Para médico que atua na UTI COVID-19 do Hospital das Clínicas, “a gente não chegou no fundo do poço ainda”
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Para médico que atua na UTI COVID-19 do Hospital das Clínicas, “a gente não chegou no fundo do poço ainda”

Morris Kachani

18 de março de 2021 | 09h33

Filas de espera, insumos no limite, exaustão da equipe, choro, desespero e nem chegamos ainda ao fundo do poço: o caos e o colapso sanitário e hospitalar iminente, na visão de Daniel Joelsons, médico intensivista que atua na linha de frente na UTI de Covid do HC, contando hoje com cerca de 100 leitos permanentemente ocupados.

Assista à entrevista: https://youtu.be/AE051dn7A1s

“Eu sou pessimista, acho que vai piorar. Acho que vai faltar não só oxigênio como também medicações. A gente vai chegar em um colapso incrível da saúde. O Brasil inteiro tá doente, da pessoa mais pobre à pessoa mais rica”

“Eu escuto de tudo: pessoas implorando para não serem intubadas, pessoas implorando para não deixar morrer, pessoas que não querem ser intubadas porque acham que já morreram, pessoas adultas chorando que nem criança, pessoas que a família inteira está internada cada um num hospital”

“Eu já chorei muito, hoje não choro mais”

“As pessoas vão morrer com atendimento médico extremamente precário, ineficaz, a gente não vai tratar do jeito que deveria tratar, e milhões de vidas que poderiam ser salvas não vão ser salvas”

“A gente está abrindo muitos leitos, contratando novas pessoas. No Brasil todo a demanda por medicamentos está aumentando para tratar uma única doença, então a gente tem que começar a usar com racionalidade todos os medicamentos que estamos usando. Lembrando que em plena pandemia o preço deles subiu. Graças a Deus aqui no Hospital das Clínicas nunca faltou nada, mas a gente é sempre orientado a usar com racionalidade todos os medicamentos para evitar que falte. O Brasil está começando a ficar no limite, não tem como os fornecedores darem tantos materiais para um monte de gente ao mesmo tempo”

“Eu falo sempre para os familiares que é um vírus traiçoeiro, que é um vírus que você melhora, acha que pode ficar feliz e do nada piora. Eu já vi pacientes que estavam muito bem e vieram a falecer rapidamente”

“O HC, desde o ano passado que a gente começou a atender Covid, sempre esteve em lotação máxima; a gente chegou a virar um covidário. No final do ano passado abrimos mais UTIs e agora a situação, não sei se a palavra é “caótica”, mas está bem cheio o hospital inteiro”

“A demanda por vaga [de leitos de UTI] está bem grande em São Paulo. O leito não fica descansando um minuto. Eu dou uma alta, o paciente nem saiu do leito e já tem outro paciente chegando. Então está claro que tem uma fila de espera. Está um ambiente muito pesado, estressante, uma demanda muito alta”

“Eu tenho conhecidos meus que ficaram mais de 24 horas em pronto socorro para conseguir vaga em UTI, isso em hospital particular. No SUS não tem vaga”

“O jeito mais correto de fazer uma fila de espera, são vários critérios que você vai usar, então você tem que pensar qual paciente que mais vai se beneficiar dessa vaga de UTI, e infelizmente, não é nem o paciente mais grave que vai se beneficiar, porque com o mais grave muitas vezes a chance de óbito é muito alta. Então levamos em consideração idade, tempo de doença, gravidade da doença, são critérios internacionais. Infelizmente nesses critérios os pacientes mais idosos, com mais comorbidades, acabam ficando para trás”

“Tem dias que a gente perde um paciente que não era para perder e fica todo mundo super depressivo. E quando tem uma vitória todo mundo fica otimista, mas você vê que tá todo mundo cansado, todo mundo exausto de trabalhar. O fisio, o enfermeiro, o médico, todo mundo com medo de pegar a doença, apesar da gente já ter tomado a vacina ninguém sabe se com essa cepa nova estamos correndo mais risco, então parece que de novo estamos no começo da doença”

“Todo mês a gente tem baixas na parte da equipe médica. Todo mês 1 ou 2 médicos acabam saindo da escala e a reposição desses médicos sempre é muito difícil porque não tem pessoa sobrando no mercado para trabalhar; então é muito difícil a contratação. Não tem ninguém disponível, está todo mundo trabalhando sem parar, no seu limite. Todo mundo que eu conheço aqui do Hospital das Clínicas trabalha em dois ou três hospitais e ninguém tem dia disponível. Toda semana recebo 2 ou 3 propostas de trabalho”

“O negacionismo é indigesto. A primeira coisa que eu fiz foi parar de ver o noticiário. Não dá para ver notícias absurdas, como o kit de tratamento precoce. Coisas que a gente sabe que vão fazer mal para os pacientes sendo difundidas como fake news absurdas, isso me dá uma sensação de “enxugar gelo”, de ódio mesmo, porque estamos aqui se matando de trabalhar, as coisas estão piorando, e as pessoas que deviam estar fazendo seu trabalho não fazem e só atrapalham. Isso em todas as esferas, não apenas federal. Na hora que você tornou uma vacina política – um querendo de uma marca e o outro de outra -, já estragou tudo”

“O brasileiro tem um problema, a gente quer achar um culpado. Eu acho que o culpado vem de cima, ele tem que ser o exemplo. Você vê que em todos os países as lideranças são os exemplos e não estamos tendo esse exemplo na nossa liderança, mas ao mesmo tempo eu tenho um vizinho que faz festa e aglomera. Ninguém faz sua parte aqui no Brasil”

“Se você quiser ter sanidade mental, melhor ignorar as notícias porque se não você fica louco, não tem nem porque vir trabalhar sabendo que a situação não vai melhorar enquanto não tiver vacina para todo mundo e alguém que estimule as pessoas a ficarem em casa, não aglomerar, a se proteger”

“A doença está durando mais tempo; antes os pacientes pioravam no 10º dia, agora estamos vendo piorar no 18º dia, pacientes ficando mais graves e uma média jovem de pessoas doentes. A gente está vendo muito paciente jovem na UTI, hoje mais de 50% da minha UTI tem menos de 50 anos”

“Uma coisa que pouca gente fala hoje é a saúde psicológica e psiquiátrica dos pacientes de Covid. Você tirar um pai de família do lado da sua mulher, dos seus filhos pequenos, você não conseguir conversar. Imagina você estar em uma UTI, em um pronto socorro, onde todo mundo tem a mesma doença, um paciente do seu lado foi entubado, o do outro lado morreu, o da sua frente está agonizando de falta de ar e você só fica pensando, “quando que vai chegar a minha vez?”. Conheço um paciente que se recuperou e hoje tem medo do escuro. Só dorme de luz acesa””.

“Um estudo mostrou que a mortalidade dos pacientes graves internados gira em torno de 40% no mundo, e que a média no Brasil é 60%”

“Eu acordo todo dia umas 5:30/5:40, tomo um café da manhã em casa reforçado porque eu sei que vai ser provavelmente a minha única refeição do dia, chego aqui no Hospital das Clínicas 15 minutos para às 7, daí coloco essa roupa – o privativo – e fico no hospital até 1 hora da tarde, de segunda a sexta é aqui. Eu tenho paciente internados em outros hospitais, então passo visitando com a minha equipe no Hospital Nove de Julho, no Albert Einstein, de vez em quando no Oswaldo Cruz também. Faço plantão alguns dias no Nove de Julho e outros na UTI do Einstein, principalmente de final de semana. Para mim todo dia é segunda. De final de semana também trabalho de 12 a 14 horas por dia”

“Eu gosto muito do que eu faço, faço com amor, eu não teria coragem de não fazer o que eu estou fazendo hoje”.

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