Por dentro da ocupação 9 de Julho

Por dentro da ocupação 9 de Julho

Morris Kachani

11 Setembro 2018 | 16h29

“Quem não luta, está morto”

Foto divulgação Era o Hotel Cambridge

No domingo retrasado, antes do Museu Nacional ruir, visitei a Ocupação 9 de Julho, no centro da cidade. Este lugar que de alguma forma, se tornou icônico. São 131 famílias morando no prédio que já sediou o INSS, mas estava inativo havia mais de 3 décadas.

Depois que o edifício Wilton Paes Leme desabou, em maio, as ocupações do Centro se tornaram alvo de desconfiança geral. E não sem razão. Muitas delas, de fato, são precárias, exploram os moradores, e são controladas por criminosos.

A 9 de Julho parece mais organizada. Os corredores e pátios estão sempre limpos e asseados. As instalações elétricas, externas, embora não tenham sido vistoriadas pela Eletropaulo, estão um nível acima das gambiarras.

Há um bazar de roupas. Uma biblioteca comunitária. Uma brinquedoteca. Uma marcenaria. Um espaço para exposições, com direito a obra do artista Nelson Xavier, pela Bienal. Maria Gadú, Luedji Luna, Edgard Scandurra, Ana Cañas, Criolo, já se apresentaram por lá.

Mas o que chamou mesmo a atenção, foi a sequência de cartazes no hall de entrada. Especialmente o último deles, onde se lia: “Quem não luta, está morto”. Seria este um grito de resistência? Dizendo respeito a quem não tem teto ou a qualquer cidadão brasileiro? Ou ainda, a qualquer cidadão global, independentemente de raça ou credo, para não dizer classe social? Enfim, seria esta a palavra de ordem de nossos tempos?

A ocupação ocorreu em 2016. O MSTC (Movimento Sem Teto do Centro) tem 18 anos de vida, somando 5 mil pessoas distribuídas em 11 ocupações.

Existe um aspecto peculiar nestas ocupações: a maioria delas são coordenadas por mulheres. Paga-se uma mensalidade de 200 reais para se morar nelas, presumivelmente como uma espécie de condomínio, pela manutenção de extintores, limpeza, água, segurança etc

É a baiana Carmen Silva, 57 anos, mãe de 8 filhos, vencedora do prêmio APCA de 2017 (categoria apropriação urbana), e que interpretou a si mesma no excelente filme “Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé, que lidera o movimento.

Carmen também responde a um processo por extorsão, por supostamente exigir pagamentos dos moradores sob pena de expulsão à força para quem não pudesse arcar com os valores. A sentença está para sair.

Com Thaís Roque

Eu pensei em começar a entrevista com uma frase que me impressionou bastante e que achei simbólica: “quem não luta, está morto”.

O significado dela é que o direito sem ação, é morto. A fé sem ação não produz nada. Não adianta gritar que temos direito e não agir. Nós temos que ter a ação de pedir, a reação de reivindicar, lutar no fórum. Tem várias formas de ação, só não pode ficar parado. Quem não luta está morto.

Isso é uma coisa do Brasil de hoje? Me fala um pouco desse Brasil.

É um Brasil que assusta. Os movimentos sociais não podem mais reivindicar políticas públicas, porque elas já estão na Constituição, são direito básico. Mas falta vontade política de se executar, de fato, o direito do cidadão.

Qual a sua visão política sobre o Brasil?
A de que estamos a mercê de governantes que estão governando para o seu próprio clero, e não para uma nação.

Vamos falar da instância federal, de um Congresso que vive de acordos. Poucos estão desempenhando o seu papel de agente público. Um STF que não tem parâmetros de justiça, que aceita punir cidadãos de menor renda e deixa as grandes riquezas impunes. Os grandes burlam a lei e nós, por qualquer ato, somos tachados de criminosos, somos presos.

Um Brasil desigual, extremamente desigual. Não precisa ser de um movimento social radical para se ver que é notória a desigualdade desse país.

É um Brasil totalmente desconexo, onde o cidadão pertencente aos 70% da base da pirâmide não se conscientizou da força que o coletivo tem. Uma força de se trabalhar em rede, de respeitar, cumprir com o dever.

Temos um país com uma comunicação que desinforma. Nós não investimos em educação. Há um grande incentivo a consumir, mas não a educar.

Como é esta pirâmide?

Vamos imaginar uma pirâmide no Brasil. Temos 1% composto de uma casta que possui as riquezas do país; 29% de uma classe que pode se considerar média alta; e temos os 70% que vêm de uma classe média baixa, até os trabalhadores de menor renda.

E o que esses 70% estão achando das coisas?

Pensamos na nossa falta, na nossa retirada de direitos. A gente tem que votar em programas de governo que realmente tenham um lado social. Eu não prego um país totalmente nacionalista, mas um país que preze as suas riquezas naturais e que com isso transforme e promova a igualdade.

Você acha que está faltando manifestação?

Você só pode reivindicar quando participa. Não adianta ir pra rua com uma bandeira por farra. Temos que ir com objetivos claros e sabendo que todo direito vem constituído de dever. Para ser uma cidadã plena – e é isso que o movimento da moradia prega – eu tenho que participar da vida política, de audiências públicas na Câmara Municipal. Como eu posso xingar um vereador se eu não sei o que ele faz? Se eu não sei quais projetos ele apresentou? Como eu posso participar de uma revisão de plano diretor se eu nem sei pra que serve um plano diretor?

A vida do povo piorou muito?

Nesses últimos dois anos eu posso te dizer que sim. Qual a perspectiva de um trabalhador? Trabalhar, trabalhar, trabalhar… com uma previdência falida. Como eu vou ter o sonho de dizer que um dia eu vou me aposentar? Então eu tenho que trabalhar até morrer.

Como pode pensar um trabalhador de baixa renda num país sem incentivo a educação, que não tem memória, não guarda sua história?

Como eu posso acreditar num país que retira recursos da educação, de pesquisa de faculdade? Que não incentiva o filho do trabalhador? Que cria operários em vez de doutores?

Como anda a moral do povo?

Agora está caindo a ficha. Um país onde você morre esperando por cirurgia. Como podemos pensar que o país melhorou? Como podemos ficar a mercê de uma greve de caminhoneiros? E não vimos baixar nada; se baixou o óleo diesel, o gás de cozinha aumentou.

As pessoas estão passando fome?

Não diria fome. Mas alguns deixaram de ter fartura na mesa, sim. Porque está duro, principalmente pra quem paga aluguel. Quando eu pago meu aluguel em dia, deixo de fazer minha feira.

Aí que entram as ocupações.

Aí que entram os movimentos que lutam por moradia, por programas habitacionais definitivos. A ocupação é a maior forma de luta que o movimento de moradia tem.

Nós ocupamos por dois motivos: primeiro pela necessidade; depois, para denunciar o vazio urbano e a especulação imobiliária. É impossível se comprar uma casa. Se, quem ganha dez salários mínimos, pra financiar uma casa tem que ter R$100 mil de poupança; imagine um trabalhador que nunca conseguiu juntar nem R$ 5 mil, como vai financiar uma casa?

E digo mais, nós não queremos morar em glebas que viram exílios. Nós queremos morar em áreas urbanizadas onde nós não degradamos o meio ambiente, não acabamos com as represas, onde tenha coleta seletiva e, acima de tudo, mobilidade. Porque mobilidade não é carro, não é bicicleta, não é ônibus. Mobilidade é acesso. É acesso a um posto de saúde, é acesso a uma faculdade, a um filho na creche, a uma escola decente, uma calçada decente.

Essa coisa de “quem não luta está morto” é uma coisa do Brasil ou uma coisa da vida?

Uma coisa da vida. Se você for pegar o mundo como está, com esse trâmite grande de refugiados correndo pra lá e pra cá, você vê que é uma coisa do mundo.

Eu tenho a impressão de que a classe média também está tendo que lutar.

Ela tem que lutar pra se manter, né. Nós aqui já estamos acostumados com uma vida de regramentos. Eles têm que manter a escola particular, o plano de saúde. Hoje mesmo ouvi uma senhora que ganha bem de aposentadoria falando sobre como o plano dela subiu pra R$3.800. Agora, imagina o pobre de um trabalhador que ganha um salário mínimo, como pode pensar em dar um plano de saúde para o filho?

E as pessoas ficam como? Revoltadas? Passivas?

As pessoas estão cautelosas e um pouco amedrontadas.

Uma pessoa de classe média que hoje está vivendo essa crise, às vezes até com dificuldade de pagar seu condomínio – porque condomínio é um aluguel eterno – ela, por falta de nos conhecer, jamais vai procurar o movimento. Por paradigmas, por mitos, porque a mídia oficial faz um paradigma de falta de conhecimento.

Veja como você mudou o seu pensar. Você já tinha entrado numa ocupação antes?

Não.

Quando você entrou, não se deparou com as mesmas pessoas que trabalham pra classe média?

Sim.

Aqui tem a manicure, tem o motorista, o segurança, a babá, a cuidadora, a enfermeira. Nossa única diferença é que cansamos de viver esse estigma de classes. Cansamos de depender de um sistema que procura nos separar. Um sistema capitalista que inclui na vida das pessoas a ideia de que pra elas serem reconhecidas como seres humanos, têm que ter uma certa posição, frequentar um certo lugar.

Isso não dá. Somos todos iguais. Nós temos que ter um conceito de humanidade, não de classes.

Tem uma coisa dos 70% trabalhando para os 30%, não?

Não necessariamente os 70% trabalham para os 30%.

E, aos 29% que querem ascender para os 1%, ainda não caiu a ficha: eles podem cair para os 70%.

O que é viver em São Paulo?

Sou de origem baiana, quando cheguei aqui tive um choque de cultura muito grande. Hoje falo que sou uma cidadã paulistana porque participo ativamente da vida geopolítica da cidade. Não somente usufruindo dos benefícios que São Paulo me traz, mas dando minha colaboração para uma São Paulo melhor.

São Paulo é uma Babilônia que tem várias nações. É preciso aprender a viver aqui.

O que é morar na rua?

Acho que morar na rua às vezes é uma escolha e outras, necessidade, falta de acesso. Precisamos da política de acesso, de escuta. Por que esse cidadão caiu na rua? Tudo tem uma causa.

Quais as feridas desses 70%?

Desemprego. Falta de saúde, moradia, orientação, acesso a vários setores. Por exemplo, a maioria desses 70% nunca pôs o pé em um cinema, nunca foi a um teatro.

Quantas pessoas estavam no domingo brigando no Facebook por política, enquanto perdíamos parte da nossa história com o incêndio do museu?

Até brinquei com a minha filha sobre o boato da Lei Áurea ter sido queimada (não foi; o documento está no Arquivo Nacional). Voltamos à escravidão, não podemos provar mais que fomos libertos.

Você acha que voltamos à escravidão?

Não do mesmo jeito. Nossas correntes são invisíveis. Além da total falta de planejamento. Libertaram os escravos e mandaram eles irem embora sem um trabalho, sem uma terra, sem uma comida.

Hoje somos escravos de trabalhar muito e ganhar pouco, de ficar doente e não poder ir ao médico, de querer manter seu filho na escola, mas ele ter que ir trabalhar.

A senhora teve oito filhos. Como vê a questão do planejamento familiar?

Eu tive meus oito filhos há 38 anos. Hoje estou com 57. Eu amo meus filhos, mas não gostei de ser mãe naquela época.

Eu saí de casa porque me sentia muito oprimida. Sou filha de militar, não podia nem sair com minhas amigas; pensei que o casamento seria a solução.

Aquela expectativa que eu tinha de ser uma Carmen livre, que eu ia estudar, que eu ia ser uma doutora, foi morrendo, e eu fui me condicionando ao machismo, da mulher que não é criada pra ser uma profissional, mas sim para parir e tomar conta de casa. A gente casa pensando que vai se libertar da opressão do pai, mas tudo se repete.

Eu nasci na Bahia, que é um Estado completamente sexista, preconceituoso, que reproduz o coronelismo.

Aí eu tomei coragem e saí. Vim pra São Paulo. Deixei meus oito filhos e vim.

Essa questão do planejamento familiar tem que ser mais chamativa, porque, mesmo hoje ainda tem muita gente tendo muitos filhos, principalmente no Nordeste. Mas não para ganhar Bolsa Família, viu? Isso é mito.

Como funciona o MSTC?

Nosso estatuto foi registrado no ano 2000, então temos 18 anos. Organizamos trabalhadores de menor renda e não somente as ocupações, temos também grupos de formação. Nesses grupos discutimos direitos e deveres e temos um estatuto bem claro. A gente não exclui ninguém, a não ser quem se auto-exclui.

Atualmente somos em quase 5000. Temos 11 ocupações.

As ocupações são todas em São Paulo, no centro, zona leste e zona sul; e grupos de base em toda São Paulo.

Tem alguma ligação com o MTST?

A nossa ligação acontece na hora que vamos fazer a discussão sobre a cidade. Mas cada um tem sua autonomia.

E politicamente?

Discutimos muito política, porque discutimos sobre programas de governo, conscientizamos, mas não incutimos a pessoa em quem votar. Mas, lógico, apoiamos candidatos que apoiam nossos projetos.

E quem vocês estão apoiando?

Nós apoiamos candidatos do PT. Eu apoio o candidato que o Lula indicar. Eu apoio o Suplicy. E quanto a deputados estaduais e federais eu também tenho a minha preferência. Mas o MSTC, como eu falei, recebe a todos, independente de partido, porque o que discutimos é conjuntura.

O Lula estava com 39%…

Eu não gosto do lulismo. Eu apoio uma ideia, um programa, um estatuto. Um estatuto que faça programas que incluam o trabalhador.

Não existe uma auto-crítica votar no PT?

Claro. Se nós não fizermos uma análise onde a gente reconheça os erros, como a gente pode melhorar? Existe o erro, sim. Mas que outro partido que pensa incluir a todos? Qual outro partido que fez um programa direcionado ao trabalhador de menor renda?

O povo está com o Lula?

Nem todos. A maioria está com ele. Mas não com o Lula, e sim com a representação do que é o Lula. Mas há também outras preferências.

Existem pessoas que aceitam e apoiam o Bolsonaro?

Olha, nas ocupações é difícil, porque a gente discute muito essa questão de conjuntura política, em cima de programa de governo. São pessoas que que pretendem estudar, ter filhos na faculdade, valorizam programas sociais… As declarações de Bolsonaro sobre negro, nordestino, tratar mulher daquela forma – ele pode até estar fazendo tipo, mas com a gente não cola.

Que achou da facada?

Não apoio. Mas você vê que o perfil do agressor é de maluco mesmo. É o que Bolsonaro plantou. Imagina se ele governasse o Brasil. Não ia sobreviver, ia tomar tiro de metralhadora. Ele está fomentando ódio.

Acha que as pessoas estão mais conscientes politicamente?

Uma parte. Se o povo estivesse completamente consciente, cobraria mais. Não daria voto para candidato que quer usar de cargo político como uma escada para ascender para outros cargos e abandonar o posto para o qual ele foi eleito.

Aqui no MSTC tem mais mulheres na coordenação?

A maioria. Também temos homens e não posso tirar o mérito deles. Mas a maioria das ocupações tem mulheres à frente.

É melhor com mulheres à frente?

Mulheres são mais sensíveis, cautelosas, observadoras. Na hora de tomar alguma decisão, e são decisões que mexem com a vida das pessoas, as mulheres observam melhor para não cometer nenhuma injustiça. Homens são mais eloquentes, com temperatura mais elevada

E drogas, crime?

Nós temos uma característica bem firme nas ocupações – a gente não aceita drogas e bebidas.

Que dizer sobre o empoderamento da mulher?

As mulheres estão sempre desempenhando uma função dupla: trabalham, têm filhos, cuidam da casa, de todo seu clero, sua família; mas não há leis que garantam igualdade de salário.

Você ganhou o prêmio APCA, em 2017.

Anteriormente à 9 de julho, nós tivemos a ocupação Cambridge, onde ganhamos o APCA de Arquitetura, que é um prêmio de apropriação urbana por conta da residência artística, residência arquitetônica, o convívio com os estrangeiros, os refugiados, sempre respeitando o espaço e a cultura do outro.

Com a 9 de julho ficou melhor ainda. Nós vimos que podemos nos unir nas diferenças. Aqui dentro temos coletivos de cultura, coletivos de mídia. Temos cursinho pré-vestibular. Temos médicos. Vários festivais e artistas apoiadores, como a Maria Gadú, a Ana Cañas, o Criolo.

Qual o status da ocupação do MSTC no Cambridge?

Assinamos contrato de reforma, para o canteiro de obras ser implantado. O prédio está esvaziado.

Como foi contornada a situação com as famílias que não queriam sair?

Serão 121 famílias agraciadas depois da reforma, e 5 que não queriam sair. Senti muito por entrar com uma emissão de posse, para que saíssem. Estas famílias não iam passar pelo trâmite burocrático com a Caixa, que está financiando o projeto.

Por que?

Era gente que morava sem procurar trabalhar. Queriam morar de graça a vida inteira.

Pela primeira vez o movimento entrou com uma emissão de posse. Como foi vivido por você este processo?

A Justiça é engraçada, quer condenar os líderes do movimento, e quando queremos o correto, ela diz que não reconhece o movimento como instituição.

Nós temos a titularidade como gestores e administradores, nós temos uma escritura.

Fizemos a emissão para mostrar que andamos na legalidade. Nos não tememos a Justiça, andamos lado a lado com o Estado.

A ocupação 9 de julho tem o mesmo perfil das ocupações em geral ou não dá pra saber?

Não dá pra saber, cada movimento tem sua autonomia. Existem vários perfis de gerenciamento de ocupações, infelizmente.

Nós que coordenamos o MSTC conversamos muito sobre abrir nossas portas para que possamos entender a todos. E são sempre bem-vindos aqueles que querem colaborar.

E essa fala sobre ter bandidos nas ocupações, ou as condições serem precárias?

Não vou dizer que todo mundo é 100%, porque o ser humano é falho, né. Mas o movimento atua com ressocialização. Esse é o nosso papel, ressocializar e devolver ao Estado um cidadão pleno. Nosso papel é dizer ao Estado que estamos aqui, somos cidadãos com todos os documentos. Temos pessoas ensinando, preparando essas outras para financiar uma casa ou entrar em algum programa do governo.

Se você fosse fazer uma visão geral sobre as ocupações de São Paulo, qual seria?

Nós temos duas gamas de prédios ocupados e dois tipos de movimento: movimentos organizados que participam junto ao poder público e aos seus conselhos, como o municipal de educação, desenvolvimento urbano, e que é habilitado pelo ministério da cidade; e tem aqueles que ocupam com outras intenções. Mas cada qual tem sua autonomia.

A polícia ajuda ou atrapalha?

Quando nós estamos ocupando, ela vem com aquele papel de não permitir. Alguém sempre chama. Eu acho engraçado que ninguém chama quando alguém está assaltando, mas sim quando entramos em uma propriedade totalmente fora da lei, abandonada há anos, cheia de mato, cheia de lixo; ninguém diz que aquele proprietário é que está ilegal e chama a polícia para ele limpar o lugar.

Como se inicia uma ocupação? Quem decide?

Nós temos direção, então temos todas as discussões, é democrático. Quando tomamos a decisão de ocupar, tem todo um contexto onde a gente se reúne, discute, perguntamos quem está de acordo, é democrático e coletivo.

E quando olhamos onde vamos entrar é sempre em um grande devedor de impostos, prédios abandonados, nunca em um prédio recém-feito.

De quanto é a taxa que as pessoas pagam?

R$200. Todo devolvido em serviços. É para as obras, para a manutenção dos escritórios, do administrativo. A gente tem pessoas qualificadas para atender as pessoas.

Esse dinheiro paga advogado, paga contador, porque somos um movimento social institucionalizado. Temos imposto em dia. Todos os ônus de um CNPJ.

Está tudo bem com a parte elétrica?

Graças a Deus. Passamos por vistoria. A parte elétrica não é regular, porque a Eletropaulo não nos permite. Mas quanto às instalações, quem as faz são profissionais, não temos amadores. Nossa elétrica é toda dentro do padrão.

A estrutura é feita por fora do prédio e tem todo o cabeamento novo. É uma estratégia, porque além de mais barato, facilita a manutenção, a identificação de problemas.

Alguma consideração final?

Que as pessoas ao lerem esse blog tomem consciência que nós não somos à parte do Estado. Nós estamos dentro do mesmo Estado. Só que temos uma forma de dizer a ele o quanto ele erra com o seu cidadão. Falta articulação, por isso que o movimento MSTC convida a todos, sejam todos bem-vindos.