“Nuvem negra foi aula da natureza para 20 milhões de pessoas”
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“Nuvem negra foi aula da natureza para 20 milhões de pessoas”

Morris Kachani

23 de agosto de 2019 | 13h41

Foto: Nilton Fukuda

Por onde anda, ou pedala, Paulo Saldiva, médico patologista, professor de Medicina da USP, diretor do Instituto de Estudos Avançados da mesma universidade, com pesquisas importantes nas áreas de doenças respiratórias, patologia ambiental e antropologia médica, sempre faz questão de se apresentar também como um amante apaixonado por São Paulo. Autor de “Vida Urbana e Saúde”, Saldiva é referência obrigatória sobre os estudos de poluição atmosférica, ilhas de calor urbano, alteração do regime de chuvas e outras mazelas do dia a dia na cidade grande.

Quando percebeu a chegada da nuvem negra que invadiu o céu de São Paulo na segunda-feira, o professor sentiu inicialmente tristeza e medo. Postou uma crônica no seu facebook, que começava assim:

 “Hoje em Sampa foi um dia estranho, em que a noite chegou mais cedo. É como se fosse um retrato do momento do Brasil, onde o futuro nos inspira insegurança e medo. Caminhei pela alameda sombria, onde a tarde, escura e fria, esvaziou as gentes das ruas, que se fizeram vazias. Cruzei com um caminhante, naquele preciso instante onde o vento soprava nas árvores melodias. Naquele momento soavam as notas cantadas pelos ventos, ou então eu ouvia a melodia ecoada nas arcarias da catedral feita pelas árvores, que cantavam tristes os seus lamentos? Procurei e não achei a minha calma que tanto faltava à minha alma. Senti-me então perdido. Nos dias de hoje, é difícil entender a vida e seu sentido”.

* Com Gabriel de Campos

Você sempre foi de certa forma cronista da cidade. Em seu apartamento na zona central, consegue contemplar muito de sua inteireza e grandiosidade. Ao mesmo tempo, estuda a poluição atmosférica. Como viveu a chegada da nuvem negra à cidade na segunda-feira?

Eu estava andando pela Paulista. Quando vi aquilo, entrei no Trianon, como que para me esconder daquela visão. O Trianon é um refúgio para mim. Frequento ele desde que era moleque. Estava voltando para um lugar de que gosto, digamos assim.

Como o Trianon fecha às seis, ninguém anda nele à noite. Mas desta vez a noite chegou antes. E como todas as lâmpadas estavam queimadas, e o chão da calçada descolando, no meio daquelas trevas, é como se São Paulo estivesse sendo atacada pelos fuzileiros navais. Pelo ar, pelo solo, por tudo. Uma degradação.

E comecei a achar que aquilo foi uma aula. Uma aula que a natureza deu para 20 milhões de pessoas que conseguiram visualizar primeiramente a interligação entre dois ecossistemas.  Do ecossistema amazônico, com o ecossistema urbano do sudeste.

Ver o rio de vapor de água, que sai da Amazônia e chega aqui, e ajuda na formação de chuvas, é difícil. Mas naquela hora o rio veio pintado de preto. Ficou possível ver isso.

Ao mesmo tempo, entrou uma frente fria do oceano com uma intensidade tal, por causa da ilha de calor que tinha na cidade, em um veranico que estava acontecendo, que fez com que a camada de inversão se estabelecesse muito baixa.

Então as nuvens ficaram baixas. E como as partículas da queima têm às vezes um tamanho maior, a água ficou escura. Todos puderam ver a poluição no ar, veio uma poluição que nós produzimos usualmente mas também veio uma contribuição de longa distância. Vimos que a temperatura variou em uma velocidade muito grande. A instabilidade atmosférica que fez com que a luz fosse tapada por nuvens baixas pintadas de preto.

Isso foi o powerpoint mais elucidativo que a natureza podia ter dado pra gente.

É a primeira vez que acontece uma coisa dessas?

Aqui em toda minha lembrança foi a mais evidente. Mas isso sempre aconteceu no interior de São Paulo, nas regiões de queimada de cana. Ali era fácil de ver. Porque a fonte da queimada estava muito perto da cidade.

Na Amazônia isso acontece com muita frequência e no centro oeste também. Em uma linguagem chula, a queimada sempre fez xixi na piscina mas desta vez fez no trampolim. Todo mundo viu e se assustou com uma coisa que era imperceptível.

E os efeitos na saúde?

Todas as evidências mostram que aquela fuligem não é boa para a saúde. Sem dúvida aumentou a poluição que a gente tinha, e essa poluição não é perfume. Estudos feitos nas regiões influenciadas por queima de biomassa, mostram que a toxicidade é muito parecida da que sai do cano de escapamento de uma chaminé, de uma indústria.

Por incrível que pareça ontem saiu uma série de artigos no New England Journal of Medicine, sou coautor de um deles. Foram estudados de forma sistemática episódios que incluem queima de biomassa em 652 diferentes cidades. Um dos efeitos agudos é o aumento da mortalidade.

Mudando um pouco de assunto, o presidente da França disse que a Amazônia é o pulmão do mundo. Qual a importância dela? 

É a maior concentração florestal do mundo. Se você olhar para o vizinho imediato da Amazônia, que é o nordeste, você vai ver que ele é semi-árido. Enfim, naquela latitude a massa vegetal da Amazônia só é possível pela existência de rios que nascem do degelo dos Andes e a contribuição do lençol subterrâneo. Então o que a Amazônia faz? Primeiro ela absorve CO2 para manter aquelas árvores que crescem, existe um ciclo de carbono ali. Elas pegam CO2 da atmosfera para fazer celulose.

Então a floresta é também um fixador do carbono, um reservatório das emissões. A gente queima combustível fóssil e uma parte dele é fixada pela vegetação. Por outro lado uma parte da água é transformada em vapor e jogada para a atmosfera, o que contribui não só para a formação de chuva, como também com o aumento da umidade. Quando passa aquele vapor de água, ele vai reduzindo a nuvem de poluição. É como se fosse uma esponja.

Do ponto de vista climático, de controle da atmosfera, a Amazônia é um common, ela não é uma commoditie. Esses benefícios são compartilhados não só no Brasil mas em todo planeta.

A Amazônia tem sim um papel global. Ela está em território brasileiro, e isso gera grande confusão porque existe um fenômeno geopolítico, uma discussão sobre a gestão do espaço físico e a questão da internacionalização levantadas por alguns militares. Mas no que diz respeito aos aspectos ambientais, é outra coisa. Do ponto de vista climático, de controle da atmosfera, ela é um common, ela não é uma commoditie. Esses benefícios são compartilhados não só no Brasil mas em todo planeta.

Quando a Alemanha retirou o apoio ao Fundo da Amazônia, o Bolsonaro ironizou, dizendo que usassem esse dinheiro para reflorestar o próprio país. Faz sentido?

 Tem uma questão, claro, mas a redução das florestas na Alemanha, e na Europa como um todo, aconteceu há 800, 900 anos, quando não se entendia o que estava acontecendo no mundo. Não se falava em poluição ou aquecimento global.

É difícil julgar épocas em que o conhecimento sobre essa questão é completamente diferente. Mas existe na Europa um projeto consistente, do qual a Alemanha é um dos líderes, de reflorestamento e formação de corredores ecológicos. Isso acontece também no Brasil. A Mata Atlântica, em especial no estado de São Paulo, praticamente sumiu ao longo dos séculos, mas houve incentivo e políticas públicas de não só preservar o remanescente, como reflorestar parte do que foi perdido.

Seguramente, o governo não está, ele, queimando, mas existe uma atividade criminosa, porque a nossa lei de Preservação da Amazônia é avançada. A aplicação é que tem sido falha. O problema maior é a implementação, não a legislação em si. 

Não quero politizar a questão, mas o Presidente da República precisa fazer com que a lei seja cumprida, o que o discurso dele não ajuda. Quando ele sugere à Alemanha que use seus recursos no próprio país, por exemplo, qualquer pessoa ou organização que queira cometer um crime na Amazônia vai se sentir mais autorizada a isso.

Esse é argumento político, que não carece de conhecimento técnico, e não só prejudica a preservação da Amazônia, como a imagem do Brasil. O mundo pensa, cada vez mais, que essa grande floresta está sendo ameaçada, o que prejudica o agronegócio, uma vez que os compradores de produtos brasileiros vão ponderar a questão ambiental ao fechar acordos. Esse tipo de discurso não ajuda em nada, a não ser propagar desinformação e, por que não dizer, a ignorância. 

Teve uma entrevista que você concedeu ano passado, em que comenta que nós também somos culpados pela devastação da Amazônia, uma vez que consumimos a madeira, a carne, a soja…

É, mas isso está mudando. E por mudanças culturais, não pela legislação. Empresas que associam seus produtos a práticas sustentáveis têm um ganho de mercado.

É por isso que eu digo que o ocorrido da última segunda-feira foi uma aula. O fato de se entender que a Amazônia está queimando, não por uma foto, mas por uma nuvem negra que encobre a casa das pessoas, ajuda a se tentar um consumo mais sustentável. Isso já começou no exterior e vai ser o argumento usado por eles para comprar os produtos brasileiros. Por isso o discurso político tem que ser no sentido da preservação, de que há esforços para isso, como há na região Sudeste. Enquanto a Amazônia diminui, a Mata Atlântica segue aumentando lentamente na região sudeste, muito em função de incentivo econômico.

É um momento triste para nós, estamos destruindo a floresta e transformando um discurso ambiental em político, baseado em desconhecimento total da informação existente – e ela existe aos montes.

É um momento triste para nós, estamos destruindo a floresta e transformando um discurso ambiental em político, baseado em desconhecimento total da informação existente – e ela existe aos montes. Não adianta negar a informação de aumento de queimadas, é um monitoramento feito no mundo todo, com equipamentos do mundo todo. Não vão comprar esse discurso negacionista. E só agora parece estar caindo a ficha do governo brasileiro que eles vão ter de  montar uma força-tarefa, se não o Brasil vai perder credibilidade e, principalmente, dinheiro.

O que está sendo feito com a Mata Atlântica é bom exemplo?

É baseado no conhecimento atual e na influência externa que o estado de São Paulo está engajado nesse projeto. É lá que estão os estudos e órgãos ambientais mais maduros do país, que estimulam o reflorestamento da Mata Atlântica e de matas ciliares. Proprietários agrícolas foram incentivados, e em alguns casos até obrigados, a replantar com espécies nativas o que havia sido devastado. De vez em quando há passos para trás, lógico, como a grilagem no cinturão verde de São Paulo com financiamentos clandestinos, muitas vezes com participação do crime organizado. 

A preservação da floresta é um contraponto ao progresso industrial?

A ideia de que recursos estrangeiros irão salvar a Amazônia não tem funcionado.  Esses fundos internacionais têm chegado ao Brasil com impacto positivo, mas não são suficientes para deter as queimadas

 Esse é o grande desafio, tanto que estamos articulando no Instituto de Estudos Avançados, com auxílio de cientistas sérios e da própria Universidade Federal do Amazonas, como gerar empregos e recursos sem destruir a floresta. Esse é o grande desafio do mundo. A ideia de que recursos estrangeiros irão salvar a Amazônia não tem funcionado.  Esses fundos internacionais têm chegado ao Brasil com impacto positivo, mas não são suficientes para deter as queimadas na Amazônia. Isso acontece porque, além da legislação não ser aplicada à risca, há setores do agronegócio bastante atrasados nesse sentido. Como se faz isso? Como usar a floresta para produzir novos princípios medicamentosos, por exemplo?

Há espaço ali para novas tentativas, como o ecoturismo. Há países, como a Itália, em que o turismo representa parte importante do PIB, mas isso não nasce de um dia para o outro, é preciso um longo investimento. Então, a situação não é fácil, mas passa pela ajuda internacional e, principalmente, pelo incentivo de pesquisas para gerar recursos sem prejuízo grande à Amazônia. Essa crise atual talvez estimule a produção dessas pesquisas, com uma capacidade local de geração de empregos e o desenvolvimento da economia.

 

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