Pergunte ao Bolso
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Pergunte ao Bolso

Morris Kachani

01 de março de 2019 | 14h55

Foto: Cristovão Tezza

– Você tem um filho preferido, Presidente? Por que?

– Não tenho. Pra mim é tudo farinha do mesmo saco. Do mesmo saco, entendeu? Kkkkk! Hoje eu tô demais!

*

Desde que Jair Bolsonaro assumiu a Presidência, o escritor José Roberto Torero (autor de “O Chalaça”, vencedor do prêmio Jabuti de 95, e roteirista de “Pequeno Dicionário Amoroso”, entre outros), vem publicando o Diário do Bolso, espécie de caderno de confidências fictício do líder máximo da Nação.

Escrito em primeira pessoa mesmo, em um tom mordaz de humor, e quase sempre elegante, o diário registra através da ótica presidencial as confusões que não foram poucas nestes dois primeiros meses.

Não é fácil fazer rir quando a realidade parece ultrapassar os limites da ficção. Especialmente para quem não compactua com o status quo bolsonarista. Como diz Torero nesta entrevista, que foi feita por escrito, “talvez seja um riso com uma pitada de desespero”.

Esta entrevista está separada em dois tempos. No primeiro, este blog entrevistou o próprio Bolso. No seguinte, entrevistou Torero. Divirta-se! Ou não.

Em tempo, vale lembrar que o formato de diário fictício tem ótimos antecedentes. Por aqui, a revista piaui publicava o Diário da Dilma, que virou até livro. A inspiração veio de uma coluna sobre a ex-primeira dama francesa Carla Bruni, criada pelo jornal humorístico francês Le Canard Enchaîne.

PRIMEIRO TEMPO

Presidente, eu acho meio absurdo o senhor não ter participado de nenhum debate no segundo turno. Isso deveria ser proibido por lei. Só queria deixar registrado.

Deixe registrado também o seu nome e rg, talkei?

O que sentiu ou pensou quando recebeu a facada?

O meu primeiro pensamento foi: “Ai, que dor!”. O segundo foi “Ah, que bom!”

Se arrepende de algo? Achava que, depois da facada, pudesse ressurgir com um discurso mais brando.

Discurso mais brando? Eu lá tenho cara de frouxo? Se o cara vem com faca, eu vou com metralhadora (de preferência, de Israel, que tem as melhores armas do mundo, consulte nosso catálogo).

A gente fica assustado de ver esse rodízio de gente da milícia nos tempos em que seu filho Flávio era deputado na Alerj.

Isso é preconceito. As pessoas precisam de polícia, não precisam? Todo mundo fala bem da terceirização, não fala? Então, a milícia é a polícia terceirizada, pô. Vamos simplificar isso daí!

Rachadinha com a verba do gabinete é uma prática condenável ou faz parte do jogo?

Rachadinha eu só conheço aquela, tá me entendendo?

Você tem armas em casa?

Claro que tenho. Revólver, fuzil, o escambau. Já tive até canhão. Mas me divorciei. Kkkkkk!

 Você tem um filho preferido? Por que?

Não tenho. Pra mim é tudo farinha do mesmo saco. Do mesmo saco, entendeu? Kkkkk! Hoje eu tô demais!

Como Michelle tem te apoiado?

Ela sabe se fazer de surda como ninguém.

Você vai comentar com sua filha mais nova sobre a “fraquejada”, quando ela crescer?

Não vou conversar com ela sobre essas coisas. Nem a Michelle. E nem a escola. Se tudo der certo, minha filha nunca vai saber o que é sexo.

Saudades do Bebianno? Brigar com gente que jogava no nosso time é ruim…

É ruim. Ele era do meu time da pelada. Um bom médio volante. Meio violento, mas distribuía bem a bola. Mas fazer o quê? Às vezes a gente tem que achar um bode de piranha. Ou será que o certo é dizer boi expiatório? Sei lá. Tanto faz.

Se arrepende de ter nomeado a Damares? E o Vélez? E o Ricardo Salles?

De jeito nenhum. São três gênios da raça! Aprendo muita coisa com eles. A fazer um currículo mais criativo, por exemplo.

E o Ernesto Araujo?

Esse me ensinou que o aquecimento global é um dogma marxista. Você vai ver como esse inverno no Brasil já vai ser mais frio.

Todo mundo tem questões emocionais. Quais são as suas?

Questão emocional? Tá me estranhando, rapaz?

Quanto que o senhor recebe de aposentadoria, afinal? Recebi um vídeo dizendo que recebe cerca de R$ 10 mil por ter se aposentado aos 33 anos do Exército, além dos R$ 27 mil como deputado da Câmara. Você acha justo?

A gente não pode acreditar em todo vídeo que recebe pelo zap-zap. Hoje, por exemplo, eu recebi um que dizia que o limite de idade para aposentadoria de idade tinha que ser 51 anos para mulher e 56 para homem. E era eu mesmo que tava falando. Não dá para acreditar, né?

A propósito, o que acha que deve ser feito com a aposentadoria dos militares, no contexto da reforma da previdência?

Primeiro a gente vê a Previdência dos civis. Depois a dos militares. Kkkkk! O quê? Por que que eu ri? É que eu me lembrei dos meus tempos de criança lá em Eldorado. Sempre que o pessoal fazia troca-troca no mato, eu falava “Primeiro você, depois eu”. E tinha uns que acreditavam.

Você curte o Rodrigo Maia?

É meu chapa. Estamos fazendo xixi cruzado.

O que você está gostando e o que está detestando em ser presidente?

O que eu mais gosto é da faixa presidencial. Em casa não tiro nem em dia de churrasco. E o que eu mais detesto é reunião. É um saco ter que escutar cada ministro falar e fingir que entendi tudo. Ainda bem que tem o celular. Aí eu dou umas tuitadas pra distrair.

Mais de um terço da população votou em você. Outro terço no Haddad, e o outro ainda, em branco ou nulo. Dá para governar para todo mundo?

Eu vou governar todo mundo, mas não pra todo mundo.

O que pretende trazer dos Estados Unidos, depois que visitar o Trump?

Uma selfie de nós dois para botar na cabeceira. E, se ele deixar, uma mecha do cabelo.

O que costuma fazer nas horas vagas?

Não tenho horas vagas. Estou sempre no celular.

Qual o seu recado para palmeirenses e judeus que não votaram em você?

Pô, pessoal, em 2022, votem em mim. Nós somos do mesmo time. E se precisar cortar a pontinha do Bolsonarinho, eu corto, pô.

Como o senhor se preparou para ser nosso presidente?

Não dizem que o Brasil é um poço sem fundo? Então, quem pode estar mais treinado que um paraquedista?

O blog se chama Inconsciente Coletivo. Qual seria o inconsciente coletivo do brasileiro de hoje?

Não entendo muito dessa coisa de inconsciente coletivo, não. Meu negócio é mais o coletivo inconsciente.

Qual é seu sonho?

Olha, eu prefiro o de creme. Mas o de goiabada também é bom.

Presidente, por que desautorizou o seu ministro Sergio Moro na nomeação da Ilona Szabó como membro suplente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária?

Bom, Morris (você é parente do Chuck?), foram vários motivos. O primeiro é que ninguém ia saber falar o nome dela. O segundo é que ela não orna com o resto do grupo. Pensa ela do lado da Damares? Do lado do Mourão? Destoa. E a terceira é que ela é meio desarmamentista. Aí não dá! Como é que eu fico com o Eduardo, com o Flavio, com o Onyx, com a Taurus? Sabe, essa moça é cheia de mimimi, daquele tipo que no tiro ao alvo tem pena do alvo.

(Não tenho parentesco com o Chuck. Até curto ele kkkk, mas a minha ancestralidade é persa, sírio-libanesa e judaica. E brasileira)

SEGUNDO TEMPO

 Por que o Diário do Bolso? Como chegou a esta ideia?

Eu queria fazer alguma coisa que me desse a ilusão de estar participando da discussão política. Mas não achava o que seria essa coisa. Então, no dia primeiro de janeiro, estava lendo o Rascunho, um jornal literário, e a reportagem de capa era sobre “diários”. Daí veio a ideia de escrever um diário do Bolsonaro.

Com que frequência vai ao ar? Onde é postado?

É postado na página @DiariodoBolso, no Facebook, no Instagram (jrtorero) e em alguns sites. Mas o Diário não é diário. Na verdade, era para ser semanal, mas o governo se meteu em tantas polêmicas e tem personagens tão caricatos (o ministro que não estudou em Yale, a ministra que não é mestra, o ministro que pegou dinheiro do fundo partidário, o filho que tuíta, o filho que gosta de milicianos, os laranjas etc…) que precisei aumentar a frequência. Em 58 dias de governo fiz 32 textos.

Já está com um público formado?

A página tem 7,6 mil seguidores. E ganha mais uns 600 por semana.

 Qual é a audiência? E qual seria o perfil do seu público?

O público é formado principalmente por antibolsonaristas que sentem certo alívio em poder rir do horror. Mas de vez em quando aparece um ou outro fã do capitão.

Alguns textos chegam a ter mais de mil compartilhamentos. Só para comparar, antes escrevi uma série de cem textos sobre bibliotecas inventadas (@asbibliotecasfantásticas) e eles tinham em média vinte compartilhamentos.

Houve retaliações, ameaças? Chegou a sentir medo? 

Houve um ou outro palavrão de leitores, mas nada além disso. Acho que o humor consegue uma espécie de salvo conduto.

Alguma reação por parte do governo?

Nenhuma. O que me parece muito esperto. Acho que políticos e religiosos já perceberam que reprimir chama a atenção para o reprimido.

Parece que foi censurado pelo Facebook, em determinada situação. Se puder contar o que ocorreu, e qual sua impressão da plataforma, ótimo.

Três textos foram censurados. Segundo o Facebook, a partir do pedido de leitores. Mas o tiro saiu pela culatra. A censura chamou atenção para a página e três sites (Jornalistas Livres, Carta Maior e Rede Brasil Atual) se ofereceram para publicar os textos censurados e todos os seguintes. A página ganhou uns 1.500 seguidores só naquela semana.

Não foi surpresa que alguns leitores tentassem tirar o texto do ar. Mas não esperava que o Facebook aceitasse o papel de censor político. O pior é que não foi explicado qual o exato motivo, a frase ou a ideia que gerou a censura.

Alguém me disse que está difícil de fazer humor, porque a realidade deste governo por si já é risível. A risada no caso seria um ato de desespero? De protesto? Das duas coisas? Esta semana vai estrear um documentário chamado “Tá rindo de que?”, sobre humor na ditadura. O Henfil aparece dizendo que “o principal do humor é dar um cacete nas pessoas”.

– O comentário mais comum dos leitores da página é “estou rindo para não chorar”. Talvez seja um riso com uma pitada de desespero. E acho que o humor realmente serve para dar um cacete no cassetete. Mas não sei se isso adianta alguma coisa.

Politicamente, como você se define?

Groucho-marxista. A piada é velha, mas estamos num período retrô.

Que leitura faz sobre a história política recente do Brasil?

Acho que, aos trancos e barrancos, vínhamos caminhando bem desde FHC. Não tão bem quanto poderíamos e deveríamos, mas naquele passo de bêbado que quase cai mas segue em frente. Então veio o golpe parlamentar e o bêbado caiu no meio da rua. Agora parece que um carro está vindo em alta velocidade.

O que pensa sobre quem votou no Bolsonaro?

Acho que há os inocentes e os indecentes. Os inocentes votaram porque acreditavam que ele traria alguma mudança para o país. Os indecentes porque achavam que não.

O Brasil é um país conservador? 

Muito. Mas os conservadores estavam em conserva. Agora as latas foram abertas (e algumas com prazo de validade vencido).

Você mesmo, chegou a romper relações com alguém de seu círculo?

Sim, com alguns. Bolsonaro foi um filtro muito eficiente.

Existe um diálogo possível com um governo como esse?

Teria que existir, porque governar é buscar consensos, acordos, pactos. Mas o governo não parece muito à vontade nesse processo. Ele não conversa antes de fazer as coisas. O que ele faz é voltar atrás quando há uma grita. Mas, antes, não conversa. E isso é uma pena. Na verdade, o capitão nunca capitaneou. Nem um estado, uma cidade, um partido, um edifício. E isso atrapalha um bocado. Deixa o governo um tanto amador.

O que enxerga de bom neste governo?

Bem…, deixa eu ver…, tenho que pensar um pouco… Ah, já sei! Parece que o Mourão fala inglês.

Você torce por este governo?

Não. Claro que eu não quero que haja um caos econômico, mas, se este governo fizer o que quer, daqui a quatro anos as universidades serão mais elitistas, a aposentadoria será uma piada (de humor negro), a polícia matará mais, as milícias terão se espalhado, o Brasil se isolará da América Latina, as mulheres vestirão rosa, os gays terão menos liberdade, os índios e quilombolas terão menos terras, comeremos mais agrotóxicos e a corrupção não será combatida, mas escondida.

Como fazer oposição a ele sem reviver o pesadelo da polarização?

Acho que, como diria Roberto Carlos, “daqui pra frente tudo vai ser diferente”. A oposição será em relação a fatos e projetos, não a discursos. O debate será sobre coisas palpáveis como: O Queiroz será preso? A reforma da Previdência vai me ferrar? Vão investigar mesmo o filho do presidente? Essa liberação das armas foi boa para a população ou só para as milícias? O desemprego vai aumentar ou diminuir?

Por conta disso, penso que o antipetismo, um dos motivos da eleição de Bolsonaro, terá bem menos importância. E aí a polarização não fará muito sentido.

Qual o destino da classe artística nestas circunstâncias?

Vi uma boa charge hoje do André Dahmer: um personagem dizia “O governo está mandando os artistas à merda” e o outro falava “Todo artista tem que ir aonde o povo está.”

Me parece que a língua portuguesa tem apanhado bastante, com os discursos e textos de whats app de nossos mandatários. 

A língua está em constante reinvenção. Ou, no caso, reinvensão.

 

 

 

 

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.