Pelas barbas do profeta

Pelas barbas do profeta

Morris Kachani

14 Dezembro 2018 | 15h58

“Eu fui pra Califórnia viver em uma comunidade do Osho, fiquei por lá três meses que se equivalem a trinta anos (risos)”.

“Nesse período eu causava muitos problemas, porque eu levava os ácidos pras pessoas tomarem por lá. E eu fui mandado embora da comunidade do Osho (risos). Mas aí eles me amavam e eu voltava”.

“Na primeira noite já me chamaram pra um evento de boas-vindas. Quando eu entrei no local, era uma banda enorme, com grandes músicos; percussionistas, tinha brasileiro, pelo menos umas cinco cítaras, numa evolução musical que eu nunca tinha tido essa experiência. Um monte de gente dançando, rodando. E, quando eu olho pra um canto, tinha uns três casais fazendo sexo. Daí eu falei, ‘estou no lugar que eu quero’”.

“Estudos de neurocientistas, químicos, psicólogos e terapeutas dizem que a criança até os cinco anos vive num estado típico de quem toma um composto psicodélico. Olha que inacreditável”.

“Eu vejo muitas falhas na própria estrutura da história (no caso de João de Deus). Se os próprios discípulos, as pessoas mais próximas – óbvio que isso já era sabido – permitiam…”

“Em qualquer egrégora, em qualquer mandala, em qualquer igreja, em qualquer ambiente onde tem espiritualidade, o que é esse local? Esse local é um hospital de cura. Não são pessoas plenas, elas estão ali para curarem seus males”.

“Dentro de todas essas estruturas religiosas – e eu abro o leque; sinagogas, templos budistas, mesquitas, terreiros de umbanda e candomblé, em qualquer local onde tem o âmbito sagrado da cosmovisão, tem uma ciumeira danada. E existe essa disputa de poder”.

“Todos os mestres dizem que eles estão aqui para fazer você brilhar. Essa é a função. Só que pode funcionar como um vagalume: a pessoa vê a luz e fica ali batendo naquela luz, esquece sua própria vida.

O mestre não é o fim, é o meio da jornada espiritual. Um facilitador”.

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Perto de completar os 60 anos, Arthur Veríssimo Vieira de Mello Pereira é uma lenda viva. Pelo menos para mim e para a multidão de fãs que o acompanha, seja pelas incursões xamânicas na Amazônia, pelos retiros espirituais no Tibet, pelas peregrinações na Índia.

Pelas reportagens históricas publicadas na revista Trip, ou nas séries televisivas que apresentou, na Discovery por exemplo.

Na verdade, é quase impossível listar a trajetória de realizações notáveis deste amigo que já foi DJ concorrido na noite paulistana, discípulo de Osho, iniciado no poder curativo das drogas psicodélicas.

O Arthur também é um homem culto. Medita diariamente, pratica sua yoga duas vezes por semana, e tem uma das bibliotecas mais interessantes de que tenho notícia.

De resto, e quem o conhece de perto sabe, também é dotado de um senso de humor fantástico.

Bem, isso tudo para dizer que no começo desta semana decidi procurá-lo, por dois motivos. Primeiro, por se tratar este post de uma despedida do ano, pois estou saindo de férias e só volto no começo de 2019. Achei que uma entrevista com o Arthur, fecharia com dignidade e astral os trabalhos de 2018.

Mas então apareceram todas as denúncias de abuso por parte de João de Deus, e achei que o Arthur, que já esteve com o médium, poderia palpitar um pouco a respeito.

E assim, fui recebido em seu apartamento na Pompeia. Arthur me serviu um delicioso chá de roiboos com menta, e juntos queimamos um incenso feito de resina e arbustos tibetanos Juniper.

Me conta da tua jornada espiritual, Arthur.

Nasci em 1959. Minha mãe Zezé Tavares de Oliveira nasceu em Xapuri, no Acre, no coração da floresta, e meu pai Arthur José Viera de Mello Pereira  é de Garanhuns, Pernambuco, de uma família tradicional. Eles se conheceram no Rio de Janeiro. Minha mãe fazia escola de teatro. Meu pai também fez teatro. Ele foi ator, político. Eu nasci no Rio e nos mudamos pra São Paulo.

Nos anos 60 meu pai tinha Rural Willys, Aero Willys – que eram carros possantes, e a gente viajava muito para o nordeste, e ele me levava pra conhecer tribos indígenas. Ele me levou pra conhecer o Gilberto Freyre quando eu era criança. Eu tive essas oportunidades, fui favorecido.

Meu pai tinha uma belíssima biblioteca. As obras brasileiras; tudo do Câmara Cascudo, Sérgio Buarque de Holanda. Além de ter discos incríveis. Quando eu tinha nove, dez anos, meu pai escutava John Coltrane, lia livro do Castañeda. Então, a minha abertura espiritual foi de papai e de mamãe.

Minha mãe vinha com histórias de índio e foi professora de yoga e meu pai era um cara que me facilitou com os livros e os discos dele.

Por onde você andou?

Eu cresci em São Paulo, no bairro de Santo Amaro, Brooklin. Um local com muitos estrangeiros; americanos, alemães, dinamarqueses. Todos ligadíssimos na música dos 60 e 70.

Teve um marco na minha vida quando, aos 16 anos, estava indo a um fliperama e parei numa livraria na rua Joaquim Nabuco. Captei um livro que estava lá, meio de lado, do Bhagwan Shree Rajneesh, o Osho. Tem uma série da Netflix, “Wild Wild Country”, que mostra tudo que aconteceu quando ele implantou essa comuna no Oregon. E eu o conheci com 16, 17 anos.

Daí eu li o livro e ele me pegou, me pegou no âmago, na ancestralidade. “A Semente da Mostarda”, um livro belíssimo dele. O “Tantra – A Suprema Compreensão” dali me amplificou. Quando eu fui ver o endereço de onde teria um centro de meditação, ficava a quatro quarteirões da minha casa.

A partir disso, essa foi a cena que me levou a fazer grupos de terapia do Osho, para desgosto da família. Eu era atleta, tocava piano, bateria. Daí eu entrei nessa história do Osho de corpo e alma. Comecei a andar de roupa vermelha. Foi uma loucura. Meus amigos todos curtindo punk, 1976, 77. Todo mundo de preto ouvindo The Clash, Sex Pistols, e eu apareço todo de vermelho. Foi a grande revolução da minha vida.

Você chegou a viver em comunidade?

Esse centro de meditação era próximo a minha casa. Em uma semana eu já estava lá dentro, já namorava um monte…

Sexo livre…

A gente vem de uma sociedade, instituições familiares, onde tudo é escamoteado, nada é falado, não existe educação sexual. Continua a não ter. Imagina naquela época, anos 70, acontecendo tudo no planeta, a contracultura, Timothy Leary, os livros chegando, eu me informando. O punk de um lado, e do outro essas músicas ambientais, instrumentais; o Kitaro, o Vangelis. Músicas da Índia. O Ravi Shankar. Resgatei os Beatles.

Daí eu fiquei naquela indecisão. Ou eu vou pra esse lado mais dark do punk, ou eu fico com essa atmosfera cósmica, tântrica.

Preferi o tântrico.

Abandonei os estudos – minha família entrou em transe – e fui literalmente morar numa comunidade. Com 19, 20 anos já estava numa comunidade aqui no interior de São Paulo. Viajava para formatar a primeira comunidade do Osho em Visconde de Mauá, no município da Maromba. E daí nos deslocamos para montar a primeira comunidade do Osho em Trancoso, Bahia (risos).

Como você vê hoje, na sua história, essa escolha? Foi bom pra você esse tempo todo de comunidade?

Estou vivo. Vou completar 60 anos. Foi ali que me levou a ser esse legado ambulante de tantas histórias e experiências que tive ao longo da minha vida. Porque a Índia virou um universo, um planeta em que joguei todas as minhas spotlights, as minhas intenções. Naquele momento. Depois eu me desviei também.

Eu voltava pra São Paulo, lógico, pra casa da mãe. Ela me recebia sempre, era o filho outsider. Minha irmã bailarina já era professora de educação física. E nessas comunidades eu vim a descobrir a sonoplastia dos grupos de terapia.

O diretor de teatro Mario Piacentini ( Swami Somesh ) , que era da turma do Zé Celso Martinez, montou uma comunidade no centro daqui de São Paulo, e ele me dava a maior liberdade. Era uma época também de psicodelia, eu tinha meus amigos… como eu disse, era o bairro dos americanos, dinamarqueses, e tinha muito LSD. Então, nesse período eu causava muitos problemas, porque eu levava os ácidos pras pessoas tomarem por lá. E eu fui mandado embora da comunidade do Osho (risos). Mas aí eles me amavam e eu voltava. Ia pra Trancoso, parava em Visconde de Mauá, Brasília. Esse era meu caminho.

E o que você achou do “Wild Wild Country”?

Até escrevi um artigo na revista Galileu, onde conto toda a minha experiência, o que aconteceu por lá. É muito interessante. Eu, como “proto nerd”, desde a minha adolescência clipo jornais, revistas, recorto e guardo a história da cultura psicodélica, da contracultura.

Os dois irmãos que fizeram o documentário tiveram a felicidade de um arquivista ter localizado mais de 500 horas de imagens registradas em diversos formatos. Eles acharam um tesouro.

E é Netflix, né, meu caro. Eles fizeram uma série para ouriçar as mentes e os corações das pessoas. Ali eles não estão tão interessados em ver os discípulos antigos. Não foi mostrado detalhadamente a grande revolução que foram os grupos de terapia. Lá eles mostram porradaria por todo lado.

Ficou mais caricato.

Sim, o recorte é. E a narrativa se prende muito no atentado, na história da Sheela. A Sheela é uma figura, uma pessoa inacreditável. Um personagem, andava armada. Eu me recordo dela, eu tinha 20 anos e estive em Oregon. Eu fui pra Califórnia viver em uma comunidade do Osho, fiquei por lá três meses que se equivalem a trinta anos (risos).

Era muito lunático? A séria dá a entender isso.

Não. Era tudo. Abraçou tudo. Vide a quantidade de livros que foram publicados sobre as palestras do Osho. Ele foi um dos maiores debatedores da História da humanidade naquele período.

Qual seria seu grande legado?

Está aí presente. Ele fez uma desconstrução colocando livros, esclarecendo o que era sufismo, hinduísmo, tantra, numa linguagem mais acessível ele colocava Jesus, Buda , Parvati , os grandes mestres da História da humanidade, como Heráclito, Kabir , Maomé. Falava com muito conteúdo e não sendo fake news. Porque diversos historiadores foram ver de onde vinham aquelas fontes, se eram verdadeiras, e eram.

As pessoas da comunidade eram legais?

Ah, eu era jovem na época. Eu queria era ver moça bonita (risos).

Me conta uma cena pra eu visualizar.

Com 20 anos eu recebi meu nome. Eu sou Swami Amitrup, que significa “beleza infinita”. Eu cheguei em Los Angeles e fui pra essa comunidade. Eu, jovem brasileiro, gado novo (risos).

Quando eu cheguei, não fui pra um alojamento, fui pra um iglu. Sozinho, com conforto. Na primeira noite já me chamaram pra um evento de boas-vindas. Quando eu entrei no local, era uma banda enorme, com grandes músicos; percussionistas, tinha brasileiro, pelo menos umas cinco cítaras; numa evolução musical que eu nunca tinha tido essa experiência. Um monte de gente dançando, rodando. E, quando eu olho pra um canto, tinha uns três casais fazendo sexo. Daí eu falei, “estou no lugar que eu quero”.

Um paulistano, com todos esses hábitos e comportamentos que temos por aqui, chego num local, tudo solto, gente linda, recebendo sorriso de todo lado.

Eu fiquei por lá fazendo grupos de terapia. Fazendo trabalho voluntário. Era demais.

A psicodelia já estava presente?

Já estava bem avançada. Isso foi no início dos anos 80.

Você tem estudado aprofundadamente sobre psicodelia. O que você pensa dela como remédio?

Tem um livro fundamental que eu indico pra todo mundo ler que é esse do Michael Pollan, “Como mudar sua mente”.

Sempre fui obcecado pelo Timothy Leary. E ao longo dessa trajetória eu vim a estudar tudo que aconteceu desde os primeiros experimentos que foram feitos por cientistas.

Quando eu comecei a tomar os LSDs na juventude, amplifiquei o conhecimento assim que chegou na minha mão o livro do Aldous Huxley. Ele pra mim foi um dos primeiros grandes mestres verdadeiros, junto com Jung, Jesus e Buda. Essa literatura me chamou pra entender um pouco mais o que é a história de psicodelia.

Isso tudo começou nos anos 40, 50. O Timothy Leary que amplificou isso pra juventude.

A psicodelia tem a característica de expandir o nosso pensamento?

Expandir e embotar ao mesmo tempo. Acontece uma entropia. Estudos de neurocientistas, químicos, psicólogos e terapeutas dizem que a criança até os cinco anos vive num estado típico de quem toma um composto psicodélico. Olha que inacreditável.

As agências de inteligência americana já faziam trabalhos com o LSD – que foi descoberto pelo grande mestre Albert Hofmann, antes mesmo do Timothy Leary.

Essas coisas são fundamentais você ter na sua memória, pra ter um entendimento do que acontece. O assunto está sendo extremamente bem recebido pela comunidade científica, por fundações, hospitais. A Universidade Johns Hopkins tem trabalhos extremamente avançados com terapias com psilocibina, com LSD. No Rio Grande do Norte, Sidarta Ribeiro, um dos grandes neurocientistas brasileiros, tem feito pesquisas com ayahuasca.

No mundo inteiro tem esse tecido neuronal de pesquisas extremamente avançadas. E já são feitos trabalhos com compostos psicodélicos pra pessoas terminais de câncer e outras doenças; de traumas de guerras e acidentes.

Você dá um reboot. Acontece um renascimento em seus comportamento e hábitos que estão muito sólidos. Tem que desmanchar a montanha de neve, os flocos de neve.

Você conheceu João de Deus?

Conheci. Fiz até uma matéria com ele pra revista Trip. Muitos familiares meus e conhecidos já foram até ele. Os trabalhos dele de mediunidade facilitaram muitas pessoas. Mas agora, são mais  de 200 denúncias de assedio . A situação é calamitosa …

Enquanto guia espiritual, qual a virtude do João de Deus?

Ele curou muitas pessoas. Isso é registrado, fato.

Vários tipos de males?

Sim. Psíquicos. Câncer. Através das cirurgias e dos trabalhos coletivos. De forma geral as cirurgias são invisíveis. O trabalho é puramente energético em camadas que fogem à compreensão. O aspecto principal na operação física é exatamente dar um empurrão no ceticismo e dúvidas de algumas pessoas.

Você chegou a ver?

Eu participei. Existem as salas onde as pessoas ficam meditando juntas. Duzentas pessoas. Eu não sou médium, mas entrei na mediunidade, o grupo me levou pra isso. Há um trabalho de fé muito intenso. Mas agora está tudo esvaziado.

É impressionante isso, né? Um fluxo tão grande…

Eu vejo muitas falhas na própria estrutura da história. Se os próprios discípulos, as pessoas mais próximas – óbvio que isso já era sabido – permitiam…

Isso dialoga um pouco com as estruturas de poder, como vimos em “Wild Wild Country”.

Dentro de todas essas estruturas religiosas – e eu abro o leque; sinagogas, templos budistas, mesquitas, terreiros de umbanda e candomblé, em qualquer local onde tem o âmbito sagrado da cosmovisão, tem uma ciumeira danada. E existe essa disputa de poder.

Eu vejo isso como uma grande derrocada para a espiritualidade num âmbito de magnitude universal. Agora haverá uma perseguição a esse tipo de espiritualidade tradicional que tem aqui no Brasil, e da espiritualidade new age.

Deve ser difícil, quando você descobre a falha do mestre.

A Índia é o berço dos gurus. Há um festival lá que acontece de doze em doze anos – eu vou no próximo, que vai acontecer em fevereiro, chamado Khumba Mela. Reúne de 80 a 100 milhões de pessoas. Numa festa como essa tem por volta de uns 100 mil gurus. 100 mil! Muitos incríveis e muitos picaretas. Virou uma indústria.

Há um mercado muito grande do auto-ajudismo, das palavras pra levantar a autoestima. Isso é um grande negócio. Veja o Deepak Chopra, por exemplo. Ele lançou um livro, foi ao programa de Oprah, as vendas explodiram e ele se transformou nesse ícone. O cara tem uns livros incríveis.

Estamos em um período de Kali Yuga onde, segundo as tradições hinduístas/budistas, há o obscurantismo da religiosidade nas pessoas. Veja como são feitas as traduções dos livros sagrados, a forma como as pessoas interpretam aqueles textos. Basta ligar a televisão e vemos um monte de gente fazendo sua interpretação da Bíblia. Estamos em uma situação em que é necessário um filtro muito profundo. É fundamental, não somente líderes espirituais, mas curadores de inteligência passarem informações legais para a juventude, para as pessoas fundamentadas em hábitos arraigados.

Estamos descobrindo uma nação evangélica no Brasil que talvez seja majoritária. Qual o diálogo espiritual que se estabelece?

Eu tive a experiência de conhecer muitos países, com diversos regimes: democracia light, ditaduras. Vou te dar um exemplo, já estive no Paquistão por mais de cinco vezes. Ali se formou a Al-Qaeda. E eu peguei baladas fortíssimas em Lahore, em Islamabad (risos).

O Bolsonaro foi eleito. E o Brasil tem que se adaptar. As pessoas ficam contra os evangélicos e os neopentecostais. Isso eu falo de uma elite que tem salários altos, de uma cultura maior. Mas eu compreendo porque, como jornalista, eu vou para a periferia e sei o que essas igrejas evangélicas, mesmo as pessoas pagando dízimo, o que elas ajudam a comunidade. Esse é o viés que eu enxergo.

Quando você abre o leque das religiões e vai visitar a tumba de santo Sufi, vai visitar o Monte Kailash, vai numa festa de voodoo no Haiti, quando consegue abrir o arco e sai do preconceito, da sua zona de conforto, fica muito mais fácil de você entender o que é o neopentecostal, o que é um umbandista, o que é um ateu.

Eu vejo um massacre de intelectuais vindo pra cima dos evangélicos, mas, espera aí, você foi lá em campo ver como é a vida? Ainda mais em São Paulo. São Paulo não é uma cidade, é um continente. Então, vá ver como vivem essas pessoas. A gente tem que observar o prisma com o qual você enxerga, sua ótica social.

Eu espero melhorias mesmo. A gente vai passar por um período de lua-de-mel. Não tem como. Eu vejo os empresários, os economistas. E eu digo, eu sou intelectual da contracultura! Não sou a favor, nem contra, mas eu vejo que vai melhorar.

Voltando aos mestres que falham. O Sobel falhou com a situação da gravata…

Vários falharam. Sai Baba falhou, Gandhi falou…

O Gandhi falhou?

Sim. O Gandhi tem uma trajetória conhecida de ser o arauto da não-violência, mas quando ele não era o Gandhi, era um advogado na África do Sul, ele até agrediu a mulher dele. Isso é sabido. Então, é humano.

Quando falamos sobre João de Deus, você falou sobre as pessoas ao redor.

Em qualquer egrégora, em qualquer mandala, em qualquer igreja, em qualquer ambiente onde tem espiritualidade, o que é esse local? Esse local é um hospital de cura. Não são pessoas plenas, elas estão ali para curarem seus males.

Quando um cara faz uma peregrinação, ele faz aquilo para limpar as causas negativas, os carmas negativos dessa vida, de um período. Quando um cara vai pagar uma promessa, carregar uma cruz, dar chibatadas, andar de joelhos, ele cumpre uma promessa de uma infelicidade de saúde ou de algo negativo que ele fez na trajetória de vida dele.

O mestre pode cegar o discípulo.

É uma incandescência, muito brilho. Mas todos os mestres dizem que eles estão aqui para fazer você brilhar. Essa é a função. Só que pode funcionar como um vagalume: a pessoa vê a luz e fica ali batendo naquela luz, esquece sua própria vida.

O mestre não é o fim, é o meio da jornada espiritual. Um facilitador.

Só que se estabelece uma relação de poder…

De amor. Como pai e filho, compreende?

Mas tem uma hierarquia.

Lógico. Vou te dar um exemplo. Com a Amma, que é a guru do abraço, existe toda uma hierarquia de discípulos, ministérios ao redor. Parece que não, mas isso existe. Tem um cara que cuida da saúde, outro da limpeza…

Em qualquer tradição iniciática, toda História aconteceu quando nosso antepassado homo sapiens foi ali, coletou aquele cogumelo e entrou na caverna. Lá ele começou a ver as coisas e a fazer as pinturas rupestres. Foi daí que surgiu a Cultura, a História e a Religião. Foi comendo o cogumelo!