Para o psicanalista Joel Birman, estado geral é de melancolia, mas sairemos melhores
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Para o psicanalista Joel Birman, estado geral é de melancolia, mas sairemos melhores

Morris Kachani

26 de abril de 2021 | 09h52

A problemática do trauma na pandemia está intimamente relacionada à noção de catástrofe humanitária, subjetiva e nacional em que particularmente a população brasileira está inserida

“A gente tem quase 400 mil mortos, no caso dos EUA nós temos quase 600 mil e no campo mundial estamos nos aproximando de quase 2 milhões de mortes. Quase todo mundo hoje conhece alguém que morreu por covid-19, ou é da família, amigo, conhecido, amigo de um amigo ou uma figura pública. Esses mortos não são uma cifra estatística em uma listagem, eles têm nome e sobrenome, endereço e fotografia.

Assista à entrevista: https://youtu.be/I4Omax0kXDE

Essa indignidade em relação aos mortos faz com que para nós é como se esses mortos pairassem no ar, não enterrados pelo fato da gente não poder fazer o trabalho de luto. Então o que está acontecendo na pandemia é uma espécie de reativação intensificada e caricata de um processo de depressão e de melancolia. É como se a gente vivesse soterrado por uma massa enorme de cadáveres que não foram enterrados, porque em qualquer processo de luto, de acordo com Freud, a gente tem necessidade que exista um ritual funerário, onde de uma certa maneira esse morto é prestigiado, é reconhecido”.

“A mania é uma maneira de você se defender da melancolia. A psicanálise mostra essa forma de funcionamento maníaco como uma forma de você tentar recusar ou negar a adversidade da experiência melancólica. Essas cenas que estamos assistindo, de desafio à morte, de não usar máscara, de aglomerar, de fazer festas, fazer grandes orgias, tudo isso faz parte.

É interessante notar nos livros sobre a história da peste negra, que se deu na Idade Média, que a gente encontra esses comportamentos igualmente; então você pode imaginar que no momento histórico onde o cristianismo era uma religião muito mais ortodoxa e coercitiva do que hoje, as mulheres e os homens saíam às ruas para transar, fazer orgias, com o seguinte argumento: “já que eu vou morrer, quero gozar até o final”. Então muitos desafios à morte que assistimos hoje mostram-se diante dessa situação limite. O desafio à morte se coloca de uma maneira festiva”.

“O desafio à morte se coloca de uma maneira festiva”

“O niilismo é uma forma de manifestação subjetiva e cultural da melancolia. A grande marca da melancolia é você perder a perspectiva de futuro. Você está em um quadro de dissolução em que não tem mais esperança de que o futuro seja possível”.

“Eu tenho esperança. Inclusive a epígrafe do meu livro, que é uma passagem de ‘A Peste’, de Albert Camus, foi sobre como em todas as situações difíceis da vida, da peste também, os homens vão sair melhores depois”.

O que esperar do futuro, a esta altura? A própria formulação da pergunta, esconde um estado de espírito que já transita entre a melancolia e a depressão, males eleitos pela OMS em 2018  como sendo os campeões das doenças que acometem a humanidade, e isso antes mesmo da pandemia.

Para o psicanalista Joel Birman, o limiar deste processo se dá com a crise neoliberal, a precarização do trabalho e a crise dos refugiados. 

Um processo que chega ao limbo nos tempos de hoje, cercados de incerteza. O mecanismo disparador desta espécie de variante melancólica vem da pilha de mortos, do luto inexistente, da sensação de impotência. Campo fértil para a proliferação de negacionismos mil, como aglomerar, andar sem máscara, anti-vacina, fakes Cristos etc etc.

Joel Birman é psicanalista, mestre e doutor em filosofia, e professor titular da UFRJ. Autor de “O Trauma na Pandemia do Coronavírus”.

 

Desvitalização e auto-abandono

“A pandemia desorganiza todas as relações de sociabilidade através da colocação da própria economia. São todos os laços sociais que são desorganizados; você começa a trabalhar em casa no home office, isso faz com que haja uma restrição da circulação social e que a gente viva em ambientes mais confinados com a ausência de interação social. Essa falta de interação social é esvaziadora do ponto de vista psíquico, ela produz um processo de desvitalização interior que leva a experiências depressivas e melancólicas profundas”.

“Nós temos no Brasil também, a situação de pessoas idosas que moram sozinhas ou com uma companheira ou companheiro e essas pessoas começam a se abandonar pela ausência de laços afetivos. Se sentem abandonadas e em seguida começam a se auto-abandonar. Elas param de comer, param de tomar banho, param de mudar de roupa”.

Fome, violência doméstica e higiene obsessivo-compulsiva

“Os cientistas sociais, sociólogos e economistas, colocaram de uma forma caricata a desigualdade na sociedade brasileira. A sociedade brasileira em relação a isso é indecente, se comparada a outras sociedades, mesmo as latino-americanas. Vivemos um nível de desigualdade social absurda. As classes pobres vivem em uma condição quase de escravidão, sem possibilidades tangíveis de ascensão social, de maneira que no Brasil e no mundo todo, as populações mais afetadas foram as mais pobres. Por exemplo nos EUA, quem são os mais infectados? São os hispânicos, a população negra e os índios. No Brasil é a mesma coisa, os mais afetados pela pandemia são os negros e os pobres. Nessa explosão provocada pela pandemia os trabalhadores informais também foram os mais atingidos. Constituem hoje esse exército de famintos. Nós já temos uma epidemia da fome e nessa epidemia os negros e as mulheres negras são as mais afetadas”.

“Nós já temos uma epidemia da fome e nessa epidemia os negros e as mulheres negras são as mais afetadas”

“Um outro efeito importante da pandemia foi o aumento da violência doméstica. Isso é um dado internacional, tanto que na China o aumento da violência doméstica no começo da pandemia levou a um aumento do número de divórcios durante a primeira onda da pandemia. Em seguida na Itália, houve o aumento da violência contra as mulheres e crianças, de forma que o governo italiano instituiu um serviço de urgência, de chamado, para as mulheres poderem discar e obter uma proteção policial. No Brasil é a mesma coisa”.

“O que acontece na pandemia de covid-19 é que a gente transforma toda a excitação em um prenúncio traumático possível. Então a dor de cabeça passa a ser um sinal da covid, uma pequena coriza já é um sinal da covid, uma dor de garganta já é um sinal da covid. Quer dizer, nós transformamos qualquer sinal do corpo que pode ser apenas uma pequena gripe em covid-19”.

“Diante desse mal invisível o que nos resta são as medidas sanitárias faladas pelos médicos; lavar as mãos, distanciamento social, lavar os produtos que compramos nos supermercados antes de consumir… porém também pode acontecer uma ritualização obsessivo-compulsiva dos rituais de higiene prescritos pelo discurso médico, como lavar sem parar as mãos durante um dia inteiro”.

Sociedades holísticas e sociedades individualistas

“A oposição entre sociedade holística e sociedade individualista é uma classificação social criada pelo antropólogo francês Louis Dumont, para entender a diferença entre algumas sociedades africanas ou asiáticas e sociedades modernas individualistas ocidentais. O que ele quis dizer com sociedade holística? É uma sociedade em que o indivíduo é construído a partir da referência da totalidade do social; enquanto as sociedades individualistas são construídas a partir do indivíduo. Qual a consequência disso para a avaliação da pandemia? Eu tomo isso com um exemplo muito interessante para compreender por que nas sociedades orientais os governos lidaram melhor com a pandemia dos que nas sociedades ocidentais. Porque as sociedades orientais são holísticas e aceitam o discurso da ciência emanado do poder político mais facilmente do que nas sociedades ocidentais e individualistas”

“O negacionismo no Brasil e na América do Norte se conjugou com um discurso neopentecostal. As pessoas acham que não precisam de toda essa proteção sanitária porque há toda uma leitura de que a doença está ligada a uma ideia de pecado”.

“O negacionismo no Brasil e na América do Norte se conjugou com um discurso neopentecostal. As pessoas acham que não precisam de toda essa proteção sanitária porque há toda uma leitura de que a doença está ligada a uma ideia de pecado”

Neoliberalismo

“Antes da pandemia você tem sempre uma transformação ecológica. Na Idade Média, as pandemias que aconteceram ali implicaram uma transformação das florestas, derrubada de florestas e o aumento da aglomeração humana, da produção de cidades. Com isso você retirou os animais dos seus nichos naturais e eles começaram a ir em direção às cidades, os ratos no caso, e com isso a peste se desenvolveu. Agora com a pandemia de covid-19 tivemos a destruição da Amazônia e de outras florestas”

“A Organização Mundial da Saúde (OMS) colocou a depressão e a melancolia como sendo as doenças mais prevalentes no planeta desde 2018. Eu acho que a melancolia é um dos traços psíquicos mais importantes na modernidade avançada. Em minha opinião, ela também é um efeito de um processo iniciada em 2008 por conta da globalização neoliberal e da crise do sistema imobiliário e bancário que quebrou. Esse efeito de produção de precariedade social generalizada é o que gerou isso”

“Eu acho que esse processo de precarização, ele está presente por exemplo na crise dos exilados que saíram da América do Sul, da América Central, Oriente Médio em direção à Europa, aos EUA. Eu acho que evidentemente a pandemia do coronavírus toca nesse ponto de uma maneira particular e ao mesmo tempo complexa”.

“Na França, a grande preocupação que aparece são os efeitos psíquicos da pandemia”

“Na França, a grande preocupação que aparece são os efeitos psíquicos da pandemia. A juventude francesa está em pane e isso começou a aparecer nas redes sociais, sobre jovens que vivem em quartos de dez metros quadrados sem poder assistir aula e sem ao mesmo tempo poder se movimentar ou fazer estágio; é como se a vida deles estivesse em suspensão. Esses jovens começaram a demonstrar não apenas grandes ataques de angústia, mas também quadros profundos de depressão e melancolia e muitas tentativas de suicídio. O governo francês instituiu o Check Psi, que significa um cheque para o jovem procurar um psiquiatra, um psicoterapeuta ou um psicanalista, para conter essa epidemia suicidaria”.

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