulvas muito parecidas com as das mulheres cis.

A mesma sensibilidade?

Muda. Aqui no Brasil, a técnica mais utilizada tira corpos cavernosos, testículos, aproveita a pele escrotal pra fazer grandes e pequenos lábios, invagina a pele do pênis, tem técnicas pra construir um clitóris.

Faz-se um buraco virtual onde não existia, entre o intestino e a próstata; passa a pele pra dentro, e, na hora que for permitida a penetração – geralmente depois de seis meses feita a cirurgia – é super funcional, dá prazer porque você mantém as terminações nervosas.

A sensação de orgasmo é diferente da que se tinha antes. Mas, se tem prazer.

Diferente em que sentido?

Porque não vai ser aquela explosão como é um orgasmo masculino. O orgasmo é psíquico, mas tem uma estimulação nos homens acompanhada pela liberação do esperma. O esperma saindo sob pressão na uretra produz uma estimulação uretral que é prazerosa, e perde-se a ejaculação pois não há mais testículos. Resta o orgasmo psíquico, não há a estimulação de passagem de nada na uretra.

Vamos voltar à legislação.

Então, em 2002 liberou para as mulheres transexuais, qualquer hospital faria a cirurgia. Em 2010, a resolução foi refeita e liberou para homens e mulheres trans. A única condição que continua experimental é a neofaloplastia – a construção de um neofalo, um pênis.

E como funciona para os homens trans do ponto de vista morfológico?

O que você imagina que seja a principal cirurgia para um homem trans?

A construção de um aparelho sexual masculino.

Essa é uma visão masculina. A coisa mais importante para um homem trans é a mastectomia. Tirar as mamas. Porque é o que mostra pra sociedade que você tem um traço feminino. Esse processo cirúrgico é o fundamental.

E a neofaloplastia?

É experimental. Só hospitais escolas ligados a universidades, e hospitais públicos ligados a pesquisas que podem fazer. Muitos homens transexuais usam próteses; fazem uma outra cirurgia que, essa sim, é liberada no Brasil. Com o hormônio masculino, a transformação física é radical. Qualquer mulher tomando testosterona vai virar, fenotipicamente, um homem. Fica com barba, careca, voz grossa, musculatura, pelo no peito.

Qual é a cirurgia liberada?

O nome correto é metoidoplastia. Consiste na liberação do clitóris, com isso, o homem trans ficará com um micro pênis. Precisará fazer genitoplastia (construção de saco escrotal com pequenos e grandes lábios, colocação de prótese testicular, e transposição da uretra para o corpo clitoriano). Esse recurso é liberado pelo Conselho Federal de Medicina e não consiste na neofaloplastia.

Alguma nova resolução em vista?

O Conselho de Medicina está há dois anos se reunindo quase todos os meses pra discutir uma nova resolução.  Eu tenho ido, eu me meti nessa comissão, porque eu acho importante incluir crianças e adolescentes, que é uma nova realidade que não existia. E são três grupos completamente diferentes: crianças, adolescentes e adultos.

Para os adultos, hoje está tudo preestabelecido, funcionando. Pode mudar o nome, o STF autorizou agora, não precisa de laudo – ainda bem, porque isso não tem nada a ver com medicina, com questões de saúde; tem a ver com questões burocráticas e do direito. Agora, questão cirúrgica ainda precisa de um aval psiquiátrico, de uma equipe de saúde.

Essa, inclusive, é uma grande briga que os ativistas têm comigo, porque eu sempre defendi o diagnóstico de transexualidade. Não como doença, um diagnóstico não significa que ninguém está doente. Eu, como médico, preciso justificar o que estou fazendo. Sem diagnóstico vira estético, é plástica. E essa questão pra mim não é estética, isso não é plástica. É uma questão fundamental pra vida dessas pessoas.

A transexualidade em si não é vista como um transtorno?

É uma incongruência de gênero.

Então é tratado como transtorno?

É tratado como diagnóstico médico. Transtorno não é sinônimo de doença, mas as pessoas confundem.

Tem que ter um diagnóstico se não, não vai poder tomar hormônio, não vai poder fazer cirurgia. E quem é apto a fazer esse diagnóstico geralmente é o psiquiatra que se dedica ao assunto.

E qual a birra dos ativistas com você?

Porque eu sou psiquiatra, branco, homem, cis. E eu falo sobre o assunto e não sou trans. Eu não tenho lugar da fala no discurso ativista. Eu defendo diagnóstico.

Você acha que todo transexual deve passar por tratamento hormonal e alguma espécie de cirurgia?

Se a pessoa quer passar por tratamento hormonal e cirurgia, deve passar por uma avaliação médica. É isso que eu defendo.

E você é a favor da neofaloplastia?

Nem a favor, nem contra. Essa é uma decisão do paciente.

E funciona?

Tem alguns indivíduos que tem a necessidade de ter um pênis. Se usa retalho de braço, de coxa, de pele, de musculatura. A sensibilidade é cutânea, não é mucosa.

Constrói-se um tubo, puxa a uretra. Dá pra fazer uma glande com uma tatuagem, ou algum outro recurso, e fica apresentável; mas não é um pênis.

Fica ereto?

Vai ficar sempre duro, porque é musculatura. Mas, nunca vai ser um pênis em ereção. Não temos tecnologia pra isso.

Tem alguns pacientes que optam pela não cirurgia e usam umas próteses que são visualmente perfeitas, costuram na cueca. Usam de uma maneira que substitui o pênis mesmo. Tem até onde encaixar o clitóris, então estimula o clitóris. Tem recursos e recursos hoje.

Quando surgiu o Amtigos?

Em 2010, eu montei o Amtigos, que é o Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual. Temos uma proposta diferente do ProSex.

Até então eu só atendia população adulta. Mas, 99,9% da população transexual adulta sempre referiu que começou na infância. Só que não víamos nem crianças, nem adolescentes. Era uma população invisível.

Historicamente?

Sim, completamente invisível. Eu não ouvia falar disso, isso não acontecia.

Um traço do nosso tempo ou estava escondido?

Estava escondido.

Em 2010, chegaram os dois primeiros adolescentes, com 17 anos. E, no final de 2011, a primeira criança com 4 anos. E foi muito interessante como essa criança chegou, porque os pais estavam sofrendo, a criança estava sofrendo, tinham ido ao psicólogo.

Era um pessoal de uma cidade do interior, cultos, estudados. E o menino, desde os dois anos, rolava pano na cabeça, se dizia uma menina, adorava as coisas de menina. A psicóloga disse: “Reprime, isso é fase. Nasceu menino, tem que ser menino”. Não funcionou. Aí foram num pastor – são evangélicos. O pastor disse: “Reprime, isso é coisa do diabo”. Também não resolveu.

Então combinaram com o filho que dentro de casa ele podia ser menina, mas do lado de fora, não. Chegou visita, chegou alguém de fora, vira menino. O menino adorou. Só que isso durou dois, três meses e ele começou, como toda criança, a questionar: “mas, por que?” Ele começou a ficar deprimido, irritado, chato. Aí os pais pesquisaram na internet, descobriram meu nome, o ambulatório e ligaram pra cá perguntando se a gente atendia crianças. A secretária veio falar comigo, pois não tínhamos autorização para atender crianças. Eu falei para eles virem, que a gente ia ver o que estava acontecendo.

Aí veio a família inteira. Um moleque chato, deprimido, irritado. Fiquei na sala com os pais e o irmão, e ele foi para um canto porque estava vestido de menino, porque a família o trouxe como um menino.

Começamos a conversar, contaram toda a história, aí eu virei pra ele e disse: você tem boneca? Aí ele olhou para os pais. “Pode responder pra o doutor”. “Tenho”. Qual boneca? “Barbie”. Aí ele começou a falar sobre várias bonecas. Foi indo, ele amenizou um pouco. Perguntei: Você tem um nome de menina? Ele olhou para os pais, e me disse um nome super brasileiro, super bonito. Eu falei: posso te chamar pelo seu nome de menina? Aí ele olhou para os pais assustado, abriu um sorriso e foi chegando perto.

A mãe tinha fotos dele menina. A gente foi conversando e ele foi se soltando. Chegou uma hora que víamos uma foto dele de menino e uma outra com um vestido dourado: quem é você? E ele foi direto na foto com o vestido. E quem é esse aqui? “Esse sou eu vestida de menino”.

Os pais, com nosso apoio, optaram por deixar ser. E ela virou uma menina. No primeiro retorno, depois de três meses, chegou como uma menina. Eu não reconheci. Cabelo comprido, super afetiva. Tinha perdido aquela coisa chata, irritada; estava super carinhosa com a mãe.

Cresceu como menina. Hoje tem 12 anos, está bloqueada. Foi a primeira criança a mudar o nome e o sexo civil, e está feliz.

O que é ‘bloqueada’?

Quando a gente fala em hormonioterapia a gente pensa na população adulta.

Na infância, meninos e meninas têm corpos e o funcionamento biológico muito parecido. O problema é quando começa a puberdade, porque aí começa o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários. Então, em uma criança cuja identidade de gênero não bate com o sexo anatômico, a puberdade é um marco crucial no desenvolvimento da história dessa pessoa. Se eu tenho um corpo masculino, mas eu me vejo como uma mulher, isso é um horror. Se me vejo como um homem e tenho um corpo feminino – peitos, menstruo – isso é um outro horror.

O bloqueio da puberdade existe como um recurso para evitar essa mudança corporal em pré-púberes que a gente tem uma certeza que têm tudo pra se desenvolver como um adulto trans. Então você bloqueia, e não desenvolve nem pra um lado, nem para o outro.

É um recurso médico que já existe para um quadro que chamamos de puberdade precoce, e é totalmente reversível.

Até que idade é feito?

Aqui no Brasil a ideia é que se acompanhe até os 16 anos e, a partir daí, com a certeza, se entra com o hormônio da identidade de gênero daquela pessoa.

E você acha que a pessoa consegue ser feliz mesmo?

Consegue, nas limitações que tem. Nunca vai ser aquela mulher cis, ou aquele homem cis que gostaria de ser. É uma mulher que vive como uma mulher, um homem que vive como homem, exercem seus diretos legais, mas vão ter limitações.

Mesmo uma criança que a gente acompanha até o final, quando eu bloqueei na puberdade, uma grande parte dessas crianças não vai desenvolver caracteres sexuais secundários biológicos, mas de acordo com sua identidade de gênero, e vão ser inférteis. Porque, com um adulto eu posso recolher óvulos, esperma e fazer a transição da pessoa, mas com as crianças, não.

Feito o bloqueio, a adolescente ou o adolescente perdem suas capacidades reprodutivas?

Podem perder sim e isso precisa ser conversado e explicado para a família e o adolescente. Nem todos correrão esse risco, mas é possível a perda da fertilidade.

 

Culturalmente, a transexualidade é uma coisa que vem desde sempre acompanhando a humanidade?

Em todas as culturas, historicamente, desde sempre. É que a gente não ouve falar, não conhece. Muitos personagens históricos que foram se perdendo, trocentos mitos. Falo sobre isso na minha tese. É um fenômeno humano.

Em algumas culturas eles são mais aceitos?

Sim. Tem determinadas culturas que aceitam, que permitem um terceiro sexo, terceiro gênero. Por exemplo, na Índia tem uma casta composta por pessoas que nasceram com o sexo masculino, mas vivem como mulheres. E elas têm um poder dentro em determinados aspectos da cultura indiana. Elas têm que ser convidados para um casamento para abençoar o casal, por exemplo. Se elas rogam uma praga, as pessoas adoecem. Elas carregam um poder por conta de terem transitado de homem para mulher. Trazem alguns aspectos transculturais super bonitos.

Em algumas tribos norte-americanas, se o menino sonha que vira mulher, obrigatoriamente ele tem que passar a viver como mulher, e as tribos respeitam esse tipo de comportamento.

Pra mim é confuso definir transexual, travesti… Quem é o travesti?

A travesti. Aqui no Brasil, a gente usa sempre o feminino, porque é muito mais comum as travestis do que os travestis. Lá fora existem menos. É um aspecto cultural brasileiro, latino-americano quase. Isso é importante em termos culturais. Na realidade, tem uma identidade feminina, atributos femininos, mas as travestis mantêm o pênis, mantêm a genitália masculina porque é importante em termos profissionais, pois a grande maioria se prostitui; mas também pela identidade: elas são mulheres que precisam ter um pênis para sua satisfação. Hoje, você vê travestis fora desse círculo vicioso da prostituição.

E em termos percentuais atualmente…

A população transgênero é por volta de 1%. A população transexual é menos ainda.

E a diferença entre transgênero e transexual?

Transgênero é um termo grande, que abarca qualquer manifestação de gênero, de identidade de gênero. Desde transexuais, travestis, cross dresser, drag queens, gênero não binário. Todas essas entidades, pra você não errar, você chama de transgênero.

Transexual é uma parcela dessa população. Você nem precisa ter começado a tomar hormônio. É a maneira como você lida com você e com o teu corpo.

E, pra bagunçar sua cabeça, o transexual poder ser homossexual.

Você é um homem ou uma mulher, Morris?

Sou um homem.

Como você sabe que você é um homem? Me afirma.

É uma ótima pergunta. Como eu me afirmo homem? Tem o aspecto biológico, o cultural…

Nenhum deles te define. A resposta é: eu me enxergo como homem. Eu me percebo como homem. E com que idade as crianças começam a falar ‘sou menino’, ‘sou menina’? Entre 3 e 4 anos de idade.

Criança tem uma autonomia limitada. Mas, tem algumas coisas que, nesses anos todos que tenho trabalho com elas, que me chamam a atenção. Tem algumas coisas que as crianças têm autonomia pra dizer a respeito de si mesmas. E isso é fundamental. Nós, como adultos, achamos que criança só fala bobagem; mas, ela sabe muito mais sobre ela do que a gente. Se ela diz que está com frio, está com frio. Se ela diz que é uma menina, ou um menino, por que eu não posso acreditar? É completamente diferente de querer comer chocolate antes do jantar. As pessoas confundem as coisas. Nosso papel como adulto é reconhecer: isso é real dessa criança?

É muito mais comum virem meninos, afinal não é a criança que marca a consulta. E os pais ficam muito mais atentos aos meninos com alguma coisa feminina. Na nossa cultura, esse é o maior peso. Mas, eles trazem muitas vezes porque o filho está encantado com o universo feminino por alguma questão, quer usar fantasia da Elsa, da Pequena Sereia.

Ao longo dos diagnósticos você chega, em geral, a mais conclusões de que se trata de encantamento ou identidade?

A grande maioria dos que buscam, é uma questão de encantamento. E vai ser homossexual ou bissexual. E aí não precisa de acompanhamento do ambulatório.

Nós ficamos com as crianças que temos dúvidas que possam ser trans, ou das crianças que afirmam categoricamente.

O que você tem a dizer sobre os pais?

Quando os pais marcam a triagem aqui no ambulatório, eles estão muito angustiados. E, geralmente já falaram com alguém. Não resolveu, não se convenceram e vieram buscar um especialista na área pra trocar uma ideia.

Uma das coisas que eu mais vejo nesses pais é culpa. “Eu incentivei, doutor? Eu fiz alguma coisa errada?”. Não, é dele, é dela, não tem nada a ver com você.

Por isso minha birra com a cultura queer. Não acho que seja uma questão sócio cultural ser homem ou mulher. Ser masculino e feminino é uma questão sócio cultural; ser homem ou mulher é uma coisa completamente subjetiva e tem uma base biológica.

E os padrões da sociedade brasileira?

É um horror. O Brasil é onde mais se mata transgêneros. A gente é muito restritivo.

Temos uma coisa com o corpo, que a gente se acha muito liberal, mas a gente não é.

O que seria o carnaval no meio disso tudo?

É onde se pode liberar, se tem autorização sociocultural pra se liberar. Por isso que na nossa cultura o carnaval é tão importante. Temos origem católica, ibérica, super restritiva, castradora.

E o Brasil é uma colcha de retalhos. Nós temos projetos, iniciativas em São Paulo que são impensáveis para outros lugares, realidades. Tanto que, os ambulatórios pra crianças e adolescentes só existem aqui. Nós aqui, a Unicamp que abriu no começo do ano passado e acompanha dez crianças, e no Rio Grande do Sul.

Os travestis se prostituem, por exemplo, porque é a sobrevivência mais fácil, porque nossa cultura é hipócrita. Há um consumo desses corpos, dessa coisa feminina com pênis, mas não tem uma aceitação. Então, eles conseguem sobreviver vendendo seus corpos. Isso é histórico.

Uma travesti que se prostitui é ativa ou passiva?

Na maioria das vezes ativa. Existe uma população masculina heterossexual, que são os t-lovers, que tem um tesão específico por travestis e transexuais. Tem toda uma dimensão que existe aí fora.

É um traço evolutivo da humanidade?

É. É algo que acontece na nossa espécie e que sobreviveu. É evolutivo.

Eu acredito na base biológica da transexualidade. Porque não dá pra imaginar que é só sócio cultural. Não explica porque tem muito mais mulher transexual do que homem transexual no mundo. Só no Japão e na Polônia que tem mais homens trans.

O machismo afeta os transgêneros da mesma maneira que afeta todo mundo?

Todo mundo. Como o feminismo também afeta a população trans. As radiscais feministas não aceitam as mulheres transexuais como mulheres.

Vamos pontuar o fato de que não é uma doença.

Não é. Mas, não é como a homossexualidade. O homossexual só precisa procurar a medicina se tem diabetes, hipertensão, unha encravada, se tem um problema de saúde. Caso contrário, não precisa mudar nada no seu corpo.

Transexuais buscam a medicina para estarem bem, para estarem de acordo com o seu corpo. É completamente diferente da população homossexual.

Os homossexuais não estão no grupo dos transgêneros?

Não. É orientação sexual. Você não tem nenhum problema com a sua identidade. A questão é que você gosta de alguém parecido, alguém diferente ou os dois.

A maioria da população é cis, é hétero. Isso é uma realidade. Só que a gente pode incluir essas outras pessoas – que são diferentes, não são doentes, não são anormais – e viver todo mundo junto.

A teoria queer apareceu em alguns momentos aqui. Qual o seu contraponto?

A teoria queer, da Judith Butler, tem uma importância muito grande na cultura ocidental hoje; especialmente para o neo feminismo, e para os movimentos gays. Porque ela abarca essa questão do social, do cultural, da aceitação; é contra o machismo, o patriarcado, essas questões todas. E fala de gênero como uma construção sociocultural.

No livro “Problemas de gênero”, a Judith Butler fala que o sexo biológico não importa, o que importa é a determinação sociocultural que vai dizer sua identidade de gênero. É a sociedade que vai construir isso de uma maneira performática em você. E ela acha que as questões trans são uma forma revolucionária de se opor a essa restrição de gênero aplicada a todos nós.

Eu bato de frente, pois acho que ser homem ou mulher não é uma construção sociocultural. É uma construção bio-psico-sociocultural. E aí eu introduzo a biologia e sou achincalhado.

A teoria queer tem uma importância, um puta valor. Mas, por exemplo, não fala de crianças trans. Se falasse, já contraria a teoria toda. E não aborda o fato de se ter muito mais mulheres do que homens trans. No mundo machista faria mais sentido ter mais homens trans do que mulheres trans. E não é o que a gente vê. Tem muito homem abandonando esse poder pra virar mulher.

A nova geração é mais permeável? Tem algum traço geracional nessa história?

O que acontece é que essa população aqui de São Paulo, como nos países mais desenvolvidos, é mais aberta a essas variações de gênero, eles experimentam mais. Mas é uma questão da bolha que você vive.

Agora, essas crianças e adolescente existem. Temos que, de alguma forma ampará-los e facilitar a vida deles. Eles estudam, as escolas vão ter que lidar com essa questão. Quando você ouve uma criança que tem essa potencialidade trans, não dá pra você não se tocar com a história de vida dessa pessoa.

Sobre o processo biológico que você menciona. Para que caminho a medicina e a ciência apontam? 

Para a descoberta dos fatores biológicos da identidade de gênero; sejam eles genéticos, endocrinológicos, neuronais…. Hoje temos pesquisas nesses três campos, com resultados bem animadores, mas nada ainda definitivo.

Acho que faltou você contar um pouco sua história pessoal, e se no seu círculo íntimo, viveu alguma história de transgênero.

Essa é uma longa história. Nunca pensei em trabalhar com esse tema. Literalmente caiu em cima de minha cabeça, quando o CFM publicou a primeira Resolução em 1997. Antes disso, trabalhava com psicoterapia, especialmente o Psicodrama e também a Psiquiatria geral. Já tinha trabalhado como Acompanhante Terapêutico, na PMSP, no PS-LAPA e como professor universitário.

Eu era bem ignorante no assunto e me obriguei a estudar o tema e aprender com a população transexual. Daí surgiu minha tese de doutorado, que defendi em 2004. Em 2010 montei o AMTIGOS (Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual) no IPq-FMUSP. No final de 2010 chegaram os primeiros adolescentes e no final de 2011 a primeira criança. Desde então me apaixonei com o trabalho com as crianças, suas famílias e escolas. Sinto-me realizado em ser pioneiro nesse trabalho no Brasil.