Para nós, libaneses, talvez tenha chegado a hora de olhar para dentro de si
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Para nós, libaneses, talvez tenha chegado a hora de olhar para dentro de si

Morris Kachani

08 de agosto de 2020 | 09h45

“O Líbano é hoje um lugar onde pais de família cometem suicídio por não conseguirem mais alimentar os filhos. A outrora Suíça do Oriente Médio mais parece hoje uma ‘Grécia sem a União Européia’, uma ‘Venezuela sem petróleo’”.

“Para nós, libaneses, talvez tenha chegado a hora de zerar o jogo, de olhar para dentro de si. Apontar dedos já não basta mais. Se à nossa classe política falta espírito público, este em boa medida também não se encontra presente na sociedade. Neste mês de agosto, parte da nossa elite cosmopolita que clama por mudanças no ‘sistema’ curte férias na Riviera francesa ou afins. Já nasce pensando em ir fazer a vida no exterior. ‘Inacreditável como vocês libaneses são capazes do melhor fora do Líbano e do pior dentro dele’”.

“Em outubro do ano passado, quando eclodiu a ‘thawra’, a revolução, muitos acreditaram numa virada. As multidões foram para as ruas com uma bandeira do Líbano, gesto altamente simbólico. O país estava deixando para trás a guerra. Pela primeira vez, as pessoas clamavam por uma identidade comum, colocavam o pertencimento ao País antes da filiação religiosa. No lugar do mosaico religioso, uma nação”.

“‘Claro que vão negar, reage um amigo, grande conhecedor da geopolítica regional. Só que o Hezbollah controla o porto (além do aeroporto), e portanto não podia desconhecer a presença de material explosivo lá’”.

“Beirute, cidade que exerce fascínio, também irrita. Lá, a internet mal funciona, a energia elétrica falta, mesmo trinta anos depois do fim da guerra. As pessoas furam a fila sem cerimônia. O lixo está jogado por toda parte. E ainda por cima, achamos que nada temos a aprender”. 

Este é um artigo de opinião escrito por Chantal Rayes. Libanesa, correspondente do jornal francês Libération e do diário suíço Le Temps, vive no Brasil há 19 anos. Foi colaboradora do An-Nahar, o mais influente jornal do Líbano.

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Este início de mês me deu “férias” da indigesta era Bolsonaro. A cabeça está em Beirute, minha cidade, parcialmente devastada. Era terça-feira (04.08), meados do dia aqui em São Paulo, quando o vídeo da impressionante dupla explosão com aquela fumaça rosa saindo do armazém 12 do porto da capital libanesa começou a rodar o mundo. Mesmo quem está calejado pela guerra civil (1975-1990) e pelas ofensivas da Síria e Israel sobre nosso território disse nunca ter visto tamanha explosão. Até agora, são quase 150 mortos, sem falar dos desaparecidos, da destruição total do porto e de parte da cidade, bem como das muitas dúvidas que pairam sobre o nosso futuro.

A tragédia colheu um país já em deliquescência, mergulhado na pior crise econômica e financeira da sua história. O Líbano é hoje um lugar onde pais de família cometem suicídio por não conseguir mais alimentar os filhos. A outrora Suíça do Oriente Médio mais parece hoje uma “Grécia sem a União Européia”, uma “Venezuela sem petróleo”, como dizem os libaneses. A classe média, nosso orgulho, está ficando pobre. A pobreza já chega a quase metade da população. O desemprego, a um terço dela. A dívida pública explodiu, a moeda local virou pó. Se antes faltavam dólares para importar o consumo (porque lá não se produz quase nada), agora, nem há mais porto na capital para encaminhar mercadorias.

Eu moro no Brasil há dezenove anos. Mais tempo que já morei no próprio Líbano. O dia 04 de agosto acabou acordando minha “libanidade”.

Ultimamente, eu andava zangada com Beirute, cidade que exerce fascínio, mas também irrita. Lá, a  internet mal funciona, a energia elétrica falta, mesmo trinta anos depois do fim da guerra. As pessoas furam a fila sem cerimônia. O lixo está jogado por toda parte. E ainda por cima, achamos que nada temos a aprender.

A brutal degringolada feriu de morte o orgulho nacional. Não, não somos ricos. A nossa falsa prosperidade era sustentada por um sistema de câmbio fixo e de juros altos que ruiu, levando consigo o sistema bancário, outrora ‘cofre’ das elites árabes. As desigualdades de renda são enormes. No Brasil, elas são pauta no debate público. Lá, nem isso. A crise mais parece falência múltipla de um “sistema”. Levou as multidões para as ruas, no final de 2019, no que foi chamado de “revolução de outubro”. As pessoas pediram mudanças, mas pouco se mudou. E agora, vem esse cataclismo.

No mínimo, uma negligência criminosa. Como é que se guardam durante seis anos, e sem os devidos cuidados, nada menos que 2750 toneladas de nitrato de amônio, substância altamente inflamável? Que serve para agricultura mas também para explosivos. Esse carregamento veio dentro de um navio da Moldávia que fez escala em Beirute em 2013, antes de ser abandonado. Foi esse carregamento que pegou fogo, por conta do incêndio de um entreposto de fogos de artifício que ficava do lado. Ao menos, essa é a versão das autoridades libanesas. Mas quem acredita que foi “apenas” negligência administrativa naquela região do mundo? O presidente libanês, Michel Aoun, agora fala em “ataque externo” e cobra imagens de satélite da França. Outros especulam que no lugar de “fogos de artifício” haveria possivelmente lá armamento ou munição para o Hezbollah. O poderoso partido e grupo armado xiita, que dá as cartas e polariza o país, nega.

‘Claro que vão negar, reage um amigo, grande conhecedor da geopolítica regional. Só que o Hezbollah controla o porto (além do aeroporto), e portanto não podia desconhecer a presença de material explosivo lá’.

Um dia talvez, a verdade seja conhecida. Ou talvez não, dependendo de quem investiga (se o Líbano ou uma comissão internacional, cobrada pela população) e também, dos interesses geopolíticos envolvidos.

Para nós, libaneses, talvez tenha chegado a hora de zerar o jogo, de olhar para dentro de si. Apontar dedos já não basta mais. Se à nossa classe política falta espírito público, este em boa medida também não se encontra presente na sociedade. Neste mês de agosto, parte da nossa elite cosmopolita que clama por mudanças no ‘sistema’ curte férias na Riviera francesa ou afins. Já nasce pensando em ir fazer a vida no exterior. “Inacreditável como vocês libaneses são capazes do melhor fora do Líbano e do pior dentro dele”. Palavras de um diplomata que serviu no país, se referindo a nossa bem-sucedida diáspora.

Nossa força – a diversidade religiosa – passou a ser a nossa fraqueza. O sistema político vigente, que divide os cargos públicos entre os diversos grupos religiosos, visava garantir representatividade. Mas foi desvirtuado. Alimentou uma sangrenta disputa de poder, bem como sectarismo, clientelismo e corrupção. As nossas rivalidades nos deixaram permeáveis às ingerências estrangeiras. A do Ocidente ou de Israel para os cristãos (ao menos durante a guerra civil), a do Irã para os muçulmanos xiitas, a da Arábia Saudita para os sunitas. Em outubro do ano passado, quando eclodiu a ‘thawra’, a revolução, muitos acreditaram numa virada. As multidões foram para as ruas com uma bandeira do Líbano, gesto altamente simbólico. O país estava deixando para trás a guerra. Pela primeira vez, as pessoas clamavam por uma identidade comum, colocavam o pertencimento ao País antes da filiação religiosa. No lugar do mosaico religioso, uma nação. O movimento foi definhando até parar, com o lockdown decretado por conta da Covid-19. Ouvi dizer que parte dos jovens ativistas já estão no estrangeiro. De novo, a emigração. “Como mudar o país se sua elite pensante nem fica nele?”, me interpelou outro dia uma conhecida. Pode ser que a indignação com mais essa humilhação dê novo fôlego à ‘thawra’. Pode ser que não. A vésperas de comemorar o centenário de sua fundação, o Líbano será uma nação em gestação? Quero acreditar.

 

 

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