Ottessa Moshfegh: “Talvez eu queira dormir por um ano e acordar em um mundo no qual a Covid-19 foi erradicada”
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Ottessa Moshfegh: “Talvez eu queira dormir por um ano e acordar em um mundo no qual a Covid-19 foi erradicada”

Isabella Marzolla

29 de outubro de 2020 | 09h46

Autora de “Meu ano de descanso e relaxamento” tece relações entre hibernar durante um ano, como a protagonista do romance, e lidar com a pesada realidade que vivemos hoje

Por Isabella Marzolla

O ano já está quase acabando – para o alívio de muitos – mas quase tudo circunscrito na vida foi posto à prova, inclusive nossa saúde mental. O livro de Ottessa Moshfegh, aclamado como um dos melhores romances americanos de 2019, acidentalmente descreve o que – talvez – muitos sintam vontade de fazer em 2020: hibernar por um ano, como a desiludida protagonista nova-iorquina.

“Meu ano de descanso e relaxamento” é um drama com toques de humor ácido que aborda as desventuras da saúde mental e o desejo da alienação em tempos de excesso de informação. Ambientado na virada do ano 2000, em um apartamento no Upper East Side, pouco antes do 11 de setembro, a protagonista – que também é a narradora – jovem, recém- formada na universidade Columbia e galerista, tenta processar a morte de seus pais e suprimir um vazio enorme à base de tarjas pretas duvidosas –  pílulas de Stilnox, lítio, Infermiterol e continua… – para se abster completamente da sociedade.

Ler jornais, sair de casa, socializar e seguir regras de etiqueta são evitados pela personagem. Ironicamente, ler jornais e se informar são hoje em dia atividades árduas, sair de casa não aconselhado e socializar algo distante e doído para muitos de nós, que fizeram ou ainda fazem quarentena.

“Nossa saúde mental coletiva é uma mistura, mas principalmente somos loucos”

“Não tenho certeza se quero estar 100% acordada. Pode ser muito doloroso. Eu pessoalmente, não encontro alegria em ler as manchetes dos jornais hoje em dia, nem em beber café”

“Uma coisa simples como a alienação pode dar a uma pessoa um sentimento de alegria”

“Se você vivesse em uma sociedade de monstros, a alienação seria uma coisa boa, talvez. Ou se você tem uma necessidade desesperada por privacidade…”

Ottessa Moshfegh nasceu em Boston em 1981, filha de mãe croata e pai judeu iraniano, foi finalista do Man Booker Prize e vencedora do PEN/Hemingway em 2016, com seu primeiro romance Eileen. Segundo a New Yorker, “é a mais interessante escritora contemporânea dos EUA sobre o tema de estar vivo quando estar vivo é horrível”.

“Muitas pessoas ficaram totalmente loucas. Estão assustadas e na defensiva, gritando sobre isso e ficando com raiva (…) Outras pessoas, talvez pessoas mais sábias, estão se voltando para dentro e trabalhando em sua força mental, paciência e saúde em casa”

“Prefiro ver alguém ficar louco e deprimido por perder seu chapéu favorito do que por uma questão nas redes sociais. Não tem nenhum romance nisso…”

No “Meu ano de descanso e relaxamento”, a protagonista escolhe hibernar durante os anos 2000 à base de remédios tarja preta para se descolar completamente da realidade. Agora a humanidade vive uma pandemia em que a principal medida mundial foi a quarentena. Quais relações podemos estabelecer entre a narrativa do livro e o presente?

A conexão para mim é que talvez eu queira ir dormir por um ano e acordar em um mundo no qual a Covid-19 foi erradicada, eu suponho. Mas no romance, a protagonista não está tentando escapar de uma praga, ou uma situação política perigosa, ou qualquer coisa sobre seu mundo que é externo a ela. Ela só quer desligar sua mente para se curar da perda de seus pais e a violência de sua própria psique.

Dentre muitas críticas e sátiras sociais presentes no romance, há o que parece ser sobre essa busca insaciável pela felicidade.

A busca por felicidade é sempre insaciável porque é constante. Ninguém “atinge felicidade” e permanece lá. A indústria de autoajuda evita a ideia de tempo em geral quando se trata de alcançar algum tipo de paz ou alegria ou o que quer que seja.

O único estado permanente do ser é quando ele está morto. Mas gente morta não gasta dinheiro.

A personagem principal se informa o menos possível sobre o “mundo exterior”, apenas lendo manchetes de jornais quando compra seu café “quase” diário. A alienação, especialmente hoje, pode ser uma fonte de alegria?

Sim, claro. Algumas pessoas gostam de pular de aviões. Outras pessoas gostam de se estrangular com gravatas. Uma coisa simples como a alienação pode dar a uma pessoa um sentimento de alegria, se ela está sendo alienada de algo que a torna infeliz.

Eu pessoalmente, não encontro alegria em ler as manchetes dos jornais hoje em dia, nem em beber café. Gosto de abrir uma lata de água com gás e vestir uma roupa limpa. Se você vivesse em uma sociedade de monstros, a alienação seria uma coisa boa, talvez. Ou se você tem uma necessidade desesperada por privacidade…

Com tudo o que está acontecendo no mundo, e no seu país em especial, onde as eleições presidenciais estão próximas, é possível não ser ansioso? Como você acha que está a saúde mental dos americanos?

Muitas pessoas ficaram totalmente loucas. Eu tenho visto muita gritaria nas ruas. Eu moro em um subúrbio silêncio de Los Angeles, e vi comportamentos extremamente bizarros no meu bairro. Brigas e gritaria sobre coisas absurdas. Então eu penso que muitas pessoas estão assustadas e na defensiva, gritando sobre isso e ficando com raiva.

Outras pessoas, talvez pessoas mais sábias, estão se voltando para dentro e trabalhando em sua força mental, paciência e saúde em casa, sem gritar com os vizinhos. Então, eu diria que nossa saúde mental coletiva é uma mistura, mas que principalmente somos loucos.

Podemos dizer que o universo de seus livros é niilista e os personagens são amorais?

Você pode dizer isso se quiser, mas chamar os meus livros de niilistas é um pouco preguiçoso. Qual o sentido de ler o livro então, se é niilista? Você pode ter apenas um pensamento sobre o niilismo ao invés de ler o livro. Aqui está um substituto para um livro niilista: “Nada existe”. Então eu não diria que meus livros são niilistas. Acho que eles podem desiludir o leitor de certas fantasias sobre o que é a realidade para os personagens.

Quanto aos personagens, não acho que sejam amorais. Acho que meus personagens simplesmente questionam – e são honestos em questionar – as regras sociais pseudo- religiosas que deveriam definir o que significa ser uma “boa pessoa”. Quem fez essas definições? Eu aceito todas essas perguntas com senso de humor.

A protagonista “acorda” de seu “ano de descanso e relaxamento” pouco antes do 11 de setembro de 2001. Isso é uma alusão à sociedade; estávamos “dormindo” antes da explosão?

Para aqueles de nós para quem o 11 de setembro foi um alerta, sim. Eu fui certamente sacudida do cerco de minha própria vida para uma consciência mais atual da mortalidade, pelos eventos daquele dia na cidade de Nova York. Assistir à morte de pessoas a alguns quilômetros de distância na televisão ao vivo definitivamente levam você a uma nova consciência, se é que você nunca viu antes.

Dito isso, acho que há um número infinito de estados entre “dormindo” e “acordado”. Não tenho certeza se quero estar 100% acordada. Pode ser muito doloroso.

A protagonista do romance, na maioria das vezes, é fria e um tanto cruel. Você sente que maioria das pessoas hoje em dia são assim?

Não mesmo. A maioria das pessoas que eu conheço são gentis.

É raro encontrar alguém que seja realmente cruel. Normalmente esse aspecto está escondido sob uma espessa camada de outras coisas, e você tem que cavar para encontrar a crueldade.

O que mudou da mulher de Nova York dos anos 2000 para a de agora?

Deixei Nova York em 2009, então não posso falar com autoridade sobre isso. Mas acho que, no início dos anos 2000, as mulheres jovens tinham um tipo de resistência que funcionava de forma semelhante à irreverência. Acho que as mulheres podem ser um pouco mais sofisticadas hoje em dia em termos de força.

Do final da década de 1990 até os dias atuais, os Estados Unidos estão enfrentando uma epidemia de opioides. “Meu ano de descanso e relaxamento” acontece no início dos anos 2000 e conta com a Dr.Tuttle, uma psiquiatra excêntrica e negligente, que prescreve remédios pesados ​​para a protagonista “curar”. Por que você acha que os Estados Unidos sofrem tanto com isso?

A epidemia de opioides foi causada por estratégia corporativa. Purdue Pharma orquestrou isso como um genocídio com fins lucrativos. Simples. Os Estados Unidos sofrem muito com isso porque os opioides eram amplamente prescritos em excesso, porque os médicos eram encorajados a prescrevê-los, e eles causam dependência.

Os americanos não são especialmente vulneráveis ​​a eles porque somos pessoas especialmente viciantes ou porque não temos convicção ou algo assim. Este não é um fenômeno cultural. É tudo sobre o dinheiro.

O romance se passa em uma Nova York dos anos 2000/2001 e na história os personagens expressam sentimentos de vazio e solidão. Com o avanço da internet e das redes sociais, você acha que as pessoas se sentem mais vazias e sozinhas?

Não uso redes sociais, então realmente não posso falar pessoalmente sobre isso, nem gostaria de generalizar sobre todas as pessoas. Mas sim, acho que quanto mais estamos na internet, menos nos envolvemos com nossa realidade física. Nós não nos conectamos mais com as pessoas de uma forma natural. Isso pode fazer você se sentir vazio e sozinho, certamente.

Mas não é um problema muito interessante para mim pessoalmente. Prefiro ver alguém ficar louco e deprimido por perder seu chapéu favorito do que por uma questão nas redes sociais. Não tem nenhum romance nisso…

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