Por que com Bolsonaro o combate à pandemia não avançou, não avança e nem vai avançar, segundo um dos autores da carta dos economistas
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Por que com Bolsonaro o combate à pandemia não avançou, não avança e nem vai avançar, segundo um dos autores da carta dos economistas

Morris Kachani

26 de março de 2021 | 19h38

“Eu já há muito tempo considero praticamente impossível que a atual gestão do governo federal consiga dar uma resposta competente para os desafios dessa pandemia. Desde o começo, eu estou tentando conscientizar as pessoas e pesquisando todo dia sobre a situação da pandemia, e cada semana que passa são mais evidências, mais disparates, mais absurdos que a gente tem que enxergar no dia-a-dia. Informações e notícias falsas que a gente nem consegue pensar, de onde é que estão vindo essas coisas impensáveis”.

“Eu acho que uma carta nesses termos poderia ter sido escrita muito antes, as informações que estão lá já eram conhecidas há bastante tempo”

Assista à entrevista: https://youtu.be/7wmkZeLiLU0

“Essa questão da falsa dicotomia entre economia e saúde foi muito mal colocada lá atrás. Uma ideia falsa que é: ou você salva a vida das pessoas, prejudicando a economia com medidas restritivas, ou você aceita que vão morrer mais pessoas e com isso você, de alguma forma, ajuda a economia. Por que ela é falsa? Primeiro porque existe um grande leque de medidas de saúde pública que podem ser tomadas, e a grande maioria dessas medidas são de baixo impacto econômico e com alto impacto na saúde pública”.

“Quando a gente olha os dados internacionais, a gente enxerga que os países que tiveram melhor desempenho econômico no último ano foram os países que morreram menos pessoas de Covid-19, e os países que tiveram um pior desempenho econômico foram os países em que mais morreram pessoas de covid-19”

Quando economistas importantes, juntamente com vários ex-presidentes do Banco Central, do BNDES, executivos do alto escalão da Petrobras, e banqueiros, decidem assinar uma carta manifesto contestando a condução errática da pandemia no país, mesmo que de forma tardia, é porque a estrutura de sustentação do mandatário no poder começa a dar sinais de fissura. Por mais elegantes que sejam os termos da carta, divulgada no começo desta semana, o recado é um só: não dá mais.

Thomas Conti, doutor em economia, professor do Insper, consultor em análise econômica do direito, foi quem redigiu o texto da carta, juntamente com outros quatro parceiros signatários.

Nesta entrevista, ele discorre sobre a falsa dicotomia entre economia e saúde, a frustração com Paulo Guedes, e traz uma avaliação crítica sobre o que foi feito e o que deixou de ser feito. Se ele nutre esperanças daqui para frente? Pior que não.

“Paulo Guedes é uma imensa decepção. Não que eu tivesse grandes expectativas com relação a ele, mas mesmo sem ter expectativas é uma grande decepção porque não se posicionou sobre questões importantíssimas da pandemia, ao longo do último ano inteiro. Embora exista um alinhamento muito grande entre ele e o Presidente, ele é um economista bem formado. Em geral é muito raro você ver um economista que é contra a vacina ou anti-vacinas, ou que compactua com isso. Porque você tem uma formação científica sólida na área de economia, você estuda externalidades, então você sabe que as vacinas produzem efeitos positivos. Então as pessoas serem vacinadas é algo muito básico. É óbvio para qualquer economista minimamente competente que as vacinas deveriam ser a prioridade número 1 desde o início.

Por exemplo, ficamos sabendo recentemente, que o Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, não queria ter assinado o Covax, aí foi uma embaixadora que insistiu e conseguiu fechar o acordo, mas fechou o acordo pela cota mínima que cobre até 10%, quando daria para ter pego uma cota até 40%. Por que foi uma Embaixadora que teve que dialogar com isso? Onde estava Paulo Guedes e o Ministério da Economia? E quando ficaram boicotando por 1 ano a vacina do Butantan? Para mim isso não tem justifica, são erros gravíssimos”

“Com certeza é pouco, o auxílio emergencial é insuficiente. E embora tenha sido extremamente necessário, ele poderia ter sido implementado de várias formas, e a forma como ele foi implementado, não foi uma boa forma.  O certo seria ter usado algum sistema de amparo já existente lá no começo do ano passado porque você está pedindo para as pessoas ficarem em casa, restringir o movimento. O ideal enquanto isso seria que o governo corresse atrás de tudo que ele não fez. A gente não fez controle de aeroportos, não fizemos o sistema de teste de rastreio, demoramos dois meses para aprovar as leis relacionadas ao uso de máscara, não fizemos nada no transporte público. Enfim, não fizemos nada”

“Se você perde o controle por não ter feito as medidas [como lockdown e outras] de forma competente, se você não faz nada com os hospitais lotados e deixa os comércios abertos por três semanas, o vírus vai destruir toda a infraestrutura hospitalar, vai provocar o caos e o colapso da saúde. Ou seja, se você não fechar agora, você vai precisar fechar daqui a umas duas semanas com uma população mais traumatizada e o comércio vai ser impactado do mesmo jeito”

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